O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 21 de 23

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O Campeonato

Capítulo 21

 

Sonhei que estava me afogando e acordei com alguém me dando tapas na cara.

Abri os olhos. Estava todo molhado e meu rosto ardia.

“Não é hora de dormir, detetive.”

A voz vinha de uma cabeça enorme. A cabeça foi se afastando e ficando a cabeça normal de um homem de terno, sentado à minha frente, colocando sobre a mesinha um copo vazio.

“Chega, não bate mais nele!”, ouvi.

Era Lívia.

“Ninguém vai bater em ninguém, filhinha, pelo menos por enquanto”, o homem de terno disse.

Lívia já estava abraçada comigo. Eu não estava entendendo porra nenhuma.

“Eu te falei, André, eu te avisei”, ela repetia.

Afastei Lívia.

“Onde é que eu estou?”

“Só falta perguntar: quem sou eu?”, o Gordo disse.

“André”, Lívia falou, “está tudo bem, você está vivo, estamos todos vivos, entendeu? Vivos.”

Olhei em volta.

“É impressão minha ou isso aqui é um avião?”, perguntei.

“Pronto”, o Gordo disse, “ele já voltou ao normal.”

“Dá uma cerveja pra ele”, o homem de terno ordenou.

Um cara vestido de garçom foi até o bar, pegou uma cerveja, abriu, encheu um copo, me serviu numa bandeja. Bebi.

Só podia estar sonhando. A última coisa de que me lembrava era ter sido jogado dentro de um helicóptero. Agora estava num avião, com três homens de terno sentados à minha frente, Lívia me abraçando, o Gordo na poltrona à minha esquerda.

Havia duas fileiras de cadeiras, com três lugares em cada, uma de frente para a outra. Os três homens estavam sentados numa das fileiras. Na poltrona do meio, o sujeito que falara comigo. Na fileira de cá o Gordo, eu e Lívia. Entre os dois grupos, uma mesinha com petiscos, um balde de gelo e uma garrafa de uísque. Estávamos a bordo de um pequeno avião, um jatinho particular, certamente, só não sabia de quem.

“Como foi que eu, quer dizer, nós, como foi que nós viemos parar aqui?”, perguntei.

O sujeito à minha frente respondeu, consultando o relógio:

“Até o nosso destino teremos tempo suficiente pra você obter todas as respostas de que precise, ou quase todas. Basta ter paciência.”

Tive a impressão de já conhecer aquele fulano de algum lugar. Na verdade ainda estava meio tonto, a cabeça doía, o estômago doía, minhas pernas doíam muito, como se alguém tivesse batido nelas com um pedaço de pau.

“Pra onde estamos indo?”

“Que pena, começou fazendo a pergunta errada. Sem resposta. Tente outra vez”, o bandido respondeu.

“Qual é o seu nome?”

“Meu nome, você quer saber meu nome. Não sei exatamente em que isso vai lhe ser útil, mas vamos lá. Pode me chamar de Santiago.”

“De onde é que eu conheço você?”

Ele deu um sorriso, se é que se pode chamar aquilo de sorriso. Depois disse:

“Você vai se lembrar, ainda está cansado, passou por uma experiência estressante, mas vai se lembrar, daqui a pouco.”

Só então me dei conta de que faltava alguém conosco.

“E Mariana? Cadê Mariana?”

Lívia segurou meu braço com força.

“Olha, André, aconteceu uma coisa”, ela disse, acariciando meu rosto.

“Cadê a Mariana, porra!”, gritei, olhando direto para o sujeito à minha frente.

Ele olhou para o Gordo.

“Mariana está morta, André”, o Gordo disse.

Eu não queria acreditar no que tinha ouvido. Minha voz tremeu.

“Como assim, morta?”

Santiago respondeu:

“Morta, falecida, defunta.”

“Não pode ser”, eu disse, levando as mãos à cabeça.

O Gordo se aproximou de mim, colocou o braço em volta do meu ombro. Ficamos todos em silêncio por alguns instantes, até que Santiago falou:

“As pessoas morrem, meu jovem, faz parte da vida.”

Chorei sem parar, parecia uma cachoeira. Lívia e o Gordo tentaram me acalmar. Estava transtornado, não só pela notícia que acabara de receber mas também por todo aquele inferno que estava vivendo.

Bebi um gole de uísque, sem gelo.

Aquela aflição foi diminuindo, aos poucos. Mais tranquilo, perguntei, num fiapo de voz:

“E Rosália?”

Ninguém precisou responder, pela expressão do Gordo percebi que Rosália também tinha morrido.

Bebi outra dose.

 

***

 

Levei algum tempo até voltar ao normal, mas consegui me recuperar do baque.

“Agora chega”, falei, “o que foi que aconteceu?”

“Acho que seus amigos podem dar conta disso. Eu entro na segunda parte”, Santiago falou.

“Deu tudo errado, André”, o Gordo disse.

“Tudo o quê?”

“Seguimos você até o Km 85, depois fomos direto pra casa da Rosália, em Petrópolis. Os seguranças do Montenegro montaram guarda no jardim e no lado de fora da casa. Subimos até o segundo andar, Mariana armou todo o equipamento. Tentamos fazer contato com você mas não foi possível.”

“Eles descobriram os aparelhos”, eu disse.

“Ficamos esperando que você desse algum sinal de vida, mas nada. De repente começou o tiroteio. Corri até a janela. Uns homens tinham entrado no jardim com metralhadoras.”

“Desculpe interromper”, Santiago disse, “eram submetralhadoras.”

“Você estava lá?”, perguntei.

“Claro que não.”

“Então como pode saber?”

“Porque costumamos usar submetralhadoras nesse tipo de serviço.”

Gelei.

“Você mandou os homens pra lá.”

Ele ficou me olhando, em silêncio.

“Deixa eu acabar de contar, André”, o Gordo disse, “uns caras entraram no jardim atirando, e conseguiram acabar com os seguranças do Montenegro. Nós nos trancamos no quarto de Rosália, foi o único jeito de tentar evitar o pior, não dava pra fugir, então nos trancamos no quarto. Mas não foi o suficiente.”

Ele fez uma pausa. Pegou meu uísque, deu um gole.

“Os sacanas abriram a porta a tiros e entraram. Ficamos ali, num canto do quarto, os caras apontando as armas na nossa direção. Um deles disse: a menina e o gordo, pra fora.”

Lívia se abraçou comigo, chorando, e disse:

“Eu não queria sair, André, Mariana pegou minha mão, apertou forte, e pediu pra não deixar ela sozinha. Foi a última coisa que ela disse: não me deixa sozinha.”

O Gordo continuou:

“O cara repetiu a ordem. Assim que saímos ouvi os tiros. Mataram as duas à queima-roupa, os covardes.”

“Não seja tão precipitado no seu julgamento, meu caro”, Santiago disse, “não eram exatamente duas santinhas que estavam ali.”

“Mas por que vocês tinham que fazer uma coisa dessas? Por quê?”, perguntei.

“Já acabou seu relato?”, ele perguntou ao Gordo, como se não tivesse me ouvido.

“Saímos de lá com os caras”, o Gordo continuou, “de carro. Viajamos uma hora mais ou menos, até uma fazenda. Lá eles colocaram a gente no avião.”

“E agora vocês estão aqui, os três, sãos e salvos.”

Salvos de quem?, gostaria de saber mas preferi não perguntar nada. Precisava de muito autocontrole se quisesse tomar pé da situação e ver o que poderia ser feito. Até o momento eu só sabia que escapara do campeonato e que Lívia e o Gordo estavam vivos. Por que Santiago tinha poupado o Gordo e Lívia e por que havia me tirado às pressas de Aldebaran eram perguntas que precisariam ficar para depois.

Santiago chamou o garçom:

“Um Dry Martini, por obséquio”, e completou, afetado: “Stirred, not shaken... como diria James Bond.”

Tirou um maço de cigarros do bolso do paletó.

“Bom, creio que é a minha vez de contar história”, ele disse.

Acendeu o cigarro, sem pressa, deu uma longa tragada.

“Antes, alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, minha história não tem um final muito feliz. Aliás, creio que nem tem um final, ainda.”

Apagou o cigarro no cinzeiro. Não tinha fumado quase nada.

“Segunda advertência: parte dessa história é absolutamente real, com dados precisos, sem contestação. Outra parte é feita de deduções, suposições, hipóteses, formuladas a partir desses fatos. Tais hipóteses, porém, como vocês poderão perceber por si mesmos, certamente não estão longe da realidade.”

Sua frieza era de impressionar. Estávamos falando de sequestros, violência sexual, assassinatos e o cara não demonstrava a mínima alteração, não se irritava, não se comovia, desenvolvendo seu raciocínio com calma e método.

A seu lado os dois brutamontes, seus seguranças, armados. Eram duas estátuas, não falavam nada, não bebiam nem comiam, não moviam um músculo da face. Nem por isso intimidavam menos. Nunca havia lidado com gente assim, só conhecia esses tipos dos livros, filmes, e estava constatando naqueles dias que essas pessoas existem de verdade, e que as armas que elas usam, e as balas, são de verdade também.

“Feito o necessário e breve preâmbulo, vamos ao relato.”

 

***

 

“Talvez não seja um procedimento comum, mas gostaria de começar dizendo logo no início da história o nome do grande vilão: Montenegro.”

Ele disse isso e olhou para nós, analisando nossa reação. Depois continuou:

“Vocês já devem ter tomado conhecimento de muita coisa a respeito do campeonato. Como surgiu a ideia, como essa ideia tornou-se realidade, como funciona na prática. Sabem também que os três velhos amigos acabaram se desentendendo, de modo que o campeonato é, hoje, ou pelo menos era até poucas horas atrás, palco de uma ferrenha luta pelo poder, disputado pelas três grandes famílias.”

“Chefiadas pelos três líderes: Senhor Branco, Senhor Preto, Senhor Cinza”, completei.

“Exatamente.”

“Permite um comentário?”, o Gordo interrompeu.

“Pois não.”

“Não consigo entender o sentido da escolha das cores. Sendo quem são, três leitores de romance policial, deveriam saber que a escolha de nomes de personagens ou, no caso, de codinomes, tem a ver com uma certa lógica.”

“De acordo.”

“Agora veja, que lógica temos aqui? Desde o início tenho tentado compreender. Pensei, a princípio, no mais óbvio: branco e preto são cores opostas, e o cinza, a mistura das duas. Assim, uma hipótese seria a de que o Senhor Cinza fosse uma espécie de conciliador. Imaginei que houvesse, de início, alguma desavença mais grave entre o Senhor Preto e o Senhor Branco, o que justificaria a escolha de cores que se opõem e que teria obrigado o Senhor Cinza a funcionar como intermediário, aquele que coloca panos quentes nas discussões, o famoso ‘deixa-disso’.”

“Certo.”

“Sabemos que o Senhor Preto era o Murilo Chaves. Não temos certeza de quem são o Senhor Cinza e o Senhor Branco, mas creio que você irá nos dizer, em breve...”

“O Senhor Cinza é o Montenegro”, Santiago revelou.

Eu e o Gordo olhamos um para o outro.

“Não te disse, André? O canalha do Montenegro é o Senhor Cinza, foi ele quem articulou tudo.”

“Não tenham dúvida.”

Então era mesmo verdade. O Montenegro não apenas sabia da existência do campeonato desde o início, como era nada mais, nada menos que um dos chefões, um dos fundadores. Aquela informação que acabávamos de receber não chegava a ser exatamente uma surpresa mas, mesmo assim, era estarrecedor constatar que alguém pudesse ter planejado e executado algo tão mirabolante. Precisava ser muito bom estrategista, e ator.

“E o Senhor Branco? É o Epifânio de Morais Netto, não é?”, perguntei.

O garçom trouxe a bebida. Santiago pediu a ele que nos servisse algo para comer. Ninguém quis, nem mesmo o Gordo.Assim que o garçom se retirou, Santiago disse:

“Claro que o Epifânio não é o Senhor Branco. Aquele estúpido não teria cérebro pra ser um dos líderes. É um puxa-saco, só isso.”

“Quer dizer que ele não está envolvido no campeonato?”, Lívia quis saber.

“Está, mas não como líder. Epifânio é um mero apostador.”

Olhei pro Gordo. Ele tentou remediar:

“Acertamos metade, meu amigo. Já é alguma coisa.”

“Afinal de contas, quem é esse sacana? Quem é esse puto do Senhor Branco?”, Lívia perguntou.

Lívia tinha todos os motivos para odiar os líderes do campeonato, mas odiava principalmente, com razão, o Senhor Branco. Foi ele que a trouxe da Europa, que a comprou do Santo, foi aquele crápula que a colocou lá dentro, em Aldebaran, para transar com um garoto que ela nunca vira antes, na frente de todo mundo.

“Já vão ficar sabendo quem é o Senhor Branco. Antes uma explicação, para tirar sua dúvida a respeito das cores”, ele disse, dirigindo-se ao Gordo.

Lívia cruzou os braços, irritada.

“Você está certo, em parte. A lógica é mesmo essa: dois opositores, um mediador. Acontece que os líderes trocam de codinomes.”

“Como trocam?”, o Gordo perguntou.

“Não é difícil entender. Prevendo que pudesse haver algum confronto mais sério entre eles, o que seria bem provável, conhecendo-se a natureza humana, sobretudo quando o que está em jogo é dinheiro e poder, os líderes pensaram numa maneira de evitar que tal confronto causasse prejuízo a todos. Consideraram, então, que seria prudente existir sempre um conciliador. A cada edição do campeonato eles escolhiam quem, naquele ano, seria o Senhor Cinza. A escolha do Senhor Preto e Senhor Branco não era problema, tanto fazia ser um ou outro. Mas ser o Senhor Cinza significava ter uma função. Assim, durante todo o ano, caberia ao Senhor Cinza aparar as arestas, que não eram poucas, claro, entre os outros dois, evitando, com essa estratégia de conciliação, que os líderes acabassem se destruindo uns aos outros.”

“Quer dizer, o Montenegro era o Senhor Cinza este ano”, eu disse.

“Sim, este ano era ele quem deveria exercer a função de mediador.”

“Deveria...”, o Gordo comentou.

“Isso mesmo, deveria... mas não exerceu, muito pelo contrário.”

Eu tinha trezentas perguntas engatilhadas. A primeira seria: por que o Montenegro me queria dentro do campeonato se o filho dele não estava lá? Não tive tempo de perguntar, o Gordo atravessou minha vez:

“Uma perguntinha.”

“Se estiver ao meu alcance responder.”

“Certamente estará. Você não trabalha pro Murilo Chaves, trabalha?”

Ele balançou a cabeça, negando.

“E também não está no grupo do Montenegro, é claro.”

“Obviamente que não.”

“Logo, por eliminação, devo supor que você é um dos homens de confiança do Senhor Branco.”

“Elementar.”

Ele disse aquilo com uma naturalidade irritante. Aquele cara ali, à minha frente, já devia ter feito muitas falcatruas, sequestrado adolescentes, já matara pessoas, e bebia seu martíni e falava conosco com a cara mais limpa desse mundo. Minha vontade era dizer que ele era um canalha e encher o sujeito de porrada mas a única coisa que podia fazer era ficar calado, e ouvir.

“É compreensível”, o Gordo disse, “que o Senhor Branco tenha mandado seus homens dar cabo dos homens do Senhor Cinza. Certamente houve alguma desavença entre os dois líderes.”

“É um pouco mais que isso, mas continue.”

“O que eu não consigo entender é por que ele teria poupado a mim e a Lívia, e por que matou Mariana e Rosália.”

Santiago olhou a paisagem pela janela. Todos nós acompanhamos seu movimento, menos os dois seguranças. Não havia nada lá fora, só nuvens.

“Algumas pessoas são como nuvens, mudam de forma conforme o vento. Mariana e Rosália eram assim”, ele disse.

“Dá pra ser mais claro?”, perguntei.

“Mariana e Rosália trabalhavam pro Montenegro.”

Reparei no olhar do Gordo. Estava escrito na cara dele: eu te avisei, desde o início, não confia nas mulheres bonitas. Eu não conseguia acreditar que Mariana tivesse mentido o tempo todo.

“Sei que você deve estar decepcionado, meu jovem, Mariana era uma linda mulher, sedutora, inteligente, agradável... mas falsa.”

O Gordo retomou o assunto:

“Bom, o Senhor Branco matou as duas porque trabalhavam pro Montenegro, e por que poupou nossas vidas?”

Santiago pegou um canapé. Mastigou vagarosamente, quase em câmera lenta. Fez de propósito, claro. Depois limpou os lábios com um guardanapo. Eu odiava aquelas pausas.

“Suponho que seja porque você é o melhor amigo do André, e Lívia a namorada dele.”

Não entendi. Perguntei:

“Supõe? Você não sabe por que não mataram os dois?”

“Eu cumpro ordens. A prioridade do Senhor Branco era salvar sua vida, por isso mandei tirarem você do Aldebaran. Mas o Senhor Branco também ordenou que trouxéssemos seu amigo e sua namorada. Por que razão ele quer ver os três juntos, não sei dizer.”

“Ele quer nos ver?”, o Gordo perguntou, “estamos indo ao encontro dele, é isso?”

Santiago assentiu com a cabeça, numa expressão de tédio, como se a pergunta do Gordo tivesse sido extremamente óbvia.

“Vem cá, será que não dá pra dizer logo de uma vez quem é esse merda desse Senhor Branco?”, perguntei, já perdendo a paciência.

“Quer mesmo saber?”

“O que você acha?”

Ele me olhou firme, dentro dos olhos, por alguns segundos. Depois falou:

“Augusto.”

O Gordo abaixou a cabeça.

“Augusto? Que Augusto?”, perguntei.

“Quem poderia ser...”, ele disse, num risinho irônico.

E completou:

“Augusto, seu irmão.”