O Campeonato
Capítulo 7
Dona Cármen esteve em ação a noite toda. Só às cinco damanhã consegui pegar no sono. Às nove tocaram a campainha.
Era o síndico. Trazia a ata da última reunião do condomínio. Eu tinha faltado, como sempre. Jamais fui a uma reunião de condomínio. O síndico quis me entregar pessoalmente a ata porque pedia meu apoio para a solução do problema dona Cármen. O síndico era ex-militar, rígido, extremamente organizado, o prédio era o seu quartel, os moradores seus soldados, e quando tinha que trocar a fiação elétrica, ele dizia: tratemos do problema fiação elétrica, como já tinha dito o problema caixa d’água, o problema pintura dos corredores, o problema portaria. Agora buscava uma estratégia para resolver o problema dona Cármen.
“Você ouviu, essa noite?”, ele perguntou.
“Ouvi o quê?”
“A balbúrdia.”
Só um surdo não teria ouvido, ainda mais eu, que era vizinho de dona Cármen. Mas gostava dela e não gostava do síndico. Menti.
“Não, não ouvi nada.”
“Sorte sua, que tem sono pesado.”
Ele me mostrou a ata, dizendo:
“Veja bem, André, ontem tratamos do problema dona Cármen e a maioria votou por um adendo à lei do silêncio. Será proibido qualquer tipo de barulho, entenda-se: inclusive de origem sexual, no período de seis da tarde até doze horas do dia seguinte.”
Isto significava que dona Cármen só poderia dar seus gritos do meio-dia às seis, justamente no horário em que ela fazia suas visitas de caridade e ajudava na igreja. O síndico sabia disso, da dupla personalidade de dona Cármen. “De dia beata, de noite cortesã”, ele costumava dizer, “é o fim do mundo.”
Agora ficava estabelecido o novo horário de sexo de dona Cármen: meio-dia às seis. Nossa bela da tarde, pensei comigo.
Enquanto o síndico argumentava, fiquei pensando na cara de dona Cármen quando lesse a ata. Ele acabou, garanti que concordava plenamente com tudo. Sábia decisão, cheguei a dizer, antes de fechar a porta.
Depois abri novamente, só um pouco, o suficiente para poder observar o síndico tocando a campainha do apartamento de dona Cármen. Entregou a cópia da ata e começou o falatório. Enquanto falava, virou-se na minha direção e percebeu que eu espionava. Fechei a porta. Minutos depois ouvi a gargalhada de dona Cármen. O síndico escolhera o momento errado, àquela hora ainda era a cortesã que estava em cena.
Vesti uma roupa e desci. Fui até a banca da esquina. Nos principais jornais do dia algumas das fotos tiradas pelo Gordo estampadas na primeira página. A menos sensacionalista das manchetes dizia: Presidente do Flamengo entrega o cargo. Logo abaixo a explicação:
Ao tomar conhecimento das fotos comprometedoras que a imprensa divulgaria nas edições de hoje, mostrando-o com garotos
de programa numa boate gay de Copacabana, o presidente do Flamengo, Murilo Chaves, colocou o cargo à disposição da diretoria
do clube. A reunião extraordinária aconteceu no fim da tarde de ontem.
Dizia ainda que o vice-presidente também se demitira, em solidariedade ao Murilo Chaves, e que novas eleições seriam realizadas em breve.
Antes de subir, passei na padaria e comprei o de sempre.
Entrei em casa, acionei a secretária e ouvi o recado do Gordo: o Flamengo está acéfalo. Domingo é barbada. Saudações.
Era um código. Toda vez que ele terminasse uma mensagem com “saudações” significava que eu deveria retornar a ligação o mais rápido possível. O Gordo achava que meu telefone estava grampeado.
Mais dois recados. Na meia hora em que fiquei fora de casa três telefonemas. Minha vida começava a ficar agitada demais. Dois recados: Mariana, perguntando por mim, sem mais detalhes, Raquel querendo saber se poderíamos almoçar juntos.Nunca imaginei que um dia pudesse ter duas mulheres lindas ao mesmo tempo, aquilo estava me deixando um bocado confuso.
Liguei para o Gordo.
“Precisamos visitar o Santo ainda hoje”, ele foi logo dizendo.
“Eu já esperava alguma idiotice da sua parte, mas não pensei que chegasse a tanto.”
“Vamos na hora do almoço.”
“Fiquei de almoçar com a Raquel.”
“Desmarca. Você agora é um profissional.”
“Você nem sabe se o Santo ainda mora no mesmo lugar. Nunca mais tivemos notícia dele.”
“Vale a pena tentar. Não podemos é ficar de braços cruzados.”
“Mesmo que a gente encontre o Santo não vai adiantar nada, é tempo perdido, você sabe disso.”
“Chega de conversa-fiada, André, não posso ficar batendo papo com você no telefone. Me encontra ao meio-dia e quinze, em ponto, na estação do bonde.”
“É sua última chance, Gordo, se não der em nada, desistimos dessa bobagem de seita.”
“Combinado. Te espero lá.”
Desliguei.
O Santo e eu tínhamos estudado na mesma faculdade, quando da minha passagem relâmpago pela PUC, embora fôssemos de turmas diferentes, eu calouro, ele no último período. Nos conhecemos numa festinha, no campus, e ficamos amigos. Quando o pai dele morreu, o cara pegou sua parte na herança, abandonou o curso, a família e saiu pelo mundo pesquisando seitas. Esse tinha sido sempre o seu grande sonho. Eu não discutia, cada um sonha o que quiser, ele conseguiu a grana e foi embora.
Viajou por toda a Europa, África, Estados Unidos, Nepal, Índia, Japão. Voltou alguns anos depois, barbudo, magro,amarelo, e foi morar em Santa Teresa. Encheu o quarto de livros e bugigangas e se dizia doutor em Religiões Alternativas. Dava consultas, ganhou dinheiro. Era doido varrido, mas as pessoas confiavam nele. Depois sumiu, parece que andou metido em alguma confusão. Agora o Gordo encasquetava de ir atrás do cara.
Fui até a cozinha, preparei meu café.
Sabia que aquela visita não daria certo mas resolvi apostar no palpite do Gordo. Além disso, não queria almoçar com a Raquel porque não parava de pensar em Mariana desde a noite passada. Senti que era necessário manter um pouco de integridade se quisesse continuar lúcido no meio daquela parafernália em que tinha se transformado a minha vida. Decidido: se não paro de pensar em Mariana, não vou me encontrar com Raquel, falei comigo mesmo.
Arrumei a louça na pia. Depois me vesti e saí correndo de casa antes que Raquel aparecesse de repente e eu mudasse de ideia.
“Um belo dia pra passear de bonde”, o Gordo falou quando cheguei.
“Podíamos pelo menos ir de táxi.”
“Você está mal-acostumado, André. Faz de conta que é turista, relaxa.”
O bonde já estava saindo. Subimos.
Descemos no Largo do Guimarães. A casa onde o Santo morava era no alto de uma ladeira. Subimos a pé, o Gordo quase morrendo mas firme, era orgulhoso pra caramba.
O casarão estava um lixo, as paredes descascadas, o mato invadindo o jardim. Empurrei o portão de ferro, todo empenado.
“Não é possível que more alguém aqui”, comentei.
Subimos uma escadaria que dava na porta principal do sobrado. Bati. Ninguém atendeu. Bati outra vez.
“Já vai”, responderam lá de dentro.
Voz de mulher.
“Quer falar com quem?”, a garota perguntou, abrindo aporta.
Devia ter uns catorze, quinze anos. Cabelo castanho-claro, dividido ao meio em duas tranças que iam até a altura dos ombros, o rosto de traços finos, pequenos olhos azuis. Vestia uma bata transparente, alaranjada. Olhei para o Gordo e vi seus olhos vidrados nos seios da menina apontando redondos e durinhos sob a roupa.
“Queremos falar com o Santo, por favor.”
“Qual o assunto?”, ela perguntou, numa voz de tédio.
“Particular”, eu disse.
O Gordo não tirava os olhos da garota.
“Aqui não tem assunto particular, irmãozinho.”
“Viemos fazer uma consulta”, o Gordo finalmente abriu a boca.
“O Santo não dá mais consulta.”
Aquela pentelha já estava me dando nos nervos.
“Sou amigo dele, estudamos juntos na PUC, há muitos anos.”
Ela ficou me analisando, olhos nos olhos. Depois apontou um banquinho ao lado, na varanda.
“Vamos sentar ali.”
Fomos. No banco só cabiam duas pessoas. O Gordo sentou. Fiquei de pé, encostado numa pilastra de madeira, a menina ao meu lado, de cócoras, como se fosse uma índia. Suas coxas apareceram, brancas, bem torneadas. O Gordo arregalou os olhos, sem pudor.
“Seguinte”, ela começou, “o Santo agora está noutra. Não atende ninguém, não fala com ninguém, não ouve ninguém.”
“Nem você?”, o Gordo perguntou, com olhar de lobo.
“Só eu.”
Deu uma pausa e completou:
“De vez em quando.”
“E qual é a outra em que ele está agora?”, perguntei.
“Mapas.”
Eu e o Gordo olhamos um para o outro, sem entender. Perguntamos ao mesmo tempo:
“Mapas?”
“É isso aí, mapas”, ela disse, e ficou olhando na direção da baía de Guanabara, num olhar distante, perdido.
Era uma vista magnífica: a baía, o Pão de Açúcar, a ponte Rio–Niterói ao fundo.
Ficamos em silêncio, esperando. Quando pensei em dizer alguma coisa, ela ergueu o braço e fez um gesto circular na direção da baía, como se quisesse abarcar toda a paisagem:
“Incrível. Tudo isso cabe num pedacinho de papel. Incrível.”
O Gordo olhava na direção que a garota tinha apontado. Seus olhos brilhavam, estava comovido.
Ficamos um tempão ali, os três, calados, admirando a baía de Guanabara.
“O quarto dele fica no fim do corredor, é só subir a escada”, ela disse, sem se mover.
“Vamos”, eu disse, tirando o Gordo do transe.
***
“Isso aqui deve ter sido muito bonito”, comentei.
Estávamos no salão principal. Do lado de dentro o sobrado parecia pior do que visto de fora. Nenhum móvel, as paredes cheias de infiltrações, as tábuas do piso soltas ou apodrecidas, mais parecia um casarão abandonado. Apesar de tudo, o lugar não negava sua imponência.
“E era mesmo”, o Gordo completou.
“Como você sabe?”
“Já estive aqui antes, quando o Santo estava no auge.”
“Você nunca me contou isso.”
Subimos a escadaria. Fomos até o fim do corredor. Bati na porta do quarto.
“Pode entrar.”
Com muito esforço reconheci a voz do Santo. Parecia voz de velho. Quando entramos no quarto, o Gordo não conseguiu esconder sua surpresa:
“Porra!”
Era um quarto enorme. Nenhum móvel, a não ser uma grande mesa circular, cheia de papéis. Todas as paredes literalmente cobertas de mapas, de tal forma que não dava para saber de que cor haviam sido pintadas. Olhei o teto: a mesma coisa, mapas, vários mapas de diversos tamanhos, colados um ao lado do outro, um mosaico colorido, de impressionar.
“Dá uma olhada no chão”, o Gordo disse, me cutucando, “cuidado pra não pisar na Austrália.”
O piso era um imenso mapa-múndi. Meus pés estavam em pleno Oceano Pacífico.
“O que vocês querem comigo?”
O Santo estava encostado no parapeito da única janela do quarto, de costas para nós, olhando lá fora.
Me aproximei.
“Sou eu, o André, lembra de mim? Fomos da mesma turma, na PUC.”
O Santo se virou. Tinha trinta e poucos anos mas parecia ter cinquenta. Não me reconheceu. Viu o Gordo e abriu um largo sorriso:
“Velho amigo, há quanto tempo”, ele disse, caminhando na sua direção. Deram um abraço forte, de camaradas.
Eu estava boquiaberto. Os dois trocaram figurinhas por alguns minutos, falaram de coisas antigas, relembraram casos, como dois parceiros que não se veem há séculos. O Santo não era um místico estereotipado, como eu supunha depois daquele mistério todo que a garota fez na nossa chegada. Conversava com o Gordo como um cara normal, ria, estava contente em rever o amigo.
Fui até a janela e fiquei esperando.
O Gordo finalmente introduziu o assunto:
“E as pesquisas, parou?”
Ele ficou sério.
“Eu estava no caminho errado, irmão.”
“Errado por quê?”, o Gordo perguntou.
“Procurava respostas para os mistérios.”
“Como todos nós”, eu disse, me metendo na conversa.
O Santo continuou:
“Acontece que não há mistérios.”
“Não?”, perguntei.
“Não. Rodei meio mundo pesquisando pessoas que faziam perguntas, e buscavam respostas para essas perguntas. Sacrificavam animais, sacrificavam outras vidas, muitas vezes a própria vida. Nada disso tem importância.”
O Gordo sentou na Groenlândia. Parecia impaciente.
“O que vocês conhecem sobre os Essênios?”, o Santo perguntou de uma hora pra outra.
“Sobre quem?”, devolvi a pergunta.
“Essênios”, ele repetiu.
O Gordo deu de ombros. Eu não tinha a mínima ideia do que significava aquela palavra.
“E a história da vida de Cristo, vocês conhecem?”
“Desse eu já ouvi falar”, o Gordo respondeu.
“Bom, vocês devem saber que no período que vai dos treze aos trinta anos há uma lacuna na biografia de Jesus. O que se sabe é que ele teria passado esse período em retiro, meditando, assim como, noutro contexto, claro, e seis séculos antes, Siddharta Gautama teria se retirado do convívio com os homens até se tornar Buda, o Iluminado. Mas se o príncipe Siddharta permaneceu isolado durante o seu período de meditação, alguns estudiosos defendem a teoria de que Jesus não ficou completamente só durante os dezessete anos de retiro. Esteve com um grupo de judeus originários do Egito. Esses judeus eram justamente os Essênios.”
O Santo parou um pouco, para respirar e também, creio, analisar nossos rostos, ver se estávamos acreditando no que ele dizia.
Eu ficava imaginando aonde ele queria chegar com aquele discurso que tinha surgido assim do nada, sem pé nem cabeça. Ele continuou:
“Nos dezessete anos que passou no deserto, Cristo teria sido iniciado na doutrina desses judeus, e os estudiosos acreditam que a Igreja Católica silencia sobre o período para não dar créditos aos Essênios, de onde teria vindo boa parte dos preceitos católicos.”
“Um problema de copyright, pois não?”, o Gordo disse.
O Santo ficou pálido. Eu e meu assistente nos olhamos, por segundos. Tinha sido uma bela cartada a pergunta do Gordo. E, sem dúvida, a palidez do Santo e sua expressão assustada demonstravam que ele sabia de alguma coisa. Mas o danado se recuperou rapidamente, retrucando:
“Um dos segredos dos Essênios era saber lidar com o silêncio.”
O Gordo entendeu o recado. O Santo continuou, suas faces voltando à cor normal:
“Falavam muito pouco, apenas o estritamente necessário. Para eles, a voz humana era detentora de grande poder e jamais deveria ser desperdiçada. Acreditavam que, através da voz, e de suas diferentes entonações, era possível curar doenças.”
Fez uma pausa. Ficamos os dois, eu e o Gordo, esperando a conclusão. Mas em vez dela veio outra pergunta:
“O que vocês sabem sobre a cabala?”
Não pude evitar uma expressão de desânimo. Tudo indicava que o Santo pretendia nos dar uma aula e essa era a última coisa que eu queria naquele momento, uma aula de maluquice.
“Sei que inspirou o Aleph, de Borges”, o Gordo respondeu.
“Aleph, a primeira letra. Vocês sabiam que para os seguidores da cabala existem vários nomes de Deus? E que esses nomes são tão sagrados que alguns deles sequer podem ser pronunciados, nem mesmo pelo sumo sacerdote?”
“Sei”, respondi.
O Gordo ficou me olhando, surpreso.
“Onde foi que você aprendeu isso?”, perguntou.
“Num dos romances do Kemelmam.”
“Qual deles?”
“Sábado o rabino passou fome, eu acho.”
“Não me lembro de ter lido nada disso em Sábado o rabino passou fome.”
“Então foi naquele outro, Sexta-feira o rabino acordou tarde.”
“Também não.”
“Quem sabe foi no Domingo o rabino ficou em casa.”
“Sem chance.”
“Então sei lá onde foi que eu li essa merda, porra!”
O Santo abaixou a cabeça. Pedi desculpa.
Ele andou um pouco pelo quarto, em silêncio. Depois perguntou:
“O que há de comum entre os Essênios e os Cabalistas?”
“A relação com a palavra”, respondi, “o respeito pela palavra.”
“Não, não é isso.”
“A resposta exata é: são todos malucos”, o Gordo disse.
O Santo não se deixou abater.
“Cético. O velho discípulo de Poe. Você continua o mesmo.”
Resolvi acabar com a lenga-lenga:
“Olha, Santo, nós viemos aqui...”
“Ainda não terminei”, ele disse, me interrompendo, “o que há de comum entre as duas doutrinas é o mesmo que há entre todas as religiões, todas as seitas. É o que une visões tão diferenciadas quanto, por exemplo, a dos antigos druidas e a dos adeptos do templo de Set. Os druidas só realizavam seus rituais a céu aberto, erguendo os altares com pedras brutas, praticamente sem nenhum trabalho de lapidação, porque acreditavam que tudo que era tocado pelo homem tornava-se profano. Nenhum objeto, de qualquer espécie, nenhum objeto fabricado pelo homem adornava seus altares. O homem é um ser absolutamente inferior, acreditavam. Só através do sacrifício humano, e entendam sacrifício humano como a morte de homens e mulheres, às vezes crianças ou mesmo recém-nascidos, entregues como oferendas aos deuses, só através do sacrifício humano é possível o encontro com a divindade. Já os seguidores do templo de Set...”
O Gordo ficou de pé, eu também, começamos a rodar pelo quarto, vendo se o nosso amigo se tocava. Ele não se deu por vencido:
“Já os seguidores do templo de Set, a versão moderna do satanismo, não cultuam uma divindade, mas o Homem. Daí, por exemplo, não praticarem a magia branca, comum a muitas das religiões e seitas cristãs, magia na qual se diz ‘seja feita a Vossa vontade’, referindo-se à vontade divina. Preferem a magia negra, em que se pode dizer ‘seja feita a minha vontade’. Eles rejeitam qualquer submissão a um Deus supremo que trace o destino humano, assim como rejeitam a ideia de rebanho, de massa, de coletividade. Acreditam na supremacia do indivíduo sobre a natureza.”
Ele respirou, e então lançou a pergunta que eu já esperava:
“O que há de comum entre as duas doutrinas?”
Não respondemos.
“O que há de comum entre duas visões tão distintas, no tempo e na doutrina, quanto o templo de Set e o druidismo, é a mesma coisa que liga doutrinas tão díspares quanto, entre outras, o catolicismo, o islamismo e o judaísmo, ou o bramanismo e o budismo, ou ainda a alquimia, a maçonaria, a rosa-cruz e o vodu, e que pode ser resumida numa única palavra: representação. Quando um fiel entra numa igreja católica para receber das mãos do padre a hóstia, sabe que ali não está, em presença, o corpo e o sangue de Cristo, que aquilo é uma representação do corpo e do sangue de Cristo. O mesmo ocorre com todas as religiões. Não há doutrina sem ritual, e não há ritual sem representações. É por isso que eu digo a vocês, depois de tanto tempo buscando a verdade absoluta descobri que só há verdades relativas. Ou mais ainda, que não há verdades. Representações, é tudo o que há.”
O Gordo se encostou na parede, pensativo. Comecei a entender o sentido de tantos mapas. O cara não era completamente maluco, só meio maluco.
“Por isso desisti de viajar, como também desisti de me dedicar ao estudo das religiões, alternativas ou não. Tenho o mundo todo nesse quarto. Cada pedaço de chão, cada gota de mar, está tudo aqui, entre nós”, ele disse, com um brilho nos olhos, “e não apenas o presente como também o passado. Tenho mapas antigos, de lugares que na vida real já não existem, velhos territórios, velhas fronteiras já abolidas, está tudo aqui. Um mapa é a união perfeita de ciência e fantasia. É uma combinação de matemática, geografia, história e arte. Se vocês percorrerem todo esse quarto, se puderem reparar em cada detalhe, sem pressa, apreciando atentamente cada um desses desenhos do mundo, dos mundos possíveis, verão que um mapa é inesgotável, que ele vai além de seus próprios limites físicos. Um mapa é mais do que traços e cores, é história em movimento, é a própria história humana em movimento.”
E concluiu, solene:
“O importante, irmãos, o importante não é o Universo, mas a representação do Universo.”
Depois voltou para sua janela. Tive vontade de lhe perguntar por que gostava tanto de ficar vendo o mundo lá fora se o mundo inteiro estava dentro do seu quarto mas o Gordo se adiantou. Foi até ele, segurou seu braço.
“Você conhece essa representação?”, o Gordo perguntou, mostrando um desenho com o símbolo do copyright.
Dessa vez o Santo não conseguiu disfarçar, seu rosto ficou nitidamente transtornado, o peito ofegante, tive medo de que ele pulasse pela janela de repente.
“Conhece ou não?”
“Não é uma seita”, ele respondeu, a voz trêmula.
“É o quê, então?”, o Gordo insistiu.
“Não sei.”
Ele estava mentindo, qualquer imbecil poderia perceber que o Santo estava mentindo. Parti para o ataque, era tudo ou nada:
“Santo, isso é muito importante, dessa informação depende a vida de uma pessoa, um garoto de quinze anos, pense nisso.”
“Quinze anos”, o Gordo arrematou, falando quase no ouvido do Santo, “deve ter a mesma idade da sua amiguinha de olhos azuis.”
Ele tentava a custo se controlar.
“Sinto muito, realmente não posso ajudá-los.”
“Eu não disse que ele estava noutra?”, ela falou, surgindo de repente na porta do quarto.
A pequena guardiã, pensei comigo. Era tudo de que o Santo precisava para se recompor.
Ele deu um abraço no Gordo, depois me abraçou também.
“Voltem quando quiserem, a casa é de vocês.”
O Gordo ainda ensaiou uma fala mas o Santo já tinha se virado de costas novamente. A garota ficou ao lado da porta aberta, de cabeça baixa, assoviando uma musiquinha qualquer.
“Hora de ir embora”, eu disse.
Saímos, descemos a ladeira até a estação. O bonde chegou, subimos. Tudo isso sem dizer palavra. Havia um cansaço enorme em torno de nós.
Quando passávamos sobre os Arcos da Lapa, o Gordo falou:
“Convenhamos, não foi tempo perdido.”
“Concordo.”
“Já sabemos que o círculo com a letra dentro significa alguma coisa. E mais: alguma coisa importante.”
“Eu sei.”
Novo silêncio.
O Gordo fez a pergunta que eu queria fazer:
“Você está com medo?”
“Estou.”
“Eu também.”
***
Quando cheguei ao meu prédio, o porteiro disse:
“Aquela moça quer falar com você.”
Era Kate, no velho sofá da portaria. Assim que me viu ela se levantou, nervosa.
“O que foi?”, perguntei.
“Podemos subir?”
“Claro.”
Subimos. Ao entrar em casa, me arrependi de não ter deixado o certificado do meu curso de detetive pendurado no prego. Queria impressionar a namorada do filho do meu cliente, como se não houvesse coisa mais séria com que me preocupar.
“Bebe alguma coisa?”
“Um refrigerante, se tiver.”
“Serve um mate?”
“Serve.”
Fui até a cozinha, trouxe um mate gelado.
“Obrigada.”
Kate deu um gole, sua mão tremia. Abriu a bolsa, retirou um envelope, me deu.
“Chegou ontem. Deixaram na portaria do prédio.”
Sentei ao lado de Kate, no sofá. Abri o envelope. Era uma foto do Murilo Chaves.
“Só isso?”
“Não, atrás.”
Virei a foto. Tinha uma frase escrita em letra de forma:
SEU NAMORADO CORRE RISCO DE VIDA. ESTE HOMEM SABE ONDE ELE ESTÁ.
“Quem deixou isso na sua portaria?”
“Não sei, o porteiro só disse que era um homem de terno e parecia segurança.”
“Isso não ajuda muito.”
Ela começou a chorar. Tentei acalmá-la.
“Você disse que deixaram o envelope ontem.”
“Foi.”
“E por que não me procurou antes?”
“Quis falar com o Montenegro primeiro.”
“E o que ele disse?”
“Ele não quis me receber.”
“Não quis te receber? Mas você não falou que era urgente, que era sobre o Pedro?”
“Ele não gosta de mim. Liguei pro escritório, mandou a secretária dizer que estava em reunião.
Fui até a casa dele, a empregada mentiu, disse que ele tinha saído.”
“Por que ele não gosta de você?”
“Acha que sou muito, como é que se diz, ele usou uma palavra... frívola, ele disse ao Pedro que eu era muito frívola. Eu nem sabia o que significava isso.”
“O Pedro te contou que o pai dele te chamou de frívola?”
“Não existia, quer dizer, não existe segredo entre nós, o Pedro sempre me conta tudo. E tem mais uma coisa: o Montenegro acha que estou a fim do dinheiro dele.”
“E está?”
Kate se ofendeu.
“Claro que não!”
Me pareceu sincera, talvez soubesse fingir bem. Estava mais calma.
“O que o senhor vai fazer?”
“Não me chame de senhor, não sou tão velho assim.”
“Desculpa.”
“Tudo bem.”
Não estava tudo bem, eu já andava me sentindo meio velho mesmo mas daí a me chamarem de senhor era foda. Só faltava me chamar de tio.
“Escuta, Kate, precisamos agir rápido. Já estou investigando esse sujeito, eu e meu assistente.”
“Você tem um assistente?”
“Tenho.”
“Uau! Parece coisa de filme!”
“Parece mas não é. O caso é sério, entendeu?”, eu disse, irritado.
Ela fez cara de choro. Fiz cara de bravo. Ela entendeu e não chorou.
“Eu e meu assistente estamos na cola desse sujeito. Desconfiava dele, agora tenho certeza.”
“Mas e aí, o que você vai fazer? Chamar a polícia?”
“Não. Deixa comigo, você pode ir.”
Levei-a até a porta.
“Como é que eu saio daqui?”
“Não entendi.”
“Como é que eu volto pra minha casa?”
“Onde você mora?”
“São Conrado.”
“Vou te levar até um ponto de táxi.”
Descemos. O porteiro ficou me olhando esquisito. Há dias eu estava com a impressão de que ele me espionava. Raquel deve ter dado uma grana a ele, pensei.
Caminhei com Kate até o ponto de táxi, na esquina. Ela usava um short apertado e curtíssimo, realçando sua bunda perfeita, e uma camiseta que deixava à mostra a barriguinha bronzeada. Enquanto andávamos, três caras mexeram com ela: gostosa, tesão etc. Fiquei puto. Kate não era minha namorada nem nada mas os caras não sabiam disso, então era como se estivessem mexendo com minha mulher. Fiquei puto.
Ela entrou no táxi.
“Qualquer novidade, me liga.”
“Claro”, ela disse.
***
Fui até um orelhão. Queria falar com Mariana mas ninguém atendeu. Liguei para o Gordo, não tinha chegado ainda. Já era para ele ter chegado à livraria, onde é que o irresponsável tinha se metido? Tentei Raquel. A empregada disse que ela estava na academia.
“Saco!”, eu disse, alto, batendo o fone no gancho. A velha atrás de mim se assustou.
“Não consigo falar com ninguém!”
“Tenta mais tarde”, ela disse, ainda assustada.
Um carro parou perto de mim. Do banco de trás um homem abaixou o vidro. Era o Montenegro.
“Entra”, ele disse.
Fiquei parado.
“Não temos o dia inteiro, meu filho.”
Eu não era o filho dele, porra!
“Não sou seu filho”, gritei.
“Entra assim mesmo.”
“Merda”, eu disse, entrando no carro.
O motorista arrancou, cantando pneu.
“Bom trabalho”, Montenegro falou, já me oferecendo uma cerveja. O crápula tinha colocado cerveja no barzinho do carro.
“Não fui eu que fiz as fotos”, rebati, recusando a cerveja.
“Eu sei. Bom trabalho assim mesmo.”
Como é que ele sabia?
Tirou do bolso um cartão e me deu. Li: Valdo Gomes, alfaiate.
“Alfaiate?”
“Justamente. Vou deixar você lá. O Valdo vai lhe arranjar um terno.”
“E pra que vou precisar de um terno?”
“Você não pode ir à festa do Murilo Chaves de jeans e camiseta, concorda?”
“O Murilo Chaves vai dar uma festa?”
“Hoje à noite, numa mansão no Alto da Boa Vista.”
Tirou do bolso do paletó um convite, com meu nome impresso.
“Com direito a acompanhante”, ele completou.
Fiquei segurando o convite.
“Seria muito trabalhoso da sua parte me explicar o que está acontecendo?”, perguntei, sem esconder a irritação.
“Vou ser breve, não tenho muito tempo. Logo depois da reunião da diretoria do Flamengo, ontem, quando soube que seria manchete dos jornais de hoje, o Murilo acionou seus contatos e conseguiu organizar às pressas uma pequena recepção. Convidou alguns diretores de jornal e televisão, e políticos influentes.”
“Mas pra quê?”
“Fachada, meu caro, pura fachada. É uma recepção de apoio ao Murilo. Pode apostar que na segunda-feira todas as colunas sociais vão dar espaço pro canalha.”
“E por que me convidaram?”
Ele deu um riso cínico.
“Não te convidaram. Eu consegui colocar seu nome na lista.”
Nem adiantava perguntar como o Montenegro tinha conseguido um troço desses.
“Tem uma coisa que eu realmente não consigo entender”, arrisquei.
“Diga.”
“Por que é que o senhor, com tantos poderes, tanta influência, ainda precisa de mim?”
“Fizemos um trato, André. Só eu sei por que preciso, e muito, de você. Não se preocupe com meus métodos, faça o seu trabalho. Estou lhe pagando mal?”
“Não, não é isso.”
“Dois mil. Hoje você vai receber dois mil, uma pequena compensação.”
Fiquei calado.
“Você se importa se eu fizer um cheque em reais?”
“Imagina.”
Ele tirou o talão de cheques. Preencheu ali mesmo, na minha frente. Enquanto o Montenegro preenchia o cheque eu sentia um frio na barriga e uma saudade imensa do tempo em que meu único problema era ser mandado embora do emprego.
Colocou o cheque num envelope.
“O Valdo Gomes é muito bom, você vai gostar dele. O ideal seria fazer um terno novo, sob medida, mas não vai dar tempo.”
“Por que não posso comprar um terno pronto, numa loja?”
“Porque você não saberia fazer isso.”
Não mesmo.
“Jamais usei um terno em toda a minha vida.”
“Depois que vestir um, não vai querer usar outra coisa.”
“Duvido.”
Ele passou a mão na minha cabeça, como se faz com um filho adolescente.
Fiquei comovido, outra vez. Meu pai não era de muitos carinhos, mas de vez em quando fazia aquele gesto de passar a mão na minha cabeça, bagunçando meus cabelos. Senti muita falta do velho.
Montenegro me deu o envelope. Guardei no bolso da camisa, com a sensação de que guardava um punhal.