O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 14 de 23

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O Campeonato

Capítulo 14

 

 

O carro entrou na Rua do Lavradio. Pedi que parasse em frente à livraria. Eram oito e meia. Estava fechada, só abriria às nove. Fui até uma lanchonete na esquina, pedi média e queijo de minas no pão francês.

“Na chapa”, eu disse, “e sem miolo, por favor.”

“Bota manteiga?”

“Pouca.”

Sentei numa mesinha, abri o livro. Logo o moço trouxe a média e um pratinho com o sanduíche. Pedi um suco de laranja. Gostava de fechar o meu café da manhã com suco de laranja, gostava de sentir o gostinho de laranja na boca depois que terminava de comer. Abri o livro do Paul Auster. Li até dar nove horas.

Voltei à livraria. Cheguei junto com o Gordo.

“Que cara é essa? Dormiu dentro da máquina de lavar?”, ele perguntou.

“Ligada”, respondi.

O Gordo destrancou a porta de aço e a levantou. Quase sempre era ele que abria a livraria, o dono só chegava lá pelas onze. Entramos.

“Estão atrás de você”, eu disse.

Contei a ele toda a história.

O Gordo pegou o telefone e ligou para o dono da livraria. Disse que precisava resolver um problema urgente, de última hora. Depois trancou tudo e fomos atrás de um táxi.

Quando o motorista engatou a primeira, olhei para trás, num impulso, e vi os dois caras da noite anterior. Acabavam de chegar. Cutuquei o Gordo.

“São eles?”

“O que você acha?”

“Vamos embora”, o Gordo falou ao motorista.

“Pra onde?”

“Leblon”, respondi.

Dessa vez meu amigo não quis conversa com o motorista. O cara puxou assunto mas o Gordo não disse uma palavra. Eu estava no banco de trás, ele no da frente, como sempre.

Imaginei o que o Gordo estaria pensando. Dei um abraço nele.

“Está tudo bem”, eu disse baixinho, no seu ouvido, “vamos sair dessa.”

Ficamos algum tempo assim, meus braços envolvendo por trás os ombros largos do Gordo, ele segurando firme as minhas mãos.

“Vocês são viados?”, o motorista perguntou, sem a menor cerimônia.

“Somos”, o Gordo respondeu, me dando um beijo no rosto.

Comecei a rir, o Gordo também. O motorista continuava sério.

“Quem come quem?”, ele perguntou.

“Nos comemos um ao outro, mutuamente”, o Gordo respondeu.

O motorista não gostou nem um pouco. Encostou o carro.

“Não carrego viado”, ele disse, abrindo a porta do carona com violência.

Abri a porta de trás, desci, puxei o Gordo.

“Calhorda!”, o Gordo gritou, já do lado de fora, “é por isso que esse país não vai pra frente!”

O motorista mandou um palavrão e saiu cantando pneu.

Fomos andando pela rua, em silêncio.

“Gordo, você não acha que está na hora de atualizar seu vocabulário? Parece um velho falando.”

“Eu sou um velho.”

Olhei bem e reparei que ele estava com os olhos fundos, de quem passou a noite em claro. Dona Cármen acabara com o coitado.

“Por que o Leblon, posso saber? Vamos fazer um ménage à trois?”, ele perguntou, com um sorriso sacana.

Fiz sinal, o táxi parou. Em meia hora estávamos no prédio de Mariana.

“Hoje o dia está movimentado”, o porteiro disse, quando nos viu chegar. Depois interfonou para o apartamento de Mariana.

Entramos no elevador.

“Você trouxe a Lívia pra cá.”

“Adivinhou.”

“Você anda bebendo demais, André.”

“Não tinha outra saída, pra onde você queria que eu a levasse?”

“Um hotel não seria má ideia.”

“Pensei nisso, e pensei primeiro na casa do Augusto, mas foi melhor assim. Ficamos todos juntos.”

“Todos quem?”

“Eu, você, Lívia, Mariana e talvez Rosália.”

“Parece romance da Agatha Christie. Quando estivermos todos reunidos na sala, você vai apontar o assassino.”

Chegamos. A porta estava só encostada. Entramos. Ninguém na sala.

“Lívia”, chamei.

Ninguém respondeu.

Caminhamos pelo apartamento. Vazio.

“Lívia”, repeti.

“Estamos aqui”, alguém respondeu, da biblioteca.

Era a voz de Mariana.

 

***

 

Mariana estava sentada com Lívia, as duas muito próximas, no sofá. Lívia tinha os olhos baixos e as mãos entre as pernas, como se quisesse se esconder do mundo, e de mim. Olhei para Mariana: seus olhos continuavam me lançando flechas.

No teto da biblioteca havia uma claraboia que me lembrava a do Real Gabinete Português de Leitura, perto da Praça Tiradentes. Passei algumas tardes no Real Gabinete lendo romances de aventuras e coisas assim quando era apenas um desocupado que não precisava correr atrás de bandidos.

Quando entrei na biblioteca de Mariana pela primeira vez ela me disse que os desenhos nos vitrais da claraboia eram detalhes das ilustrações de Gustave Doré para o Quixote, de Cervantes. Perguntei se ela tinha lido Dom Quixote. Ela riu.

Foi na noite do nosso primeiro encontro. Era madrugada e eu quase cochilava na cama, exausto, quando Mariana me puxou pela mão: vem, quero te mostrar uma coisa. Fomos os dois, nus, eu puxado por Mariana, até a biblioteca. Lá em cima, pode ver?, ela perguntou, apontando a claraboia. Olhei: a lua, cheia, sua luz entrando inteira pelo vão central e formando sombras nos móveis, nas estantes, nos objetos de arte. Foi quando Mariana me falou das ilustrações de Doré.

Depois se enroscou no meu corpo como se eu fosse o último homem do mundo, numa voracidade súbita saltou sobre mim, as pernas na minha cintura, os braços envolvendo meu pescoço. Durante o beijo abri os olhos, procurando um lugar para onde levar minha musa alucinada, quem sabe sob efeito da lua que ela acabara de me mostrar, e vi o sofá num canto, nos chamando. Passamos algumas das horas mais intensas da minha breve vida sexual naquele sofá.

Era ainda Mariana que eu via ali, sentada, mas onde eu deveria estar estava Lívia. Era uma cena constrangedora, sem dúvida, mas também uma bela cena, belíssima. Pelo menos para mim.

“Voce já conhece Rosália”, Mariana falou, me tirando do transe.

Só então reparei na figura antipática de Rosália. Estava no fundo da biblioteca, folheando um livro. Ao ouvir seu nome veio caminhando em nossa direção. O Gordo permanecia ao meu lado, de pé. Reparei que seus olhos vagavam pelas estantes, querendo alcançar as lombadas dos livros, ler os títulos, devorar um por um.

Rosália se aproximou, altiva, sem olhar para nós, e foi sentar entre Mariana e Lívia no sofá, estragando completamente o quadro. Não tinha absolutamente nada a ver aquela mocreia sentada entre as duas mulheres da minha vida.

“Então o nosso jovem André é detetive particular”, Rosália começou, dignando-se a olhar para mim pela primeira vez desde que chegamos.

Eu não disse nada, achei melhor deixar que ela destilasse logo o seu veneno.

“Pensei que preferisse a ficção à realidade. Pelo menos foi o que você me disse naquela noite.”

“Ele disse muitas coisas naquela noite”, Mariana interrompeu, olhando bem dentro dos meus olhos.

Senti um mal-estar. Pouco me importava o que Rosália achava de mim, mas pensar que Mariana duvidava da minha sinceridade, que pensasse que eu tinha mentido naquela noite da festa, imaginar isso era angustiante, sobretudo porque aquela não era a hora nem o lugar de me defender.

“Tudo bem, detetive, vamos ao que interessa. Você gosta de histórias, não gosta?”

“Gosto de algumas, não gosto de outras.”

Rosália estendeu a mão e apanhou um maço de cigarros sobre a mesinha à sua frente. Acendeu, deu um longo trago. Depois disse:

“Pois eu vou lhe contar uma longa história. Não sei se é boa ou ruim, nem me interessa saber se é do tipo que você gosta ou não. Só sei de uma coisa.”

“O quê?”

“Não é ficção.”

Eu estava cansado de ficar em pé. Procurei uma cadeira.

“Atrás de você”, Mariana falou.

Não sei se foi impressão minha mas me pareceu ter captado um tom mais suave, cortês, na fala de Mariana. Estaria começando a me perdoar? Sentei e fiz sinal para que o Gordo fizesse o mesmo. Ele preferiu adiantar um passo, na direção de Rosália.

“Ah, que interessante”, ele disse, “uma história de verdade.”

Rosália ficou olhando para ele, impassível. O Gordo sorriu levemente, num misto de simpatia e deboche.

Mariana fez as apresentações:

“Gordo, Rosália. Rosália, Gordo.”

Meu amigo pegou a mão de Rosália e a beijou.

“Encantado.”

“Ele não tem nome?”, Rosália perguntou a Mariana, ignorando solenemente o gesto galante, e hipócrita, do Gordo.

“Não, minha senhora, não passo de um adjetivo.”

Percebi um ensaio de sorriso no rosto de Mariana. Estava amolecendo. Lívia permanecia cabisbaixa.

O Gordo finalmente recuou e sentou na poltrona, as mãos cruzadas sobre a barriga, numa posição confortável.

“Posso começar?”, Rosália perguntou, sem disfarçar a irritação.

“Quando quiser”, respondi.

 

***

 

Rosália apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesinha.

“Nossa história começa no Rio de Janeiro, início dos anos 1970, com três jovens e promissores alunos da Faculdade de Direito da UFRJ. Três amigos inseparáveis. Tinham muita coisa em comum, mas o que verdadeiramente os unia era a paixão pela literatura. Fora dali, nos bares do centro da cidade que costumavam frequentar, o assunto era outro: poemas, contos, romances. Os três amigos liam muito, bebiam muito, falavam muito. De tempos em tempos elegiam um ídolo. Podia ser um poeta, um romancista, um contista, mas quem quer fosse era endeusado e logo, logo destronado para que outro ocupasse seu lugar.”

“Resumindo: uma amizade sadia”, o Gordo atalhou.

Mariana, Rosália e Lívia olharam pra ele ao mesmo tempo, iradas.

“O que foi?”, o Gordo perguntou, “falei besteira?”

Lívia olhou para mim, os pequenos olhos azuis ainda ligeiramente úmidos, como quem chorou há pouco. Como o céu depois da chuva, falei comigo mesmo, num rasgo poético completamente fora de hora.

Rosália continuou:

“O ídolo da vez era um autor que publicara seu primeiro livro havia dez anos, em sessenta e três, e que começava a alcançar um lugar de destaque: Rubem Fonseca.”

“Puta que o pariu!”, o Gordo gritou, esmurrando o braço da poltrona, e depois, para Rosália: “com todo o respeito, claro.”

“Tinham lido todos os seus livros. Costumavam discutir até altas horas sobre nomes de personagens, cenas, diálogos, guardavam de memória títulos, enredos, detalhes de cada conto, reliam em voz alta passagens mais polêmicas, sabiam as datas exatas das primeiras edições”, ela disse, e logo depois completou, com ironia: “enfim, eram tietes de Rubem Fonseca, como vocês dois...”

O Gordo ia retrucar mas fiz sinal para que aguardasse. Desse jeito não chegaríamos nunca ao final da história de Rosália.

“No dia trinta e um de dezembro de setenta e cinco”, ela continuou, “reuniram-se no bar de sempre. Era uma comemoração íntima, só entre eles, antes de ir cada um para sua família. Nesse dia, como é natural na véspera do Ano-novo, conversaram sobre como seria o próximo ano: previsões, promessas, aquelas coisas de sempre. O assunto foi rendendo, começaram a imaginar o futuro, não só o próximo mas o futuro distante. A cerveja foi fazendo efeito e passaram a imaginar o mundo dali a dez, vinte anos. Daí a começarem a falar sobre Rubem Fonseca foi um pulo. Um deles lembrou um conto do livro mais recente do autor, um conto sobre um campeonato de performance sexual, passado num futuro não determinado, em que o sexo, pelo menos como o entendemos hoje, era uma prática arcaica, uma coisa animalesca. Nesse mundo, as pessoas usavam eletrodomésticos ou drogas, que elas chamavam de... como é mesmo o nome?”

“Realizadores simbólicos. Coadjuvantes psicoquímicos sutis que permitiriam o autoêxtase”, o Gordo disse, repetindo de memória as palavras do conto.

“Obrigada. No conto, o campeonato de performance sexual...”

“Campeonato de conjunção carnal”, corrigi.

“Exato. O campeonato de conjunção carnal era proibido por lei. Quando a história começa, o narrador diz que…”

“Desculpe, minha senhora”, o Gordo interrompeu, “não há necessidade de resumir o conto. Adiante, por favor.”

Rosália não gostou daquilo mas continuou:

“Eles adoravam esse conto, intitulado O campeonato, como sabemos. Pois bem, ficaram horas falando disso, até que alguém levantou uma questão: como seria um campeonato como esse hoje, quer dizer, naquela época, um campeonato de verdade? Divagaram sobre o assunto com entusiasmo, imaginaram as regras, os requisitos para escolha dos participantes, a forma de pontuação, o sistema de apostas, imaginaram tudo, com a dose de álcool e de delírio juvenil que tinham na cabeça.”

Mariana estendeu o braço por trás de Rosália e num gesto de camaradagem acariciou o ombro de Lívia. Lívia se manteve firme, por pouco tempo. Segundos depois, desabou num choro convulsivo.

Levantei da minha poltrona num salto e, antes que Rosália ou Mariana tivessem tempo de consolar Lívia, fui até o sofá e abracei-a. Se alguém tinha o direito de abraçá-la naquela hora, de lhe dar um pouco de segurança, esse alguém era eu. Nem Mariana nem Rosália tinham esse direito, e abracei Lívia com força, meio bruto, como uma ostra se fechando sobre a pérola, querendo protegê-la de tudo, da morte, do medo, dos homens, das mulheres.

Com o meu gesto intempestivo Rosália teve que sair do sofá, não havia espaço para nós quatro, e por um breve instante me vi sentado entre Mariana e Lívia.

“Não se bebe nessa casa?”, o Gordo perguntou.

Mariana entendeu a deixa. De costas para ela pude sentir que se levantava e fiquei imaginando como estaria a expressão do seu rosto no momento em que se levantou do sofá e foi na direção da cozinha. Virei a cabeça a tempo de vê-la passar pela poltrona onde o Gordo estava sentado, Mariana no seu andar ereto, firme, esbanjando dignidade. O Gordo olhou para mim, depois foi atrás de Mariana.

Ficamos os dois ali, eu e Lívia, abraçados no sofá, sem dizer nada. Eu sabia que, com aquele gesto, talvez tivesse perdido Mariana para sempre mas não quis voltar atrás, precisava escolher, na verdade não queria ter que escolher, queria ficar com as duas mas isso estava um pouco difícil.

“Você tem que ser forte.”

“Só porque estou chorando não quer dizer que eu seja fraca”, ela respondeu, se ajeitando no sofá e enxugando as lágrimas com as mãos.

Acariciei seu rosto.

“Por que você não me contou?”

“Por que não contei o quê?”

“Que tinha outra namorada.”

“Cerveja, vinho, uísque, refrigerante, água mineral. O bar está montado. Sirvam-se”, o Gordo falou, deixando sobre a mesinha uma bandeja com as bebidas. Mariana veio em seguida, trazendo um balde com gelo e um prato com camarões secos.

Rosália ocupou minha poltrona. O Gordo voltou para a sua. Permaneci onde estava, no sofá. Mariana sentou ao meu lado.

“Continua, Rosália”, Mariana disse, com firmeza.

“Bom, como estava dizendo, os rapazes imaginaram com detalhes um campeonato de sexo. Anotaram tudo em guardanapos de papel. Dias depois voltaram a se encontrar e o assunto voltou à mesa. Releram as anotações, acrescentaram dados, cortaram outros, foram lapidando as ideias anotadas anteriormente. Um deles havia levado um caderno e passou tudo a limpo ali mesmo no bar. Antes de se despedirem, assinaram embaixo da última linha do que havia sido escrito, assinaram com gravidade, numa espécie de ritual, sem se darem conta do que estavam começando com aquele gesto.”

“Qual a idade deles? Quer dizer, eram todos da mesma idade?”, perguntei.

“Sim, tinham a mesma idade: vinte e seis anos.”

O Gordo ficou me olhando. Eu e ele também tínhamos vinte e seis.

“Se acompanhei bem o seu relato, senhora, a assinatura desse, digamos, documento, aconteceu no início de setenta e seis, correto?”, meu amigo perguntou.

“Correto.”

“Logo, estes senhores, se ainda estão vivos, têm hoje quarenta e nove anos.”

“Você é bom em matemática”, Rosália ironizou.

“Entre outras coisas”, o Gordo retrucou, com um olhar malicioso.

“A princípio”, ela continuou, séria, “parecia apenas uma brincadeira de bar, uma bobagem qualquer, mas a ideia de realizar o campeonato acabou arrebatando de vez os rapazes, que a partir de então não falavam de outra coisa. Aquilo se transformou numa verdadeira obsessão. A situação política do país não era nada tranquila, vocês sabem, mas eles não estavam interessados nisso. Só a literatura lhes interessava e, agora, mesmo as leituras e discussões sobre os livros iam perdendo espaço para a discussão maior: o campeonato.”

“Esses garotos eram de família rica?”, o Gordo perguntou.

“Um deles era rico, muito rico, aliás. O pai era um dos empresários de maior fortuna do país. Posso continuar?”

“Por favor”, respondi.

“Eles terminaram a faculdade e cada um foi cuidar da sua vida. Seguiram rumos diferentes, profissões diferentes, mas se encontravam sempre, com regularidade, para discutirem o andamento do projeto. Aos poucos aquilo foi tomando conta deles completamente. Precisavam de dinheiro, muito dinheiro, então começaram a se envolver em maracutaias, usando sobretudo a influência do pai empresário de que falei. Foram se transformando ou, quem sabe, já eram isso mesmo e as circunstâncias fizeram apenas despertar o verdadeiro caráter dos três, não sei, a verdade é que perderam completamente o pudor, a ética. Trapaceavam,falsificavam documentos, chantageavam. Se envolveram com políticos, empresários, traficantes, qualquer oportunidade de lucro era aproveitada. Já tinham quase o suficiente para dar início à organização do campeonato quando a sorte os ajudou. Com a morte do pai milionário, um deles recebeu uma herança considerável.”

“Eles eram casados? Tinham filhos?”, perguntei. O Gordo piscou pra mim, aprovando a pergunta. Percebeu aonde eu queria chegar.

“Sim”, Rosália respondeu, abaixando a cabeça.

“E a senhora era esposa de um deles”, o Gordo disparou.

“Eu era muito jovem quando conheci Murilo. Tinha vinte e um anos. Ele, trinta e dois. Murilo era um homem culto,elegante, charmoso.”

“E rico”, o Gordo completou.

“Não foi isso que me atraiu.”

“Mas era rico ou não? Era ele o filhinho do papai milionário?”, perguntei.

“Era.”

O Gordo balançou a cabeça, como se dissesse: filho da puta!, mas não disse, pelo menos não com palavras.

“Tem uma coisa que não entendi”, falei, “essa grana toda que eles conseguiram, pra ser aplicada na realização do campeonato, veio principalmente do Murilo Chaves, não é? Afinal, foi com a herança que eles encheram o cofrinho. Então por que o Murilo Chaves não teria uma participação maior nos lucros do campeonato? Ou ele tinha?”

“Você está certo, ele sempre teve uma porcentagem maior nos lucros, mas não nas decisões. Qualquer decisão relativa ao funcionamento do campeonato era tomada no voto, e cada um dos três tinha o mesmo peso nessa hora.”

Matei minha cerveja. O Gordo pediu a Rosália que esperasse um pouco e foi correndo até a cozinha, trazendo mais duas.

“Eu não sabia que Murilo tinha em mente esse tal projeto. Só fui saber do campeonato há alguns meses, quando ele começou a relaxar na segurança. Ele tinha tudo isso anotado numa espécie de diário, Murilo guardou tudo, até os guardanapos daqueles primeiros encontros. Eu desconfiava que ele tinha amantes e comecei a espionar suas coisas. Consegui ter acesso ao cofre. Só queria saber se ele tinha ou não amantes, mas acabei descobrindo o diário.”

“Por acaso”, comentei.

“Sim, por acaso.”

 

***

 

“É tudo o que a senhora tinha a dizer?”, o Gordo perguntou.

“Não, ainda falta o principal. Aquilo era apenas o começo, ou a preparação para o começo.”

“O ovo da serpente”, o Gordo comentou.

“Reunido o montante necessário para a realização do primeiro campeonato, os três passaram a planejar cada passo da operação: o local, a data mais adequada, o sistema de segurança, os contatos com prováveis apostadores, o treinamento dos competidores e, claro, em primeiro lugar, o recrutamento dos casais de virgens.”

Lívia apertou meu braço, com força.

Rosália concluiu:

“Conseguiram, enfim, a concretização do antigo sonho. Realizaram o primeiro campeonato.”

“Quando?”, perguntei.

“Não sei dizer com certeza quando foi o primeiro, mas os campeonatos já acontecem há um bom tempo. São realizados a cada dois anos, em data e local variáveis. O primeiro rendeu um lucro formidável, que foi sendo ampliado nos seguintes, de modo que a atividade clandestina de Murilo e seus amigos acabou se transformando numa fonte inesgotável, verdadeiras fortunas são movimentadas a cada edição do campeonato. Mas isso vocês já sabem, claro.”

“Sim, sabemos”, eu disse, “mas não sabemos ainda quais os nomes dos outros dois, os parceiros do Murilo Chaves.”

“Isso eu também não sei.”

“Nem desconfia?”

“Pode ser tanta gente. Todos os que estavam naquela festa do Alto, por exemplo, qualquer um deles pode ter sido sócio do Murilo, e alguns ali eram apostadores, não tenha dúvida.”

Pensei no Epifânio de Morais Netto, e no baixinho asqueroso. Descartei o baixinho, não tinha cara de líder. Podia ser o Epifânio. Ou o Montenegro, por que não? Arrisquei:

“Montenegro pode ser um dos sócios?”

Rosália deu uma gargalhada. Não achei a mínima graça.

“Montenegro não é exatamente um exemplo de honestidade, André, mas jamais participaria de uma coisa dessas. Eu o conheço há anos, frequentava a nossa casa, era um dos melhores amigos de Murilo. É um homem poderoso mas extremamente sentimental. E tem verdadeira idolatria pelo filho.”

“Você acha que Murilo Chaves tentou levar Montenegro pro campeonato?”

“Seu nome aparece no diário. Murilo parece que andou sondando Montenegro, mas percebeu, segundo as anotações, que não seria um bom apostador. Sua adoração pelo filho estragaria tudo. Se soubesse que estava sendo chamado a participar de um projeto em que garotos como o Pedro são explorados e mortos em seguida, seria capaz de contar tudo à polícia. O mais engraçado disso tudo é que o coitado acabou colaborando com o campeonato, sem querer.”

“Colaborando como?”, o Gordo perguntou, já antevendo a resposta.

“Você sabe muito bem.”

Coloquei cerveja no copo.

“Escuta, Rosália, seja mais clara, por favor. Como é que o Montenegro pôde colaborar com o campeonato?”, perguntei, tentando permanecer calmo.

“Meu Deus, parece que estou falando com dois imbecis. Onde foi que você comprou seu certificado de detetive, André?”

Fiquei calado. Não seria uma dondoca velha viúva traída pelo marido gay que iria me tirar do sério.

“O filho do Montenegro foi usado no campeonato.”

“O Pedro? Ele está mesmo lá? Como é que você pode ter certeza?”

“Está no diário do Murilo. Ele sequestrou o menino e o deixou na fazenda, para ser preparado, você sabe. Pedro participou da primeira etapa e se classificou para a final.”

“Mas Lívia também participou, e foi finalista, e não foi com o Pedro. Tem alguém mentindo nessa história”, o Gordo disse, olhando na direção de Lívia.

“Eu não sou mentirosa!”

Lívia se levantou do sofá pela primeira vez e foi para cima do Gordo. Se eu não a segurasse teria dado uns bons socos no meu assistente. Ficou esmurrando o ar e xingando todos os palavrões que conhecia. Fiquei com ela assim algum tempo, abraçado às suas costas, segurando-a, deixando que ela esperneasse à vontade, puxasse meus cabelos, me xingasse. Precisava desabafar.

Depois a coloquei de volta no sofá, mais calma.

Mariana cochichou no meu ouvido:

“Lembra quando eu lhe disse que Nabokov tinha razão? Você está parecendo um velho gagá se arrastando por essa menininha.”

Cochichei de volta:

“Não é menininha, já tem quinze anos.”

“Ah, bom...”

“Ninguém está mentindo”, Rosália continuou, “foram realizadas duas disputas, simultaneamente, em locais diferentes. O vencedor de uma iria para a final com o vencedor da outra. Como Lívia conseguiu fugir, tiveram que adiar a final por um tempo. Mas ainda não acabei a história.”

“De acordo”, o Gordo falou, “onde foi que paramos mesmo?”

“Murilo se casou comigo, tivemos filhos. Hoje sei que isso funcionou como disfarce. Ele precisava parecer um homem sério, um homem de bem, com esposa, filhos e tudo mais. A segurança sempre foi prioridade, qualquer deslize poderia ser fatal. E ele conseguiu manter as aparências, até que começou, como se diz...”

“A pisar na bola”, o Gordo completou.

“Sim. O que percebi, lendo o diário, é que Murilo começou a se desinteressar pelo campeonato. Sempre foi rico, nasceu rico, como já disse, e se esbanjasse muito, mas muito mesmo, levaria um bom tempo para gastar o tudo o que tinha. Além disso, nos últimos anos resolveu assumir de vez sua homossexualidade e o campeonato passou a ser, para ele, uma atividade trabalhosa, complicada, e de pouco interesse. A impressão que tive é a de que ele preferia gastar sua fortuna com outra atividade clandestina: os meninos, e não mais o campeonato. Está anotado no diário, inclusive, que ele propôs aos sócios um campeonato só com garotos, mas a sugestão não foi aceita.”

“Uma pergunta, senhora”, o Gordo interrompeu, “eles, os três sócios, continuaram amigos esse tempo todo, como eram na juventude?”

“Claro que não. Com o tempo, e o dinheiro, a amizade entre eles cedeu lugar a uma disputa ferrenha pelo poder. O campeonato, na verdade, passou a movimentar três forças, três grupos, como três famílias da máfia, liderados pelos três líderes, que usavam codinomes: Senhor Preto, Senhor Branco, Senhor Cinza.”

O Gordo olhou para Lívia, como que confirmando que acreditava nela. Lívia já nos contara isso.

“Qual deles era o Murilo Chaves?”, perguntei.

“O Senhor Preto.”

Pedi que prosseguisse.

“Cada líder tinha sua própria equipe: seguranças,contadores, articuladores políticos, profissionais da área de medicina, sexologia, preparação física, e até matadores. Vejam bem, o campeonato é uma organização complexa. Cada líder apresenta um casal competidor e, se esse casal vence, o líder não só lucra mais que os outros, porque fica com o prêmio que, a princípio, seria do casal, como também conquista a confiança dos apostadores para a próxima disputa. Confiança, era essa a palavra-chave. Cada líder tentava vender aos apostadores a imagem da confiança, como no mercado de investimentos, por exemplo, como na Bolsa deValores.”

“Já entendi”, o Gordo disse.

“O clima foi ficando cada vez mais pesado. Uma guerra interna estava prestes a explodir. Foi então que Murilo pisou na bola, como você diz. Começou a se expor demais, a frequentar boates gay etc. Quando sua foto foi publicada nos jornais, quando aconteceu o escândalo que o fez renunciar à presidência do Flamengo, seu destino foi selado. Mesmo que depois tenha recebido apoio nos jornais, seu prestígio dentro do campeonato já estava perdido. Era tarde demais, nenhum apostador se arriscaria a apostar num casal indicado por um líder tão displicente. Pior: o próprio campeonato corria riscos com a displicência de Murilo. E vocês sabem o que isso significa.”

“Que muitas pessoas ali, principalmente seus sócios, poderiam querer o Murilo morto”, o Gordo concluiu.

Rosália concordou:

“Claro. Ele começou a representar um perigo para a segurança do campeonato. Era tudo que os sócios queriam, um motivo para eliminar Murilo. Assim, o sócio majoritário estaria fora e os dois poderiam dividir todo o lucro entre eles.”

“Você está querendo dizer, Rosália”, perguntei, “que um dos líderes do campeonato assassinou o seu marido?”

“Não. Não foi nenhum deles”, ela respondeu.

“Não?”, eu e o Gordo perguntamos, ao mesmo tempo.

“Alguém chegou antes.”