O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 13 de 23

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O Campeonato

Capítulo 13

 

“Eu não sabia onde ela poderia estar. Sabia apenas o seguinte: os dois planejavam se mudar pro novo esconderijo, eu ainda não tinha certeza do motivo de estarem fugindo desse jeito mas imaginei que pudesse ter a ver com a máfia do Murilo Chaves, não era à toa que o Santo tinha mentido naquele dia, só podia ser porque estava com medo de dar com a língua nos dentes. Assim que levaram o Santo, desci até a Barão do Bom Retiro, aquela avenida principal, no Engenho Novo, você sabe qual é.”

“Sei.”

“Fui até a avenida e peguei um táxi. Voltei a Santa Teresa, precisava saber se Lívia ainda estava lá. Viagem perdida, obviamente.”

“Não me olha assim, não tenho culpa de nada. Ela é que foi me procurar.”

“Depois que virou detetive você anda comendo todas as mulheres lindas da cidade. Impressionante.”

“Continua, Gordo, quero ouvir o resto.”

“Será que não sobra nenhuma pro seu assistente?”

“Você não precisa disso, tem namorada.”

Ele deu a sua gargalhada clássica, acompanhada do murro na mesa que fazia voar chope para todo lado. O Gordo andava saindo com uma mulher misteriosa. Dizia apenas: uma amiga, estou saindo com uma amiga, mas eu sabia que não era amiga porra nenhuma. Daria tudo para saber quem era a nova namorada do Gordo.

Deixei que terminasse sua risada, o falso.

“Podemos continuar?”, perguntei.

Ele enxugou as lágrimas, tinha chorado de tanto rir. Voltou ao normal.

“Lívia não estava no casarão porque estava dormindo com você. Hoje de manhã ela foi me procurar na livraria.”

“Como ela sabia que você trabalhava lá?”

“Ela me disse que pegou o endereço na sua agenda. Você tinha dito que seu assistente se chamava Gordo.”

“E ela pegou minha agenda quando desci pra comprar pão.”

“Mais um vacilo. Você é mesmo um iniciante, meu caro. Um detetive jamais deve se separar de sua agenda, aprenda isso.”

“Continua.”

“Ela foi me procurar na livraria. Estava desesperada. Pedi licença ao gerente, ele viu que era coisa séria e me liberou. Fui com ela até o meu apartamento.”

“Ela já sabia da morte do Santo.”

“Já. Tinha ido ao encontro dele, como combinaram, mas não o viu quando chegou ao esconderijo do Engenho Novo. Não sabia o que fazer e pensou em pegar um ônibus de volta pro seu apartamento. No caminho viu a foto do Santo numa banca de jornal, e a notícia.”

“Preciso falar com ela, Gordo, vamos lá.”

“Sem pressa, por favor, ela deve estar descansando.”

“Com aquela barulheira toda do seu prédio, e da rua?”

“A garota estava exausta, André, deve estar no décimo sono agora. Além disso, ela não vai sair de lá. Tranquei o apartamento e trouxe a chave comigo.”

“Deixou alguma comida pra ela, pelo menos?”

“Com quem você acha que está falando, camarada?”

“Desculpa, você foi muito legal, de verdade.”

Brindamos, eu de chope, ele de caipirinha.

Voltou a chover. Chuva fina, diferente das chuvas de verão, a previsão dos jornais estava certa: frente fria.

“Ela te contou tudo?”, perguntei.

“Creio que sim.”

“Diga o que você sabe, pra gente ver se confere.”

O Gordo relatou toda a história que eu já conhecia. As informações batiam. Ou Lívia sabia mentir muito bem ou o que ela contara era mesmo verdade.

“Você acha que o Pedro pode ser um dos garotos?”

“Não sei, André, mas é nossa única chance. Se o Pedro não for um dos competidores, estamos perdidos, meu caro.”

“Tem razão. O Montenegro me deu um ultimato. Uma semana.”

“Você tem uma semana pra encontrar o filho do seu cliente? Que roubada. E ele disse o que vai acontecer se você não encontrar o garoto?”

“Não precisava dizer.”

O Gordo ficou alisando o forro da mesa, pensativo. Nós dois sabíamos muito bem do que o Montenegro era capaz.

“Gordo, se vai acontecer uma final, é claro que precisa haver um outro casal, outro finalista. Isso significa que houve, ou vai haver, uma outra disputa, com outros três casais e com um único vencedor. E, dedução lógica, se havia outra disputa, havia outros três garotos, além dos dois já mencionados.”

“Perfeito, detetive André.”

“Supondo que o Pedro esteja no outro grupo e não tenha sido o vencedor. Quer dizer, se ele estiver entre os perdedores, há duas hipóteses: ou conseguiu fugir, como Lívia, ou está morto.”

“Ou conseguiu fugir e foi capturado depois.”

“E eliminado.”

“Sim.”

“Sejamos objetivos”, eu disse, desanimado, “a possibilidade de o Pedro estar vivo é bastante remota.”

“É verdade, meu amigo.”

E completou em seguida:

“Sejamos mais objetivos ainda: você precisa entregar o menino vivo ao Montenegro?”

Não respondi na hora.

“Claro que não, André. A sua missão é encontrar o filho dele, se o filho estiver morto não é culpa sua. Assim, em vez de trabalharmos apenas com uma possibilidade: ele ter sido o outro campeão, e estar vivo, podemos trabalhar com esta e mais outra: ele ser um dos perdedores, e estar morto.”

Aquilo já era um pouco de objetividade demais. Apesar das palavras do Montenegro, eu ainda tinha esperanças de resgatar o Pedro vivo e entregá-lo ao pai dele. O Gordo me conhecia bem, sentiu que eu estava amolecendo.

“Você ainda não se tocou que não estamos lidando com esses personagens dos romances que a gente lê, André, acorda! É a nossa pele que está em jogo. Seria melhor que o garoto estivesse vivo, mas se estiver morto, sinto muito, temos que terminar nosso trabalho assim mesmo, entendeu?”

“E o que devemos fazer?”

“Tenho um plano.”

Estava demorando.

“Precisamos estar nessa final do campeonato de qualquer jeito. Mas escuta bem, não vamos entrar lá pra salvar ninguém, ouviu? Nosso objetivo é muito simples: saber o que aconteceu com o Pedro, se ele esteve lá, se continua lá, se foi eliminado e, nesse caso, onde está o cadáver.”

“Já entendi, Gordo. Não se preocupe, não vou bancar o herói, vamos atrás de uma informação, apenas isso.”

“Perfeito.”

“Agora me diga: como vamos entrar? Você não sabe nem onde vai ser a final, nem a que horas.”

“É aí que entra o meu plano.”

“Diga logo.”

“Vamos precisar da sua amiga.”

“Que amiga?”

“Mariana.”

Encarei o Gordo. Pedi outro chope. Sabia exatamente qual era o seu plano.

“Nem pensar.”

Silêncio.

“Afinal de contas, você está a fim da Mariana ou da Lívia?”

Não respondi.

“Tudo bem, não é teste de múltipla escolha, compreendo que você queira ficar com as duas, bacana isso, muito saudável, mas a questão é a seguinte: precisamos da Mariana pra salvarmos nossas vidas, entendeu? Sem ela você é um homem morto. Se não conseguirmos entrar, e sair, daquele campeonato, você não vai ficar nem com uma nem com a outra, vai dormir com os vermes.”

A imagem era forte. Fiquei imaginando minha cara coberta de minhocas.

“O baixinho nojento, aquele da festa do Murilo Chaves, é integrante do grupo copyright, já sabemos disso. E ele vai estar na final, André, porque recebeu o envelope com o tal aviso de adiamento. Meu plano é simples: vamos sequestrar o baixinho.”

“Ficou maluco?”

“Não, não fiquei. Sua bela Mariana será a isca. Ela liga pra ele, marcam um encontro. Vão jantar, e depois um motelzinho...”

Devo ter feito uma careta indescritível.

“É só um exemplo, calma. Seja lá aonde forem, ele vai deixar a Mariana em casa no final da noite. Aí nós pegamos o cara.”

“E fazemos o que com ele, tem alguma ideia?”

“A ideia vem na hora, depois de interrogarmos o sujeito. Ele mesmo vai dizer como vamos fazer pra participar da final como apostadores. Deve haver uma senha, os participantes devem poder indicar outros, da confiança deles, ou então entramos no lugar do cara, sei lá. Tenho certeza de que o baixinho sabe como fazer.”

“Suponhamos que ele não queira colaborar, o que é mais provável. Você vai fazer o quê, torturar o baixinho?”

“Se for preciso.”

“Gordo, eu te conheço há mais de dez anos. A única coisa que você consegue torturar são meus ouvidos.”

“Não me subestime, André.”

“Certo, você tortura o fulano, enfia uma agulha debaixo das unhas dele, queima com cigarro, dá choque elétrico. O baixinho entrega o jogo. E depois? Não vamos matar o cara, suponho, vamos ter que soltar o babaca. Quando acabar tudo isso ele vai atrás de quem? Não de nós, evidentemente, porque imagino que no seu plano vamos vestir um capuz e disfarçar a voz, então ele vai atrás de quem? Da Mariana. Já pensou nisso?”

“Lógico que já pensei, não sou nenhum irresponsável. Vamos fazer parecer que foi um assalto. Só pegamos o canalha depois que a Mariana tiver entrado no prédio, ele nunca vai saber que ela fazia parte do golpe.”

Eu não estava gostando nada daquele plano. Arriscado demais para dois iniciantes como nós, e ao mesmo tempo batido demais, já tinha lido isso em vários romances e no final os caras sempre acabavam descobertos. Não daria certo.

“Não temos outra escolha. Ou você pretende pedir um convite pro Murilo Chaves?”

“Diante do seu plano, até que não seria má ideia.”

“Confia em mim, já pensei em tudo.”

“Pensou? Quando?”

“Nas últimas horas. Desde que Lívia me contou essa história não tenho pensado noutra coisa a não ser nos detalhes do sequestro.”

“Definitivamente, Gordo, você anda lendo demais.”

“Ao contrário, meu amigo, no momento eu quero é ação!”

“E eu quero ver Lívia. Depois pensamos no resto.”

“Ah, o amor.”

 

***

 

Paguei a conta, o Gordo vestiu sua capa monumental. Fomos os dois debaixo do guarda-chuva até o ponto de táxi.

Quando chegamos ao apartamento, Lívia estava jantando na cozinha. O Gordo deixara tudo preparado.

Assim que nos viu, ela se levantou da mesa e veio correndo na minha direção. Abracei-a com força, senti o perfume da sua pele fresca, de quem saíra do banho havia pouco tempo, os cabelos ainda úmidos.

“Que bom, que bom que você chegou”, ela ficou repetindo no meu ouvido.

Afastei-a delicadamente.

“Acaba de jantar, depois conversamos.”

“Já acabei”, ela disse, sentando no sofá.

Puxei uma cadeira, o Gordo ficou com a poltrona.

O apartamento do Gordo era pequeno mas o danado conseguiu decorá-lo de tal maneira que era muito agradável estar ali. As paredes da sala foram pintadas de amarelo bem claro e decoradas com aquarelas suaves, predominando o azul e o verde-água. Num canto, uma pequena mesa de ferro com tampo de vidro, coberto por uma toalha de linho. Quatro cadeiras com assento e encosto de vime faziam conjunto com a mesa. Sobre o sofá branco, ele colocou uma colcha bege, que minha mãe tinha lhe dado. Ela gostava muito do Gordo. Ele espalhou almofadas coloridas sobre o tapete de sizal e sobre duas mesinhas, em cantos opostos, dispôs com precisão pequenas luminárias antigas, compradas na feira da Rua do Lavradio, criando um ambiente acolhedor. Uma velha poltrona reformada terminava de compor o espaço.

Nem parecia casa de um cara solteiro e meio largado como o Gordo. Ele dizia que precisava de uma casa assim, para poder soltar seus demônios na rua e ter um porto onde ancorar depois. Eu podia perceber no rosto de Lívia que era justamente de uma casa como aquela que ela estava precisando. Tinha caído no lugar certo.

Fui direto ao assunto:

“Lívia, você sabe o risco que está correndo, não sabe?”

Ela saiu do sofá e veio até mim. Ficou ajoelhada, abraçada às minhas pernas, a cabeça apoiada nas minhas coxas.

“Eu não quero morrer, André.”

O Gordo foi até a mesa, apanhou o prato que Lívia deixara e o copo com um resto de suco de laranja e saiu da sala.

“Ninguém falou que você vai morrer, Lívia”, eu disse.

O Gordo voltou com três cervejas. Me deu uma, ofereceu outra para Lívia.

“Acho que você está precisando”, ele disse.

Ela aceitou. Bebeu quase tudo de uma vez, achei que fosse se engasgar. Depois se levantou de repente, cambaleou um pouco, segurei-a.

“Está tudo bem?”, perguntei.

“Está”, ela respondeu, meio tonta.

Levei-a até o sofá, ela bebeu mais um pouco. O Gordo achou graça.

“Não vou deixar que nada aconteça com você, está me ouvindo?”, eu disse a Lívia, sentando ao lado dela.

Ela me abraçou. Ficamos assim um tempo, sua cabeça no meu ombro. Seu corpo estava quente. Fiquei acariciando seus cabelos finos e pensando na minha vida: até poucos dias atrás eu tinha uma mulher cuidando de mim, agora eu é que tinha que tomar conta de uma mulher.

O Gordo fez um sinal.

“Já volto”, eu disse a ela.

Na cozinha, o Gordo preparava um pratinho com queijo minas temperado, azeitona, salaminho. Colocou tudo no prato, regou com azeite.

“Você confia mesmo nessa garota, não é?”, ele me perguntou, enquanto salpicava tudo com orégano.

“O queijo e o salaminho já estão temperados, não precisam de orégano.”

“Esse é meu território, quem manda aqui sou eu, apenas responda a minha pergunta: você confia nessa pentelha?”

“Confio. Você não?”

“Ainda não sei. Sempre desconfio das mulheres bonitas, você sabe.”

Ele fincou o palito num pedaço de queijo. Comeu. Fiz o mesmo com uma azeitona.

“Por que não deveria confiar nela?”

“Simples: por que motivo ela nos contou tudo isso?”

“Medo. Ela precisa de proteção, e nós dois somos as únicas pessoas que podem protegê-la.”

“Coitada”, ele disse, virando a lata de cerveja.

“Bem ou mal, vamos ter de tomar conta de Lívia. Os caras estão atrás dela. Já apagaram o Santo.”

“Tudo bem. Vamos dar um voto de confiança pra sua ninfeta. Ela pode ficar aqui o tempo que precisar.”

Disso eu já sabia, o Gordo se faz de durão, mas tem um coração de manteiga, nem passou pela minha cabeça que ele pudesse impedir Lívia de se esconder no apartamento.

“Agora que você já sabe onde ela está, vamos ao trabalho. Tem o telefone da Mariana aí com você?”

Ele não tinha desistido do plano maluco.

“Tenho.”

“Ótimo. Pega o telefone sem fio, na sala, e leva pro quarto. Não pega bem você conversar com uma de suas mulheres na frente da outra.”

Fomos para o quarto do Gordo. Antes passei pela sala. Lívia cochilava no sofá, a lata de cerveja esquecida sobre o tapete.Estava deitada de costas, um braço sobre a barriga, o outro esticado, quase tocando o chão. O vestido subira um pouco. Quando passamos pela sala, o Gordo ficou admirando o sono de Lívia. Declamou, num sussurro:

“Pálida, à luz da lâmpada sombria, sobre o leito de flores reclinada, como a lua por noite embalsamada, entre as nuvens do amor ela dormia.”

“Deveras romântico.”

“Sem dúvida. É Álvares de Azevedo.”

“Desde quando você gosta de poesia?”

Conversávamos baixinho, um ao lado do outro, apreciando a seminudez quase virginal de Lívia, estendida no sofá sob a luz suave da luminária.

“Desde sempre. Mas não conta pra ninguém.”

Ainda permanecemos assim uns minutos, até que Lívia se virou de lado e apareceu parte da calcinha de algodão, branca. Puxei o Gordo pelo braço. Ele me acompanhou, sob protestos.

“Moralista, isso é o que você é, um puto moralista”, ele resmungou.

Acendi a luz do abajur, no quarto. Digitei o número de Mariana. O Gordo ficou ouvindo numa extensão.

Mariana atendeu.

“Não posso falar com você agora”, ela foi logo dizendo.

“Acontece que eu preciso falar com você, e tem que ser agora. Você sabe onde é o Bar Nova Capela, na Mem de Sá?”

O Gordo fez sinal de positivo, tinha aprovado minha escolha.

“Sei mas não posso ir, estou de saída, vou me encontrar com Rosália.”

“Com quem?”

“Rosália, mulher do Murilo Chaves, aquela da festa.”

“E posso saber o que você vai fazer com a Rosália a uma hora dessas?”

“Depois te ligo, André, estou com pressa.”

“O que está acontecendo, Mariana?”

“Se eu te disser, jura que não vai querer saber dos detalhes?”

“Juro.”

“O Murilo Chaves morreu. Assassinado.”

 

***

 

“Assassinado? Como foi isso?”, perguntei.

“Você prometeu.”

“Só me responde essa, depois deixo você ir.”

“Foi encontrado na banheira de um quarto de motel, há poucas horas. Esfaqueado. Tudo indica que foi um garoto de programa. A polícia ainda não sabe de nada.”

“E o que mais?”

“Estou indo pra lá saber, se você deixar.”

“Quem foi que descobriu o corpo?”

“Te ligo mais tarde, André.”

“Eu não estou em casa.”

“Então me dá o telefone de onde você está.”

“Não posso.”

Silêncio.

Eu não queria dar o número do telefone do Gordo. Pensava na segurança de Lívia. Ninguém, nem mesmo Mariana, deveria saber onde ela estava.

“Qual o nome do motel?”, perguntei.

“Te ligo amanhã de manhã, não sai de casa.”

Desligou.

“Merda!”, eu disse, jogando o telefone sobre a cama.

Dei um bico na mesinha de cabeceira.

“Não é porque suas mulheres não confiam em você que você vai destruir meu apartamento”, o Gordo disse, colocando a mesinha no lugar.

“Ela podia ter dado o nome do motel, pelo menos.”

“Se você não tivesse dado a entender que estava com outra.”

“Eu não disse que estava com outra.”

“Claro que não, mas foi o que Mariana ouviu. Aliás, ouviu muito bem.”

“O que vamos fazer?”

“Nada. Ou melhor, vamos sim. Acabo de ter uma ideia.”

“Qual?”

“Um belo creme de aspargos, no Nova Capela.”

Salivei, eu adorava o creme de aspargos do Nova Capela e o sacana sabia disso.

“E Lívia?”

“Isso é com você.”

Pensei um pouco. Não queria deixar Lívia sozinha mas, além da tentação de descer para o Nova Capela, havia também a necessidade: precisava trocar umas ideias com o Gordo.

“Uma hora, no máximo”, eu disse.

“Combinado.”

Fui até a sala. Lívia dormia profundamente. Peguei-a no colo, ela encostou a cabeça no meu peito. Levei-a para o quarto. O Gordo já tinha tirado a colcha e arrumou rapidamente a cama. Deitei Lívia sob os lençóis, apaguei a luz, fechei a porta.

“Pronto, podemos ir.”

Era quase meia-noite. Estava cheio o Nova Capela, só uma mesa vaga, num cantinho do bar.

Pedi dois chopes e um conhaque.

“E agora?”, perguntei.

“O sequestro fica adiado, por enquanto. Assim que souber do assassinato do Murilo Chaves, o baixinho vai colocar uns dez mil seguranças em volta dele.”

Um casal ao lado olhou para a nossa mesa. Precisávamos tomar cuidado com as palavras.

O garçom trouxe as bebidas. Pedi dois cremes de aspargo.

“No capricho”, o Gordo arrematou.

Bebi metade do chope de uma vez. Maravilha.

“Não podemos decidir nada hoje, André, o jeito é esperar até amanhã e conferir com sua primeira mulher, ou segunda, sei lá, conferir com a beldade do Leblon os detalhes do assassinato do canalha.”

“Quem você acha que pode ter sido o assassino?”

“A pergunta não é essa. Claro que o assassino é o garoto de programa que estava com ele no motel. A questão é: a mando de quem o garoto matou o Murilo Chaves?”

“Rosália não seria, seus planos eram outros. Só pode ter sido alguém da máfia do campeonato.”

“Claro.”

Dei o primeiro gole no conhaque. Desceu queimando.

“No telefone você me disse que tinha novidades”, falei.

“Ah, sim, nem tive tempo de contar. Andei pesquisando a editora do Montenegro.”

“E aí?”

“Ocupa um andar inteiro num edifício comercial, no Centro, Rua México. O nome é Editora Pax.”

“Eu sei. Montenegro deixou lá em casa, na portaria, um contracheque falso no meu nome, caso precisasse mostrar pro Augusto. Lá tem o nome da editora.”

“E por que você não me disse antes? Teria facilitado bastante o meu trabalho.”

“Eu teria dito se você tivesse me perguntado.”

“Tudo bem. Inventei que era estudante de Letras da UERJ fazendo pesquisa sobre mercado editorial e consegui entrar na tal Editora Pax. Falsifiquei uma carteirinha de estudante. Moleza. Entrevistei um dos editores. O cara me mostrou as publicações deles: livros infantis, revistas religiosas, manuais de autoajuda.”

“Uma editora acima de qualquer suspeita...”

“Fachada, evidentemente, pura fachada. Fui até o Sindicato dos Editores, procurei o nome da editora no catálogo, estava lá. Verifiquei as estatísticas, eles têm uma lista com a média anual de vendagem das editoras cadastradas. A grande Editora Pax não vende quase nada, deveria estar falida.”

“Como pode estar falida se ocupa um andar inteiro num prédio comercial no centro da cidade?”

“Precisa responder? Essa merda de editora é um embuste. Lavagem de dinheiro, já ouviu falar?”

Dei mais um gole no conhaque, em silêncio. Eu precisava pensar um pouco, organizar as coisas.

“Você sabe de onde vem a expressão ‘à francesa’?”, o Gordo perguntou, lendo o cardápio.

“Como assim?”

“Filé à francesa, frango à francesa, porção à francesa... você sabe de onde vem?”

“Da França, é óbvio.”

“Ledo engano, meu caro. Nem sempre as respostas mais óbvias estão corretas, aprenda isso.”

“Certo, de onde vem então?”

“Exatamente daqui, desse bar onde estamos. Li num livrinho sobre os bares do Rio. A história aconteceu lá pelo final dos anos 1960. Havia um francês, um cliente de carteirinha, desses que batem ponto todo dia, que toda vez que vinha ao bar pedia filé de frango acompanhado de presunto, cebola, petit-pois e batata palha. Então o dono resolveu batizar o prato de filé de frango à francesa, em homenagem ao freguês. A expressão acabou pegando.”

“Você inventou isso.”

“Quando a gente chegar em casa te mostro o livro.”

“De qualquer forma, veio da França.”

O garçom trouxe os caldos de aspargo. Colocou o prato à minha frente, fumegando. O perfume era delicioso. Peguei um pedaço de pão, mergulhei no caldo, comi.

Falamos pouco enquanto jantávamos, não sabia que estava com tanta fome.

“Como sobremesa, proponho uma partida de sinuca”, o Gordo falou, raspando o prato.

Seria ideal, há séculos não jogávamos sinuca e havia uma ali pertinho, mas resisti bravamente.

“Não acredito que você está me propondo uma coisa dessas.”

“Por que não?”

“Você esqueceu que tem uma garota de quinze anos dormindo no seu apartamento? E que tem um bando de mafiosos atrás dela?”

“Lívia está segura, não se preocupe.”

Tirei a carteira do bolso.

“Outro dia, meu amigo, outro dia te dou a surra de sempre.”

Ele achou graça. Da última vez que jogamos sinuca, eu perdera vergonhosamente.

“Combinado. Toma as chaves”, ele disse, me entregando um chaveiro.

“Chaves? E você?”

“Não durmo em casa há três dias.”

“Não acredito.”

“Pode acreditar.”

“Que história é essa, Gordo?”

Aquilo merecia mais uma rodada de chope. Ele pediu.

“Me conta, onde é que o senhor tem dormido?”

“No seu prédio.”

“O quê?”

“Quer que eu repita? Tenho dormido no mesmo prédio em que você dorme, quando não está no apartamento da miss Zona Sul.”

Eu não estava entendendo nada.

“Mas onde? Com quem?”

“Duas perguntas, duas respostas. Primeira: no apartamento ao lado do seu. Segunda: com a proprietária e moradora do referido apartamento.”

“Dona Cármen? Você está comendo a dona Cármen?”

“Não seja grosseiro.”

Esperei o garçom colocar os dois chopes na nossa mesa. Eu estava pasmo. O Gordo conhecia a dona Cármen, claro, mas nunca demonstrou nenhum interesse por ela, pelo menos não na minha frente.

“E como foi que você fez pra roubar a mulher dos meus sonhos de criança?”, perguntei, assim que o garçom se foi.

No fundo sentia um pouco de inveja do Gordo. Eu não podia reclamar, sem dúvida, nos últimos dias tinha dormido com as duas mulheres mais lindas que conhecera em toda a minha vida, mas a verdade é que nutria, em segredo, um desejo enorme por dona Cármen, desejo de garoto, desde quando ela frequentava nossa casa, com o marido. Era louco por aquela mulher de corpo torneado, rosto bonito, expressivo, aquela mulher madura que segurava a xícara de chá com a elegância de uma atriz de filme do Bergman.

“Um pouco de charme e nenhum dinheiro, se você quer saber”, ele respondeu.

“De graça? Você está dormindo com dona Cármen de graça?”

“Mais ou menos.”

“Como mais ou menos?”

“Leio histórias eróticas pra ela, na cama.”

Bebi o chope, matei o conhaque, olhei o relógio. Estava na hora, mas não podia me privar daquela conversa. Mais alguns minutos, só mais alguns minutos, prometi a mim mesmo.

“Cármen adora quando leio pra ela os Contos libertinos, de Sade. Fica doida, vira um vulcão.”

Fiquei imaginando o Gordo, nu, lendo os contos do Marquês de Sade para dona Cármen, ela deitada na cama, só de calcinha.

“Ontem reli pela quarta vez o conto A pudica ou O encontro imprevisto. Ela foi à loucura, quase quebramos a cama.”

“Esse eu não conheço.”

“Nem sou eu que vou te contar, é claro. Pede pra Mariana. Tem uma frase que Cármen adora em especial, quando chego nessa passagem ela delira. Diz assim: entre um homem que observa um seio, por exemplo, e outro que se ocupa de um quadril, há decididamente a mesma diferença que entre um homem probo e um canalha.”

O Gordo estava empolgado. Encontrei uma grande mulher, é o que estava escrito na sua testa.

Continuou:

“Ela tem os ossos da Clotilde.”

“De quem?”

“Da Clotilde, personagem do Rubem Fonseca.”

De novo Rubem Fonseca, aquilo já parecia perseguição. O Gordo estava se referindo a um conto em que um escritor desconhecido mata um escritor famoso, chamado Peter Winner, autor de romances policiais de sucesso, e assume sua identidade.Clotilde era a editora do Peter Winner verdadeiro e o impostor se casa com ela. A primeira frase do conto é uma fala do falso Winner para Clotilde. Ele diz: “posso acariciar novamente sua clavícula?”

“Você sabe, André, Winner adora morder os ossos salientes de Clotilde, a magricela.”

“Não me consta que dona Cármen seja magra, está mais pra gordinha.”

“Cármen é a falsa gorda.”

“Caramba! Isso não existe! Falsa gorda?”

Ele explicou com sentimento na voz, pronunciando cada frase como se recitasse um verso:

“Exatamente. Parece meio gorda quando está vestida, talvez porque goste de roupas largas, mas quando se despe vemos surgir seu corpo perfeito, sublime, delicioso. E o que ninguém poderia adivinhar, vendo-a de roupa, é que deitada de bruços, nua, pode-se ver, tocar, morder cada vértebra de sua coluna. Meu Deus, que tesão!”, ele disse, socando a mesa.

O casal do lado olhou de novo para nós. Consultei pela última vez o relógio.

“Agora não dá mais, Dom Juan, amanhã você me conta o resto.”

Deixei o dinheiro sobre a mesa e saí. O Gordo, mais uma vez, tinha conseguido me surpreender. Jamais tinha pensado na hipótese de conquistar dona Cármen lendo contos eróticos. Sem dúvida, tinha sido uma tacada primorosa.

Abri a porta do Nova Capela e desci a rua, pensando nas vértebras ossudas da falsa gorda dona Cármen, minha bela vizinha.

 

***

 

Quando virei a esquina da Rua do Riachuelo, vi dois homens do outro lado da rua, olhando na direção do prédio do Gordo. Roubada.

Entrei num boteco, pedi uma cerveja em lata. Fui até a calçada. Os homens continuavam lá. Olharam para mim. Tremi. Voltaram a olhar para o prédio. Não me conheciam, deduzi, estavam esperando o Gordo. Bendita dona Cármen, pensei comigo, não fosse ela o Gordo estaria frito a essa hora.

Voltei ao Nova Capela. Meu amigo já havia saído.

Tinha que dar um jeito de chegar à portaria do prédio sem que eles me vissem. Imaginei que pudessem aproveitar minha entrada para entrar também e não podia correr riscos. Lívia estava sozinha lá em cima.

Caminhei novamente até o bar. Um travesti puxou conversa comigo.

“Escuta”, eu disse, “te dou trezentas pratas se você me fizer um favorzinho.”

“O que você quiser, meu bem.”

“Qual o seu nome?”

“Kelly.”

“Kelly, nome de artista.”

Kelly sorriu.

“Kelly, vai até lá fora, disfarça e olha à sua esquerda. Vê se tem dois caras encostados na parede, mais adiante.”

Ele foi, fez uma cena nada discreta. Voltou.

“Trezentos reais só por isso?”

“Não, esse ainda não é o favor. Esses caras são dois amigos meus. É a primeira vez que eles vêm aqui e estão morrendo de vergonha de chegar, entendeu?”

“Entendi.”

“Arranja uma colega sua, bem gostosa. Vão vocês duas lá e dão uma cantada nos garotos. Eles vão resistir um pouco, são tímidos pra cacete.”

Kelly me olhou, desconfiado.

“São seus amigos mesmo?”

“Hoje é aniversário de um deles.”

“Qual?”

“O de camisa branca.”

Ela continuou me olhando.

“Pagamento adiantado, querido.”

Tirei a carteira, abri, mostrei a grana. Eu agora andava com a carteira recheada, para qualquer eventualidade. Tirei duas notas de cem, dei a Kelly.

“O restante no final do serviço.”

Guardei a carteira no bolso.

“Deixa comigo.”

Cinco minutos depois Kelly estava de volta.

“Essa é a Lu”, ela me apresentou uma morena, ou moreno, monumental.

“Prazer, Ludmila”, o travesti falou, me dando dois beijinhos no rosto.

“Olha só, vocês vão chegar lá, jogar um papo-furado e mandar um beijo na boca dos dois logo de cara. Combinado? Sem muita conversa.”

Kelly e Ludmila se entreolharam.

Tirei mais uma nota de cem, coloquei dentro do sutiã de Ludmila. Ludmila usava um sutiã vermelho mas era como se não usasse, os seios estavam quase completamente de fora, só aquela minúscula faixa de pano imprensando a base das duas grandes bolas de silicone.

“Não precisa ter medo, é só uma brincadeira. Se eles engrossarem, vocês começam a cantar parabéns pra você.”

Ludmila deu um gritinho histérico e me beijou na boca, rapidamente.

“Assim?”, ela perguntou.

“Isso mesmo”, respondi, limpando a boca borrada de batom e tentando achar graça, “só que mais demorado.”

Kelly ainda não estava acreditando.

“E então? Vão ficar aí paradas?”

Ludmila e Kelly foram atrás deles.

Atravessei a rua e fiquei na calçada do outro lado, esperando.

Os travestis se aproximaram dos caras. Não conversaram nem dois minutos e Ludmila meteu um beijo no de camisa branca. Kelly se jogou no pescoço do outro feito uma pantera.

Do alto da rua vinha um ônibus. Minha chance, pensei, e corri até a portaria do prédio, aproveitando o ônibus como escudo. Não sei se eles me viram, só tive tempo de bater com força a porta de vidro. Do lado de dentro do prédio pude ouvir a voz estridente e desafinada de Ludmila cantando parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades... e pou! Um tiro.

Gelei. Logo depois ouvi os gritos. Subi correndo até o apartamento do Gordo. Entrei. Abri um pouco a cortina da janela da sala, no escuro. Os dois homens ainda estavam lá, um deles com uma arma na mão. Kelly e Ludmila entravam correndo no bar. O puto que deu o tiro deve ter disparado para o alto, só para assustar os travestis.

Passou um carro em seguida, parou na frente dos dois. Eles entraram, o carro saiu. Que merda!, falei para mim mesmo, a coisa estava ficando esquisita.

Fui até o quarto, abri a porta, acendi a luz. Lívia dormia. Apaguei a luz, fechei a porta.

Na cozinha, peguei uma cerveja. Tirei a roupa e me deitei no sofá da sala, só de cueca. Fiquei olhando o teto e bebendo, até o sono chegar. Ajustei o despertador: seis horas. Antes de apagar ainda pensei: para onde eu levaria Lívia quando amanhecesse?

 

***

 

Acordei com o barulho da rua. Estava completamente tonto, mais de sono que de álcool, eu acho.

Tomei uma ducha, depois acordei Lívia. Enquanto ela se vestia olhei pela janela. Parecia tudo bem lá embaixo, ninguém vigiando.

Liguei para Mariana e contei meu plano. Ela não gostou de ser acordada tão cedo, tinha ficado com Rosália até de madrugada. E, claro, também não gostou nem um pouco do que me ouviu dizer ao telefone. Infelizmente, não havia outra alternativa.

“Posso saber aonde vamos?”, Lívia perguntou, saindo do quarto.

“Confia em mim.”

Não quis contar o que estava acontecendo. Na verdade, nem eu mesmo sabia o que estava acontecendo, sabia apenas que precisava tirar Lívia daquele lugar o mais rápido possível.

Pegamos um táxi.

“Leblon.”

Ainda não eram oito horas quando chegamos ao prédio de Mariana.

“Espera aqui”, pedi ao motorista.

Desci com Lívia.

“Aonde você está me levando, André?”, ela perguntou novamente, agora dentro do elevador.

Eu não estava em condições de ficar explicando nada. Precisava estar na livraria antes de o Gordo chegar, era apenas nele que eu pensava agora.

Mariana atendeu a porta com cara de poucos amigos.

Não perdi tempo:

“Mariana, essa é Lívia. Lívia, essa é Mariana.”

Nenhuma das duas disse nada. Ficaram se olhando por um instante, sérias, até que Mariana, com um gesto, nos convidasse a entrar.

“Não vou poder entrar. Preciso encontrar o Gordo, é urgente.”

Os olhos de Mariana lançavam flechas na minha direção. No rosto, um sorriso amargo.

Lívia não queria ficar mas insisti e ela acabou aceitando. Prometi voltar o quanto antes.

A vida não tem a mínima lógica, pensei, já na calçada do prédio.

Entrei no táxi.

“Vai chover”, o motorista comentou.

Olhei pela janela as nuvens escuras.

Abri a bolsa, tirei um livro: A trilogia de Nova York, do Paul Auster. Eram três romances reunidos numa mesma edição. Eu tinha lido dois. Não sei por que motivo, quando comprei aquele livro resolvi ler os romances de trás pra frente. Comecei pelo terceiro, O quarto fechado, depois li o segundo, Fantasmas. Tive vontade de ler o primeiro logo em seguida mas apareceram outras leituras e fui deixando. Agora, finalmente, começaria a ler Cidade de vidro.

A primeira fase do romance bateu em mim feito um raio. Estava escrito: “Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.”

Não consegui ler mais nada. Me veio uma tontura, achei que fosse desmaiar. Fraqueza, minha mãe diria, se estivesse do meu lado. Senti uma saudade profunda da minha mãe, de doer no corpo, na boca do estômago.

Era medo. E era também a constatação de que tudo o que estava vivendo não tinha sido traçado por mim. Um engano, tudo não passava de um lamentável engano, como se alguém tivesse ligado para o número errado e eu atendesse e então tudo começasse a acontecer trocado, identidades trocadas, destinos trocados, um erro se encadeando no outro, formando uma sucessão de equívocos, sem volta. Eu não tinha nada que estar correndo atrás de filho dos outros e tentando salvar o meu amigo e protegendo uma adolescente e fugindo de bandidos armados, mafiosos, não tinha absolutamente nada a ver com aquela vida maluca que estava vivendo, só queria estar quieto no meu canto, lendo meus livros, nada mais.

“Está tudo bem, patrão?”, o motorista perguntou.

Minha cara devia estar horrível, caso contrário o motorista não teria perguntado aquilo.

“Seus pais são vivos?”, foi a minha vez de perguntar.

“Graças a Deus.”

E não falamos mais nada.