O Campeonato
Capítulo 3
A vida não tem lógica.
Meus pais não gostavam de sair de casa, só saíam mesmo por necessidade. Minha mãe fazia feira ou supermercado duas vezes por semana, meu pai ia para o trabalho de segunda a sexta, numa repartição pública. À noite não colocavam o pé na rua, e também não iam à praia no fim de semana, meu pai não suportava o tumulto, detestava aquela multidão seminua na praia de Copacabana, velhos, adultos, crianças, cachorro fazendo cocô nas calçadas. Minha mãe concordava com ele. O único lugar a que iam os dois juntos era a igreja, todo domingo, sem exceção.
Morávamos todos no mesmo apartamento, um quarto e sala em Copacabana, alugado. Eu e Augusto dormíamos na sala, naquela época. Augusto era um batalhador, trabalhou em loja, imobiliária, escritório de contabilidade, até terminar o curso de Direito. Quando se formou, apareceu um concurso: Banco do Brasil. Ele estudou à beça, varava madrugadas em cima das apostilas, acabou passando no concurso e seguiu carreira no banco.
Meu irmão sempre foi caxias, ao contrário de mim.Trabalhava muito, fazia amizades importantes dentro do banco, então foi promovido, passou a ganhar dinheiro, e aí se esforçava mais ainda, alargava o campo das amizades, era um cara bacana, todo mundo dizia, foi subindo, subindo, outra promoção e mais dinheiro entrando no bolso dele, uma bola de neve.
Quando completei vinte e poucos anos, meu pai se aposentou. Foi no mesmo ano em que Augusto comprou o apartamento em que morávamos. Nunca mais o senhor vai ter que pagar aluguel, ele disse ao meu pai, mostrando a escritura do apartamento. Depois casou e foi morar na Barra.
Lá em casa Augusto era um deus, ninguém ousava falar qualquer coisa dele, um deus. Eu era um vadio. Comecei a faculdade e parei. Comecei Letras, mudei para Comunicação, entrei no curso de Direito por insistência do meu irmão, e não concluí droga nenhuma. Na verdade, gostava de começos. A novidade me atraía, cursava dois, três períodos, então a coisa enjoava e eu caía fora.
Fazia um bico ou outro de vez em quando, dava aulas particulares, vendia rifas, nada sério. Na verdade vivíamos bem, eu, meu pai e minha mãe. Reclamavam de mim, que não tinha emprego fixo, que não gostava de estudar, que assim não era possível, naquela idade, e sempre apontavam o exemplo do meu irmão.
Era eu que cuidava deles no dia a dia, mantinha a casa em ordem, levava ao médico, carregava as compras, conversava, dava toda a atenção que Augusto não podia dar porque não tinha tempo. Eles entendiam, reclamavam só pra que eu não me perdesse, não virasse um vagabundo, mas reconheciam a minha função naquela casa, embora nunca tenham dito isso abertamente.
Quando eles morreram, Augusto chegou e me disse, no velório, nem esperou meu pai e minha mãe serem enterrados, foi logo dizendo:
“Você fica com o apartamento e vai cuidar da sua vida. Agora não sustento mais a casa. Vai trabalhar, já tem o apartamento, o resto é por sua conta.”
Foi o que fiz, só que não estava dando muito certo e às vezes eu ligava pro Augusto, ia na casa dele, na Barra. Sempre me dava alguma grana.
Meus pais quase não saíam de casa. A única vez que inventaram de fazer uma viagem foi a Aparecida do Norte, na semana santa. Tinham visto na televisão uma reportagem sobre a romaria, o Augusto comprou as passagens, pagou o hotel e as outras despesas da viagem. No meio da estrada houve um acidente, o ônibus bateu numa ponte, caiu no rio, morreram todos.
A vida não tem a mínima lógica, é o que eu sempre digo.
***
Não tinha nem ideia de onde estava mas achei melhor não pegar o táxi direto, não queria voltar para casa sem saber primeiro o que havia na pasta. Procurei um lugar seguro. Vi um McDonald’s na esquina. Entrei e fui ao banheiro. Tinha um cara mijando. Ficou me olhando enviesado. Entrei no reservado, tranquei a porta. Levantei a tampa do vaso sanitário, sentei, abri a pasta.
Vários papéis, fotos, um envelope azul, lacrado. Rasguei a borda do envelope, abri. Contei: mil dólares, dez notas de cem. Nunca tinha visto um dólar tão de perto, nunca tinha segurado um, e agora tinha dez notas de cem dólares na minha mão. Me deu um frio na barriga. Abaixei as calças, com pressa, deixei descer. Líquido puro, uma caganeira danada. Estava me borrando de medo, essa é que era a verdade.
Dei um tempo até me acalmar. Guardei o envelope na pasta, fechei. Peguei o papel higiênico e não sei como consegui formular uma teoria contra os gringos, uma teoria sobre a importância do papel higiênico para a manutenção do império americano.
Os gringos sabem que nos países de terceiro mundo nenhuma lanchonete tem um banheiro que se preze, e que todo cidadão se sente importante quando pode se aliviar à vontade e depois pode ter à mão um bom rolo de papel higiênico, e quando sair vai poder lavar as mãos com sabonete e usar uma toalha de papel, se olhar no espelho, arrumar o cabelo e partir para o inferno da vida um pouco mais leve. Assim os caras podem fazer a porcaria de comida que quiserem. O McDonald’s não é a potência que é porque sabe fazer hambúrguer e batata frita mas porque tem bons banheiros, com papel higiênico. Era essa a minha teoria anticapitalista naquele momento em que estava com mil dólares numa pasta.
Saí e peguei um táxi. Mandei seguir até Copacabana. No caminho lembrei que não tinha dinheiro, quer dizer, não tinha um real no bolso. Tantos dólares e sem dinheiro para o táxi. Claro, não ia dar uma verdinha daquelas ao motorista e pedir o troco.
“Mudei de ideia, amigo, me deixa primeiro na Rua do Lavradio, no Centro.”
Desci e andei até a livraria onde o Gordo trabalhava.
“Me empresta vinte reais.”
“Pra quê?”
“Porra, Gordo, pra quê? Estou te pedindo vinte reais, não são mil dólares.”
Ele me deu o dinheiro.
“Estou indo pra casa. Me encontra no Bar Brasil, quando sair daqui. Tenho ótimas notícias, ou péssimas, não sei. Acho que ganhei na loto ou entrei numa roubada.”
Ele balançou a cabeça. Tsktsktsk.
Voltei para o táxi, mandei seguir.
Quando entrei em casa, dei duas voltas na chave. Depois tranquei com a doberman , que eu nunca usava.
Caminhei com a pasta até a mesa da sala. Abri. Muitos papéis e fotos. Peguei primeiro as fotos. Na primeira um rapaz fazendo careta, o rosto dele ocupava todo o espaço da foto, a careta clássica: as mãos esticando as orelhas, os olhos virados, a língua de fora. Fiquei pensando: é esse palhaço que eu preciso encontrar? Que merda.
Era ele mesmo, só podia ser, porque aparecia em quase todas as fotos. Numa aparecia o coroa, ele e o filho no Maracanã, com a camisa do Flamengo. Sou Botafogo. Ele, a mãe e o pai, à beira da piscina, fazendo churrasco. Ele, a mãe e o pai às margens do Sena, que eu só conhecia de filme. Ele e uma porrada de caras da mesma idade, numa mesa de bar, só homens. Ele e uma garota loura, linda. Depois uma foto da garota sozinha, de biquíni, na praia. Separei esta. Ele pilotando uma lancha, um close do seu rosto.
Parei numa foto do pai ao lado de um outro coroa, os dois em pé, de terno e gravata, numa sala cheia de livros, uma biblioteca. Me lembrei das palavras do Montenegro, no carro: algumas pessoas preferiam que ele estivesse morto e bem enterrado. Separei.
O telefone tocou. Deixei cair na secretária. Era o Augusto. Atendi, queria saber como eu estava, conversamos um pouco, banalidades. Procurei evitar o inevitável, um esporro. Não consegui. Só conversava banalidades com meu irmão e ele sempre me dava algum esporro, como se fosse um pai ralhando com o filho rebelde. Eu não era rebelde, mas ele achava que sim. Era um jeito de dizer que me protegia. Gostava muito do meu irmão, apesar de tudo.
Passei o resto da tarde lendo os papéis. Alguns faziam parte do relatório dos dois detetives que o Montenegro contratara. Um trabalho de primeira, opiniões gerais, detalhes, suposições, coisa de profissional. Imaginei Dupin lendo aquilo, o que pensaria. Outros eram cartas do Pedro para os pais, enviadas de Londres, onde o menino estudara inglês, dois anos. E algumas cartas endereçadas a ele, assinadas por uma tal de Kate, cartas apaixonadíssimas, algumas bem picantes. Separei.
Seria a loura da foto? Não dava para saber, imaginei que sim, caso contrário meu cliente não as teria deixado no pacote, junto com a foto da garota. Estranhei não haver na pasta nenhuma linha escrita pelo Montenegro, nem um mísero bilhete introduzindo, dando uma ordem a toda aquela papelada. Tinha que me virar sozinho.
O telefone tocou de novo. Raquel. Não atendi, não dava para conversar banalidades com Raquel e não queria me desconcentrar. Ouvi o recado: queria saber se podia dormir na minha casa. Normalmente ela não perguntava, chegava e pronto, ou ligava avisando que estava indo. Dessa vez parecia mesmo uma consulta. Mas não, não podia, eu teria uma longa noite pela frente.
***
Quando cheguei ao Bar Brasil, o Gordo já estava no quarto chope. Lia jornal. Pedi uma coca com limão e gelo.
“Tomando coca?”, perguntou, em tom de gozação.
“É pra você.”
Ele entendeu, eu precisava do Gordo lúcido.
“Não consegui chegar mais cedo”, eu disse.
“Sem problemas, fiquei lendo o jornal. Separei isso aqui.”
Ele me estendeu uma folha do Jornal do Brasil.
“Não estou a fim”, falei.
Pedi um chope.
“Você anda cada vez mais preguiçoso, André. Deixa que eu leio.”
Leu:
“Há uma série de evidências de que o que chamamos amor é criado por um coquetel de substâncias químicas cerebrais
deflagrado pelo condicionamento social”, declarou Cindy Hazan ao jornal inglês The Sunday Times.
As substâncias detectáveis nos primeiros estágios do fogo ingênuo da paixão são a dopamina, feniletilamina e oxitocina. Mas
mesmo os amantes mais ardentes desenvolvem uma tolerância a seus efeitos, adverte a pesquisadora-chefe, “como um alcóolatra
torna-se imune à primeira dose de álcool. Sua ação se esvai. Dentro de dois anos, a pessoa volta a um estado mental relaxado”. A
excitação e a ânsia de amar se perdem.
“Está ouvindo, André?”
Eu fingia que cochilava.
“Quem escreveu isso?”, perguntei, depois de algum tempo.
“Isso o quê?”
“A matéria.”
“Nelson Franco, um correspondente de Londres.”
“Tem gente que dá sorte na vida. Ganha uma grana preta, viaja o mundo inteiro e só o que tem a fazer é escrever bobagem no jornal.”
“Não seja tão amargo. Vou continuar, presta atenção.”
Continuou a ler:
Neste ponto, acrescenta Cindy Hazan, “os casais se separam ou decidem que sua relação é suficientemente cordial e
amigável para ficar juntos. O amor cai na rotina, principalmente quando há filhos envolvidos. Mas a química do amor raramente
retorna na relação, mesmo quando o casal tem mais filhos.”
Quem se torna viciado nessas substâncias e na chamada embriaguez da paixão vai em busca de novos amores, como o rei
Henrique VIII, da Inglaterra, ou nos viciados em sexo como o roqueiro Mick Jagger ou o ator Michael Douglas.
O estudo indica que os homens se apaixonam mais rápida e facilmente, mas são as mulheres que rompem a maioria das
relações. Isto indica que os homens são mais suscetíveis à alquimia do amor. A pesquisa nota ainda que a maioria das pessoas se
apaixona numa espécie de contágio, quando sente que a outra pessoa está apaixonada.
“Por causa da intensidade e da racionalidade limitada pela paixão, temos a ilusão de que escolhemos nosso amor”, observa
Cindy Hazan. Uma importante psicóloga britânica, Dorothy Rowe, concorda com as conclusões da pesquisa: “O amor é uma
espécie de psicose que o ser humano desenvolve quando precisa preencher um vazio na sua vida, como durante a adolescência.”
Ele fechou o jornal.
“Muito obrigado. O que você leu é tudo o que um sujeito querendo casar gostaria de ouvir.”
“Não precisa agradecer, amigo é pra essas coisas.”
Fiquei observando as outras mesas. Um casal no canto,quatro caras na mesa em frente, três mulheres no fundo. Gostava de ficar olhando as pessoas no bar, imaginando a vida de cada uma. Ficava pensando: o que aconteceu com aquele fulano até o momento em que veio parar nessa mesa, com a mulher do lado? E se tivesse acontecido alguma outra coisa num momento qualquer da sua vida, uma mudança na cadeia de fatos que compõem o seu passado, se, por exemplo, um dia em vez de ir trabalhar ele tivesse ficado em casa e isso desencadeasse outras mudanças, de tal modo que ele nunca viesse a conhecer a mulher com quem estava agora?
Fazia isso quando estava sozinho e à toa no bar. Mas no momento precisava tratar de assuntos sérios.
Sem olhar para o Gordo, perguntei:
“É tudo?”
Sabia que ele havia feito alguns cortes no texto, o Gordo sempre fazia cortes quando lia em voz alta alguma notícia de jornal, elaborava uma espécie de edição em que só ficava o que lhe interessava para argumentar a favor das suas teorias.
“Psicose, meu amigo, o amor não passa de uma psicose. Todo romântico, como você, por exemplo, é um psicótico. Não sou eu quem está dizendo, é uma conceituada pesquisadora americana!”
“Grande merda. Desde quando você gosta dos americanos?”
“Não sou um radical, reconheço quando eles estão certos. Acho que você deve tomar cuidado, diz aqui que os homens se apaixonam mais facilmente mas as mulheres é que rompem as relações. Sempre nós, os ingênuos. Toma cuidado, meu amigo, é só o que tenho a dizer, muito cuidado com as mulheres. As mulheres não são nossas amigas, são belas, deliciosas, amáveis às vezes, são imprescindíveis, mas não são nossas amigas.”
Deixei que ele terminasse seu exercício retórico. Depois tirei da bolsa a foto da loura de biquíni e coloquei-a na sua frente.
“Que tal?”
O Gordo fez uma cara de sacana que só os gordos safados sabem fazer.
“É a namorada do filho do meu cliente.”
Ele registrou apenas a última palavra.
“Cliente? Quer dizer que temos um cliente?”
Contei toda a história, tudo o que tinha acontecido comigo naquele dia. O Gordo me ouvia com o olhar atento, não perdia um detalhe. Mostrei as outras fotos. Ele observou uma por uma, cuidadosamente. Demorou mais tempo na foto do Montenegro com o coroa.
Quando acabou de examinar tudo, deu um suspiro, fundo, e disse:
“Isso merece uma costeleta. Afinal de contas, não é todo dia que temos uma história real.”
Chamei o garçom. Ele anotou o pedido.
“Você acha que eu fiz bem em aceitar?”
“Você não tinha escolha. Quando o cara te ligou, você já estava envolvido, aliás estava envolvido desde que ele leu o anúncio no jornal.”
“Ideia brilhante: anúncio no jornal. E com citação de Poe ainda por cima.”
“Desgraça pouca é bobagem.”
A costeleta chegou. O garçom serviu o prato do Gordo.
“Quer dizer que o seu cliente andou xeretando a sua vida antes de procurar você para xeretar a vida dos outros.”
“É.”
“Que maluquice.”
O Gordo colocou um pouco de sal nas batatas.
“Só não entendi uma coisa, por que o fulano, como é o nome dele?”
“Montenegro.”
“Só não entendi por que esse tal de Montenegro foi escolher justo você.”
“Também não entendo. Ele explicou, como te contei, sou jovem, fui um bom filho etc. Mas confesso que estou com medo. O que eu faço?”
“Pergunta errada. Você é um iniciante no ramo, meu amigo, jamais pergunte: o que eu faço? Pergunte, por exemplo, o que Sam Spade faria no meu lugar? Essa é a pergunta correta.”
“E o que você acha que Sam Spade faria no meu lugar?”
“Não tenho a mínima ideia.”
“Retiro minha proposta de pagar a conta em troca da sua ajuda. Seus comentários não valem essa droga de costeleta que você está comendo.”
“Errado de novo. A costeleta está ótima.”
Pedi mais um chope. Sabia que o Gordo estava maquinando algo enquanto comia, era apenas uma questão de tempo. Ele acabou de comer, em silêncio, limpou a boca com o guardanapo, deu um gole na coca.
“O que tem de importante nos relatórios?”, perguntou.
“Dos detetives? Bom, os caras andaram investigando todos os lugares que o garoto frequentava: bares, academia, escola, praia. E as pessoas ligadas a ele: amigos, professores, namorada. Era um garoto comum, de família rica, um tipo mauricinho, esportista, lutava jiu-jítsu, voava de asa-delta, jogava futebol, malhava duas horas por dia na academia, geração saúde, você me entende.”
“Entendo”, o Gordo disse, enquanto raspava com um pedaço de pão o molho que restara no prato.
“Morava com os pais?”, perguntou.
“Não, o Montenegro comprou um apartamento pra ele. Estudava num colégio na Gávea. Aluno acima da média, segundo alguns professores. Inteligente, interessado, gostava de ler.”
“Lia o quê?”
“Jornais, biografias, ficção, poesia.”
“Porra, esse cara não existe!”
“Existe, ou existia, pelo menos. Era um geniozinho, além de esportista. O filho que todo pai pediu a Deus.”
“Não generaliza, meu pai não ia querer um filho assim.”
“E tem mais.”
“Mais?”
“Ainda saía à noite. Bebia um ou outro chope de vez em quando, com os amigos.”
“Quer saber de uma coisa?”
“Diga.”
“Esse moleque deve ser um saco!”
O Gordo se irritava quando via alguém muito certinho. Estava acostumado com os gângsteres, mafiosos, assassinos, as prostitutas, todos os marginais dos romances que ele devorava com a mesma avidez com que traçava uma costeleta no Bar Brasil. Não era comum encontrar um cara como o Pedro numa narrativa policial. E se aparecesse, certamente se daria mal no fim.
Continuei:
“Pela leitura das cartas que ele mandou pra mãe...”
“Tudo bem, já tracei o perfil do cara. Deixa eu ler as cartas da namorada.”
Dei a ele as cartas. Leu.
“Garoto de sorte”, concluiu.
Fiquei esperando. Ele pediu um chope. Era assim, alternava chope e coca-cola quando não queria ficar bêbado.
“Lixo, tudo lixo, esquece essa papelada. Serviu pra conhecer os hábitos do garoto, mas com certeza nenhum dos amigos bobocas dele está envolvido no sumiço, nem a namorada gostosa, que, aliás, você devia investigar pelo simples fato de ela ser gostosa. Toda mulher bonita é uma suspeita em potencial, não se esqueça disso.”
“Não vou esquecer.”
“Só há um caminho por onde começar, meu amigo. O mais óbvio e também o mais arriscado.”
Eu já sabia aonde ele iria chegar.
“É isso mesmo que você está pensando, camarada: o coroa da foto, ao lado do Montenegro. É aí que está a resposta.”
“Tudo bem, podemos começar por aí, Gordo, mas acontece que tem um probleminha, não sei se você percebeu.”
“Qual é o problema?”
“Como é que você acha que eu vou conseguir informações sobre um sujeito que nunca vi na vida, não tenho o nome dele, não sei nem se mora no Rio, talvez nem no Brasil? Posso perguntar diretamente pro Montenegro, mas só daqui a dois dias.”
“Não, você não vai perguntar coisa nenhuma pro Montenegro.”
“Não?”
“Olha, não dá pra saber ainda qual é a desse cliente, pode até ser algum maluco rasgador de dinheiro, mas uma coisa é certa: se ele quisesse te dizer quem é o sujeito da foto, teria deixado escrito. Ele quer que você descubra sozinho, faz parte do jogo.”
“Que jogo?”
“E você pergunta pra mim? Além disso, veja bem, você não pode esperar. O cara te deu mil dólares, não deu? Então ele quer que você vá à luta, e você vai, vai trocar essa grana amanhã bem cedo, amanhã não, hoje mesmo, tem uma loja de câmbio 24horas na Nossa Senhora de Copacabana, e vai torrar esse dinheiro procurando o suspeito.”
“Procurando onde?”
“Você tinha retirado sua proposta, de pagar a conta. Volta atrás?”
“Volto, se você não pedir apfelstrudel.”
“Negativo.”
“Tudo bem, com apfelstrudel. Agora responde: por onde começo?”
“Por onde nós começamos. Estamos juntos no caso, que fique bem entendido. Não precisa me pagar nada, meus honorários serão cobrados em cervejas, filés, um ou outro docinho, algumas taças de vinho italiano.”
“E coca-cola. E costeletas.”
“Claro. Agora escuta: vamos sair daqui, trocar o dinheiro e pegar um táxi pro Lamas.”
“Fazer o que no Lamas?”
“O cara da foto vai estar lá, a partir de onze e meia, meia-noite, jantando. Posso até me arriscar a dizer qual será o prato.”
Aquilo parecia cena de Sherlock, o Gordo sabia disso, e sabia que eu acabaria fazendo o papel de Watson. Perguntei:
“Então você conhece o fulano.”
O Gordo sorriu.
“Eu e quase toda a torcida do Flamengo, literalmente. E você, se não fosse tão mal informado, também saberia. Esse cara da foto, abraçado ao Montenegro, todo sorridente, é nada mais nada menos que o Murilo Chaves.”
Terminou de falar e ficou me olhando. Permaneci estático.
“Não acredito que você não sabe quem é o Murilo Chaves.”
“Não, não sei.”
“Estamos mal, muito mal. Rapaz, Murilo Chaves é o presidente do Flamengo. Do Flamengo você já ouviu falar, não é?”
Eu não tinha a obrigação de saber quem era o babaca do presidente do Flamengo, se nem o do meu time eu sabia quem era, caramba! O Gordo parece que leu meus pensamentos.
“Tudo bem, cartola é tudo a mesma merda, tudo bem, mas esse você devia conhecer, André, tem saído todo dia no jornal, envolvido em corrupção, sonegação do imposto de renda. Ah, esqueci, você não lê jornal.”
Deixei passar.
“E como você sabe que ele vai estar no Lamas justo hoje?”
“Porque hoje é segunda-feira, e segunda-feira, você sabe, bato ponto no Lamas. E, por uma feliz coincidência, o nosso amigo também.”
Eram nove horas. Dava tempo para mais uma rodada de chope. Pedi. Bebemos em silêncio.
***
Paramos o táxi. Sentei no banco de trás, o Gordo ficou na frente, como sempre. Ele adorava conversar com motorista de táxi, eu não, achava meio chato, superficial, preferia ficar vendo a cidade, as pessoas na rua.
O motorista e o Gordo falaram de trânsito, violência, futebol, mulheres, tudo. Foram matraqueando até chegarmos ao Lamas. O Gordo não precisava conhecer profundamente um assunto para falar dele. Discutia horas sobre mecânica e modelos de carro, por exemplo, e a única coisa que entendia de carro era o pouco que havia lido em revistas. Podia se dar bem na política, se quisesse, ou no Direito. Preferiu ser vendedor de livros.
Enquanto o táxi rodava, eu ia reparando na iluminação da cidade. Toda cidade tem várias faces, mesmo um povoado qualquer enterrado no fim do mundo tem várias faces, e é possível reparar isso pela iluminação que cai sobre as casas, ruas, postes, buracos, calçadas durante as diferentes horas do dia. A iluminação natural, de manhã, de madrugada, à tardinha, ao meio-dia, ou a artificial, à noite.
Era sobre isso que eu teorizava no táxi, e acrescentava para mim mesmo uma particularidade das noites do Rio: você entra numa rua escura e sem mais nem menos a rua vai dar no Largo da Lapa, com aquela amplidão toda, os arcos, as luzes, logo depois outra ruazinha e de repente a imensidão do Aterro do Flamengo.
Costumava anotar mentalmente essas marcas do lugar onde morava. Não me serviam de nada, não iria ganhar dinheiro com isso, mas era um grande prazer perder meu tempo assim.
Quando ainda estávamos rodando pelo Centro, me lembrei de um conto do Rubem Fonseca, a história daquele maluco que ganha na loteria, desiste de ser funcionário da Companhia de Águas e Esgotos e resolve ser escritor, e perambula pelas ruas do Centro colhendo material para escrever um livro, e no sobrado que aluga ensina prostitutas a ler, alfabetiza as prostitutas que toda noite ele leva para lá, paga a elas para aprenderem a ler. Eu gostava muito do Rubem Fonseca, tinha lido todos os livros dele.
Me lembrei do nome do personagem do conto, Augusto, o mesmo nome do meu irmão. Augusto, o meu irmão, nunca gostou muito de ler, só mesmo o mínimo necessário: política, economia, essas coisas. Literatura, nem pensar. Tinha uma biblioteca na casa dele na Barra mas ele mesmo nunca entrava lá. Era uma biblioteca bem bacana, sempre que eu o visitava passava horas ali, xeretando as coleções caríssimas, uns livros de capa dura, bem encadernados, limpíssimos, era abrir um livro daqueles e ver que ninguém o tinha lido, não havia marca nenhuma. Gostava de sentir o cheiro daqueles livros, de passar a tarde lendo, deitado no sofá ou no tapete, a biblioteca no maior silêncio. Devorei dezenas de livros na biblioteca do Augusto, quando era mais novo e meu gosto um pouco mais eclético do que é hoje.
Meu irmão era a única família que eu tinha. Minha cunhada não contava, nem meus sobrinhos, ninguém naquela casa gostava de mim, a não ser o Augusto. Meu irmão tinha batalhado muito, era um lutador, e mesmo sendo um cara que não gostava de ler eu o admirava.
E também sabia da minha importância para ele. Quando era pequeno, ouvia escondido as conversas dele com meus pais, dizia que eu seria alguém na vida, eles iriam ver, eu seria alguém. Ele precisava muito de mim para ele mesmo ser alguém, precisava de mim para poder um dia dizer: eu criei meu irmão mais novo, dei tudo a ele, ensinei tudo o que ele sabe.
Sem se virar, o Gordo me perguntou alguma coisa. Fingi que não tinha ouvido. Não queria conversa, queria ficar sozinho, no escuro do carro, pensando na minha vida.
***
Chegamos ao Lamas por volta de onze horas. Antes passamos na agência de câmbio e trocamos trezentos dólares. O restante eu tinha deixado em casa, guardado.
O Murilo Chaves já estava lá.
“Chegou mais cedo hoje, o puto”, grunhiu o Gordo. Já pegara antipatia pelo suspeito.
Sentamos numa mesa do canto, meio escondida, mas de onde podíamos observar o homem de frente.
“Dois chopes”, o Gordo pediu.
“Não tem cara de sequestrador”, eu disse.
“E como é cara de sequestrador?”
“Sei lá, mas ele não parece um.”
“Você ainda tem muito o que aprender.”
O Gordo também tinha muito o que aprender, éramos da mesma idade, mas ele tinha mania de se achar mais experiente. Dizia que eu era muito sonhador e por isso vivia me ferrando.
“O Gabeira tem cara de sequestrador?”
“Também não.”
“E já sequestrou o embaixador dos Estados Unidos. É mole, sequestrar o embaixador dos Estados Unidos?”
“É diferente. Não é desse tipo de sequestro que estou falando.”
“Você acha que sequestrador tem que ter cara de bandido, mas nem bandido tem sempre cara de bandido, só em filme.”
Murilo Chaves bebia vinho tinto e lia o jornal. Alguns boêmios têm esse hábito, ir ao Lamas no final da noite ou de madrugada ler o jornal do dia seguinte. Há boa luz e mesas sólidas. É barulhento às vezes mas segunda-feira não é tão cheio.
Ele chamou o garçom. O Gordo me cutucou:
“Vai pedir filé à Oswaldo Aranha.”
Senti fome. Sugeri que pedíssemos um frango à cubana. O Gordo concordou em dividir, já tinha jantado mas não deixaria um amigo na mão.
O restaurante é cheio de espelhos, colocados de tal forma no salão que podemos ver e ser vistos sem mirar diretamente alguém ou sem que alguma pessoa nos intimide com o olhar. Isso cria um clima diferente, uma certa cumplicidade sutil. Enquanto o Gordo fazia o pedido ao garçom, vi pelo espelho que, na mesa ao lado da nossa, uma mulher me observava. Quando a encarei, também pelo espelho, ela baixou os olhos, discretamente.
Algum tempo depois o garçom servia o Murilo Chaves.
“Não te disse, eu não te disse?”, o Gordo repetia, excitado.
Percebi que estávamos ali feito dois idiotas.
“Vem cá, além de ficar adivinhando o cardápio do jantar do Murilo Chaves, o que é que nós viemos fazer aqui?”
Ele se tocou.
“Bom, não deixa de ser um começo. Pelo menos você pode fazer uma leitura do suspeito número um. Diga-me o que comes e te direi quem és, já dizia o filósofo.”
“Qual?”
“Escuta, André, meu plano é o seguinte”, ele disse, como se já tivesse pensado em alguma coisa desde o início. Eu sabia que ele não tinha plano nenhum, iria inventar naquela hora.
“Ficamos aqui conversando, bebendo, comendo, normalmente. Quando o cara sair, pegamos um táxi e o seguimos.”
“Pra quê?”
Ele ficou me olhando, como se eu tivesse dito uma grande besteira.
“Você me decepciona.”
Chegou nosso prato. Jantamos. Pouco depois o Murilo Chaves pediu a conta.
“É agora ou nunca”, o Gordo me disse.
Eu estava cansado, tinha tido um dia estafante, não estava a fim de sair por aí seguindo o presidente do Flamengo. Está certo que tinha um trabalho a fazer, afinal de contas o Montenegro não me dera mil dólares para eu ficar à toa num restaurante na madrugada de segunda-feira, mas o Gordo daria conta do recado, e além disso alguma coisa me dizia que seria melhor ficar, algo interessante parecia estar prestes a acontecer. Pura intuição.
“Vai você”, eu disse, tirando dinheiro da carteira e entregando ao Gordo.
“Tudo bem, você fica me devendo essa. Amanhã te ligo, dando o relatório.”
O Gordo estava adorando aquilo, para ele parecia uma brincadeira diferente, não era ele que estava com a corda no pescoço. Tomei uma decisão: pediria mais um chope, leria um pouco. Se não acontecesse nada de importante nesse tempo eu iria embora. Mas aconteceu.
***
Depois que o Gordo saiu, pedi o chope, tirei da bolsa um livro que eu tinha lido há alguns anos, um romance do Van Dine, O crime de inverno. Carregava aquela edição comigo porque nela foram incluídas as Vinte regras para escrever histórias policiais. Nem de longe tinha a intenção de escrever uma história policial mas talvez dali tirasse alguma sugestão, algum caminho que me ajudasse no caso do sumiço do garoto.
Comecei a ler. Na primeira página senti que tinha alguém me olhando. Ergui um pouco os olhos, sem sair da posição em que estava, e percebi quem era: a mulher da mesa ao lado. Ela desviou o olhar, disfarçou chamando o garçom, pediu uma taça de vinho.
Devia ter uns trinta anos. Os cabelos longos e lisos, negros, contrastavam com a camisa branca, de manga comprida dobrada até o cotovelo, uma camisa masculina, aberta até o terceiro botão. Tinha a pele suave, bem tratada, morena, e grandes olhos negros. Estava sozinha, lendo um livro. Fora uma rápida troca de olhares, segundos apenas, mas aquilo me deu uma tal queimação por dentro que precisei urgente de uma bebida mais forte. Pedi um conhaque.
Li:
O culpado deve ser encontrado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão, à qual não tenha
sido levado forçosamente. Solucionar um problema criminal desse modo é como mandar deliberadamente o leitor a uma empreitada
inútil e dizer-lhe, então, após seu fracasso, que por todo tempo tínhamos o objetivo escondido na manga do paletó. O autor, assim,
não passa de um brincalhão.
O Van Dine não deve ter escrito uma palavra dessas: “brincalhão”, o tradutor deve ter amenizado a coisa. “Sacana”, ele deve ter escrito, em inglês “O autor, assim, não passa de um sacana.”
Entornei o conhaque. Pedi outro, e mais um chope. Levantei os olhos, eu e a morena trocamos olhares.
Li:
A novela de detetives precisa ter um detetive e esse não o será a menos que detecte alguma coisa. Sua função é juntar as
pistas que venham mais tarde a indicar a pessoa que fez a sujeira, logo no primeiro capítulo; e se o detetive não chegar às suas
conclusões mediante análise dessas coisas, não terá solucionado o problema, assim como o escolar que apanha as respostas já
prontas, em outra página do livro.
Começava a achar engraçadas as regras idiotas do Van Dine. Na verdade, achava graça de mim mesmo, nunca imaginei passar para o outro lado e era isso que estava acontecendo agora. Tinha deixado de ser leitor de histórias de detetive para virar o próprio. E detetives, dizia o Van Dine, detectam. Eu lera numa revista que “tec” é uma raiz grega que significa “cobrir”, daí detectar: descobrir, e daí detetive, aquele que detecta. Eu era um detetive agora, mas até o momento não havia detectado porra nenhuma.
Bebi o conhaque. Já me sentia melhor. Novos olhares. Era linda.
Enquanto matava o chope, li mais uma regra, a número dez:
O culpado deverá ser uma pessoa que desempenhou papel mais ou menos destacado no entrecho – isto é, a pessoa com
quem o leitor se familiarizou e pela qual se interessa. Se um autor atribuir o crime, no capítulo de encerramento, a alguém
desconhecido ou a alguém que tenha desempenhado papel de todo destituído de importância na história, estará admitindo sua
incapacidade de travar torneio intelectual com o leitor.
Eu estava me lixando para torneio intelectual, o único torneio que me interessava disputar no momento era com a mulher do espelho, que de tempos em tempos me olhava. Estávamos empatados, no momento, mas eu temia perder a partida, como sempre.
Já tinha bebido três conhaques e vários chopes. Hesitava entre continuar a ler e continuar a olhar. Tentei fazer um pouco de cada. Inventei um método: abaixaria os olhos, leria três regras do Van Dine, depois olharia para a mulher. Faltavam dez regras, o que equivalia a três olhares, sobrando uma regra no final. Esta última eu leria já me preparando para tomar alguma atitude. Sim, porque no final precisava tomar alguma atitude. Li três regras, olhei. Ela retribuiu o olhar e sorriu, pela primeira vez.
Outro conhaque. Outro chope.
Vamos lá, eu disse a mim mesmo, mais três regras. A droga é que daquele jeito não conseguia me concentrar na leitura, acabava tendo que ler a mesma linha umas dez vezes e aquela situação incômoda já começava a me irritar. Li mais três regras, olhei, ela não retribuiu. Passei às regras dezessete, dezoito e dezenove. Olhei, o garçom parou na minha frente. Quando saiu, olhei de novo, ela estava com os olhos no livro, concentrada. O que estaria lendo?
Isso não vai dar em nada, pensei comigo. Já disse que não dava sorte com as mulheres e se uma morena daquelas me olhava devia ser porque estava me achando esquisito. Talvez eu tivesse abotoado a camisa errado, ou o meu cabelo estivesse engraçado, lembrei que tinha esquecido de me olhar no espelho antes de sair do Bar Brasil.
Na regra número vinte as letras começaram a se embaralhar, sinal de que já bebera um pouco além do limite para se ler um livro. Precisava tomar uma atitude.
Banheiro, decidi, vou ao banheiro. Levantei, fui andando por entre as mesas, com cuidado para não parecer tonto e por isso mesmo parecendo mais tonto do que estava, como acontece sempre que se quer disfarçar a tontura.
Ao passar pela mesa da mulher nos encaramos, olhos nos olhos, profundamente. Aquilo deve ter durado segundos mas pareceu meia hora.
Fui ao banheiro. Na volta ela não estava mais lá, só o dinheiro da conta sob um cinzeiro. Voltei à minha mesa.
Havia um cartão. Li: Mariana Paranhos, detetive particular.
Matei o chope, pedi a conta. Fiquei olhando o cartão, sem entender direito o que estava acontecendo.
Definitivamente, aquele tinha sido um dia cheio. Melhor ir para casa, pensei.