O Campeonato
Capítulo 17
“Eu não quero esse dinheiro, André, você sabe muito bem que não estou interessada nisso!”
Mariana estava furiosa. Como sempre, falei demais.
“Perdão, não quis te ofender.”
Ela ignorou o meu pedido de desculpas.
“Vou providenciar o equipamento. Não demoro. E não deixem essa delinquente quebrar nada.”
O telefone tocou. Fui até a mesinha, num canto, atendi. Era Rosália. Não, sem novidades, Mariana saiu, volta logo, não, não sei aonde foi. Não precisa, você pode ficar aí na sua casa mesmo. Eu queria desligar de uma vez, a voz daquela mulher ficava ainda mais irritante ao telefone. Ela me perguntou se eu já tinha dirigido uma Mercedes. Lógico que não, respondi. Rosália disse que passaria por lá no dia seguinte, eu precisava conhecer melhor o carro. Respondi que sim, desliguei o telefone.
“Você sabe dirigir, André?”, Lívia perguntou.
“Acho que sei.”
“Acha? Sabe ou não?”
“Ele sabe mas não tem prática”, o Gordo entregou.
“E como você queria que eu tivesse prática? Nem carro eu tenho, cacete!”
“Mais essa agora! Você vai subir a Rio–Petrópolis, já pensou nisso? Vai subir aquela estrada toda torta e nem dirigir direito você sabe!”
Não retruquei, não tinha nada a dizer.
“Sinceramente? Vocês querem saber o que eu acho? Eu acho que vocês não existem, pronto, descobri isso agora: vocês não existem! Tudo isso é um pesadelo, eu vou dormir e quando acordar vocês vão ter sumido da minha vida”, Lívia falou e em seguida deitou sobre a mesa de sinuca, empurrando as bolas para as laterais.
A princípio pensei que fosse um brincadeira, que ela fosse se levantar logo em seguida. Mas não, virou de lado, ajeitou as mãos sob a cabeça, fazendo as mãos de travesseiro, e em poucos minutos estava dormindo.
“Como foi que ela conseguiu?”
“Ela está exausta, Gordo, vamos sair daqui.”
“Não é melhor levá-la pra cama?”
“Ela está bem. Além disso, não pode dormir o dia todo. Já pensou se precisarmos sair do apartamento às pressas?”
“Já, já pensei, mas espero que seja apenas uma suposição.”
Fechei as cortinas. Peguei uma almofada e coloquei sob a cabeça de Lívia. O Gordo juntou os copos e as taças na bandeja e saímos, em silêncio. Antes de fechar a porta, desliguei as luzes do salão.
“Sabe de uma coisa, André?”
Ele não esperava que eu respondesse, era apenas uma pergunta retórica. Continuou:
“Pensei nisso agora. Se cada um dos três líderes leva o seu próprio casal de virgens pro campeonato, e se apenas dois casais ficam pra final, isso significa que um dos líderes dançou.”
“Lógico.”
“Quem você acha que ficou de fora?”
Pensei um pouco.
“O Senhor Branco.”
“Por quê?”
“Porque foi ele quem levou Lívia e o parceiro. Como Lívia fugiu, e ele não deve ter tido tempo de arranjar uma substituta, os organizadores devem ter decidido que o segundo colocado assumisse o lugar de finalista, desclassificando o casal do Senhor Branco.”
“De acordo. Esse tal Senhor Branco tem todos os motivos pra estar puto da vida, convenhamos. Nossa amiguinha espevitada deixou o cara no chinelo, sem pai nem mãe. Quem diria, o grande empresário, o grande corrupto, o fodão, enganado por uma menina de quinze anos que a essa hora tira um cochilo em cima de uma mesa de sinuca.”
“É como eu digo sempre: a vida não tem a mínima lógica.”
“Estou começando a concordar com você.”
Me recostei no sofá e fiquei vendo os quadros na parede. Pinturas abstratas. Fixei meus olhos numa das telas, olhando sem ver, meu pensamento vagueando por outros lugares, longe dali.Estava cansado. Fechei os olhos e tentei dormir. O Gordo não deixou:
“André, você acha que o Senhor Branco pode ser o Montenegro?”
Respondi, de olhos fechados:
“Claro que não. Se fosse ele, Lívia não estaria mais com a gente. Montenegro sabe que ela está sob minha proteção.”
“Proteção, sei.”
Adivinhei que essa última frase vinha acompanhada de um risinho debochado. Fiz que não tinha ouvido. Ele retomou o assunto:
“Se não é o Montenegro, quem pode ser?”
Senti que não conseguiria dormir. Abri os olhos e me endireitei no sofá.
“O Senhor Branco é o Epifânio de Morais Netto”, eu disse, convicto.
O Gordo se levantou, foi até uma das paredes da sala, ficou observando uma das telas, longamente.
Voltou, sentou à minha frente, calado. Brincava com um cinzeiro, mudando-o de lugar sobre a mesa. Tinha no rosto uma expressão que eu conhecia muito bem, sabia que ele estava seguindo alguma linha de raciocínio e estava prestes a descobrir algo importante. Esperei.
“André”, ele disse, finalmente.
“O que foi?”
“Acabo de chegar a uma hipótese nada agradável.”
“Diga.”
“Mas veja bem, é só uma hipótese, promete que não vai ficar preocupado.”
“Fala de uma vez, Gordo.”
“Se o Epifânio é o Senhor Branco, é ele quem está atrás da Lívia, de acordo?”
“De acordo.”
“Suponhamos que ele não saiba onde a Lívia está, mas saiba que ela está com você.”
“Por que ele saberia disso?”
“Ele deve ter colocado meio mundo atrás dessa garota, e certamente descobriu alguma coisa. E tem mais: suponha, por exemplo, que ele torturou o Santo, antes de matá-lo. O Santo sabia que Lívia estava com você, não sabia?”
“Ela me disse que não, que tinha prometido a ele procurar um hotel pra passar a noite.”
“Tudo bem, mesmo que ela estivesse te dizendo a verdade, tudo bem. O Epifânio não ia se contentar com essa informação, é claro. Ia forçar o Santo, tinha todos os meios pra isso. O bandido pode ter conseguido que o Santo abrisse o bico e dissesse que tinha sido procurado recentemente por dois rapazes que estavam atrás de informações sobre o grupo copyright. Nessa hora o Santo teria dado nossos nomes, e as descrições físicas.”
“Você acha que ele seria capaz de fazer uma sacanagem dessas? De entregar você, que era tão amigo dele?”
“Caramba, André, o cara deve ter sido torturado. Já imaginou o que é ser torturado?”
“Mesmo sabendo nossos nomes, como o Epifânio iria nos encontrar?”
“Não é possível que acabei de ouvir essa pergunta. Concentração, meu amigo, por favor! Você não era cliente do homem? Não tinha ido várias vezes na clínica dele?”
Nem respondi. O Gordo continuou:
“Supondo que meu raciocínio esteja correto, o Epifânio foi atrás de você, no seu apartamento. Tinha seu endereço na ficha dele, não tinha?”
“Lógico.”
“Pois é, ele pegou o endereço e foi até o seu apartamento. Mas você não estava lá, nem Lívia, nem ninguém. O que você acha que ele fez então?”
Comecei a entender finalmente aonde o Gordo queria chegar.
“Você colocou o nome do Augusto na sua ficha, André?”
Senti um calafrio.
“Coloquei.”
Olhamos um para o outro, por instantes.
De repente me levantei do sofá e corri até a mesinha de telefone. O Gordo tentou me impedir:
“Você não vai ligar pro Augusto. O telefone dele deve estar grampeado, vão descobrir que estamos aqui.”
Hesitei. Eu precisava falar com meu irmão, saber como ele estava, avisá-lo do perigo que corria, mas de fato não era nada seguro ligar pra casa dele. Fiquei com o aparelho na mão, indeciso, sem saber direito se ligava ou não.
“Quer saber de uma coisa, Gordo? Vou ligar. É o meu irmão, vou ligar.”
“Você vai estar arriscando nossas vidas, e a de Lívia.”
“Não vou não. É claro que tem gente do Montenegro vigiando o prédio, ele não ia deixar que o Epifânio se aproximasse daqui, o Montenegro precisa de mim, esqueceu?”
“É, mas se o Epifânio descobre que sua namoradinha atiradora de dardos está aqui, vem com tudo pra cima de nós. Vai ser uma guerra.”
Continuei com o telefone na mão.
O Gordo cedeu, no fundo ele também queria saber do Augusto.
“Certo, liga logo pro seu irmão. E seja o que Deus quiser.”
Liguei. Minha cunhada atendeu. Saco!
“O Augusto está?”
“Quem quer falar com ele?”
Ela sabia que era eu, mas sempre que eu ligava e ela atendia fazia esse teatrinho barato. Eu odiava aquela mulher.
“É o André.”
“O Augusto viajou.”
“Viajou quando? Pra onde?”
“São Paulo, a trabalho. Faz uma semana.”
Tapei o bocal do aparelho. Falei com o Gordo:
“Viajou.”
Voltei a falar com ela:
“Quando é que ele volta?”
“Não sei. Mais alguma pergunta?”
Mulher irritante.
“Alguém ligou pra mim?”
“Sim, ligaram. Uma moça ligou, da parte do doutor Epifânio de Morais Netto.”
“Quando?”
“Não sei dizer com certeza.”
“Hoje? Ontem? Anteontem?”
“Não, tem alguns dias já.”
“E o que ela queria?”
“Queria saber de você. Disse que era a segunda vez que estava ligando. Já tinha falado com o Augusto.”
Meu irmão havia me contado que ligaram para ele da clínica, mas isso foi antes de eu ter encontrado Lívia.
“Ela queria saber por que você não apareceu mais na clínica. Eu disse que nem sabia que você tinha sido internado...”
“Eu não fui internado.”
“Hum.”
“Só isso?”
“Ela queria saber onde é que você poderia ser encontrado.”
“E o que foi que você respondeu?”
“A verdade: que eu não tinha a mínima ideia de onde o vadio do meu cunhado pudesse estar.”
Ela sabia muito bem que eu odiava que me chamassem de vadio. Eu preocupado com sua vida e ela me respondia com ofensas. Pior é que nem podia replicar, precisava me manter calmo, alertá-la do perigo que estava correndo, o Epifânio podia tentar alguma coisa contra ela ou contra os meus sobrinhos.
“Você precisa sair daí.”
“Ficou maluco?”
“Não dá pra explicar agora. Pega as crianças e sai logo daí, entendeu? Vocês têm pra onde ir?”
“Que tal a Disneylândia?”
“O quê?”
“Estamos de saída, André, vamos viajar, de férias. Você acredita que as crianças não conhecem a Disney até hoje? Não é um absurdo?”
“É brincadeira ou você está falando sério?”
“Preciso desligar, vou acabar perdendo o voo.”
Ela não estava brincando. Merda! Eu não precisava ter feito papel de bobo, eles já estavam saindo de casa. Me senti o próprio Pateta.
“Escuta bem, presta bastante atenção. Vocês estão correndo perigo, não atenda mais o telefone, e leva o segurança com vocês, ouviu, leva o segurança na viagem, não esquece.”
“Você não regula bem, André, não mesmo.”
“É sério, por favor, eu...”
Desligou na minha cara.
Coloquei o telefone de volta no gancho.
“E então?”, o Gordo perguntou.
“Parece que está tudo tranquilo, pelo menos por enquanto. Não conseguiram falar com o Augusto depois que eu saí do apartamento. Ele já tinha viajado. Falaram com minha cunhada, mas ela não sabia de nada.”
“O fato de terem telefonado pra casa do Augusto te procurando, justo nos dias em que você sumiu do seu apartamento, prova que o Epifânio está mesmo atrás da Lívia.”
“E se ele estivesse apenas querendo saber se eu continuaria ou não o tratamento?”
“Ora, mas pra isso a secretária dele já tinha ligado antes. Não ligaram pro Augusto antes, pra saber por que você tinha sumido? Pelo menos foi o que você me disse, não foi?”
Concordei.
“A verdade é que a nova informação que sua cunhada nos deu vem apenas comprovar a minha hipótese inicial”, o Gordo arrematou.
“Qual hipótese?”
“O Senhor Branco é o Epifânio de Morais Netto.”
Eu não estava acreditando.
“Você está me dizendo que essa hipótese é sua? Que foi você quem pensou nisso primeiro?”
“Não?”
“Claro que não!”
“Ok, sem polêmicas.”
Me joguei no sofá, coloquei uma almofada sob a cabeça e virei de lado. Queria dar um tempo, parar de raciocinar por alguns minutos, pelo menos, mas não deu: um pensamento me atravessou pela frente feito um foguete.
“Gordo, e a Raquel?”
Ele arregalou os olhos.
“Quem?”
“A Raquel está envolvida com esse bandido, você esqueceu?”
“E ela sabe onde você está?”
“Não, mas...”
“Ela sabe onde a Mariana mora?”
“Não, não sabe.”
“Então qual é o problema?”
“O problema é que ela também pode estar correndo perigo, caramba! Já pensou nisso?”
“Não vai acontecer nada com a Raquel, não se preocupe.”
“Como você pode ter tanta certeza?”
“Sinceramente, André, certeza certeza eu não tenho. A única coisa absolutamente certa no momento é que nós já temos problemas demais pra ficar arranjando mais um. A Raquel se vira, não é nenhuma otária. Além disso, o Epifânio vai perceber logo que ela não sabe de nada.”
“Mas ele pode matar a Raquel, Gordo!”
“Pode, mas não deve. Ele não vai sair matando todo mundo assim, caramba! Calma lá, o Epifânio é um canalha mas não é burro, tem uma imagem a preservar, e a Raquel apareceu ao lado dele no jornal, lembra?”
Claro que eu lembrava.
“Então, se a garota de uma hora pra outra aparece morta, a polícia pode desconfiar dele, o cara não iria se arriscar à toa.”
“Não sei não.”
“André, meu amigo”, o Gordo falou, se aproximando de mim, “o Augusto a essa hora está numa boa, ganhando dinheiro dos paulistas. A Raquel, aliás, sua ex-namorada, deve estar curtindo uma praia, tomando um chopinho etc. e tal. Só quem está sofrendo é você, percebeu?”
“E o que você quer que eu faça?”
“Relaxa, meu caro, relaxa.”
“Falar é fácil, não é você que vai estar lá.”
“Faz de conta que você está se preparando pra ver a final de uma copa do mundo no Maracanã.”
“Só se for Brasil e Uruguai, 1950.”
“André, sabe qual é o seu problema? Você é muito pessimista.”
“Pessimista, eu?”
“Pensa o que você vai estar vivendo, meu camarada. Uns caras doidões leram um conto do Rubem Fonseca e resolveram fazer tudo aquilo virar real, esses riquinhos de merda, três bobalhões, leram o conto e bolaram um campeonato de conjunção carnal entre virgens, cara, dá pra alcançar a dimensão da maluquice? E o pior é que conseguiram! E agora você está prestes a presenciar isso, a concretização de uma obra de ficção do seu ídolo!”
“Eu não tenho ídolos.”
“Tudo bem. Mas que é uma oportunidade e tanto, convenhamos, isso é.”
“Seria, se o risco de levar um tiro não fosse real.”
“Se não fosse real não teria graça, seria o mesmo que ver televisão.”
“Juro que eu preferia.”
“Você não sabe dar valor ao que tem.”
“Você não pode estar falando sério, Gordo.”
“Claro que estou falando sério. Quando esta zorra acabar, você vai ser o único que presenciou tudo e voltou pra contar a história. Vai poder escrever um livro, já pensou nisso, seu nome na capa de um livro, André?”
“Não gosto de escrever, você sabe. E estou muito velho pra começar.”
Ele coçou o queixo, pensativo.
“É, talvez seja verdade. Mas talvez não. Você sabia que Hammet tinha quarenta e seis anos quando criou Sam Spade?”
“Isso quer dizer que tenho ainda vinte anos pra pensar na sua proposta.”
“É um tempo razoável, não acha?”
Fiz uma pausa, enquanto matava a cerveja.
“Combinado. Te respondo daqui a vinte anos.”
“Toca aqui”, ele me disse, estendendo a mão toda suja de creme de leite.
“Caramba, como foi que você conseguiu se lambuzar desse jeito?”
Apertei a mão dele, depois nos abraçamos, demoradamente.
***
Caminhei até o aparelho de som. Vi um CD do Miles Davis, sua interpretação de “Porgy and Bess”, de Gershwin. Não entendo nada de música mas conhecia aquele disco. Tinha um no meu apartamento, foi parar lá por descuido do meu irmão, que ainda morava conosco e namorava na época uma estudante de música da UFRJ. A garota era linda, inteligente, bacana, e o bolha do meu irmão terminou com ela, o idiota do Augusto. Ela deixou o disco lá em casa uma noite, ele ficou enrolando com esse disco uma semana sem dar a mínima bola, depois despachou a namorada. O disco acabou esquecido num canto do quarto, onde um dia o achei e coloquei para tocar. Fiquei arrepiado, nunca tinha ouvido nada parecido com aquilo.
Um dia encontrei a ex-namorada do Augusto numa rua de Copacabana, usando uma blusa branca, de malha, e uma saia estampada, me lembro até hoje, o cabelo curto, liso, preto, ela carregando o estojo com a flauta transversa, eu a convidei para tomar um chope num daqueles bares de calçada em frente à praia, ela aceitou.
Tive que beber pouco, estava duro, como sempre, mas ainda assim conversamos bastante, e descobri que estava perdidamente apaixonado por ela. Ela me perguntou do disco, se ainda estava lá em casa, respondi que sim, claro, comigo, tinha adorado, ela disse que então eu poderia ficar com ele. Perguntei se ela gostava mesmo do Augusto, ela respondeu: um pouco, e de mim, perguntei, ela disse que estava começando a descobrir que gostava de mim, era verdade, ela disse, eu era um cara bem interessante, então perguntei se podia lhe dar um beijo na boca, ela disse não, se levantou, foi embora, nunca mais a vi.
Agora o disco estava ali. A ex-namorada do Augusto não estava por perto mas senti sua presença enquanto acariciava a caixinha e pensava no que teria sido da minha vida se naquela tarde, no bar em Copacabana, ela tivesse dito sim. Poderia estar casado com ela, com filhos, morando numa cidade do interior, quem sabe de praia, tudo teria tomado um rumo completamente diverso do que tomou se aquela minha musa tivesse dito sim, pode me beijar na boca.
Tirei os sapatos, deitei no tapete, com uma almofada de travesseiro. Depois de algumas notas introdutórias da percussão, o som do trompete de Miles Davis invadiu a sala.
Fechei os olhos. Queria não pensar em nada, queria ser um monge budista, um monge budista que gostasse de meditar deitado no sofá ouvindo Miles Davis, mas era apenas eu mesmo, André, a cabeça cheia de álcool, o corpo cansado.
“André”, o Gordo chamou, me despertando.
Continuei de olhos fechados, ouvindo a música.
“Hum.”
“Por que Mariana resolveu ser detetive?”
“Por que você não pergunta pra ela?”
“Porque ela não vai me responder.”
“É, não vai mesmo.”
“Quer dizer que você já perguntou?”
“Já.”
“Sem resposta, claro.”
“Claro.”
“Sabe de uma coisa? Acho que não devemos contar pra ela sobre a nossa suspeita.”
“Qual suspeita, Gordo?”
“O Epifânio ser o Senhor Branco.”
“Por que não?”
“É melhor não arriscar. Ainda não sei se podemos confiar nessa mulher.”
Novo silêncio. A brisa do mar entrava pela janela, como uma dádiva. Era tudo de que eu precisava naquele momento: silêncio, uma boa música, a brisa soprando um pouco do mar.
“André.”
“Hum.”
“Você já parou pra pensar que esses canalhas gostam de ler a mesma coisa que a gente?”
Eu já tinha pensado nisso. Os filhos da puta eram fãs do Rubem Fonseca, como eu e o Gordo.
“E daí?”
O Gordo deu uma pausa, devia estar buscando uma resposta convincente. Eu mantinha os olhos fechados mas estava prestando atenção no que ele dizia, não estava com disposição para falar mas se ele quisesse me apresentar alguma das suas intrincadas teorias eu seria capaz de acompanhá-lo, ouvindo.
“Daí nada. Foi apenas uma constatação.”