O Campeonato
Capítulo 4
Acordei com os gritos da vizinha. Meio-dia.
Dona Cármen de namorado novo, deduzi. Dona Cármen, minha vizinha, era viúva, tinha quarenta anos e um corpo monumental. Enquanto o marido estava vivo, dona Cármen era uma mulher comum, sem nada de especial, caseira, recatada, católica praticante, uma esposa respeitável como tantas outras. O casal era muito amigo dos meus pais, apesar da diferença de idade. Cansei de ver dona Cármen sentada no sofá da sala, muito tímida, quase não falava, me lembro dela levando aos lábios a xícara de chá num gesto elegante, o chá de maçã que minha mãe fazia.
Eu tinha catorze anos e ficava delirando com as curvas de dona Cármen, realçadas pelos vestidos. Não tinham nada de mais aqueles vestidos, eram até muito sóbrios, na cor, no talhe, mas eram um pouco justos para uma senhora tão recatada e nunca precisei de muita coisa para inventar minhas fantasias, de modo que aqueles vestidos me pareciam feitos apenas com o secreto objetivo de me provocar, como se eu pudesse significar alguma coisa na vida daquela mulher.
Delirava quando ela cruzava as pernas, deixando ver as canelas, tão lisas, e o joelho delicado, ou quando, sentada no sofá, curvava-se um pouco tentando alcançar um bolinho sobre a mesa de centro e eu via pelo decote o colo moreno e o início dos seios fartos, cujo desenho final eu traçava nos meus sonhos, sozinho no colchonete na sala, antes de dormir.
Quando o marido morreu, ela sofreu muito. Chorou dois dias seguidos. Ninguém, nada conseguia consolar a viúva. No terceiro dia, arrumou as malas, trancou o apartamento e sumiu. Não se ouviu falar mais de dona Cármen. Diziam que tinha mudado para a Europa.
Um ano depois eu a vi no corredor, chegando de viagem. Estava alegre, ria muito, a pele bronzeada, um vestido estampado, curto. Trazia várias malas e um garotão a tiracolo. Sorriu ao me ver, me deu um beijo, apresentou o cara.
“Meu namorado.”
Desse dia em diante, dona Cármen teve uns quinhentos namorados. Garoto, velho, homem casado. Mas só se encontrava com seus homens no período que ia das seis horas da tarde até as doze horas do dia seguinte. De meio-dia às seis dona Cármen era professora de catecismo na igreja perto de casa. Uma das mais atuantes da igreja. Passava as tardes dando aulas de catecismo, rezando, recolhendo donativos, visitando instituições de caridade.
Durante algum tempo, as pessoas não ficaram sabendo da vida dupla de dona Cármen. Depois todo mundo soube. De tarde professora de catecismo, de noite uma fera na cama. Andaram dizendo que tinha virado mulher de programa. Nada contra. O problema era a gritaria.
Eu precisava dormir muito no dia seguinte às minhas saídas noturnas. Precisava acordar pelo menos às duas da tarde. Quando era obrigado a acordar antes das duas, passava o dia de péssimo humor. Aquele seria um dia assim. De qualquer forma, mesmo que quisesse não poderia continuar dormindo, ou tentando, tinha bastante coisa a fazer.
A primeira seria sair e comprar um presente para Raquel. Não tinha acontecido nada na noite anterior mas me sentia culpado. Liguei a secretária. Três recados do Gordo. Tomei uma ducha, me vesti. Abri a carteira e lá estava o cartão, com um número de telefone. Eu não tinha sonhado, havia mesmo um cartão.
Desci. Parei na padaria. Pedi um pão com manteiga na chapa, café e suco de laranja. Quando dei a primeira mordida no pão, alguém bateu nas minhas costas:
“A noite foi boa!”
O Augusto era a última pessoa que eu queria encontrar àquela hora. Não disfarcei o mau humor.
“Quem me dera, tomar café da manhã às duas da tarde.”
Ainda não eram duas horas e ele sabia disso. Não respondi.
Sentou no banco ao lado do meu, pediu água mineral.
“Precisamos conversar.”
Fiquei esperando.
“Me ligaram ontem da clínica do doutor Epifânio de Morais Netto.”
“Por que você não chama o cara só de doutor Epifânio?”, perguntei, enquanto engolia um pedaço de pão.
“Disseram que você não apareceu mais lá.”
“É um embromador, o puto.”
“Ah, é um embromador. PhD em Filosofia, quinze livros publicados, mais de quatro milhões de exemplares vendidos, traduzido em várias línguas e você me diz que ele é um embromador. E você é o quê?”
Um detetive com quase mil dólares no bolso, eu queria ter dito.
“Não preciso mais dele. Parei de ler.”
Ele riu. Eu ri também. Era engraçado, tinha falado parei de ler como as pessoas dizem: parei de fumar.
“Não tem graça, André”, ele disse, ficando sério de repente, “você precisa dar um rumo na sua vida.”
Eu já tinha dado um rumo na minha vida, só não sabia onde é que ele ia dar.
“Te arranjei um emprego.”
Me engasguei. Voou suco de laranja para todo lado.
“Merda”, eu disse, tentando limpar o balcão com um guardanapo, enquanto ganhava tempo. Minha camisa estava toda molhada.
“Vou ter que subir, trocar de roupa.”
“Aproveita e veste uma camisa social. E uma calça nova. Você tem sapato?”
Eu tinha, mas disse que não.
“Vamos comprar agora, sapato e umas roupas novas também. Não vai me aparecer no escritório do Guimarães vestido desse jeito.”
“Quem é Guimarães?”
“Seu novo patrão. Você vai gostar dele.”
“Merda!”, repeti, com mais ênfase.
“Impressionante, André, impressionante como uma pessoa como você, que lê tanto, fala tanto palavrão.”
Ele não sabia as coisas que eu lia.
“Vai trocar essa camisa. Te espero aqui embaixo. Não demora.”
Subi. No elevador fui pensando num jeito de sair daquela encrenca, o Augusto jogava duro, marcação cerrada. Eu não podia dizer que já tinha um emprego: detetive particular. Era esporro na certa. E também não queria ver meu irmão envolvido nessa história, poderia ser perigoso para ele. Por um instante me senti muito nobre.
Troquei a camisa. Vamos ver o que ele tem a me dizer, depois seja lá o que Deus quiser, falei comigo mesmo, enquanto pegava o elevador de volta ao térreo.
Entramos no carro. O Augusto fechou os vidros, ligou o ar-condicionado, colocou um CD. Queria me impressionar.
“Gosta?”, ele me perguntou.
Era João Gilberto.
“Muito.”
“Que bom.”
Não entendi. O Augusto não era dessas gentilezas, estava me aprontando alguma.
“Acho que dessa vez você vai parar no emprego, tenho certeza.”
Eu não estava a fim de brincar de detetive com o Augusto, era só o que me faltava.
“O que tem a ver o cu com as calças?”
“Sem baixaria, André, sem baixaria no meu carro.”
Ele estava começando a ficar bravo de novo. Melhor, acabava logo com aquilo.
“É o seguinte: o Guimarães é um cliente do banco. Acabei de aprovar um empréstimo no nome dele. O Guimarães não queria mais ser empregado de ninguém, então entrou com o pedido de empréstimo, apresentou toda a documentação, é um sujeito honesto, trabalhador. Com o dinheiro ele abriu um negócio, uma gravadora. Agora o Guimarães vai precisar de pessoas que trabalhem pra ele.”
Eu era uma dessas pessoas, claro.
“Indiquei seu nome. Ele aceitou, mas você não pode fazer besteira, entendeu? Você vai ser responsável pela triagem.”
“Que porra é essa?”
Ele mudou a marcha do carro num gesto brusco, com raiva.
“Vou te dar um dicionário. Você vai ver que a língua portuguesa, apesar do que você pensa, tem várias palavras além de porra e merda.”
Ele tinha razão, apesar de não entender porra nenhuma da língua portuguesa.
“O Guimarães vai te explicar tudo, amanhã às nove da manhã, quando você for conversar com ele.”
Entendi que a conversa tinha acabado. O Augusto me arrumara um emprego, era tudo. Ele entrou num shopping,estacionou o carro. Iríamos comprar calças, camisas, sapatos. Meu irmão, mais uma vez, iria desempenhar o seu papel.
Antes de descer do carro, ele se virou e colocou a mão no meu ombro:
“Eu só quero o seu bem, André. Você sabe disso, não sabe?”
Fiquei calado, olhando meu irmão. “Pra que discutir com madame...”, o João Gilberto cantava no carro do Augusto.
***
Duas horas depois, ele me deixou em casa. De certa forma, não tinha sido perda de tempo. Não podia bater de frente com meu irmão, não só porque gostava dele mas também porque poderia precisar do Augusto se a situação ficasse ruim para o meu lado. Ainda não sabia direito como encarar minha nova vida de detetive às voltas com gente cheia de grana. Subi com as compras. Conferi a secretária: nenhum recado novo. Liguei para o Gordo.
“Apareceu a margarida.”
Fui direto ao assunto:
“O que aconteceu ontem?”
“Não dá pra falar por telefone. Daqui a pouco saio pro lanche, me encontra lá.”
O Gordo tinha horário de lanche. Todos os dias, às quatro e meia da tarde, lanchava na Pastelaria do Chinês, na Rua do Lavradio. Aquilo era sagrado. A livraria podia estar entupida de clientes, o dono podia estar tendo um ataque epiléptico, o teto podia estar desabando, nada disso impedia o Gordo de sair pontualmente às quatro e meia. No início eram quinze minutos, depois passou a vinte. Ganhava pouco, trabalhava muito, mas não pedia aumento, gostava de estar rodeado de livros e de ter suas pequenas regalias, como nunca sair depois das seis ou ter todo dia os seus vinte minutos de lanche no Chinês.
Peguei um táxi. Cheguei junto com o Gordo. Sentamos numa mesa no fundo.
“E então?”, perguntei.
“Vai de quê?”
“Um pastel de queijo e uma coca.”
“Você devia parar de tomar refrigerante.”
Ele fez o pedido ao português. O dono da Pastelaria do Chinês é um português. O dono do Bar Brasil é brasileiro mas a especialidade da casa é comida alemã. Tudo trocado.
“Está preparado para uma revelação bombástica?”, o Gordo falou, depois de pedir um pastel chinês de frango com azeitonas pretas e um caldo de cana.
“Desde ontem à tarde que estou preparado pra tudo, nada me espanta.”
“Então escuta. Quando saí, o Clóvis estava no carro, esperando passageiro. Dei sorte.”
Clóvis era um amigo do Gordo. Era motorista de táxi e fazia ponto em frente ao Lamas. Não gostei, já começava a aparecer gente demais na história. O Gordo respondeu que não tinha problema, o Clóvis era discreto, não ia pisar na bola.
“Falei pro Clóvis: siga aquele carro.”
“Você falou isso? Siga aquele carro, assim mesmo?”
“Pior é que o Clóvis nem titubeou, foi logo acelerando.”
“A que ponto chegamos.”
“O cara pegou a praia de Botafogo, subiu o viaduto, atravessou o túnel, foi até o final da Delfim Moreira, subiu a Niemeyer, seguiu pra Barra. Entrou num condomínio de luxo, na Avenida das Américas. Anotei o número do condomínio. Mandei o Clóvis estacionar e me esperar no carro. Desci e fui até a portaria. Apertei o interfone, o porteiro atendeu. Boa-noite, amigo, queria falar com o doutor Murilo Chaves, ele está?, eu perguntei. Qual o seu nome?, ele perguntou de volta. Fala que é um amigo dele. O porteiro disse que só podia chamar se eu falasse o meu nome. Tudo bem, mudei de ideia, amanhã eu ligo, respondi. Não queria falar com o sujeito, só precisava confirmar se ele morava ali. Entrei no carro e esperei. Do carro percebi que o porteiro estava me observando, desconfiado. Pedi pro Clóvis parar mais adiante, fora da vista do porteiro.”
O português chegou com o lanche. Dei uma mordida na pontinha do pastel, para deixar sair o vapor quente. Deixei o pastel no prato, esfriando, eu gostava de pastel meio morno, quase frio. O Gordo odiava quando eu fazia isso. Sacrilégio, ele dizia.
“Meia hora depois o Murilo Chaves saiu de novo, noutro carro. Só percebi que era ele porque passou bem perto da gente e pude reconhecer o safado. Mandei o Clóvis seguir. O cara voltou pra Zona Sul, estacionou em frente à Le Boy.”
“Le Boy? Aquela boate gay?”
“É isso aí, meu amigo, mas não acabou. Mandei o Clóvis esperar. Pra ele não pegar no sono, fui até uma banca 24 horas ali perto e comprei uma revista de sacanagem. Não conta pra ninguém, André, mas o Clóvis é ligado numa revista de sacanagem.”
Para quem eu iria contar? Mal conhecia o Clóvis.
“Comprei outra pra mim, que também não sou de ferro. Ficamos ali até as três da manhã, vendo revista de sacanagem. Às três o coroa saiu, acompanhado de um negão, jovem, musculoso, rato de academia, calça preta justa, de couro, um colete preto, aberto, sem camisa por baixo. Garoto de programa, não tinha dúvida. Mandei o Clóvis seguir. Voltaram pra Barra. Entraram no Mayflower.”
“O que é isso? Motel?”
“Não, sorveteria. Claro que é motel.”
“Não conheço.”
“Fica na Estrada da Barra. Achei inclusive que o cara estava dando mole, poderia ter escolhido um motel mais discreto, mas foi lá que ele entrou, no Mayflower. O Clóvis me perguntou: agora vamos embora, certo? O coitado estava caindo de sono. Ele não costuma trabalhar até tarde, naquela noite já estava no final do expediente, só me levou porque eu disse que era importante e pagaria em dobro. Quer dizer, você já tem alguns dólares a menos.”
O Gordo se recostou na cadeira e deu um gole no caldo de cana. O pastel chinês já tinha sido devidamente devorado enquanto ele falava. Ficou esperando meu comentário.
“Já acabou?”
“Como assim?”
“E a revelação bombástica?”
“E a revelação bombástica? Você ainda pergunta? Acabo de dizer: o presidente do Flamengo é gay!”
O Gordo era vascaíno, doente.
Fiz uma cara de desânimo. Aquilo ia mal.
“Gordo, acho que você não entendeu bem o espírito da coisa. Um desconhecido me dá uma grana alta pra eu começar a procurar o filho dele. Temos um suspeito: Murilo Chaves. Voce segue o indivíduo e a única coisa que descobre é que o cara é gay?”
“André, meu camarada, você é que não está entendendo. Já pensou a manchete? Murilo Chaves, presidente do Flamengo, é flagrado saindo de boate gay com um garoto de programa! Com aquela pose toda de homem sério, bom marido, bom pai, quatro filhos o safado tem, você sabia? E gosta mesmo é de um negão. André, escuta de novo, o presidente do Flamengo é bicha, boiola, viado. Alcançou?”
“Não alcancei nada. O máximo que você consegue com isso é sacanear flamenguista.”
“E você acha pouco?”
Eu precisava de um novo assistente, com urgência.
***
“Tudo bem, foi uma piada. Você anda perdendo o senso dehumor.”
Senti que era verdade, estava ficando velho.
“O meu plano é o seguinte. Vamos supor que o Murilo Chaves esteja envolvido no sequestro do filho do nosso cliente. O cara já anda com o filme meio queimado com essa história de sonegação de imposto de renda, mas você sabe como são as coisas por aqui, basta despontar um outro escândalo que a imprensa esquece o Murilo Chaves. Mas nós não podemos deixar que isso aconteça, concorda?”
“Não podemos por quê?”
“Elementar, meu caro. Você conhece jornalista, é um tipo de gente que vive de escândalo, de descobrir os podres de pessoas importantes. Enquanto o Murilo Chaves estiver na mídia, vai estar assim de jornalista querendo descobrir outras falcatruas dele, ao passo que, se ele sumir, se esquecerem que ele existe, o canalha vai poder continuar aprontando.”
Eu já tinha entendido. Ele completou o raciocínio:
“Precisamos manter o Murilo Chaves nas manchetes. Assim a imprensa vai acabar trabalhando pra gente, entendeu? Se o puto tiver culpa no cartório, se tiver alguma coisa a ver com o sequestro, algum jornalista fuinha, desses obcecados, vai descobrir e o caso está resolvido.”
Esse era o Gordo que eu conhecia.
“Muito bom”, eu disse, apertando a mão dele por sobre a mesa.
“Agora só falta a última parte do plano.”
“Qual?”
“Dar um flagrante no pústula.”
“Pústula.”
“É. Combino com o Clóvis. Arranjo, aliás, você me arranja uma máquina fotográfica. Dou o flagrante. Depois é só mandar pra todos os jornais.”
Não seria o suficiente para resolver o caso, imaginei, mas não deixava de ser uma estratégia. Pelo menos eu teria alguma coisa a dizer ao meu cliente quando ele ligasse. Já começava a me sentir mais calmo.
“Está na minha hora”, o Gordo falou, se levantando, “arranja uma câmera decente. Não me venha com porcaria, não sei trabalhar com material de segunda.”
O Gordo já se sentia o próprio detetive.
“Vou arranjar sim.”
“E depois que eu saí, você fez o quê?”, ele perguntou.
“Li.”
“Vida boa.”
Eu não queria contar sobre a mulher do cartão ali na Pastelaria do Chinês, não daria tempo.
Paguei a conta. Combinamos de nos falar de noite, por telefone.
“Só mais uma coisa”, ele disse.
“O que é?”
“Tudo isso tem que estar nos jornais antes de domingo, combinado?”
Domingo tinha jogo no Maracanã. Flamengo e Vasco.