O Campeonato
Capítulo 10
“A luz, por favor”, ela insistiu.
Acendi o abajur, apaguei a luz do teto. Me lembrei da Raquel, ela adorava essa pouca luminosidade, a casa parecia um ninho, ela costumava dizer.
Coloquei a cadeira no lugar, sentei, fiquei observando. Era a menina de tranças que eu conhecera em Santa Teresa, naquela tarde esquisita em que eu e o Gordo fomos visitar o Santo.
Usava um vestido curto, preto, e estava descalça. Devia ter deixado a sandália em algum lugar da sala e agora estava sentada sobre as próprias pernas cruzadas, no sofá. Não se parecia mais com a hippie fora de época que eu conhecera em Santa Teresa, tinha agora um jeito menos colorido, mais simples, sóbrio, na verdade parecia uma modelo, capa de revista, ninfeta.
“Você não me parece nada bem”, ela disse.
“Estou indisposto.”
“Bebeu demais?”
Não respondi.
“Toma isso aqui”, ela disse, tirando da bolsa um pequeno frasco de comprimidos.
Peguei o frasco, abri. Comprimidos redondos, pequenas bolinhas verdes, nenhum rótulo.
“Que merda é essa?”
“Bebe com leite.”
“Não tem leite, acabou.”
“Pode ser com água mesmo.”
“Pra que serve?”
“Você vai ver.”
Olhei para ela, desconfiado.
“Fica tranquilo, são ervas, só isso. Foi o Santo que fez.”
Cheirei os comprimidos. Cheiro de nada. O Gordo havia me dito que o Santo fazia uns remédios caseiros. Fui até a cozinha, tirei da geladeira a garrafa d’água, enchi o copo. Podia ter bebido no gargalo mas não consigo tomar comprimido assim, acho esquisito. Engoli o comprimido e virei o copo, de uma vez. A sensação de bem-estar foi instantânea.
Voltei à sala.
“Eu não disse?”, ela falou, sorrindo pela primeira vez.
Tinha um sorriso capaz de desarmar qualquer mau humor. O assassino mais sanguinário, o velho mais rabugento, o crápula mais insensível de todos os tempos, ninguém conseguiria resistir vendo-a sorrir daquele jeito.
“Qual o seu nome?”, perguntei, já voltando ao normal, o enjoo indo embora. Precisava encomendar uma dúzia daqueles frascos.
“Lívia.”
Pensei em oferecer alguma coisa à minha inesperada visita, mas não havia nada na geladeira além de água e açúcar. Eu guardava o açúcar na geladeira, por causa das formigas. No armário talvez houvesse um pacotinho de chá de cidreira. Raquel gostava, quem sabe sobrara algum saquinho, mas não tinha nada a ver oferecer chá para Lívia, fazia um calorão danado, se eu estava vestido daquele jeito ridículo, moletom e meias, era porque eu simplesmente não poderia ser considerado um cara normal, sobretudo diante das maluquices que estava vivendo nos últimos dias.
“Foi o Santo que te mandou?”
“Não, ele não pode saber que estive aqui.”
Dei de ombros. Estava me lixando pro Santo.
“Vim porque você precisa saber de uma coisa.”
“Diga.”
“Não é melhor fechar a porta?”
Fechei. Acendi outra luz, perto da entrada da sala. Continuou penumbra, mas assim eu podia ver um pouco melhor os cabelos castanhos de Lívia, de um castanho-claro, e os traços finos do rosto, a pele branca, os lábios delicados.
Sentei na poltrona, que ficava num lugar mais escuro, onde ela mal podia me ver.
“Está se escondendo de mim?”, ela perguntou, numa voz infantil.
Não respondi. Ficamos assim por algum tempo, um olhando para o outro, em silêncio.
“Antes que você comece a falar, só me responde uma coisa: como conseguiu entrar aqui?”
“Disse ao porteiro que era sua sobrinha.”
Me senti um velho, outra vez. Segurei.
“Aí foi subir e entrar. A porta estava aberta.”
Claro.
Ela continuou:
“Tenho uma coisa pra te dizer, mas você não parece interessado.”
“Desculpa, é lógico que estou interessado.”
Tinha acontecido tanta coisa estranha na minha vida nos últimos dias que eu demorava um pouco a me espantar quando, por exemplo, uma adolescente espetacular entrava na minha casa a altas horas da noite sem que eu me desse conta e dizia: tem algo que você precisa saber.
“Chega mais perto, pra luz”, ela disse.
Puxei a poltrona, ficamos de frente. Ela cruzou as pernas, se endireitando no sofá. Fitei, fundo, seus olhos: duas pequenas pérolas azuis, raríssimas, as duas únicas pérolas azuis do mundo.
“Quando você e seu amigo estiveram lá em casa, naquele dia, o Santo mentiu.”
“Como assim?”
“Ele sabe o que significa aquele símbolo.”
Eu sabia que aquele santo safado estava escondendo alguma informação importante.
“E por que ele fez isso?”
“Medo.”
“Medo? De quem? Do Murilo Chaves?”
Ela me olhou com um ar de interrogação.
“Quem é Murilo Chaves?”
Comecei a gostar mesmo de Lívia. Era mais uma que não tinha nem ideia do nome do presidente do Flamengo.
“É um empresário, está envolvido no caso que estou investigando.”
“Não sei se ele faz parte do grupo, não sei de nomes.”
“Que grupo?”
“O tal grupo do símbolo: o círculo com uma letra dentro.”
“É desse grupo que o Santo tem medo.”
“É. Se eles souberem que o Santo contou...”
“Podem matá-lo.”
Ela tremia. Segurei suas mãos.
“Podem me matar também”, ela disse, com dificuldade.
“Fique calma, você está segura, não vai te acontecer nada. Quer um copo d’água?”
“Não, não precisa.”
Aos poucos ela foi se acalmando.
“Lívia”, eu disse, suas mãos entre as minhas, “o que você tem pra me contar?”
“Aceito o copo d’água.”
Fui até a cozinha, trouxe a água.
Ela tirou um dos comprimidos verdes do frasco que eu havia lhe devolvido. Tomou. Interessante, pensei, imaginava que fosse um remédio para curar ressaca mas, pelo jeito, o tal comprimido tinha também outras indicações.
Lívia virou o copo como se virasse uma generosa dose de cachaça. O efeito deve ter sido semelhante porque ela pareceu mais segura.
“André”, ela disse, segurando meu braço com firmeza, “eles são muito perigosos, você precisa tomar cuidado.”
“Disso eu já sei. Só falta você me contar quem, afinal de contas, são eles.”
“É uma história difícil.”
“Não tem problema. Temos a noite toda pela frente.”
***
“Quando conheci o Santo, eu tinha acabado de completar dez anos”, ela começou.
“Isso foi há quanto tempo?”
“Hoje tenho quinze, se é o que você quer saber.”
Corei. Felizmente não havia claridade suficiente na sala para que ela percebesse a vermelhidão no meu rosto.
“Meus pais me trouxeram do interior do Rio, como oferenda.”
“Oferenda?”
“Eles idolatravam o Santo, achavam que era o novo Cristo, o Salvador. Aliás, não eram só eles, você sabe. Vivíamos muito mal, meus pais não tinham como me sustentar, então resolveram o problema me entregando pro Santo. Ficariam livres de um fardo e, ao mesmo tempo, estariam agradando a Deus.”
“Quer dizer que seus pais deram você.”
“Sim. E o Santo não recusou. Eu seria mais uma das adolescentes que ele mantinha no casarão de Santa Teresa.”
“Como é que é? O Santo tinha um harém?”
“Não, de forma alguma, ele nunca encostou o dedo em nenhuma de nós. Éramos suas virgens, ele dizia. Você não ficou sabendo disso? Saiu nos jornais, na época.”
“Eu não lia jornais naquela época.”
Como se depois tivesse passado a ler, pensei. Eu não gostava de dizer às pessoas que achava um saco ler jornal, tinha que explicar depois por que não gostava e dar a explicação era ainda mais chato que ler jornal.
“O que vocês faziam?”
“Mantínhamos a casa sempre limpa, bem-arrumada, e cozinhávamos, ajudávamos nas cerimônias.”
Eram as empregadas do Santo. Canalha.
“Quando as coisas começaram a piorar, os fiéis sumindo do casarão, ele não teve como continuar sustentando todas aquelas meninas.”
“Eram todas meninas? Não havia garotos?”
“Não, só mulheres.”
Canalha.
“Não dava mais, ele não tinha condições de manter o casarão e nós todas com ele. Fechou tudo, vendeu os móveis, mandou as virgens de volta pra suas casas.”
“E você voltou.”
“Eu já não tinha mais uma casa. Meus pais não me aceitariam de volta. Me ofereci ao Santo, poderia trabalhar pra ele, ganhar dinheiro, faria qualquer coisa pra que ele não me mandasse embora. Ele me disse que iria viajar, com o dinheiro que tinha sobrado iria tentar a sorte noutro lugar. Implorei que me deixasse ir com ele. Até que ele aceitou.”
“Vocês foram pra onde?”
“Viajamos o mundo todo. No início foi tranquilo, o Santo tinha uma boa grana guardada, não dava pra continuar no luxo de Santa Teresa, mas era o suficiente pra não passar fome, e além disso ele tinha muitos contatos no exterior. Vivemos em várias comunidades alternativas, ele dava palestras, cursos, eu ajudava no que podia. Aprendi muitas coisas, estudei línguas, estava gostando daquela vida. Mas ele sempre me dizia que um dia voltaríamos ao Brasil, ao casarão de Santa Teresa, assim que conseguíssemos juntar o suficiente.”
“Nesse tempo todo ele nunca... quer dizer, nunca...”
“O Santo jamais tocou em mim, André, a não ser como filha, eu era isso pra ele: uma filha.”
Era difícil de acreditar mas Lívia parecia sincera.
“Continua.”
“Um dia, quando morávamos num povoado no interior da Espanha, apareceu um homem alto, forte, bem-vestido. Um brasileiro. Era amigo do Santo. O homem ficou me olhando com um olhar de velho tarado, não gostei. Chegou perto de mim e me falou um monte de sacanagens, baixinho. Depois cochichou alguma coisa no ouvido do Santo, sempre olhando na minha direção. Deve estar querendo me comprar, imaginei. O Santo fez que não, com a cabeça. O homem botou o braço no ombro do Santo e os dois foram caminhando pela rua até sumirem da minha vista. No dia seguinte, estávamos embarcando de volta pro Rio.”
Ela disse que continuava com sede. Trouxe uma jarra com água e alguns cubos de gelo. Droga não ter pelo menos um refrigerante. Levei mais um copo, enchi. Até que não era tão ruim assim beber água, pensei, só me faltava o hábito.
“Lívia, se eu te mostrasse uma foto desse homem, você conseguiria reconhecer o cara?”
“Lógico.”
Caminhei até a mesa, abri a gaveta e peguei uma pasta com recortes de jornais que o Gordo havia deixado comigo.
“É esse?”, perguntei, apontando o Epifânio de Morais Netto.
“Não.”
Peguei outra foto, do Murilo Chaves. Ambos eram altos, fortes, o Epifânio não era forte mas era gordo, às vezes as pessoas confundem, e os dois costumavam andar bem-vestidos. Mostrei a foto do Murilo.
“Também não.”
“Bom, vocês voltaram pro Brasil.”
“Melhor se não tivéssemos voltado.”
“Por quê?”
Ela fez uma pausa. Pegou outro comprimido, engoliu, me ofereceu um.
“Você vai precisar.”
“Afinal de contas, isso serve pra quê?”
Ela me estendeu o copo. Bebi, junto com a bolinha verde retirada do frasco. Uma onda de energia atravessou meu corpo, como se tivesse acabado de tomar uma ducha gelada. Aquilo era uma verdadeira maravilha.
Lívia percebeu que eu havia gostado. Sorriu, me deu um beijo no rosto. Fiquei excitado mas me segurei, cruzei as pernas, tentei disfarçar, não podia pensar em sexo no meio da história que ela estava me contando, precisava ouvir tudo com muita atenção, sobretudo porque sentia que aquela menina estava simplesmente prestes a me revelar a solução, a resposta ao monte de perguntas que eu vinha me fazendo nos últimos dias.
“O homem não queria me comprar, quer dizer, não queria me comprar pra ele.”
“Cafetão, o cara era um cafetão.”
“Não, também não era isso.”
“Então o que era? Queria você pro filho dele, um brinquedinho pro filhote?”
“Não. O homem era do tal grupo, o que você procura. Aliás, acho que era o chefe, ou pelo menos um dos chefes.”
Perdi o fôlego. Me recostei na poltrona.
“Você está me dizendo que esteve frente a frente com o líder do grupo copyright?”
“Grupo o quê?”
“Copyright, o círculo com a letra c no meio, aquele que te mostrei. Quer dizer direitos autorais.”
“Eu sei o que é copyright. Mas não sabia que o grupo tinha esse nome, só conheço o símbolo.”
“Tudo bem, e o que aconteceu depois?”
“Naquela noite, depois da saída do tal homem, o Santo chegou e me disse: Lívia, preciso muito de você.”
“Pra quê?”
“Haveria um torneio e ele tinha me inscrito.”
“Torneio?”
“Ele me disse: se nós ganharmos, vamos ter de volta o casarão de Santa Teresa e todas as virgens novamente, e aquela vida toda que levávamos antes. Vai ser maravilhoso, ele falou, emocionado. E o que eu preciso fazer?, perguntei. Ele me olhou bem dentro dos olhos e respondeu: você precisa se entregar a um rapaz.”
Engoli em seco. Já estava gostando daquela menina e fiquei puto com o Santo, mesmo sabendo que naquela época eu nem sonhava em conhecer Lívia.
“Que rapaz?”
“Nem mesmo o Santo conhecia. Ele me disse que era um jogo, um torneio, como eu falei. Eram seis casais, divididos em dois grupos de três, todos com idade entre doze e quinze anos, e virgens, tanto os homens quanto as mulheres. E tinha também um livrinho, com as regras.”
“Regras.”
“Sim. As regras do torneio. Aliás, eles não chamavam de torneio, chamavam de campeonato.”
“Mas que campeonato era esse, porra?”, perguntei, irritado.
Ela se assustou. Procurei me acalmar, fui até o banheiro, lavei o rosto.
Quando voltei, ela tirava da bolsa alguma coisa.
“Toma, lê você mesmo.”
Lívia me deu um pequeno livro, de capa dura, revestida de couro marrom. Era do tamanho de um livro de bolso. Abri.
A primeira folha trazia o desenho de um lírio, feito a bico de pena, e uns versos:
Aonde foi o teu amado, Coro
ó mais bela das mulheres?
Para onde se dirigiu o teu amado?
Iremos contigo à sua procura.
O meu amado desceu ao seu jardim, Ela aos canteiros de bálsamo,
para apascentar seu rebanho entre jardins
e colher lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu.
Ele é pastor de rebanhos entre lírios.
Cântico dos cânticos (6, 1-3)
“O que é isso?”, perguntei, com o livrinho na mão.
“Eles me deram, antes de começar. Todos os competidores receberam. As regras estão aí, mais à frente.”
O livro tinha umas trinta ou quarenta folhas apenas, com ilustrações. Havia mais desenhos que palavras, aliás. Folheei. Todos os desenhos em nanquim, reproduzindo cenas eróticas delicadas, casais de adolescentes, nus, se beijando, andando de mãos dadas por um jardim, sentados lado a lado debaixo de uma árvore,lendo à beira de um rio. Imagens bucólicas de adolescentes, impressas em papel-bíblia. O livro parecia ter sido costurado à mão. Um belíssimo trabalho.
Fui até a mesa, sentei, comecei a ler.
***
AOS COM PETIDORES:
Bem-vindos a Aldebaran.
Todos nós, animais de sangue quente, sabemos que tudo vai acabar.
São muitos os que procuram, poucos os escolhidos. Vocês, que aqui se encontram, estão no grupo dos privilegiados. Dentre milhares de pessoas, vocês foram selecionados por serem mais belos e mais saudáveis que a maioria dos mortais, e agora estão prestes a passar pela experiência mais importante de suas vidas.
Em breve terá início o jogo da natureza humana: força, instinto, sedução, dor e prazer – tudo o que há.
Os homens terão suas parceiras. As mulheres terão seus homens. Saibam unir suas forças e, sobretudo, não tenham pudor. Não existe pecado entre virgens.
Trata-se de um campeonato. Uma cama os espera no meio de um salão. Cada casal ocupará esta cama durante noventa minutos. Como em todo jogo, também neste haverá regras. Não foram feitas para intimidá-los, pelo contrário, têm o sentido apenas de dar um molde à explosão sem forma que brotará de vocês em breve, fazê-la mais esplendorosa porque bem delineada. Para isso criamos as regras, para que vocês possam proporcionar o grande espetáculo da vida.
Passei mais algumas folhas, com desenhos, e finalmente cheguei às regras. O primeiro capítulo dizia que o campeonato era disputado por seis casais, e o segundo especificava os pré-requisitos para a inscrição dos concorrentes:
CAPÍTULO II
Da Condição de Jogo dos Participantes
Art. 5º. Será considerado apto a disputar o Campeonato o(a) participante que atender aos seguintes requisitos: a) Ser virgem;
b) Ter entre 12 (doze) e 15 (quinze) anos de idade;
c) Estar de posse plena de suas faculdades mentais;
d) Não estar acometido(a) de qualquer anomalia física que impeça o pleno desenvolvimento de suas atividades sexuais.
Art. 6º. Cada casal será apresentado ao Departamento Técnico por um dos três Líderes do Campeonato, a saber: Senhor Preto, Senhor Cinza, Senhor Branco.
Parágrafo 1º – A cada líder caberá inscrever 2 (dois) casais.
Parágrafo 2º – O casal inscrito ficará sob total responsabilidade do Líder que o inscreveu, recaindo sobre o Líder qualquer responsabilidade por danos materiais ao Campeonato porventura provocados por um, ou mais de um, dos participantes inscritos.
Art. 7º. Cada Líder remeterá ao Departamento Técnico uma relação dos participantes, que serão considerados como inscritos até, no máximo, 30 (trinta) dias antes do início da Primeira Fase.
Parágrafo Único – Novos participantes poderão ser inscritos fora do prazo estabelecido neste artigo apenas no caso de fuga ou de morte do(s) participante(s) previamente inscrito(s).
Art. 8º. Cada Líder remeterá ao Departamento Técnico, no ato da inscrição dos participantes, os nomes dos Treinadores responsáveis pelos casais inscritos, sendo obrigatória a apresentação de 1 (um) Treinador para cada casal.
Cada casal tinha noventa minutos para apresentar sua performance, dividido em dois tempos de quarenta e cinco, com quinze minutos de intervalo.
O campeonato era disputado em dois grupos: A e B. Cada grupo tinha três casais, e só o melhor passava para a fase final.
Mais adiante, o regulamento falava sobre o modo de pontuação:
CAPÍTULO V
Da Pontuação
Art. 12º. A pontuação de cada casal dar-se-á, independentemente de qual seja a Fase de que participe, pelo somatório da pontuação parcial obtida em cada um dos itens abaixo relacionados:
a) ereção do órgão genital masculino;
b) penetração do órgão genital masculino no órgão genital feminino; c) tempo de permanência do órgão genital masculino no órgão genital feminino; d) desempenho no ato sexual, considerando-se os seguintes critérios, de igual valor: intensidade, harmonia, originalidade; e) emissio seminis, efetivamente comprovada após a retirada do órgão genital masculino do órgão genital feminino.
Parágrafo Único – Cada item vale de 0 (zero) a 2 (dois)pontos.
Art. 13º. Em caso de empate, valerão os seguintes critérios, pela ordem: 1º. Critério: item “d”;
2º. Critério: item “e”;
3º. Critério: item “c”.
Parágrafo Único – Permanecendo o empate, caberá ao Árbitro Inconteste a decisão final.
Por fim, vinha o valor do prêmio: um milhão de dólares!
Os casais que obtivessem pelo menos cinco pontos ganhavam um prêmio de participação: duzentos e cinquenta mil dólares.
Eu estava pasmo, lia aquilo mas não conseguia acreditar que pudesse ser verdade, embora tudo indicasse que sim.
Logo depois do regulamento vinha uma mensagem final:
Sangue, suor, sêmen. Dessas três substâncias é fabricado o milagre. Saibam vivê-lo em toda a sua grandeza e serão felizes para sempre.
Que vençam os melhores.
***
“Não pode ser”, eu disse, fechando o livro.
“Não pode ser o quê?”
“Não acredito em nada dessa história, você inventou isso. Você é maluca, você e aquele santo fajuto.”
Ela ficou me olhando, séria.
“Você está querendo dizer que eu inventei tudo que você acabou de ler? Que mandei fazer essa droga desse livrinho com um monte de regras malucas?”
“Acertou, é exatamente o que estou querendo dizer.”
“Tudo bem”, ela falou, pegando sua bolsa.
Calçou as sandálias e caminhou na direção da porta. Eu quieto, olhando para a ponta dos meus pés, sob a mesa. Reparei que minhas meias estavam furadas. Senti saudade da Raquel.
Lívia voltou, pegou com raiva o livro.
“E você poderia me dizer por que eu faria uma coisa dessas?”
“Ainda não sei, mas não acredito numa linha do que está escrito aí.”
Eu tinha certeza de já conhecer aquela história de torneio sexual de algum lugar.
“Aposto que vocês copiaram essa baboseira toda de algum romance.”
Ela foi até a porta, rodou a chave, abriu. Ficou ali, parada.
Continuei onde estava, não movi um músculo.
A luz do corredor, entrando pela porta aberta, iluminava diretamente a ponta dos meus pés, como se fosse algo combinado, como se um iluminador de teatro resolvesse lançar um foco de luz sobre as minhas meias furadas.
“Procurei a pessoa errada”, ela disse, saindo e batendo a porta.
Contei até dez, minha cabeça rodava. Senti que estava fazendo a maior besteira da minha vida deixando Lívia sair daquele jeito mas não conseguia me levantar, cada centímetro do meu corpo pesava dez toneladas e só um guindaste poderia me tirar daquela cadeira.
Fiquei assim alguns minutos. Depois, num impulso, me levantei. Tontura. Estou ficando velho, foi a única coisa em que pensei naquela hora. Corri atrás de Lívia.
Ela estava sentada no chão, de frente para o elevador. Sentei ao seu lado, Lívia encostou a cabeça no meu ombro, acariciei seu rosto. Chorava. Não suporto ver mulher chorando, pensei comigo.
“Não suporto ver mulher chorando”, eu disse.
“Então me leva pra sua casa.”
Peguei-a no colo.
“Não sou muito pesada pra você me carregar no colo?”, ela me perguntou, mais leve que o ar.
Levei-a de volta ao apartamento e a coloquei de novo no sofá da sala.
Fui até o banheiro. Tirei a roupa, tomei um banho gelado, vesti uma bermuda. Fiquei me olhando no espelho e dizendo: profissional, detetive André, você é um profissional. Não era nada fácil eu mesmo me convencer, afinal de contas eu não era profissional droga nenhuma.
Passei pela cozinha, tomei dois copos d’água. Voltei à sala, sentei na poltrona, de frente para Lívia.
“Ok, eu acredito em você.”
Ela sorriu, agradecida.
“Está a fim de continuar contando?”
“O que mais você quer saber?”
“Primeiro: o que é Aldebaran?”
“O local onde acontece o campeonato. Eles chamam de Aldebaran, não sei por quê.”
Aquele nome era familiar. Fiquei repetindo a palavra para mim mesmo, baixinho.
“O que foi?”, Lívia quis saber.
“Nada, estou tentando lembrar onde foi que eu li esse nome.”
De repente me lembrei. Corri até a estante, apanhei um livro do Rubem Fonseca, Feliz Ano Novo. Procurei no índice. Estava lá.
Claro, pensei, era dali que eu conhecia aquela história: o campeonato de conjunção carnal.
“Ouve isso”, eu disse pra Lívia.
Li em voz alta os dois primeiros parágrafos do conto:
Todos nós, animais de sangue quente, sabemos que tudo vai acabar.
No Hotel Aldebaran se realizava o grande campeonato (não oficial) de conjunção carnal. Uma atividade que devia ser comum a todos os seres humanos, mas estava circunscrita aos profissionais.
“Que tal?”, perguntei.
“Você não acha que eu li esse livro, acha?”
Sentei no chão, o livro aberto nas minhas mãos. Li em voz alta todo o conto. Quando terminei, ela perguntou:
“De quem é?”
“Rubem Fonseca, o título é O campeonato.”
“Não li. Aliás eu não gosto do Rubem Fonseca.”
“A história que ele escreveu é muito parecida com a sua.”
“Não é nada parecida! A minha é de verdade!”
Era difícil, mas precisava confiar em Lívia. Se ela saísse por aquela porta eu estaria perdido, um reles detetive sem pistas a seguir, um merda.
“Desculpa, acredito em você, acredito mesmo.”
Ela se acalmou. Depois me disse, numa voz um pouco mais suave:
“É uma coincidência, só isso.”
“Não, não é coincidência. A citação da primeira frase, o nome do hotel, o próprio campeonato, só há uma explicação.”
“Qual?”
“O filho da puta que bolou esse campeonato leu o conto do Rubem Fonseca.”
“Mas você não acha que é loucura demais um cara ler um conto desses e fazer um campeonato de sexo de verdade?”
“Eu já nem sei mais o que é loucura ou não.”
Folheava o livro, a esmo. Fechei, fiquei vendo a capa. Não procurava nada em especial, apenas manuseava o livro, enquanto ia organizando meus pensamentos. Lívia me observava, em silêncio. Abri o livro novamente, na folha de rosto, virei a página, onde fica a ficha técnica. Meus olhos bateram no símbolo: ©
“Caramba, é isso!”
“Isso o quê, André?”
Me levantei num salto, fiquei caminhando pela sala com o livro na mão.
“O símbolo. Como foi que não pensei nisso antes? Não é um círculo com uma letra no meio, são duas letras, entendeu?”
“Duas letras”, ela repetiu, ainda sem entender.
“Duas letras, Lívia: a letra O e a letra C. A letra C dentro da letra O.”
“As iniciais do título do conto: “O campeonato”. Pode ser.”
“Eu nem acredito! O Gordo vai delirar quando souber disso.”
“Quem é o Gordo?”
“Meu assistente, aquele que estava comigo na casa do Santo.”
“Sei.”
“Eu estava certo, Lívia, quem tramou tudo isso leu o conto do Rubem Fonseca.”