O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 23 de 23

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O Campeonato

Capítulo 23

 

Me levantei da poltrona e cheguei bem perto de Santiago. Não tinha medo de levar porrada dos gorilas, agora pouca coisa tinha importância, já estava mesmo na pior. Encostei o dedo na cara dele e disse:

“Sabe por que o Augusto não me matou? Porque é um cara digno! Sabe o que é isso, palhaço? Augusto preferiu perder uma fortuna, preferiu dar o fora dessa porra desse campeonato a matar o irmão dele! Você seria capaz disso, seria? Meu irmão é um sujeito bom, entendeu, é um cara de bem, entendeu, um cara bacana!”

O Gordo me trouxe de volta ao meu lugar. Eu suava, e sentia falta de ar. Lívia me deu um copo d’água.

“É uma hipótese plausível, sem dúvida”, Santiago falou.

“Não é uma hipótese, é a verdade”, o Gordo disse.

“Verdade, verdade... não é possível que você continue insistindo nessa palavra, meu caro.”

“Eu sei muito bem do que estou falando, e se digo que tudo o que André acaba de dizer é verdade é porque eu sei que é, e você também.”

Segurei a mão do Gordo, agradecido.

“Bom, o que eu acho não importa. O importante é que Montenegro acertou. Ele e Augusto fizeram faculdade juntos, eram companheiros inseparáveis, uma relação de mais de trinta anos. Montenegro conhecia Augusto muito bem e sabia qual era o seu ponto fraco: a família.”

Fui ficando calmo novamente, pelo menos aquele crápula do Santiago não teria tratado meus pais com desrespeito, ainda que fosse pelo fato de saber que seu patrão o esfolaria se soubesse que ele fez isso.

“Com a morte dos pais, a família do Augusto passou a ser o irmão. Mesmo a esposa e os filhos não importavam tanto, eram puro disfarce, como Rosália, e como a esposa de Montenegro. Só o André realmente importava. Sabendo disso, Montenegro previu que, se colocasse Augusto entre a fidelidade ao campeonato e a vida do André, ele iria preferir a segunda opção.”

“E o Montenegro ficaria sozinho”, Lívia disse.

“Lógico. Percebam como o plano era perfeito. Augusto teria apenas duas opções: matar André, provando, assim, seu envolvimento irrestrito com o campeonato e, portanto, com os apostadores, ou ajudar André a fugir e, então, renunciar definitivamente ao campeonato. Caso Augusto escolhesse a segunda opção, como escolheu, Montenegro passaria a ser, sozinho, o administrador de um verdadeiro império. E caso Augusto decidisse matar André, Montenegro também marcaria ponto, pois deixaria claro que Augusto não era suficientemente confiável como líder, já que o próprio irmão, um garoto de vinte e poucos anos, podia enganá-lo.”

Fiquei em silêncio, tentando raciocinar com lucidez. Não estava em condições de retrucar coisa alguma, ou mesmo de formular alguma pergunta, tentava apenas entender e esperava que o Gordo agisse por nós dois. Foi o que ele fez.

“Resumindo”, o Gordo disse, “Montenegro usou André e, por tabela, também me usou, para destruir Augusto. Contratou Kate, a falsa namoradinha do falso filho sequestrado, contratou Mariana, a falsa detetive, e Rosália, a verdadeira mulher do Murilo Chaves, mas uma falsa por natureza. Deu a André muito dinheiro e prometeu mais ainda quando o caso estivesse concluído, pressionou, ameaçou, até conseguir que ele participasse do campeonato.”

“Correto.”

“Mas tem um probleminha aí. Você diz que Montenegro já tinha em mente a participação do André, como apostador, na final do campeonato, mas isso só foi possível com o assassinato do Murilo Chaves e a fuga do assassino, Renato. Se o tal de Renato não aparecesse na história, como o Montenegro faria pra colocar André lá dentro?”

“Não seria tão difícil assim, há várias formas de fazer isso, se você é um dos líderes. E Montenegro contava ainda, é claro, com a ajuda de Mariana.”

Minha vontade era dar uma porrada no meio dos cornos daquele infeliz, mas me contive.

“Seu plano”, Santiago prosseguiu, “era que André se envolvesse com Mariana, que o levaria a Rosália, que lhe diria tudo sobre o campeonato. Desse modo, André iria aos poucos tendo conhecimento de tudo e, como um rapaz honesto que é, não hesitaria em participar da final com o objetivo de salvar um menino de quinze anos. Caso hesitasse, Montenegro o ameaçaria com a força, como fez, mas só depois que André já estivesse completamente envolvido no caso. E tem mais...”

O safado estava gostando daquilo. Estava ferrado, ele e o meu irmão tinham entrado numa bela de uma canoa furada, mas o coroa ali à minha frente não dava o braço a torcer, falava como se fosse o dono do mundo, era o senhor absoluto, com dois seguranças do lado, um garçom lhe servindo o que quisesse e três merdinhas ouvindo suas besteiras.

“Um motivo complementar, eu diria, mas nem por isso de menor valor. Montenegro é um leitor de romances policiais. E não apenas ele, Augusto e Murilo Chaves também, quer dizer, Murilo Chaves era.”

E ainda mais essa. Eu não tinha me tocado de que, se o Augusto era um dos líderes, e os três começaram tudo aquilo a partir da leitura do conto do Rubem Fonseca, então o meu irmão gostava, ou pelo menos já tinha gostado muito, dos mesmos livros que eu!

Era duro ter que admitir, mas tudo indicava que era verdade: o puto moralista, o falso do meu irmão, lia escondido.

 

***

 

“Melhor dizendo, Montenegro era um pouco mais que um leitor aficcionado por narrativa policial. Sua fixação por esse tipo de literatura era quase um vício.”

Ele olhou para mim e completou:

“Acho que você compreende o que estou dizendo.”

Fiquei calado.

Ele prosseguiu:

“Montenegro sentia um prazer especial em elaborar planos intrincados, como esse que acabo de revelar a vocês. Foi a forma que ele encontrou de exercitar sua verve de romancista, de passar de leitor a escritor de romances policiais. Murilo e Augusto teriam resolvido o problema de forma mais simples. Mas Montenegro não, sempre escolheu caminhos tortuosos, labirínticos, gostava desse jogo, um jogo intelectual, digamos.”

“E nós funcionamos como peças no joguinho dele”, concluí.

“De fato. Seus personagens não eram de papel e tinta...”

“Doido, isso é o que ele é”, Lívia falou, “completamente doido!”

“Pode ser, quem sabe. Depende do ponto de vista.”

Santiago às vezes dizia as coisas com certo ar de enfado, como se quisesse insinuar que éramos três bobocas inexperientes e ele um velho sábio. Aquilo me deixava nervoso, sempre odiei gente assim.

Ficamos todos em silêncio, por um tempo. Até que o Gordo disse:

“Última pergunta, por enquanto.”

“Faça quantas quiser.”

“Como foi que vocês permitiram que Montenegro se aproximasse do André? Vocês não vigiavam o André também? Não sabiam tudo da vida dele?”

Santiago não gostou. Fechou a cara, como ainda não havia feito antes.

“Não foi culpa dos assessores, mas do próprio Augusto. Ele não queria que vigiássemos o André.”

Pelo menos isso, pensei, o Augusto ainda tinha alguma consideração por mim, apesar de tudo.

“Augusto dizia que do André ele mesmo tomava conta, que estava sempre por perto, que sabia de cada passo do irmão. Infelizmente, estava errado.”

Não gostei da forma como ele me olhou. Mandei ver:

“Porra, você agora está querendo dizer que sou culpado por meu irmão ter se ferrado? Vê se te enxerga, caralho!”

Um dos seguranças moveu ligeiramente os lábios, num meio sorriso.

“Contrariando as ordens de Augusto, uma noite resolvi seguir o André.”

“Até a festa do Alto”, completei.

“Justamente. Quando contei tudo ao Augusto, ele desconfiou que você estivesse envolvido com o pessoal do Murilo Chaves. Foi um erro, confesso, achamos que Mariana era do grupo do Murilo, até porque andava sempre com Rosália, esposa dele. Mandei investigar todas as relações do Murilo e constatamos que Mariana estava limpa, o que levou Augusto a deduzir que você não estava lá porque soubesse da existência do campeonato, mas porque estava apenas à procura, como direi, à procura de mais uma noite de amor.”

Aquele leve movimento de lábios do segurança se repetiu. Só que agora ele ria de mim. Era um negro enorme, careca, a cara redonda, de lua, devia gostar muito de rir quando estava fora de serviço. Não fora ele que me dera o soco, tinha sido o outro, de cara amarrada, o cara-de-lua parecia até boa gente, pelo menos achava graça de alguma coisa. Se houvesse uma oportunidade de fugirmos, quando estivéssemos em terra o cara-de-lua seria capaz de atirar em algum de nós? Fiquei pensando nisso, sem chegar a uma conclusão.

“O André não é isso que você está pensando!”, Lívia disse, tentando me defender.

Santiago ficou calado. Apoiou o rosto numa das mãos e ficou vendo o céu pela janela.

O silêncio foi breve porque o Gordo logo emendou outra pergunta:

“E quando foi que o Augusto descobriu que o André estava lá dentro, em Aldebaran?”

Ele respondeu:

“Quando foi conveniente a Montenegro que ele descobrisse. Entenda, Montenegro conseguiu, através de articulações internas, que o suposto convidado de Murilo fosse escoltado por seus homens até a suíte.”

“Você está me dizendo que os homens que levaram André até Aldebaran e o escoltaram até a suíte eram homens do Montenegro?”, foi a vez de o Gordo perguntar.

“Sim.”

“Que loucura.”

“Nenhum de nós poderia imaginar que aquele não fosse Renato e sim André. Montenegro ficou responsável pela guarda do convidado do Murilo Chaves e nos levaria o garoto, após a final, para que o interrogássemos. Mas antes que começasse a performance do casal número um Montenegro entrou na rede de computadores com uma foto do André, dizendo que havia um impostor em Aldebaran. Quando Augusto viu, na tela do monitor, a foto do irmão, não pensou duas vezes: ordenou à equipe de segurança que o tirasse de lá.”

Eu estava me sentindo numa gangorra. Oscilava o tempo todo entre odiar e amar o meu irmão.

“E quanto a nós? Como vocês souberam que estávamos em Petrópolis, na casa da Rosália?”, Lívia perguntou.

Santiago olhou para mim por um instante. Depois disse:

“Mariana.”

Ninguém entendeu.

“Mariana?”, perguntei.

“Mariana subestimou minha inteligência, e a de Augusto. Achou que poderia brincar de espiã a poucos quilômetros de onde estávamos. Não conseguiu, é óbvio. Temos homens espalhados por toda a região em volta de Aldebaran e não foi difícil saber que vocês estavam na casa do Murilo Chaves. Aliás, convenhamos, não era um bom lugar pra se esconder.”

O crápula terminou seu martíni e pediu outro ao garçom. Depois perguntou:

“André, me responda com franqueza: você gostava mesmo daquela mulher, meu querido?”

“Querido é a puta que o pariu!”

Ele respirou fundo.

“Sabe qual é o problema com vocês, com a juventude de um modo geral?”

Ninguém respondeu.

“Falta de leitura, esse é o problema. Vocês leem pouco, e por isso têm um vocabulário pobre, paupérrimo. Quando se irritam, não sabem se expressar a não ser através da meia dúzia de palavrões de sempre.”

Ele dizia a mesma coisa que o Augusto. Cínicos.

Voltei a pensar no meu irmão. Por um momento desejei que não chegássemos logo ao nosso destino, estar ali com aquele sujeito não estava sendo nada agradável mas eu, sinceramente, não saberia dizer qual era o pior: continuar ouvindo Santiago ou ser obrigado a conversar, cara a cara, com meu irmão. Ficava imaginando onde é que ele estaria, em que estado, em que país.

Outro pensamento me atormentava: Lívia. Como seria sua reação ao encontrar o Augusto? Se Santiago estivesse falando a verdade, e eu cada vez duvidava menos disso, Augusto teria sido o homem que foi procurar o Santo na Espanha, que falou obscenidades no ouvido de Lívia, que bancou a volta dos dois ao Brasil, teria sido ele, meu irmão, o responsável pela presença de Lívia em Aldebaran, e pela morte do Santo. Lívia odiava o meu irmão, era nisso que eu estava pensando naquele momento.

Então me dei conta do verdadeiro perigo: meu irmão também devia odiar Lívia.

“O que vocês vão fazer com a Lívia?”, perguntei.

Ela se mexeu na poltrona, assustada, acho que nem ela mesma tinha se tocado do risco que estava correndo ao ser levada ao encontro de Augusto.

“Eis uma boa pergunta”, Santiago falou.

Eu também estava preocupado com o Gordo, mas não tanto. Éramos amigos de infância, crescemos juntos, e Augusto, embora não fosse de ficar demonstrando sentimentos à toa, gostava dele. Eu sabia que depois de todas aquelas revelações meu irmão era uma pessoa imprevisível, poderia dar um tiro na testa do Gordo assim que chegássemos, mas duvido que fizesse isso. Augusto sabia que seria o mesmo que dar um tiro na minha testa. Não, ele não faria nada com o Gordo. Mas com Lívia?

“A vida é mesmo curiosa. Augusto e eu procuramos essa bela menina de olhos azuis pelos quatro cantos do país, acionamos nossos contatos no exterior, gastamos uma fortuna tentando encontrá-la, e nosso pequeno tesouro estava simplesmente com André, o irmão do Augusto, estava com ele o tempo todo, debaixo do nosso nariz.”

“A vida não tem a mínima lógica”, o Gordo disse, rindo.

“Vou cobrar direitos autorais”, eu disse.

“Ninguém aqui paga direitos autorais, você não percebeu ainda?”, ele rebateu.

Santiago não gostou da nossa conversa em código. Não gostava de nada que não pudesse dominar.

Repeti a pergunta:

“Então, o que pretendem fazer com a minha namorada?”

“Enfim, um romance assumido”, ele disse, novamente com o controle da situação.

“Responde!”, Lívia gritou.

“Não tenho a mínima ideia do que vamos fazer com você, meu anjo. Confesso, com todo o respeito, que por mim você e o gorducho já estariam fazendo companhia a Mariana. Não gosto de matar mulheres, nem rapazes tão jovens como o nosso amigo, mas teria sido o mais prudente, sem dúvida. Nada pessoal, entendam, apenas uma questão de estratégia. Augusto, no entanto, ordenou que eu trouxesse vocês dois com vida. Sinceramente, não sei quais são seus planos.”

“Merda! Isso é tortura! Você está me torturando, está torturando todos nós! Você pode ser preso por isso, sabia?”, Lívia disse, exaltada.

“Ah, claro, posso ser preso. Nesse caso, retiro o que eu disse.”

O cara-de-lua mexeu os lábios de novo, achando graça. O cara-de-lua não era propriamente um homem movido por ideologias. Seria capaz de rir de mim e de Santiago com o mesmo desenho no rosto, mudando de lado sem a menor culpa. Fora dali, devia ser um negro que ri, pronto, sem mais. Era isso, o cara-de-lua era também o negro-que-ri, falei comigo mesmo.

“Você está rindo de quê, cara-de-lua?”, perguntei.

Ele levantou as sobrancelhas, confuso e irritado ao mesmo tempo.

O Gordo deu um murro no braço da poltrona e lançou no ar sua gargalhada típica. Ele devia estar acompanhando o mesmo que eu, desde o início. O cara-de-lua continuou com as sobrancelhas arqueadas, o Gordo ria desbragadamente, o cara-de-lua foi afrouxando aos poucos sua expressão, devagar, como que resistindo e cedendo, querendo ceder, até que, por fim, sorriu de novo, do seu jeito próprio. Agora estava do nosso lado, como há segundos atrás estava do lado de Santiago. Eu começava a simpatizar com aquele negão.

 

***

Olhei pela janela. Estava escurecendo. Onde estaríamos? Nunca tinha viajado de avião na minha vida, nem de helicóptero, e naquele dia havia realizado dois sonhos de criança. Grande merda.

“Onde é que nós estamos?”, perguntei.

“Chegando”, Santiago respondeu.

Meus pais também nunca viajaram de avião, de helicóptero muito menos, claro. Não gostavam de viajar, a única vez que saíram do Rio foi naquela excursão a Aparecida do Norte, de ônibus. Augusto bancou tudo. Augusto adorava os velhos, fazia tudo por eles, e por mim. Como foi se meter nessa sujeira toda? Se tivesse ficado com aquela namorada, a que estudava música, ela teria ensinado coisas para ele, não teria deixado que ele se metesse com mafiosos, com assassinos feito Santiago, sua vida teria sido outra, se ele pelo menos tivesse ouvido o CD que ela deixou para ele, se ele tivesse ouvido “Summertime”, se deixando embalar pelo trompete do Miles Davis, com certeza sua vida teria sido outra, e a minha também, só a dos nossos pais teria sido a mesma, eles não souberam de nada, morreram sem saber de nada, era o meu consolo.

“Mais uma cerveja, doutor?”

Era a primeira vez que eu ouvia a voz do garçom, e ele tinha me chamado de doutor. Aceitei. Estávamos chegando. Ninguém dizia nada, um silêncio pesado.

O piloto pediu que afivelássemos nossos cintos, estava iniciando os procedimentos de descida. Plect-plect, foi o que se ouviu, apenas o barulhinho dos cintos entrando nos encaixes.

O garçom sentou numa poltrona separada, mais adiante, e também afivelou o seu. Eu não tomaria minha saideira, concluí, e aquilo me soou como um péssimo presságio.

Encostei minha cabeça na poltrona, fechei os olhos e me veio, nítida como numa tela de cinema, a imagem do neguinho deitado no asfalto, naquele domingo em Copacabana, o pivete com a perna estourada, jogando sangue no guarda. Fiquei pensando que se eu fosse mesmo um homem de verdade partia para cima do Santiago e dava um murro na cara dele, um dos seguranças me daria um tiro na barriga, eu cairia ali, na frente dos bandidos, e ficaria jogando meu sangue na cara deles, e gritando: desgraçado, você acabou comigo, seu desgraçado, sem deixar claro se o desgraçado era o Santiago ou o segurança que me dera o tiro, teria sido o cara-de-lua? O cara-de-lua seria capaz de atirar na minha barriga? Eu cheio de raiva, de ódio, lançaria com a mão mais sangue no terno impecável do Santiago, ele recuaria um pouco, amedrontado, como o guarda naquele domingo, e eu jogando sangue no terno dele, fazendo do sangue as minhas balas, atirando meu sangue naquele bandido desgraçado.

Quando pensei nisso, os olhos fechados, me dei conta de que não passava de um romântico, aquela seria uma cena de filme de gângster misturado com faroeste e regada com muita água com açúcar, para impressionar Lívia talvez, ou para convencer a mim mesmo de que eu não era um covarde. Puro devaneio.

Um celular tocou. Abri os olhos.

Santiago atendeu.

“O senhor não sabe que é perigoso usar telefone celular em avião?”, o Gordo perguntou.

“Qual o problema?”, Lívia perguntou ao Gordo, “se a gente caísse, até que seria bom.”

Fechei os olhos novamente, enquanto Santiago conversava com alguém no celular. Tinha acabado de ouvir Lívia dizer que seria melhor a gente despencar de vez naquele avião, era isso? Que seria melhor morrer logo e pronto? Senti uma quentura no rosto e uma lágrima subindo aos meus olhos, eu nunca tinha parado para pensar se lágrima sobe ou desce, tinha mais o que fazer na vida, mas naquele momento tive a certeza de que subia, e mandei ela parar na entrada dos olhos, fechei o portão, aqui você não entra, sua lágrima filha da puta!

Santiago me despertou:

“É pra você.”

Peguei o telefone.

“Alô.”

“André?”, a voz perguntou do outro lado.

Era o Augusto. Ficamos em silêncio, ele de lá, eu de cá, mudos, durante um tempo.

Abaixei a cabeça, fiquei olhando meus sapatos. Eram os sapatos que Mariana escolhera para mim. Quando eu tinha catorze anos, meu pai me chamou e disse, na sala da nossa casa, ele sentado no sofá, eu na poltrona em frente, cabisbaixo, como agora, olhando os próprios pés, só que naquela época nos meus pés havia um par de tênis imundos, meu pai me disse: André, você pode ser qualquer coisa na vida, pode escolher a profissão que quiser, mas escuta uma coisa, meu filho, você só não pode ser covarde, entendeu, tudo, menos covarde. Quando olhei para a ponta dos meus sapatos, me lembrei disso na hora.

Finalmente meu irmão falou alguma coisa:

“Precisamos conversar.”

Eu não precisava conversar, nem com Augusto nem com pessoa alguma, estava cansado de conversas, de palavras, meu corpo estava cansado também, dolorido, minha boca tinha voltado a sangrar e pouco adiantavam os cuidados de Lívia, bebi um gole de cerveja que o Gordo me ofereceu mas ela desceu pela garganta junto com o gosto de sangue. Também não queria mais beber daquela cerveja, naquele maldito avião, não queria ver o Augusto, queria meus pais, o chope do Bar Brasil, meus livros, mas no fundo também não queria nada disso, sentia que também não era de nada disso que eu precisava naquele momento em que minha cabeça girava junto com as hélices do avião e um enjoo revolvia tudo dentro de mim. Na verdade, a única coisa que eu queria fazer mesmo era dormir, muito.

Meu irmão continuava falando sozinho, do outro lado da linha. Não respondi. Devolvi o celular do Santiago. Ele pegou o aparelho e disse:

“Augusto, sou eu.”

Pausa.

“É, parece que o garoto não está muito a fim de conversar.”

Outra pausa.

“Sim, claro, entendi perfeitamente. Até já.”

Desligou.

Ninguém falou mais nada. Um silêncio absoluto se abateu sobre todos nós, o cara-de-lua arqueou as sobrancelhas, olhando direto na minha direção, como se quisesse me vigiar de perto, atento, cão de guarda. Não sei por quê, tive pena dele, fiquei imaginando como devia ser sua vida, o que fazia quando não estava trabalhando com aqueles marginais, como tinha ido parar naquele antro. Será que tinha mulher, filhos, será que tinha um irmão? Na hora me deu vontade de perguntar, mas a vontade passou logo, senti um frio na barriga quando vi pela janela a pista de pouso se aproximando. Estávamos chegando e eu sem a menor ideia do que nos esperava lá embaixo.

Logo em seguida o avião aterrissou. Descemos. As únicas luzes eram as da pista, não havia cidade nenhuma em volta, a impressão que tive foi a de que estávamos no meio do mato, numa fazenda, quem sabe.

Uma picape nos esperava. Entramos e o motorista viajou conosco durante uns dez ou quinze minutos por uma estrada de terra, até chegarmos a um casarão. Havia uns caras armados e um carro estacionado em frente à entrada principal. Santiago entrou conosco e nos levou por um corredor até uma porta fechada. Abriu aporta e falou com o Gordo e com Lívia:

“Vocês ficam aqui.”

“Nada disso”, falei, “vamos ficar todos juntos.”

Os seguranças empurraram os dois para dentro e fecharam a porta. O cara-de-lua e o outro ficaram ali, do lado de fora, os braços cruzados. Não gostei nada daquilo, claro, e tentei bancar o durão, falando alto com Santiago:

“Ou você leva meus amigos também ou eu não vou falar com o Augusto.”

“Não enche o saco”, ele disse, me puxando pelo braço.

Andamos mais um pouco pelo corredor, entramos à direita e fomos parar numa sala enorme. Devia ser a sala principal da casa, decorada com móveis rústicos, o chão de pedra, as paredes vazias, sem nenhum quadro. Estava meio escuro, a única luz vinha da lareira, acesa.

“Aqui está ele”, Santiago falou, dirigindo-se a alguém na outra parte da sala, de costas para nós.

Era o Augusto. Foi se aproximando, saindo da escuridão e chegando mais perto da lareira.

“Pode ir, Santiago.”

Augusto me apontou uma poltrona. Permaneci de pé.

“É pra sentar, André.”

Continuei onde estava.

“Senta!”

Parti para cima dele. Não conseguiria bater no meu irmão, ele era muito mais forte que eu, os braços de halterofilista, aquele sacana tinha tempo e dinheiro para ficar forte daquele jeito,ganhara muita grana explorando e matando pessoas, mas mesmo assim parti com tudo para cima dele, xingando todos os palavrões que me vinham à cabeça, e falando que ele não gritasse mais comigo, nunca mais, tentei dar um soco nele mas o desgraçado segurou meus braços, tentei uma joelhada, um chute na canela mas o Augusto me segurou firme, dizendo para eu ficar quieto, eu não conseguia e não queria ficar quieto, dei uma mordida na mão dele, forte, saiu sangue, ele gritou, dois caras chegaram por trás de mim, nos separaram, um deles me jogou no sofá como se estivesse jogando uma almofada.

Onde caí fiquei, exausto, ofegante.

“Calma, podem deixar ele aí, está tudo bem”, o Augusto falou para os seguranças, enquanto apertava o ferimento que fiz na mão dele.

Os caras continuaram por perto.

“Podem ir, eu cuido disso.”

Depois que os seguranças saíram, o Augusto sentou na poltrona, perto de mim.

“Ficou maluco, André? Viu o que você fez, quase me arranca um pedaço da mão.”

Respirei fundo. Estava muito fraco, sentia falta de ar, e uns calafrios, apesar de a sala estar quente, estava deitado no sofá feito uma criança, um feto, todo enroscado em mim mesmo, sentia dores no corpo todo, a boca seca, então respirei fundo novamente, tentando me recompor, mas a única coisa que consegui foi ter uma crise de tosse. Augusto chegou mais perto, perguntou se eu queria beber ou comer alguma coisa, respondi que não, ele passou as mãos nos meus cabelos, como meu pai fazia quando eu era criança, ficou acariciando minha cabeça devagar, dizendo meu nome, repetindo meu nome várias vezes, bem baixinho, exatamente como meu pai fazia.

 

***

 

Consegui sentar direito no sofá, Augusto se afastou, voltou para sua poltrona. Por alguns minutos cheguei a esquecer o que havia ocorrido, cheguei a pensar que tudo não tinha passado de um sonho, um pesadelo, mas de repente a realidade me chamou, voltei ao mundo real e então me dei conta de onde estava, me dei conta de que aquele sujeito ali, sentado perto de mim, era meu irmão e era também um assassino, um bandido, eu não conseguia entender muito bem isso, tinha ódio dele mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de pensar que era o Augusto, o mesmo Augusto que até poucos dias atrás eu adorava.

“Por que você foi fazer uma coisa dessas?”, ele me perguntou.

Fiquei mais baratinado ainda, eu é que devia ter feito essa pergunta.

“Por que você mentiu pra mim? Por que não falou que estava fazendo um curso de detetive por correspondência, que colocou anúncio no jornal? Se você tivesse me contado tudo desde o início, se não tivesse mentido, nada disso teria acontecido.”

Impressionante.

“Você é um puto muito puto mesmo, Augusto.”

Ele fez um gesto com a mão, para que eu não o interrompesse.

“Sei o que você deve estar pensando, André, sei que deve estar decepcionado comigo, mas você não sabe de nada.”

“Não sei do quê?”

“Um dia te conto toda a história, com calma, e você vai entender.”

Ele se levantou, acendeu um cigarro, ficou andando pela sala.

“Nem tudo é o que parece ser. Às vezes a gente pensa que está entendendo, que está tudo muito claro, que sabe exatamente o que é certo e o que é errado, mas no final das contas há sempre um outro modo de se ver as coisas. Você é um rapaz inteligente, André, sabe do que estou falando. Quer dizer, é inteligente mas ainda é muito jovem, não aprendeu ainda que a vida é cheia de nuances, que ninguém pode ter certeza de nada sem primeiro investigar a fundo todas as hipóteses. Você me entende, não entende?”

“Você nunca me disse que gostava de ler Rubem Fonseca.”

“Isso não vem ao caso, André, não é disso que estamos falando. O que estou querendo te dizer é que você não deve mudar o que sentia por mim. Ainda sou seu irmão e amo você, muito. Você sabe disso, não sabe? Que só quero o seu bem?”

Fiquei calado.

“Olha, André, não fica pensando que fiz essas coisas todas por interesse, por dinheiro, vaidade, poder. Você me conhece, mesmo que a gente viva brigando você sabe muito bem que nunca, jamais deixaria que te acontecesse qualquer coisa de ruim, e você sabe também que eu não sou um mau-caráter, você sempre soube disso, não é? Se fiz o que fiz foi porque tive meus motivos, não posso te explicar direito agora mas tive meus motivos e não me arrependo de nada.”

Ele sentou ao meu lado, no sofá. Abaixou mais ainda o tom de voz, falando devagar, suavemente:

“A vida que você levou, pensa nisso...”

Fiquei pensando.

“Você nunca precisou trabalhar. Depois que nossos pais morreram, você começou a procurar emprego, mas foi porque achei que te faria bem começar a cuidar de si mesmo, amadurecer, virar um homem de verdade, não que você precisasse de dinheiro. E pensa nos nossos pais, que tiveram uma velhice tranquila, sem preocupações com despesas da casa, com aluguel, comida. Vocês nunca passaram necessidade, não é? Não faltava nada lá em casa, você é testemunha, nunca deixei que faltasse nada. Então, de onde você acha que veio tudo isso? Essa vida boa que você levava, que nossos pais levavam, tudo isso seria simplesmente impossível se não fosse o campeonato.”

“Augusto.”

“O que é?”

“Por que você não vai tomar no cu?”

Ele se levantou de repente, irritado. Num gesto brusco,jogou o cigarro no chão e pisou.

“Não adianta tentar conversar com você.”

“Você não tem nada pra conversar comigo.”

“Um dia você vai entender, André, e vai me dar razão.”

Santiago apareceu na sala, fazendo um sinal para o meu irmão.

“Precisamos sair daqui”, Augusto me disse, segurando meu braço.

“Pra onde vamos?”

“Não vamos pro mesmo lugar.”

“Como assim?”

Ele não respondeu, foi me puxando pelo braço, como o Santiago tinha feito antes. Eu odiava quando alguém me puxava daquele jeito e o Augusto sabia disso. Tentei me desvencilhar, ele apertou meu braço com mais força.

“E o Gordo? E a Lívia?”, perguntei, enquanto caminhávamos às pressas pelo corredor.

“Não se preocupa com eles.”

Aquela era uma frase ambígua. Poderia querer dizer que eles estavam bem, eu não me preocupasse, ou então o contrário, eu deveria esquecê-los, não me preocupar com eles porque já estariam mortos. Tremi.

“Você matou eles, Augusto? Responde, você matou os dois?”

Ele deu uma parada rápida, me encarou e disse:

“Não seja ridículo.”

Chegamos até o quarto onde eles estavam. Augusto abriu a porta e entrou comigo. O Gordo estava deitado num sofá, cochilando. Lívia, sentada sobre uma mesa, perto da janela, balançava os pés, distraída.

“André”, ela gritou.

Com o grito o Gordo acordou, assustado.

“Como você pode ver, não sou tão mau quanto pareço”, Augusto me disse, e completou: “vocês esperem aí, daqui a pouco vem alguém buscá-los.”

“Quem?”, perguntei.

“Alguns dos meus homens. Vão levar vocês pra uma outra fazenda, longe daqui. Esse lugar não é mais seguro. Vão ficar lá por um tempo.”

“Quanto tempo?”

“Não sei. Vocês três vão ficar lá até eu voltar, entenderam? E não me façam nenhuma besteira. Esperem até eu voltar e vamos ver como as coisas ficam.”

“E você, vai pra onde?”

“Vou pra fora do país, André.”

Ele deu uma pausa e depois completou:

“Mas eu volto. Pode me esperar que eu volto.”

Augusto disse isso e ficou me olhando. Achei que tinha os olhos úmidos mas devia ser impressão. Passou a mão na minha cabeça.

“Toma cuidado, moleque.”

Saiu, fechando a porta. Fiquei alguns instantes meio abobalhado, quieto, sem entender o que estava acontecendo. Depois tentei abrir a porta mas estava trancada. Dei um murro na porta, mais um, e outro, dei uns quinhentos murros naquela porta,minha mão começou a doer, percebi que os dedos começavam a sangrar mas continuei esmurrando e gritando o nome do meu irmão feito um maluco, até que Lívia me tirou dali. Então me encostei na parede, o suor escorrendo pelo rosto, empapando a camisa.

“O que vamos fazer agora?”, Lívia perguntou.

Abri os braços. Eu não tinha mais nada a dizer. O Gordo se levantou do sofá e ficou em pé, perto da janela, olhando alguma coisa lá fora. Eu e Lívia fomos até onde ele estava.

“Tudo bem, meu irmão”, o Gordo falou, colocando a mão no meu ombro, “a história está chegando ao fim, eu acho.”

Ficamos ali, vendo o Augusto entrar num carro com outros homens de preto. O carro saiu cantando pneu. Logo atrás estava a picape, com Santiago e alguns gorilas, o cara-de-lua entre eles. Antes de partirem, o cara-de-lua ainda olhou na nossa direção mas não dava para saber se estava rindo ou não. Mais adiante, na estrada, vimos dois faróis. Devia ser o carro que viria nos pegar e levar para a outra fazenda.

Olhei para o alto. O céu estava carregado de estrelas, as tais que nunca estão onde a gente pensa que elas estão. Fiquei pensando: quando tudo começou jamais poderia imaginar que fosse terminar desse jeito. Eu, Lívia e o Gordo num quarto fechado,diante de uma janela, esperando alguém para nos levar sei lá para onde. De súbito me deu vontade de quebrar aquele silêncio dizendo minha frase favorita: a vida não tem a mínima lógica. Mas não disse.

O Autor

 

FLÁVIO CARNEIRO nasceu em Goiânia e vive atualmente em

Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro. É professor de literatura da

UERJ e autor de mais de 10 livros e dois roteiros para o cinema.

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Flávio Carneiro

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