O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 15 de 23

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O Campeonato

Capítulo 15

 

“Quem?”, a voz de Lívia soou estranha na biblioteca.

Até então só eu e o Gordo interrogávamos Rosália. Mariana não tinha nada a perguntar, certamente já ouvira tudo aquilo da própria viúva do Murilo Chaves e Lívia parecia fragilizada demais para se meter naquela conversa. Mas, pelo jeito, estava recobrando as forças.

Rosália hesitou um instante, depois respondeu:

“Quem matou Murilo foi um de seus amantes, um garoto de programa.”

“Você tem provas disso?”, perguntei.

Mariana respondeu pela outra:

“Nem sempre as provas são necessárias, André. Às vezes,basta a dedução pura e simples.”

“Estivemos no quarto do motel assim que o rapaz saiu de lá”, Rosália continuou, “aquela noite eu mesma resolvi seguir Murilo e assim que ele entrou no motel fui até a portaria e subornei o porteiro para que vigiasse todos os movimentos de Murilo e seu amante. Fiquei no meu carro, do outro lado da calçada, e vi quando o carro dele saiu da garagem, a toda velocidade. Entrei correndo no motel e o porteiro confirmou que o carro que havia saído era mesmo do Murilo. Pedi a chave do quarto. Subi. Quando entrei no banheiro, lá estava ele, na banheira, coberto de sangue.”

Rosália acendeu um cigarro. Não parecia emocionada com o que acabara de contar, nem era de esperar que estivesse. Ela odiava o falecido marido.

“E a senhora então ligou pra Mariana, que foi ao seu encontro”, o Gordo disse.

Mariana não esperou que Rosália respondesse, se adiantando:

“Quando entrei no quarto, examinei tudo e tive certeza de que não tinha havido luta. Revistei o terno do Murilo, jogado num canto do sofá. Sua carteira não estava lá. Também não encontrei o relógio de ouro, Rosália me disse que ele nunca saía sem aquele relógio.”

“Concluindo”, o Gordo disse, “o garoto levou um relógio de ouro, o dinheiro da carteira, que não devia ser pouco, cartões de crédito e documentos do Murilo Chaves, além do carro.”

“Importado”, Rosália completou.

“A noite rendeu bem, convenhamos”, o Gordo disse.

“Não tanto quanto poderia”, Mariana falou.

“Por que não?”

“Porque o Murilo Chaves estava preparando o amante pra ser um apostador”, Lívia interrompeu.

Olhamos todos na sua direção.

“Como é que é?”, o Gordo perguntou.

Lívia respondeu:

“Cada um dos líderes pode levar um convidado, como apostador. Sei disso porque o Santo era o convidado do Senhor Branco quando participamos. Se Mariana disse que o garoto lucraria mais do que poderia, está na cara que seria como convidado do Murilo Chaves na final.”

“Devo confessar”, Mariana falou no meu ouvido, “ela é bem mais esperta que você.”

“Brilhante”, o Gordo disse, batendo palmas para Lívia.

Permaneci quieto. Algo me dizia que aquela dedução soava falsa, como se Lívia já soubesse de detalhes que a levaram a dizer aquilo, como se estivesse me escondendo alguma coisa. O tom irônico com que o Gordo disse “brilhante” me levava a crer que ele estava pensando a mesma coisa.

“Você está certa, Lívia, era isso mesmo”, Rosália disse, “Murilo pretendia levar o amante como convidado na final do campeonato. Descobrimos isso porque no bolso do paletó Mariana encontrou um pequeno envelope, lacrado. Dentro, havia um mapa indicando o local da disputa, um cartão com a autorização de entrada, em nome do garoto, com sua foto e os selos dos três líderes: o Senhor Branco, o Senhor Preto, o Senhor Cinza, e três cartões magnéticos. Deduzimos, é lógico, que Murilo pretendia fazer uma surpresa para o seu amante, um programa diferente, assistir a um campeonato de sexo entre adolescentes, e ainda por cima ganhar muito dinheiro. Claro, Murilo certamente bancaria as apostas.”

“E o rapaz não soube esperar”, comentei.

“Deu azar”, Mariana falou, “ou sorte, quem sabe.”

“E por que vocês têm certeza de que o garoto não estava ali a mando de um dos sócios de Murilo?”, perguntei.

“Ora, se fosse assim, o assassino teria sido mais cuidadoso, mais frio, eles não trabalham com amadores. Teria, sem dúvida, revistado Murilo com mais atenção e não deixaria no bolso do paletó a prova que poderia levar a polícia ao campeonato. Esse envelope nunca estaria lá, onde o encontramos, se o rapaz estivesse ali a mando do Senhor Branco ou do Senhor Cinza.”

“É verdade”, tive que concordar.

“Ele matou pra roubar, André”, Mariana concluiu, “não há dúvida. Por incrível que possa parecer, com tantos inimigos na sua cola, o Murilo Chaves foi morto por um ladrãozinho amador.”

“É a vida”, o Gordo disse, acabando a cerveja.

“Quero uma taça de vinho”, Lívia pediu.

Abri o vinho, enquanto um silêncio pesado caía sobre a biblioteca.

Daria tudo para poder ler o que se passava em cada uma daquelas cabeças enquanto enfiava o saca-rolhas, rodava, puxava, servia o vinho na taça.

“Bom, e o que vamos fazer agora?”, perguntei, cortando o silêncio.

“Nós eu não sei”, Rosália respondeu, “mas você tem pela frente uma tarefa bastante clara.”

“Qual?”

“Entrar na final do campeonato, é óbvio.”

 

***

 

O vexame foi inevitável: minha mão tremeu e derrubei cerveja no meu colo, molhando a calça toda.

“Merda!”

Mariana riu, baixinho.

“Tem toalha no banheiro”, ela disse, e depois completou, sacana: “você sabe onde fica.”

Fui até o banheiro, me enxuguei. Não podia ficar dando mole na frente de Rosália. Aquela mulher era cobra criada, esteve armando o cerco desde o início e agora eu estava quase entrando no seu jogo.

Eu mesmo havia prometido ao Montenegro que participaria do campeonato mas não tinha pensado ainda no que isso poderia significar. Naquele momento a coisa estava se desenhando com mais clareza na minha cabeça e a custo tentava controlar meus nervos.

Voltei à sala. O Gordo já havia trazido outra cerveja. Enchi o copo, bebi.

“Acho que não ouvi direito, Rosália”, eu disse.

“Tudo bem, posso explicar. A questão é a seguinte: com a morte do Murilo, estou simplesmente milionária. A herança vai toda pra mim e meus dois filhos, menores de idade. Isso seria ótimo, claro, se não houvesse um probleminha: Murilo foi assassinado. O que significa que, além de herdeira, sou também a principal suspeita.”

“Sem dúvida, minha senhora”, o Gordo comentou, com um prazer mal disfarçado.

“Eu poderia ir até a polícia e contar toda a história que acabo de te contar”, ela disse.

“E a polícia diria que você tem uma imaginação bastante fértil”, completei.

“Além, é claro, de querer saber algumas coisinhas, como, por exemplo, o que eu estava fazendo por ali no momento do crime, ou por que chamei primeiro a minha detetive particular, em vez de ter chamado logo a polícia.”

“É, creio que a madame está mesmo bastante enrolada”, o Gordo disse.

Rosália fingiu não ter ouvido.

“Se, no entanto, eu puder provar a existência do campeonato, e o envolvimento de Murilo, o rumo das investigações muda completamente. A polícia passaria a investigar a hipótese de Murilo ter sido assassinado por um dos sócios. Claro que eles não saberiam nunca da existência do envelope, que está comigo. Iriam pensar que tinha sido uma simulação de assalto, e o verdadeiro motivo seria o de luta por mais poder e dinheiro dentro do campeonato.”

“E você passaria do lugar de suspeita número um para o de vítima: a esposa traída que não sabia que o marido era homossexual e mafioso”, eu disse.

“Justamente. Se você quiser me ajudar, fotografando tudo lá dentro e reunindo o máximo de elementos que comprovem que Murilo fazia parte desse campeonato imoral, monstruoso, absurdo...”

“Mas o diário do Murilo Chaves já não é uma prova?”, Lívia perguntou.

“Sim, mas talvez não seja o suficiente.”

O Gordo não dizia nada, olhava para os próprios pés, certamente pensando em como juntar as peças daquele quebra-cabeça.

Segurei o copo com firmeza, ainda estava nervoso, e falei:

“Só uma perguntinha, Rosália.”

“Quantas você quiser, querido.”

Não gostei de ouvir Rosália me chamando de querido. Me deu vontade de dizer: querido é o caralho!, mas preferi não engrossar, ainda não era o momento.

Perguntei:

“Por que você acha que vou arriscar a minha pele pra salvar a sua?”

“Coloquemos a situação de outra maneira, André, não se trata de trocar a sua segurança pela minha, eu sei que é completamente absurdo você bancar o herói por causa de uma mulher que você mal conhece. Você deve entrar lá porque tem três bons motivos pra isso.”

Ela fez uma pausa, estratégica. Rosália dominava bem certas artimanhas do discurso, sabia que estavam todos esperando sua fala, sabia que era ela quem distribuía as cartas naquele momento.

“Primeiro, é lá que está o filho do seu cliente. Se você não salvar o menino, se não conseguir tirá-lo de lá ou, pelo menos, provar ao pai que o Pedro foi sequestrado pelos bandidos contratados pelo Murilo, você, além de não receber um centavo dos seus honorários, ainda corre o sério risco de levar uns tiros.”

Senti um calafrio.

“Como podemos ter certeza de que Pedro está lá?”, o Gordo perguntou.

“Não podem. Posso mostrar a vocês o diário do Murilo. Ele diz que sequestrou o filho único do Montenegro, que o garoto foi muito bem preparado e conseguiu chegar à final do campeonato, mas vocês, evidentemente, podem duvidar da autenticidade do diário, podem alegar que eu mesma forjei essa prova falsa. Então não há como ter certeza, vocês têm que confiar na minha palavra. Além do mais, vocês mesmos já desconfiavam disso, de que o Pedro estivesse lá.”

Rosália estava certa, infelizmente. E havia ainda outra coisa: se o Pedro não estivesse lá, onde estaria? Não se tratava de preterir uma pista em função de outra. Não havia outra. Estamos numa enrascada, meu amigo, foi o que pude deduzir da expressão preocupada do Gordo ao olhar para mim.

“Segundo, você é um rapaz honesto, de bom coração, não suporta injustiça, violência, sobretudo..., ela olhou para Lívia, “sobretudo com aqueles que você ama.”

“Megera! Isso é chantagem! Chantagista!”, o Gordo gritou, batendo o copo com força na mesa.

Ele já começava a perder a linha e eu não podia deixar que isso acontecesse, precisávamos de toda a serenidade do mundo para poder sair daquele sufoco. Pedi que se acalmasse.

“Prossiga, Rosália”, falei.

“Sabemos que essa linda mocinha foi violentada ao participar desse campeonato maldito, e os culpados disso e da morte do Santoestão por aí, livres, gastando dinheiro, mandando e desmandando nesse país e, o que é pior, se preparando já para recrutar, como eles dizem, novos adolescentes para o próximo campeonato.”

Dessa vez foi Lívia quem se levantou e disse, alto:

“Ele não precisa me vingar. Por mim ele não entra naquele lugar é nunca, entendeu? Eu quero ele vivo!”

Estávamos todos à beira de um ataque de nervos. Nenhum de nós dormira bem naquela noite e a situação que se desenhava à nossa frente não era nada agradável, para ninguém. Mariana e, principalmente, Rosália aparentavam frieza, mas eu sabia que por baixo da máscara só havia tensão, e muita.

Puxei Lívia de volta ao sofá. Assim que ela sentou do meu lado segurei sua mão com firmeza e permanecemos assim, de mãos dadas.

“E o terceiro motivo?”, perguntei.

Rosália foi até a mesa, no centro da biblioteca, abriu uma gaveta, retirou uma maleta tipo 007, trouxe até onde estávamos. Afastou a bandeja com as bebidas e colocou a maleta sobre a mesinha. Retirou do bolso da calça uma pequena chave, enfiou na fechadura, rodou, digitou os números da combinação, ouviu-se o barulhinho, clic.

“Eis aí o terceiro motivo.”

A maleta estava cheia de dólares.

 

***

O Gordo olhava para os dólares como se olhasse para um alienígena. Nunca tinha visto, nem eu, tanto dinheiro junto. Vários pacotes.

“Quanto tem aí dentro?”, ele perguntou.

“Um milhão.”

Ficamos olhando a pasta, em silêncio. Rosália fez uma advertência:

“Desse total, você deve abater 250 mil.”

“Pra quê? Imposto de renda?”, o Gordo disse, num meio sorriso, nervoso.

“A aposta mínima, no campeonato, é de 250 mil dólares. Para entrar lá, André, você precisa apresentar pelo menos essa quantia. Noutras palavras, vou estar bancando a sua aposta, como Murilo planejava bancar a do amante. Você não precisa se preocupar em me devolver esse dinheiro, os 250 mil. Se perder a aposta, não tem problema.”

“E se ganhar...”, o Gordo quis saber.

“Se ganhar, o lucro é todo seu”, Rosália completou, olhando para mim.

Fiquei aguardando que Rosália continuasse, mas ela já havia terminado sua fala, agora cabia a mim dar uma resposta. Ela esperou por um instante ainda, os dólares em exposição, à nossa frente. Depois perguntou, fechando a maleta:

“Convencido?”

“Ele não vai”, Lívia falou, decidida.

“Calma”, eu disse, “fica tranquila, tudo vai acabar bem.”

O Gordo começou a andar pela biblioteca, tenso, agitado.

“Por que eu mesma não posso testemunhar? Vi tudo, participei do campeonato”, Lívia disse.

“É muita nobreza da sua parte”, Rosália respondeu, “mas você não tem provas. Não saberia exatamente onde aconteceu tudo, nem apontar as pessoas responsáveis. Se mais tarde você ainda quiser colaborar, gostaria muito que você prestasse seu depoimento, mas antes precisamos de provas concretas: fotos, documentos, nomes.”

“Vamos supor que eu aceite sua proposta, Rosália.”

“André!”, Lívia gritou, me olhando com raiva.

“E só uma hipótese.”

Lívia cruzou os braços e fez uma cara nada amigável.

“Supondo que eu aceite, como você acha que conseguiria entrar lá? O lugar deve ser uma fortaleza.”

“Não vou enganar você, André, todos sabemos que é arriscado, mas talvez não seja tanto quanto imaginamos. Murilo deixou a autorização com os selos dos três líderes e todas as instruções para o amante naquele envelope, inclusive com as senhas que ele precisaria usar, está tudo ali. O rapaz é apenas um pouco mais jovem que você, deve ter uns 23, 24 anos. Basta trocar as fotos, colocar uma foto sua no lugar da dele. Posso providenciar essa troca com a maior segurança. Não que eu tenha o hábito de falsificar documentos, entenda bem, mas sei quem pode fazer isso, e rápido.”

“Eu entraria no campeonato como se fosse o amante do Murilo Chaves.”

“Por que não?”, ela perguntou.

“Não deixa de ser engraçado”, o Gordo disse, “você de namorado daquela bicha velha safada.”

Mariana apanhou sua bolsa, abriu, tirou um envelope azul-marinho.

“São as instruções. Posso ler, André?”, ela perguntou.

“Pode.”

“Diz aqui que você, quer dizer, o garoto...”

“Esse merda não tem nome não, porra?”, o Gordo rosnou, encostado numa estante.

“Renato”, Rosália respondeu, tranquila, como se o Gordo tivesse feito a pergunta com toda a fineza do mundo.

Mariana retomou:

“O bilhete de Murilo diz, literalmente: pegar a Mercedes vermelha...”

“Mercedes vermelha?”, perguntei.

“Um dos carros do Murilo”, Rosália esclareceu, “imagino que Murilo tenha avisado à segurança do campeonato que seu convidado chegaria nesse carro.”

“Continuo?”

“Desculpa”, eu disse.

“Pegue a Mercedes vermelha, suba a Rio–Petrópolis até o Km 85. Entre à direita numa estradinha de terra e siga até o final. Você vai ver, à sua esquerda, o muro e os portões de uma propriedade particular. Introduza o cartão nº 1 no local indicado, ao lado do portão, e digite a primeira senha. Entre com o carro. Dois homens encapuzados vão recebê-lo. Deixe com eles a autorização, os documentos e o carro. Vão colocar uma venda nos seus olhos e você será levado até um helicóptero, que o conduzirá ao local onde vai acontecer a final. Chegando lá, outros dois homens encapuzados vão tirar a venda dos seus olhos e te levar até uma porta de aço, com uma pequena abertura. Insira o cartão nº 2 e digite a segunda senha. Caminhe pelo corredor até chegar a uma outra porta. Insira o cartão nº 3 e digite a terceira senha. Entre na sua suíte particular, de onde poderá assistir à grande final do campeonato. É da suíte que você vai fazer sua aposta. O casal nº 2 é o meu favorito, escolhi a dedo e preparei com todo cuidado aqueles pombinhos. Seja fiel, meu querido.”

Aquelas duas palavras no final me deram náuseas, vontade de vomitar ali mesmo, no tapete. O porco do Murilo Chaves chamava seu amante de meu querido, como Rosália havia me chamado. Palavras.

“Nada temos a temer, exceto as palavras”, eu disse.

“Como?”, Rosália perguntou.

“É o refrão de um romance”, respondi.

“Romance com refrão?”

“A aula de literatura pode ficar pra depois, minha senhora”, o Gordo interrompeu, “o que eu gostaria de saber é por que a senhora acha que vão deixar o André entrar naquele lugar. Sim, ele agora é Renato, convidado do Murilo Chaves, certo, mas o cara está morto, mortinho da silva! O André, ou Renato, é convidado de um defunto, porra!”

O Gordo se aproximou, botou cerveja no copo, bebeu. Apanhou do prato um punhado de camarões. Concluiu:

“E tem mais: o filme do cara está queimado lá dentro. O Renato vai entrar como convidado de um cara que é persona non grata no pedaço, com o perdão do meu latim. Quer dizer, além de defunto, mala! A senhora me desculpe, mas a última coisa que esse tal Renato vai receber dos seguranças é um beijo de boas-vindas.”

Rosália não se intimidou:

“Não se eles pensarem que Renato é o assassino de Murilo. Aí a situação se inverte, concorda? Estarão recebendo uma pessoa a quem, de certa forma, devem um favor. Não vão matá-lo, pelo contrário, vão querer saber dos detalhes, de como aconteceu tudo, qual foi o motivo do assassinato e, lógico, qual o motivo de o garoto ter comparecido à final, mesmo depois da morte do Murilo.”

“E como é que eles vão pensar que o garoto é o assassino, se não há pistas?”, perguntei.

“Quem disse que não? Vamos supor que até agora o porteiro do motel não tenha chamado a polícia, e tenho certeza de que não chamou, depois do dinheiro que dei a ele e do que prometi se ficasse de bico calado por algumas horas. Ligo pra ele agora e digo o que deve fazer, a versão que deve contar depois de chamar a polícia. A versão é essa: ele achou estranho o rapaz ter saído da garagem com o carro sem a presença do doutor, então subiu até o quarto, tocou várias vezes a campainha e ninguém atendeu. Preocupado, chamou os seguranças, que arrombaram a porta.”

“Mas você disse que usou a chave”, Lívia falou.

“Mas ninguém sabe disso. Quando saí, tranquei a porta novamente. O porteiro pode simplesmente chamar agora os seguranças, tocar várias vezes a campainha, pedir que arrombem a porta.”

“Mas a polícia”, o Gordo disse, “certamente vai desconfiar do fato de o Murilo Chaves ter sido assassinado de madrugada, o Renato ter saído de carro logo em seguida, e só agora o porteiro ter achado estranho.”

“Não há registro do horário de entrada ou saída da garagem, chequei isso”, Mariana falou.

“Ou seja, meu caro”, Rosália continuou, “ninguém pode provar que Renato assassinou Murilo e saiu logo depois. Pode ter ficado horas no quarto, dando um tempo maior, justamente pra não provocar suspeitas.”

O Gordo concordou. A perícia indicaria a hora provável da morte de Murilo mas não havia nenhuma prova da hora em que Renato deixou o motel, o que tornaria convincente a versão do porteiro.

Rosália concluiu seu plano:

“Portanto, o que temos é o seguinte. Um jovem, de aproximadamente 25 anos, entra no motel com o empresário Murilo Chaves. Horas depois, o jovem é visto saindo sozinho da garagem com o carro do empresário. O porteiro desconfia, manda arrombar a porta do quarto, entram, e lá está o ex-presidente do Flamengo, esfaqueado na banheira. Suspeito: o garoto, é claro. A polícia começa a investigar, a imprensa divulga o caso, mas não há foto do rapaz. Ninguém sabe quem é ele, quer dizer, quase ninguém.”

“Você está insinuando que os caras do campeonato vão deduzir que o convidado do Murilo Chaves para a final é o seu assassino”, eu disse.

“Claro que sim. Eles sabem que Murilo tinha um amante, e sabem que esse amante é o convidado. Quando souberem que o amante estava no quarto com Murilo quando ele foi assassinado, vão pensar, obviamente, que o convidado é o assassino.”

“E por que diabos o assassino do Murilo Chaves iria querer participar dessa merda de campeonato depois de ter matado o cara? Se fosse eu, fugiria pra bem longe”, falei.

“Se fosse você, André, que jamais seria capaz de matar alguém e, portanto, jamais saberia o que fazer depois”, Rosália falou.

“Ok, continua”, eu disse, querendo ver até onde aquela raposa iria chegar.

“Imagine a seguinte situação, hipotética. Renato não é um rapaz tão, como direi, tão correto como você. Suponhamos que tenha ambições, muitas ambições, e que Murilo já lhe tivesse contado sobre o campeonato, como funciona, quanto rende. Com um pouco de perspicácia, Renato perceberia que Murilo estava em baixa – só o fato de ter revelado a você aqueles segredos mostrava que estava em baixa – e que aquela seria a grande oportunidade de sua vida. Por que entrar como mero convidado?”

“Acho que sei aonde a senhora deseja chegar”, o Gordo atalhou, “esse Renato, hipotético, sabendo do campeonato através dos vacilos do Murilo Chaves, poderia ter planejado comparecer à final com um cartão de visitas: assassino do Senhor Preto. Isso poderia não dar em nada mas poderia, por outro lado, dar acesso aos outros dois líderes.”

“E por que ele iria querer ter acesso aos dois líderes?”, Lívia perguntou, ingenuamente.

“Poder, minha bela, poder e dinheiro, duas pequenas palavrinhas que movem o mundo”, Rosália respondeu, com irritante ar professoral, “estando mais perto dos líderes, ele contava ser convidado a ter uma participação maior no campeonato. Ter matado Murilo seria um cartão de visitas, como seu amigo disse, um pequeno agrado, um sinal de cooperação.”

“Mas não aconteceu nada disso! Vocês estão delirando!”, Lívia falou.

Rosália rebateu, fechando o círculo do seu raciocínio:

“Nós sabemos que não aconteceu, sabemos que Renato é apenas um ladrãozinho chinfrim, mas eles não sabem disso, e é bastante provável que raciocinem exatamente como nós acabamos de raciocinar. É bem provável que eles encarem a chegada do amante e assassino do Murilo ao campeonato com bastante curiosidade de conhecer o rapaz e ver se ele pode ser útil a eles futuramente, afinal é um garoto ambicioso, eles vão pensar, e completamente sem escrúpulos.”

“Dois pré-requisitos pra ser aceito no grupo”, o Gordo disse.

“Sem dúvida”, Rosália concluiu.