O Campeonato
Capítulo 20
Já estava chegando, dali a pouco veria a estrada de terra. Eu me sentia bem melhor. Vi a plaquinha: Km 85. Entrei. O carro de Rosália passou por mim e deu uma buzinada, de leve.
Dirigi até me deparar com o muro alto, de pedras escuras, cobertas de musgo. Segui contornando o muro, que fazia uma curva à esquerda, até chegar ao portão de ferro. Não dava para ver o que havia atrás do portão, não era um portão de grades, mas de ferro compacto. Parei o carro, retirei o cartão número um. Ao meu lado, à altura da janela do carro, um pedestal, também de ferro, com um pequeno furo. Desci o vidro, coloquei o braço para fora, enfiei o cartão ali. Logo em seguida, num ponto abaixo do furo, abriu-se uma janelinha com alguns números e letras. Consultei meu papelzinho, teclei a senha número um.
O portão se abriu, devagar. Pude ver os jardins e, bem ao fundo, uma casa de três andares. Entrei com o carro, o portão se fechou atrás de mim. Não tive tempo de observar com atenção o lugar onde estava porque logo em seguida se aproximaram quatro caras encapuzados, com metralhadoras. Parei o carro. Dois deles ficaram bem na minha frente, com as metralhadoras apontadas para mim. Um outro fez sinal para que eu descesse e ficou me vigiando de perto. O quarto entrou no carro, apanhou a maleta com os dólares, contou o dinheiro, fez um sinal de positivo para os outros e saiu, levando a Mercedes.
Um dos homens pediu que eu apresentasse a autorização com os selos dos três líderes e meus documentos pessoais. Entreguei tudo, ele descansou a metralhadora num suporte, no próprio ombro. Conferiu os papéis, depois me revistou. Ficou com a pistola. Eu e Mariana já imaginávamos que isso fosse acontecer, trouxe a arma apenas por precaução, pensando em algum imprevisto no caminho. Não tiraram meu cinto, como eu temia, e assim não viram a caneta-tinteiro com a microcâmera, que Mariana prendera com velcro na parte interior do cinto. Também não perceberam o transmissor e o receptor. Achei tudo muito fácil, fácil até demais.
Dois dos seguranças seguraram meus braços, um de cada lado, e outro colocou uma venda nos meus olhos. Já seria o suficiente para que eu não visse nada mas ainda me enfiaram um capuz. O mundo virou um breu. Alguém, com uma tesoura, fez um buraco no pano, na altura do meu nariz, para que eu não morresse sufocado debaixo daquele troço.
Me empurraram numa direção qualquer. Obedeci. Andamos um pouco e ouvi o zumbido das hélices e o motor barulhento do helicóptero. Me suspenderam e me colocaram num banco. Senti que partíamos.
Durante um tempo indeterminado ficamos no ar. Sem relógio, sem poder ver nada nem ninguém, perdi completamente a noção de tempo, de modo que seria impossível precisar se fiquei trinta, quarenta minutos voando, ou se o voo durou horas.
Estava surpreendentemente tranquilo. Talvez o fato de não ver ninguém, de só sentir o vento e o balanço, tenha me acalmado. Uma coisa é você saber que há pessoas armadas ao seu lado, outra é ver essas pessoas apontando armas para você. Cheguei a pensar no fato de que estava realizando metade de um sonho. Sempre, desde criança, era minha mãe que contava, sempre quis andar de helicóptero. Agora conseguia concretizar aquele antigo desejo mas, em compensação, não podia ver bulhufas, o que era a mesma coisa, ou quase, que não estar andando de helicóptero.
Aterrissamos. Me colocaram no chão e senti alguém desafivelar meu cinto. Tentei reagir e levei um soco na boca do estômago. Nos filmes parece que não dói tanto mas a sensação que tive na hora foi a de que um caminhão tinha passado sobre a minha barriga. Fiquei no chão, curvado, até me levantarem novamente, já sem o cinto. Os desgraçados tinham acabado de levar minha microcâmera.
Foda-se Rosália, foi o que pensei, lembrando que aquilo era coisa dela, eu não estava nem aí para aquela pasta cheia de dólares, meu único objetivo era sair dali com vida e, se possível, com o Pedro.
A barriga continuava doendo mas os caras estavam com pressa e me colocaram para andar novamente, naquela escuridão total. Antes ficaram com meu paletó e meu brinco. Adeus, contato com Mariana.
Quando retiraram meu capuz e a venda, me vi diante de uma porta de aço. Olhei em volta. Estava num cubículo de uns dois metros quadrados, atrás de mim uma porta, por onde os seguranças haviam saído, na frente outra. Nenhuma janela, ninguém por perto, nada. Mariana tinha razão, não era possível, depois do passeio de helicóptero e de ser largado ali naquela espécie de jaula, saber em que cidade, estado, em que país eu estava.
Retirei do colete a carteirinha de couro, peguei o cartão número dois e a senha. Enfiei o cartão no local indicado e digitei a senha num teclado. A porta abriu, passei. A porta foi fechada logo em seguida, com estrondo, lembrando a cena clássica de filmes de terror.
Eu estava diante de um corredor. Comecei a caminhar lentamente, cauteloso, ouvindo apenas o eco dos meus passos. O corredor parecia não ter fim, ia fazendo curvas à esquerda, à direita, como num impossível labirinto de mão única. Era baixo e estreito, sem janelas, as paredes e o teto de um material que me pareceu alumínio, ou aço, o piso de madeira, me deu vontade de tirar os sapatos, pelo menos assim evitaria que cada passo meu ecoasse tanto, mas não tive coragem, só continuei em frente,caminhando. Se sofresse de claustrofobia, já estaria bem mortinho, sem dúvida, era o que eu pensava quando cheguei ao final.
Apanhei o terceiro cartão, enfiei no buraco da porta, digitei a senha. Entrei.
“Caramba!”
Aquilo sim era uma suíte. Imensa, um salão com quadros e esculturas espalhados pelas paredes, pelos cantos, representando adolescentes, homens e mulheres, nus.
Caminhei até o centro da suíte, desci os dois degraus que levavam até uma piscina com aparelho de hidromassagem, o fundo de pedra, a água cristalina. Enfiei minha mão na água morna, deliciosa. Subi, caminhei em volta, vendo os objetos de arte.
Tinha lido uma vez numa revista que em alguns museus da Europa a iluminação é variável, você entra, fica diante de uma escultura, por exemplo, e a iluminação sobre a escultura vai variando, mudando de foco e intensidade, de modo que você vê a cada mudança uma obra diferente. Alguém copiara a ideia e instalara na suíte uma iluminação assim, que realçava ora um, ora outro detalhe não não só dos objetos como também do próprio ambiente.
Fiz o reconhecimento do lugar: num canto uma sauna, já aquecida, e uma porta que dava para o banheiro, noutro um sofá de três lugares, uma cadeira de balanço, uma mesa grande, sólida, de ferro maciço e tampo de tábuas corridas. Ao lado um bar, com geladeira, freezer, micro-ondas, taças, talheres, pratos, e várias garrafas de bebida colocadas sobre um aparador. Abri a geladeira, peguei uma cerveja, bebi no gargalo. Estava morrendo de sede e não sabia. Senti fome mas não quis comer nada daquele lugar, por medo e porque meu estômago ainda doía, o gorila tinha me acertado em cheio.
Uma das paredes era toda dividida em quadrados, em compartimentos de vidro separados por divisórias de alumínio. Parecia um grande armário envidraçado. Cheguei mais perto. Na parte inferior de cada um dos quadrados havia uma plaqueta, e só então pude entender que aquilo era mesmo um armário, cada quadrado daqueles guardava um produto diferente, ao gosto do freguês. Fui lendo as plaquetas:
CREMES EXCITANTES. ANÉIS. ALONGADORES. EXTENSORES. PROLONGADORES DE EREÇÃO.
VIBRADORES. ALGEMAS. PLUGS ANAIS. CHICOTES. MÁSCARAS. BONECAS INFLÁVEIS. BONECOS INFLÁVEIS. CALCINHA COMESTÍVEL. CUECA COMESTÍVEL. PÊNIS SERRILHADO. MASSAGEADORES. VAGINA DENTADA.
Instintivamente levei a mão ao meu pênis e parei de ler. Não queria dormir de noite e sonhar com uma grande, enorme, monstruosa vagina dentada tentando me devorar.
“Seja bem-vindo, senhor Renato”, ouvi a voz e me assustei, “espero que esteja tudo a contento. O senhor pode se utilizar de quaisquer dos objetos à sua frente, ou solicitar algum em especial que porventura não esteja incluído nos compartimentos.”
Era voz de homem.
“Obrigado”, eu disse, gaguejando um pouco, “muito obrigado, está bem assim.”
“No microfone, por favor.”
Procurei o microfone. Foi então que vi o janelão escuro, do outro lado da suíte. Caminhei até lá. Era dali que assistiria ao campeonato, deduzi, me lembrando do relato de Lívia. À frente da grande janela de vidro havia uma mesa, tendo de um lado uma pequena luminária acesa, do outro um monitor de computador ligado, no centro um microfone e um pequeno livro com capa de couro. Aquele era um exemplar exatamente igual ao que Lívia havia me mostrado, começava a me dar conta de que estava realmente ali, no centro de tudo, em breve iria presenciar a final do campeonato, e um gosto de vômito subiu até a minha boca e parou. Segurei, não poderia dar mole justo quando a voz falava comigo.
“O microfone, senhor Renato”, a voz repetiu, diante da minha paralisia.
Me aproximei do microfone:
“Está tudo bem, não preciso de nada.”
“Ótimo. Saiba que estamos muito felizes de tê-lo conosco. Pedimos desculpas por qualquer aborrecimento que tenha passado no caminho até aqui, é um procedimento necessário, o senhor compreende.”
“Sim.”
“Sentimos muito pela morte do seu amigo. Estamos todos penalizados.”
Imagino, pensei.
“Mas a vida continua, não é verdade, senhor Renato?”
“É.”
“O senhor certamente já foi instruído a respeito do nosso regulamento. De todo modo, deixamos à sua mesa um caderno com as instruções. Se ainda assim precisar de algum esclarecimento basta nos chamar pelo microfone. Divirta-se. E boa sorte.”
“Obrigado.”
Dei um passo à frente, tentando sentar na poltrona, e não pude evitar: vomitei no microfone.
***
Tirei um lenço do bolso do colete, limpei a sujeira. Fui até o bar, peguei uma garrafa de água tônica. Odeio água tônica mas aquela desceu muito bem. Caminhei até o banheiro, lavei o rosto demoradamente, me olhei no espelho. Estava de camisa social branca, colete preto, gravata cinza, cores que não escolhi, faziam parte das instruções para entrar no campeonato. Com aquela roupa eu parecia um executivo que dera um intervalo no trabalho, para relaxar, ou um gângster que acabara de matar alguém e lavava as mãos e o rosto antes de dar o fora. Eu era um estranho, só os meus olhos me pareciam familiares.
Voltei à mesa, sentei na poltrona. Folheei o caderno, as mesmas coisas que já havia lido antes: “Bem-vindo a Aldebaran. Nós, animais de sangue quente” etc. Fiquei olhando o escuro da janela. Mais uma vez tive a impressão de estar dentro de um cinema, ou teatro, eu sentado na minha poltrona, na sala escura, esperando.
Uma luz apareceu do lado de fora, clareando o centro do salão onde aconteceria a final, um foco de luz iluminando uma cama de casal com lençol branco sem travesseiros ou almofada, e sem cabeceira, apenas uma cama, limpíssima. Era o início do espetáculo, aquela cena permaneceu congelada por alguns segundos, criando a expectativa. Minhas mãos suavam.
Um homem de fraque surgiu como que do nada, um outro foco iluminando sua caminhada até próximo da cama. Uma voz em off, grave, anunciou.
“Mister Blue, nosso árbitro para a grande final.”
O tal Mister Blue deu uma volta de 360 graus, lentamente, cumprimentando com um leve abaixar de cabeça os apostadores, que ele não via, atrás dos janelões. Quando se virou na minha direção, percebi que trazia um desenho na parte esquerda do paletó: o símbolo do copyright: ©, na cor azul, com fundo branco.
“Sejam bem-vindos, senhoras e senhores.”
Trazia um microfone sem fio na lapela. Senhoras, eu ouvi, quer dizer que também havia mulheres entre os apostadores. Rosália não havia dito isso, era uma informação importante, por que teria omitido uma coisa dessas? Tive um estranho pressentimento, a sensação de ter cometido um grande erro: na nossa lista de suspeitos simplesmente excluímos as mulheres. Agora era tarde demais.
“Antes de dar início à grande final”, ele continuou, de costas para mim por um momento, depois virando-se, parecia um apresentador no picadeiro de um circo, falando e girando o corpo, devagar, “gostaria de lembrar a todos que a aposta mínima é de 250 mil dólares. As regras já são conhecidas, constando, caso haja necessidade de consulta, do pequeno livro que os senhores têm à sua frente. Aos que aqui estão pela primeira vez, avisamos que todo e qualquer consumo no bar ou a utilização de quaisquer dos equipamentos das suas suítes é inteiramente por conta da organização do campeonato, não cabendo aos senhores qualquer ônus por este serviço.”
“Grande coisa”, murmurei, com medo de alguma escuta indiscreta.
“Sem mais delongas, vamos à apresentação dos casais finalistas. Casal número um: Gabriel e Agnes.”
Dois jovens, de mãos dadas, nus, entraram no salão.
Pela descrição que Lívia havia me dado, o rapaz devia ser o parceiro dela, ou ex-parceiro. A menina era de descendência chinesa. Belíssima. Estava no lugar de Lívia. Parecia ter saído de um filme do Zhang Yimou. Como, onde aqueles canalhas tinham conseguido sequestrar, em tão pouco tempo, uma menina tão bonita como aquela? Deuses, pensei, esses caras devem se achar uns deuses, os filhos da puta.
“Agnes”, Mister Blue começou a apresentação, e neste exato momento o monitor, sobre a minha mesa, passou a mostrar detalhes do rosto, do corpo de Agnes.
“Catorze anos, brasileira, pais chineses, um metro e sessenta e cinco, cinquenta e quatro quilos. Cintura: sessenta e três. Ombro: oitenta e quatro. Busto: oitenta. Quadril: oitenta e cinco. Coxa: quarenta e oito. Panturrilha: vinte e oito. Pele branca, cabelos e olhos negros.”
Na tela do monitor aparecia Agnes de frente, de costas, de perfil. A imagem parou por instantes no rosto da menina. Vista assim, em close, os olhos cheios d’água, depois duas lágrimas rolando pelo rosto, parecia Gong Li na primeira cena de Lanternas vermelhas.
“Melhor rendimento na preparação: nado livre. Método de preparação: Gorki.”
Método Gorki? Ninguém tinha me explicado qual era o método Gorki, imaginei que os apostadores veteranos saberiam muito bem se utilizar daquela informação, o que lhes daria vantagem sobre os iniciantes, como eu.
Olhei para o vídeo. Agora era o rosto de Gabriel que enchia a tela. Era um cara bonito. Parecia cansado, os olhos sem expressão, fiquei tentando adivinhar o que se passava na cabeça daquele garoto. Já estava há um bom tempo prisioneiro, já havia disputado uma etapa, tendo Lívia como parceira, agora estava prestes a se deitar com uma outra adolescente que nunca vira antes. Saberia que no dia seguinte, ou mesmo naquele dia, horas depois, estaria morto?
O árbitro começou a apresentação:
“Gabriel, brasileiro, pais brasileiros, um metro e oitenta, sessenta e quatro quilos.”
Magro. Com esse peso e, principalmente, com esse olhar, alguém apostaria nele? Assim como acontecera com Agnes, a tela, sobre a mesa, ia mostrando ângulos diferentes do corpo de Gabriel. Eu via aquelas imagens, ouvia a descrição do árbitro e sentia a boca seca, as mãos empapadas de suor, frio, fui ficando tonto, firmei as mãos sobre a mesa, com medo de desmaiar.
“Cintura: oitenta. Ombro: cento e dez. Tórax: noventa e sete. Braço: trinta. Quadril: noventa e cinco. Coxa: cinquenta e seis. Panturrilha: trinta e sete. Pele morena, cabelos negros, olhos castanhos. Melhor rendimento na preparação: corrida. Método de preparação: Ursinho Meireles.”
Merda! Será que o método Ursinho Meireles deixava o cara assim, pele e osso, os olhos de peixe morto, de propósito? Será que era o favorito? Por que ninguém me explicou como funcionavam esses métodos? A tontura foi aumentando, comecei a enxergar com dificuldade, levei a mão ao ombro, buscando a lapela do paletó, tentando me conectar com Mariana, sem me lembrar de que tinham levado meu paletó e estava incomunicável.
Ainda consegui ouvir o chamado do árbitro:
“Casal número dois: Lucas e Gracie.”
Lucas? O nome do cara era Lucas? Comecei a ficar desesperado, não conseguia enxergar muito bem o casal que estava entrando, fiz um esforço enorme para continuar consciente, precisava conferir se aquele moleque era o Pedro. Fixei meus olhos no monitor que transmitia a entrada do casal, a tela mostrou o rosto da menina, uma loira, alta, e o rosto do menino: um negro.
“Puta que o pariu”, foi só o que consegui dizer.
Era para ter sido um grito mas já não tinha forças e aquelas palavras devem ter saído da minha boca como um sussurro. Eu estava mal, muito mal, a cabeça girando, aquele não era o Pedro, eu caíra numa armadilha.
***
Mister Blue começou a apresentar as medidas do casal, como fizera anteriormente com Gabriel e Agnes. Não conseguia me concentrar no que ele dizia, não registrava uma palavra sequer,apenas via as imagens na tela do monitor. Minha cabeça estava longe, pensava no que poderia estar acontecendo com o Gordo, com Lívia e com Mariana naquele momento. Se o Pedro não estava no campeonato, todas as nossas deduções iam por água abaixo. O plano do Montenegro não era o que pensávamos, o filho dele não estava ali coisíssima nenhuma. Tudo o que havíamos planejado tinha dado errado. Não tinha como me comunicar com Mariana e, pior, não tinha a mínima ideia de como sair dali.
O monitor mostrava Gracie de vários ângulos. Era uma loura muito bonita, os olhos verdes, um corpo perfeito. Lucas era todo músculos. Detalhes dos corpos e das condições físicas dos dois continuavam aparecendo na tela ou sendo indicados por Mister Blue.
Minha tontura aumentava, parecia que a qualquer momento iria desmaiar. Quando acabou a apresentação do casal, ouvi Mister Blue dizer que os apostadores teriam quinze minutos para as apostas. Precisava agir, tinha que apostar também, caso contrário iriam descobrir que estava ali de penetra.
Na tela do monitor apareceu uma pergunta: “Você precisa de ajuda?”, seguida de um sim e um não . Claro que eu precisava de ajuda! Me deu vontade de clicar o sim e logo em seguida digitar: COMO É QUE EU SAIO DAQUI????? Cliquei o sim. Na tela apareceram as instruções, passo a passo. Tentei ler mas as letras foram se embaralhando, estava tudo embaçado, impossível entender aquilo.
Esfreguei o rosto com as duas mãos, com força. As letras ficaram mais ou menos nítidas mas ainda assim eu não estava em condições de decidir nada. Saí da frente do computador e fui andando até o bar da suíte. Bebi uma garrafa de água mineral num gole só. Abri outra, joguei sobre a minha cabeça. Olhei novamente para o monitor: uma mensagem dizendo que o tempo estava se esgotando, e a pergunta: deseja uma consulta pessoal?
SIM, respondi. Na tela surgiu o rosto de um homem.
“Pois não, senhor, em que posso ajudá-lo?”, o homem perguntou, solícito.
De imediato não reconheci aquele sujeito, mas alguns segundos depois minha memória voltou a funcionar. Eu sabia muito bem quem era aquele cara ali, diante de mim, na tela do computador.
“Porra, é o baixinho!”
Dei um pulo, derrubando a cadeira. O baixinho da festa no Alto, era ele que estava naquela televisão, o mesmo olhar asqueroso, aquele gordo safado, era ele que tinha acabado de falar comigo!
“Lívia estava certa, você é o Senhor Cinza!”, gritei.
“No microfone, cavalheiro, assim não posso ouvi-lo”, o baixinho me disse.
Peguei o microfone, fiquei diante da tela, numa posição em que ele podia me ver muito bem. Joguei pesado:
“É você, seu puto! Safado! Assassino! Lívia tinha razão, você é o Senhor Cinza, seu canalha!”
O baixinho ficou me olhando um tempo, impassível. Cheguei o rosto mais perto do monitor, quase colado, a imagem que o baixinho devia estar vendo era a de um louco raivoso recém-fugido do hospício. Fiquei falando um monte de palavrões na cara dele, estava possesso, espumava, cuspia, o monitor ficou todo sujo da minha saliva. Ele não ouviu nem um décimo do que eu disse porque logo nas primeiras palavras a imagem do baixinho sumiu e a tela ficou completamente negra. Continuei xingando assim mesmo, lançava o meu ódio naquela tela escura, não me importava mais se aquilo fazia sentido ou não, estava completamente fora de mim, queria gritar, na verdade precisava gritar, muito, xingar até perder a voz.
De repente ouvi o estrondo. A porta da suíte se abriu. Uns caras entraram correndo, me pegaram pelo braço, me levantaram da mesa como se levantassem um boneco de pano e saíram comigo pelo corredor. Não tive tempo de reagir, não consegui dizer nada, aquilo parecia um pesadelo.
Os gorilas me levaram com eles. Eu via as paredes do corredor passarem por mim, voava, não sentia os pés no chão, só uma pressão em cada um dos braços, alguém me segurando, e à minha frente um vulto, se distanciando sempre, parecia um homem correndo, claro que era um homem, de preto, correndo, e depois tiros, tiros ecoando no corredor e quase arrebentando meus tímpanos, mais tiros, o cara da frente atirava feito louco, eu estava no meio de um tiroteio. Tropecei num corpo, olhei para baixo, tinha outro homem deitado, uma poça de sangue ao lado dele, o sujeito à minha frente continuava correndo e atirando, os outros dois apertando meu braço com mais força, me arrastando.
Quando vi estava ao ar livre, sendo levado de novo para um helicóptero. O piloto abriu a porta, me enfiaram lá dentro, caí feito um saco de batatas, me espatifando no piso do helicóptero. Depois eles subiram, os três, dois atrás, comigo, outro na frente, com o piloto. E do chão, lá embaixo, um bando de pontinhos negros soltando faíscas na nossa direção, era o que eu via, o que eu vi, antes de apagar de vez.