O Campeonato
Capítulo 9
Não consegui dormir. Meu corpo pedia descanso mas a cabeça andava a mil. O dia já tinha nascido quando Mariana pegou no sono. Fechei os olhos, tentando dormir também, o sono não veio. Me levantei, fui à janela, abri de leve a cortina, deixando entrar um pouquinho de luz no quarto.
Fiquei vendo Mariana deitada de bruços, nua. A penumbra tornava ainda mais sedutora sua silhueta, sua pele morena sobre o fundo branco do lençol. Cheguei mais perto, sentei na cama e fiquei passeando de leve as pontas dos dedos por suas pernas, cintura, pelas marcas do biquíni.
Depois me levantei, tomei uma ducha, fui até a cozinha e preparei meu café da manhã. Comi com vontade, nem sabia que estava com tanta fome. Apanhei minhas roupas no quarto, me vesti, desci.
Não fui direto para casa. Fiquei perambulando pelo Leblon, vendo as vitrines. Depois caminhei até a praia, parei num quiosque, pedi uma água de coco. Eram dez horas. Não queria voltar e encontrar Raquel deitada no sofá da minha casa. Senti um arrepio ao imaginar o que ela poderia ter aprontado no apartamento se tivesse passado a noite lá, sem mim.
Olhava o mar. O mar quase sempre me acalmava, aquela imensidão. Acontece que não estava com a roupa adequada. Tinha deixado o paletó sobre uma cadeira mas mesmo assim sentia muito calor com aquela calça, camisa, cinto, meias, sapatos. Me deu vontade de entrar na água, de roupa e tudo, se fosse de madrugada teria entrado, agora sentiria vergonha. Pensava: qual a diferença entre nadar de sunga, de terno ou pelado? Por que pelado não, ou de terno? Por que de sunga pode?
Já estava quase convencendo a mim mesmo a cometer uma loucura quando me contive. Lembrei que, afinal de contas, eu era um detetive, e detetives não costumam nadar de terno. Terminei a água de coco, paguei, fui até um orelhão.
O Gordo vivia insistindo para que eu comprasse um celular, ainda mais agora que era detetive. Não queria, não gostava de celular. E ele também não, tanto que também não usava, insistia comigo mas ele mesmo não usava, o hipócrita.
“Sou eu”, falei ao telefone.
“Aposto como está no Leblon. E digo mais: na praia, de terno, o paletó jogado sobre os ombros, feito um galã de verdade”, o Gordo disse.
“Tudo bem, você é mais esperto que o Mandrake.”
“Nem tanto, por enquanto sou apenas um assistente de detetive, mal remunerado.”
“Que tal um almoço?”
“Meio-dia e quinze, Bar Brasil.”
“Combinado.”
Desliguei.
Fui até uma loja, na Ataulfo de Paiva. Comprei uma sunga.
“Escuta”, falei pra vendedora, “eu precisava de um favorzinho seu.”
“Pois não, senhor.”
Eu não gostava que me chamassem de senhor. Fingi que não tinha reparado. Chamei a moça num canto.
“É o seguinte: preciso urgentemente entrar no mar, questão de vida ou morte.”
Ela ficou me olhando.
“Só você pode me ajudar.”
Ela ficou tensa, pensei que fosse chamar a gerente. Não chamou. Criei coragem.
“Se você deixar, posso entrar naquele vestiário, vestir a sunga que você acabou de me vender e deixar esse terno aqui com você por uma hora. Dou o meu mergulho, volto, pego o terno. Nem entro na loja pra não sujar de areia, você me entrega o terno lá fora. Pode ser?”
Ela não gostou muito, mas consentiu. Duvido que deixasse se eu estivesse malvestido. Fui até o vestiário, saí só de sunga. A mulherada ficou me olhando, eu era o único homem na loja. Deixei as roupas, dobradas, com a vendedora. Ela guardou num canto.
Saí. Caminhei de volta à praia, atravessei a areia, entrei na água. Talvez estivesse poluída, não quis nem saber, nenhum micróbio idiota iria atrapalhar meus planos. Fiquei um tempão na água, saía, voltava de novo.
Depois entrei numa ducha ali perto, que o dono de um quiosque tinha instalado. Deixei a água correr à vontade, lavando o sal e a areia, uma sensação deliciosa.
Voltei à loja. Eu era outro homem. Fiz sinal para a vendedora, ela trouxe minhas roupas, agradeci. Vesti ali mesmo, na calçada, as pessoas olhando. Definitivamente, estava perdendo minha velha timidez, e quem sabe algo da lucidez também. Calcei os sapatos, ajeitei o cinto, aproveitei o vidro da vitrine pra arrumar os cabelos.
Passei numa banca e comprei jornal, há tempos não lia jornal. Chamei um táxi.
“Bom-dia. Vamos pro Centro.”
“Qual a rua, doutor?”
Doutor era bem melhor que senhor.
“Mem de Sá.”
Cheguei cedo. Pedi um chope, desceu perfeito. Abri o jornal na página de esportes. O Murilo Chaves ainda era notícia. Uma página inteira, mas dessa vez era uma entrevista com o canalha. Ele se justificava, dizia que havia um complô contra ele, argumentava citando nomes, lembrava tudo o que já fizera pelo clube, pedia perdão aos torcedores pela renúncia, quando tudo estivesse esclarecido veriam que ele foi uma vítima etc.
Numa outra coluna, na mesma página, vários depoimentos de gente famosa, todos flamenguistas puxando o saco do Murilo Chaves. E o gran finale: um depoimento da própria esposa, apoiando o marido.
A festa tinha surtido efeito, o safado sabia trabalhar, devia ter comprado também o dono do jornal. Nenhuma notícia das falcatruas. O tiro saíra pela culatra, pensei, em vez de chamar a atenção para outras sujeiras do cara, as fotos do Gordo acabaram desviando o noticiário, agora o que vendia jornal era a polêmica sobre a vida conjugal do filho da puta, e ele estava se saindo muito bem.
Pedi outro chope. Continuei folheando as páginas de esporte. O tema principal era a decisão de domingo, Flamengo e Vasco. Pulei para a coluna social, queria ver se falavam da festa da noite anterior. Apenas uma notinha discreta, no canto da página.Burrice a minha, concluí, a festa não precisava sair nas colunas, o objetivo já tinha sido alcançado: era aquela entrevista, em que o repórter não fizera nenhuma pergunta constrangedora, tudo armado, e aqueles depoimentos.
Foi então que vi a foto, estampada na coluna social. Levei um tempo até acreditar no que estava vendo. Era o Epifânio, o canastrão, abraçado com uma mulher, pareciam estar num restaurante de luxo. Embaixo, a legenda:
O velho mestre, doutor Epifânio de Morais Netto, e sua nova discípula, na noite do Rio.
A discípula era Raquel.
“Puta que o pariu!”, gritei, batendo com força na mesa. O chope entornou.
Os fregueses ficaram olhando.
O garçom veio, limpou a mesa. Era meu conhecido, perguntou se tinha acontecido alguma coisa.
“Nada, não aconteceu nada.”
Pedi um conhaque e outro chope. Respirei fundo e olhei de novo a foto. Não tinha sido um delírio meu, lá estava ela, Raquel, produzida, um vestido de noite, o decote enorme, um sorriso malicioso no rosto, e o braço gordo nojento do porco sujo sobre os ombros dela. Ela havia cumprido a promessa.
“Isso não vai ficar assim”, eu disse, falando sozinho, como sempre acontecia quando estava nervoso.
“O que é que não vai ficar assim?”, o Gordo falou, chegando de repente.
Olhei pra ele.
“Eu não disse nada.”
“Claro que disse. Você disse: isso não vai ficar assim.”
“Você está maluco.”
“Posso estar maluco, mas não estou surdo.”
Entreguei-lhe o jornal. Ele olhou a foto. Não parecia espantado.
“Não reconhece, Gordo?”
“Claro que reconheço, é a Raquel.”
“E você fica desse jeito, nessa calma? Porra, minha namorada me traiu e você não diz nada? Que merda de amigo é você?”
Ele pediu uma caipirinha. Depois completou:
“Eu disse a você: as pessoas traem.”
“Mas será que você não entende? Não é qualquer pessoa, é a minha namorada!”
“Ex-namorada, talvez.”
Abaixei a cabeça. Estava arrasado.
“Eu bem que avisei”, o Gordo falou, numa estranha forma de consolo.
“Pior é que ela também.”
“É mesmo?”, ele disse.
E arrematou, enquanto entornava a caipirinha:
“Que coisa.”
Ficamos um bom tempo sem dizer nada, só olhando as paredes, as outras pessoas no bar, a rua lá fora.
***
“E na casa da Mariana, como foi?”, o Gordo perguntou, cortando o silêncio.
“Como foi o quê?”
“Detalhes, meu amigo, quero saber dos detalhes.”
Eu não queria contar os detalhes.
“Você é o único homem do mundo que não gosta de contar ao melhor amigo como foi a trepada com uma mulher maravilhosa.”
O Gordo tinha razão. Eu gostava de dizer que tinha dormido com uma mulher mas não me sentia bem contando tudo o que havia acontecido, achava que perdia a graça, ficava piegas. Além disso, naquele momento eu ainda não estava completamente restabelecido do choque.
“Olha, André, eu sei que você vai passar a tarde enchendo a cara, tentando esquecer essa história da Raquel. Aliás, tempo perdido, diga-se de passagem.”
“Isso é problema meu.”
“Claro. Mas antes que você perca a sobriedade, precisamos trocar umas ideias.”
“Já volto.”
Fui ao banheiro. Fiquei horas lavando o rosto, os cabelos, o pescoço. Olhei no espelho, dei um tapa no meu rosto, com força. Sempre fazia isso quando precisava deixar de pensar numa coisa chata. Ficou vermelho. Dei outro tapa. Doeu. Fiquei imaginando que todo mundo no salão do Bar Brasil tinha ouvido o estalo. Chega, pensei.
Voltei à mesa.
“Tudo bem, Gordo, ao trabalho.”
“Ótimo, gostei de ver, Sam.”
“Não me chama de Sam, meu nome é André.”
“Desculpa.”
Contei toda a história da festa: o baixinho, o Murilo e todo o resto. Não contei como conseguimos o envelope. Ele também não perguntou. Já devia ter desconfiado e evitou a pergunta constrangedora. Apesar das aparências, o Gordo era um cara delicado.
Refletiu por algum tempo. Pedimos os pratos: costeleta defumada com batatas e um filé com fritas.
“É um desplante pedir filé com fritas num restaurante especializado em comida alemã.”
“Não enche o saco, Gordo.”
Pedi mais um chope, ele preferiu uma coca.
“Esse bilhete que o Murilo Chaves passou pro baixinho seria o mesmo que ele recebeu na boate?”, ele perguntou.
“Acredito que sim. Estão tramando alguma coisa pro sábado, dia vinte e sete.”
“É provável.”
“Mas o quê?”
O Gordo matutava alguma coisa.
“Na pior das hipóteses, André, vamos descobrir no dia. Basta não desgrudar do Murilo Chaves. O que quer que vá acontecer no sábado vinte e sete terá a presença do crápula.”
“Você acha então que devemos esperar.”
“Não, acho que devemos agir, e rápido. Mas antes precisamos esclarecer alguns detalhes. Por exemplo, que acontecimentos são esses que impediram a final, como diz o bilhete?”
“O escândalo, as fotos na boate.”
“Não creio. Os jornais já estão comprados pelo Murilo. Li todos hoje de manhã.”
Então o puto já sabia da sacanagem da Raquel. Por isso pôde fazer aquele ar superior, de quem não está nem aí. Dei um riso cínico e fiquei olhando para a cara dele. O Gordo percebeu, ficou sem graça.
“Podia ter me contado quando nos falamos pelo telefone, não podia? Eu não precisava saber da notícia dessa maneira.”
“Esquece a Raquel, André.”
Virei o conhaque, pedi outro. Tomei mais um gole do chope.
“Continua”, eu disse.
“Bom, não acredito que o escândalo pudesse atrapalhar os planos da seita, quer dizer, do grupo de canalhas. E é claro que quando o Murilo passou o bilhete pro baixinho, na festa, já sabia que a situação estava sob controle. E tem mais, se o bilhete que o Murilo recebeu na boate for o mesmo que ele repassou na festa, fica evidente que os tais acontecimentos não têm nada a ver com o escândalo, porque naquela ocasião, na boate, as fotos ainda não tinham sido feitas, concorda?”
“Claro. Se os bilhetes forem iguais.”
“Precisamos partir de uma hipótese, meu amigo, e acho que essa é bem razoável: um bilhete que vem sendo passado de mão em mão pelos integrantes do grupo, antes mesmo de o Murilo ter sido flagrado na boate.”
“Mas se não foi o escândalo com o Murilo Chaves que ocasionou o adiamento dessa final misteriosa, o que foi?”
O garçom trouxe os pratos. Serviu.
“Não sei. Mas desconfio de uma coisa.”
“O que é?”
“Não posso dizer ainda, são apenas suposições.”
“Porra, Gordo, você acha que tem o direito de ficar fazendo suposições sem me contar nada?”
Ele continuou comendo. Tinha pressa.
“Precisa comer desse jeito?”, perguntei.
“Não tenho muito tempo.”
“E eu posso saber por quê? Você não trabalha mais hoje. É sábado, esqueceu?”
“Não, não esqueci, muito pelo contrário.”
“Então.”
“Então que preciso descansar, meu caro, tenho um compromisso logo mais à noite.”
“Hum.”
“E nem adianta perguntar com quem.”
“Com quem?”
“Putz”, ele resmungou.
Comia cada vez mais rápido, já estava terminando de devorar o almoço.
“Pelo menos você tem tempo pra me dizer o que anda pensando.”
“Só depois de checar alguns dados.”
“Checar alguns dados... já reparou como você anda falando ultimamente? Alguma vez você já disse uma frase dessas, checar alguns dados?”
“Tudo que eu te disser pode ser roubada, pode acabar colocando minhocas na sua cabeça.”
“Você já colocou minhocas na minha cabeça, Gordo. Aliás minha cabeça está simplesmente transbordando: é minhoca, é chifre.”
O Gordo deu uma gargalhada que o bar inteiro ouviu. Não pude resistir e engrenei na gargalhada dele. Ficamos os dois ali, chorando de rir. Eu já estava ficando alto. O álcool fazia efeito mais rápido quando eu não estava bem.
Ele acabou de comer. Depois colocou a mão no meu ombro.
“Fica tranquilo, irmão, estou do seu lado.”
Pagou a conta. Eu é que devia pagar, fazia parte dos honorários dele, mas quando dei por mim a conta estava paga e o Gordo tinha sumido. O garçom limpou a mesa. Pedi mais um conhaque e um chope.
Abri de novo o jornal. Fiquei olhando a foto, demoradamente.
***
O táxi parou na frente do meu prédio.
“Como foi que eu vim parar aqui?”, perguntei ao motorista.
“Acho que você bebeu demais.”
Olhei o relógio. Eram dez horas da noite. Eu estava completamente grogue.
“O garçom te colocou no meu carro. O amigo precisa de ajuda?”
Abri a porta do táxi, desci, vomitei na calçada. O porteiro me carregou até o meu apartamento.
“Não conta nada pra Raquel, não conta, entendeu?”, ainda falei, no elevador.
Nem me lembrava de que Raquel fazia parte do meu passado.
Peguei as chaves mas não conseguia acertar a fechadura. O porteiro me ajudou. Entrei. Tentei caminhar até o quarto mas capotei ali mesmo, no sofá da sala. A última coisa de que me lembro foi ver a luzinha da secretária piscando, sinal de que havia recado.
Acordei no domingo, com uns flamenguistas fazendo barulho no corredor. Era o dia da final, Flamengo e Vasco, no Maracanã. Olhei o relógio: quatro horas.
Conferi os recados na secretária. Mariana ligara no sábado, meio-dia, dizendo que iria passar o final de semana em Penedo, na casa de Rosália. Queria que eu fosse junto. Nem pensar, eu disse pra mim mesmo, em voz alta, agradecendo aos céus por não ter atendido aquele telefonema. Claro que gostaria de ficar dois dias com Mariana em Penedo, mas desde que Rosália estivesse pelo menos na China. Outro recado, do Gordo, domingo:ganhara dois ingressos para o jogo no Maracanã, cadeira especial. Queria saber se eu estava a fim de ir com ele. Piada. Apaguei os recados.
Tomei um banho. Estava sem fome e de ressaca. Vesti uma bermuda, camiseta, calcei um tênis e desci para caminhar no calçadão.
Nunca fui exatamente um atleta mas gostava de dar umas corridas de vez em quando, ou jogar bola. Naquele dia, porém, uma leve caminhada era o máximo que meu corpo moído e minha cabeça pesando trezentos quilos permitiriam.
Andei um pouco, achei uma cadeira vaga num quiosque, sentei, pedi um coco gelado. Uns caras jogavam futebol, era final de algum torneio, quem sabe do campeonato estadual, porque à beira do campo havia um mesário com o símbolo da federação carioca na camisa, os times vestiam uniformes, tinha juiz, bandeirinha e tudo, e um monte de gente do lado de fora, torcendo.
Fiquei vendo o jogo. Os caras corriam demais, parecia final de copa do mundo, precisava ter muito preparo físico para jogar na areia da praia, areia fofa, ainda mais naquele sol, tinha que ter muita perna, e pulmão. Depois de vinte minutos vendo aquela correria eu já estava exausto, só de olhar tinha ficado cansadíssimo, se continuasse ali acabaria num hospital.
Paguei o coco e fui caminhar. Mal tinha dado alguns passos e um sujeito sem camisa, descalço, quase me atropela. Atravessou correndo na minha frente, vindo da praia. Não precisei de muito tempo para entender o que estava acontecendo: uma senhora, branca, com cara de turista, gritava que o neguinho tinha levado sua bolsa. Uns marombeiros, na areia, correram atrás do pivete, uma mulher de dentro do quiosque ficou gritando polícia, polícia, feito uma histérica, não tinha nem ideia do que estava acontecendo mas gritava, vermelha, aflita: polícia, polícia.
Cena típica de domingo na praia de Copacabana, pensei, mas de repente me deu uma vontade louca de correr atrás do moleque, não para linchá-lo, nem muito menos para recuperar a bolsa da coroa, me deu uma vontade sem motivo, curiosidade, quem sabe, de vez em quando acontecia essas coisas comigo, via alguém diferente na rua e me dava na veneta sair atrás do fulano ou da fulana, seguir até onde desse, ver se ele ou ela iria se encontrar com alguém ou entrar numa loja, por exemplo.
Uma vez entrei num ônibus, seguindo um velho. Ele pegou o ônibus na Cinelândia, subi atrás, ele sentou numa cadeira perto da janela e ficou olhando a paisagem lá fora. No ponto final, em Vila Isabel, ele desceu, pensei que fosse continuar caminhando mas não, o velho ficou ali, esperando o próximo ônibus sair. Pegou outro ônibus, da mesma linha, sentou numa poltrona perto da janela, como da primeira vez, desceu novamente na Cinelândia, andou até um boteco, tomou café, voltou ao ponto de ônibus, o mesmo, subiu novamente.
Segui atrás. O maluco passou o dia todo nesse trajeto: pegava o ônibus ali, ia até o ponto final, voltava, tomava um café, pegava outra vez o ônibus até o ponto final, isso um dia inteiro, sem comer, sem beber água, só andando de ônibus no mesmo movimento circular, e tomando café.
Quando começou a escurecer, fim de tarde, eu já não aguentava mais, cansado, morrendo de fome, e além disso os motoristas e trocadores me olhavam de um jeito desconfiado, não olhavam assim para o velho, já deviam estar acostumados com ele, olhavam daquele jeito para mim, quer dizer, naquela história toda o maluco era eu, não o velho.
Então, na última parada na Cinelândia, decidi pegar o metrô e voltar para casa mas antes interceptei o velho, parei bem na frente dele, ele ficou me olhando, assustado. “É um assalto?”, perguntou. “Não, não é um assalto, só queria saber por que o senhor fica rodando o dia inteiro nesse mesmo ônibus, só isso.” Ele me afastou com o braço, pedindo passagem. Deixei que ele passasse. “Pensei que fosse um assalto”, disse, sem dar a mínima bola à minha pergunta.
Eu tinha muito tempo livre naquela época e gostava de seguir pessoas na rua, era bastante enriquecedor. Augusto não sabia desse meu hábito, se soubesse me deserdava, Raquel também nunca soube, só o Gordo sabia, e me incentivava, dizia que assim eu aprendia a conhecer um pouco mais a cidade.
Sempre seguia as pessoas caminhando, às vezes de ônibus, como no caso do velho, mas nunca tinha corrido atrás de alguém. Há sempre uma primeira vez, pensei, e quando dei por mim estava correndo atrás do neguinho, um garoto novo, adolescente, alto, magro, de bermuda vermelha. Ele atravessou a primeira pista da Avenida Atlântica, a pista mais próxima da praia, atravessou a toda velocidade, um bando de gente correndo atrás dele, eu me esforçando para não perdê-lo de vista, quem me observasse talvez pensasse que eu fazia parte do grupo de linchamento, isso me aborreceu por segundos mas não desisti, continuei correndo atrás do garoto, que ziguezagueava no meio daquela gente toda de patins, bicicleta, skate.
O cara atravessou a ilha e quando botou o pé na outra pista um carro bateu nele. O motorista tentou frear mas não deu,pegou com o lado direito do carro, o para-choque foi em cheio na perna do moleque. O trânsito parou, as pessoas que estavam correndo atrás dele ficaram em volta do menino, estendido no chão. Ele estava vivo, mas certamente tinha quebrado um bocado de ossos, havia uma poça de sangue perto do seu joelho, uma poça que crescia e se confundia com a cor da bermuda, como se fosse uma extensão da bermuda, estendendo-se cada vez mais, um tapete vermelho, ele perdia sangue à beça, e gritava: “filho da puta, tu quebrou minha perna, desgraçado”, repetia essas palavras gritando, sem parar, enquanto segurava a perna ensanguentada.
Ficou todo mundo em volta, sem saber direito o que fazer, um círculo de abobalhados em torno do garoto, reparei bem no rosto dele, devia ter uns quinze anos. Um guarda chegou apitando, abriu espaço no círculo, se aproximou, o neguinho começou a jogar sangue no guarda, pegava com a mão o sangue no asfalto e jogava no guarda, e gritava pro guarda: “filho da puta, desgraçado, minha perna, tu quebrou minha perna”, gritava e jogava sangue no guarda, que recuou um pouco, hesitante, não estava armado, só um cacetete, e nem disso precisava, o cara estava na pior ali no asfalto, mas o guarda ficou um pouco amedrontado assim mesmo, nunca se sabe, deve ter pensado, o uniforme todo manchado de sangue.
O menino deu uma trégua, já estava ficando cansado e nem tinha mais muito sangue para jogar no guarda, então o guarda pulou sobre ele e o algemou. O pessoal quis bater no moleque mas a turma do deixa-disso abafou, o guarda o pegou nos braços, desmaiado, e o colocou dentro de um carro da polícia, que vinha chegando, enfiou o garoto lá dentro e saíram, sei lá para onde.
A multidão foi se dispersando, fiquei ali, olhando a mancha de sangue no chão. Sabia, naquela hora eu soube, com certeza, que iria sonhar com aquilo durante muitas noites até o final da minha vida. Veria várias vezes aquela cena nos meus sonhos, não a história inteira, o assalto, a perseguição, o atropelamento, isso tudo eu iria apagar da memória, mas aquela imagem do garoto deitado no chão, desprotegido, atirando contra o guarda com seu próprio sangue, com o sangue da sua perna rasgada, como se o sangue fosse bala, aquela cena ficaria na minha cabeça feito a imagem congelada de um filme, como quando a gente para a fita no videocassete e fica olhando, vendo os detalhes. Eu tinha filmado aquilo, sem querer, e seria obrigado a ver aquele pedaço de filme o resto da vida.
***
Entrei no primeiro pé-sujo que encontrei pela frente, pegando uma das ruas para dentro de Copacabana, fugindo da praia. Pedi uma cerveja, no balcão. Fiquei ali, bebendo e ouvindo conversa dos outros, durante um bom tempo.
Saí de lá meio alto. Não tinha bebido muito mas estava de estômago vazio. Saí do boteco me despedindo com beijos e abraços dos vários amigos de infância que tinha feito naquelas poucas horas e não veria nunca mais.
Até minha casa era uma caminhada de quinze minutos, mais ou menos. Já estava anoitecendo, ouvi dois caras comentarem que o jogo no Maracanã tinha sido a maior pelada, zero a zero. Isso adiava a final para o próximo domingo.
Parei numa padaria, comi uma pizza com coca-cola. Era minha primeira refeição do dia e desceu bem. Depois fui andando até em casa. Um senhor de terno passou por mim, falando sozinho. Incrível, falei comigo mesmo, incrível como tem gente falando sozinha nas ruas. Eu também falo sozinho, lógico, não sou mais normal do que ninguém nesta cidade, principalmente depois do que vinha me acontecendo nos últimos dias, tinha todos os motivos do mundo para bater um longo papo comigo em voz alta pelas ruas do meu bairro, por que não?
Parei num armazém 24 horas perto, na esquina da minha casa. O dono, um português, fazia questão de dizer isso: era o único armazém 24 horas do Brasil, quiçá do mundo. Entre outras coisas, ele vendia cachaça de Minas. Comprei uma garrafa, o português embrulhou num saco de papel de pão.
Aquilo era um presente para o porteiro do meu prédio. Eu tinha sido muito rude com o cara. O sujeito era um dedo-duro safado, ficava me entregando para a Raquel, mas estava com a gente fazia tempo, e gostava muito do meu pai. Costumavam conversar durante horas, na portaria, ou mesmo lá em casa, ele de vez em quando almoçava lá em casa, e carregava as compras da feira para a minha mãe. Era um cara bacana, apesar de tudo.
Cheguei, entreguei a garrafa a ele.
“Bebe devagar, camarada.”
Ele pegou o embrulho, abriu, leu o rótulo na garrafa.
“Ih, rapaz, essa é da boa.”
Saiu de trás da mesa e me deu um abraço. Fiquei pensando: se o síndico visse que eu estava dando cachaça ao porteiro a confusão seria grande. Dane-se, eu gostava do porteiro, e gostava de dona Cármen, e não gostava do síndico.
Entrei em casa e fui direto ao banheiro. Vomitei na pia. Não estava propriamente bêbado, estava tonto, enjoado, a cabeça pesando uma tonelada. Tomei um banho demorado. Me enrolei na toalha, fui até a cozinha. Meu corpo tremia, fraqueza. Abri a garrafa térmica, enchi um copo com café. Estava gelado, bebi assim mesmo, com muito açúcar. Horrível. Mas o que importava era o efeito, não tinha tomado aquela porcaria por prazer, era remédio, e de fato já me sentia um pouco melhor.
Senti frio. Fui até o quarto, vesti um moletom velho, calcei meias. Eu gostava de andar de meias, sem sapato, dentro de casa. Dava uma sensação boa, meio de abandono e aconchego ao mesmo tempo.
Voltei à cozinha, abri a geladeira, peguei a garrafa d’água, cheia. Virei a metade, no gargalo. Se eu sentia sede é porque já estava melhor, significava que pelo menos estava vivo.
Fui novamente para o quarto, disposto a dormir durante um mês. No caminho percebi uma luminosidade na sala. Devo ter deixado alguma luz acesa, imaginei.
A porta da sala estava aberta, a luz vinha do corredor. Caminhei para fechar a porta e dei de cara com alguém sentado no sofá. Pulei para trás, assustado, derrubando a cadeira.
“Calma, sou eu.”
A voz era de mulher mas eu não conhecia mulher nenhuma com aquela voz de criança. Acendi a luz do teto. A intrusa fez uma careta, tapando os olhos com o braço.
“Apaga isso.”
“Quem é você, porra? O que está fazendo na minha casa?”
Ela tirou o braço da frente dos olhos e pude vê-la por inteiro.
“Você?”, perguntei, sem acreditar.