Perícia Técnica: Direito e Engenharia de Segurança do Trabalho
4. A importância da compreensão das dimensões legais e éticas de uma boa perícia
A IMPORTÂNCIA DA
COMPREENSÃO DAS DIMENSÕES
LEGAIS E ÉTICAS DE UMA BOA
PERÍCIA
Antes de entrar na discussão proposta neste tópico, é importante voltar a
identificar quem são os atores engenheiros neste processo, o perito judicial
e o assistente técnico.
Um modo de entender o perito é vê-lo como um auxiliar da justiça
designado pelo juiz para atuar no processo de forma factual e
circunstancial, uma vez que ele é o detentor de uma capacitação
profissional especializada que o habilita a emitir parecer técnico sobre
determinado ponto processualmente controvertido, neste caso relacionado à
segurança do trabalho.
O assistente técnico, também detentor de capacitação semelhante, é o
especialista livremente escolhido, contratado e pago diretamente por cada
uma das partes, reclamante ou reclamada, no curso de um processo em que
tiver sido designada a realização de perícia. A tarefa principal do assistente
técnico é apresentar a visão técnica da parte que o contratou, acerca da controvérsia que motivou a realização da perícia judicial. Essa visão é
apresentada em um documento conhecido como parecer técnico.
Com base nessas definições, deve-se lembrar das funções e atribuições
intrínsecas de um Engenheiro de Segurança do Trabalho, definidas ou não
em instrumentos legais ou normativos, mas que são perfeitamente lógicas e
claras. Cabe a esse profissional zelar pelo estabelecimento ou manutenção
de condições saudáveis e seguras em todos os ambientes de trabalho,
usando para isso de seus conhecimentos técnicos, experiência adquirida,
habilidade no trato com diferentes níveis hierárquicos em uma organização
e atitude exemplar quanto a práticas de conduta pessoal e profissional.
Em outras palavras, independentemente da posição em que esteja em
uma reclamação trabalhista, sendo perito ou assistente técnico, sempre deve
prevalecer o objetivo fundamental da profissão, que é o zelo pelo próximo,
neste caso, um trabalhador.
Todavia, infelizmente, vivemos num momento em que ainda prevalece
o senso comum de que o perito judicial tenderá a proteger o trabalhador,
produzindo laudos favoráveis a ele, de modo que se garanta que receberá os
honorários relativos à sua perícia, uma vez que a chance de isso acontecer é
maior ao se penalizar a parte de maior poder econômico do processo.
Do lado do assistente técnico, o senso é o de que ele sempre produzirá
peças e pareceres técnicos defendendo a parte que o contratou, ainda que
tenha de faltar com a verdade, distorcer fatos ou textos legais.
Duas grandes falácias. O Poder Judiciário já desenvolveu ferramentas e
procedimentos que garantem o pagamento dos honorários dos peritos
judiciais, independentemente do teor ou das conclusões apresentadas no
laudo pericial. Quanto aos assistentes técnicos, existe um limite muito claro
entre a divergência de opinião e de interpretações legais e distorção. Esse
limite é a verdade.
Se nós, Engenheiros de Segurança do Trabalho, temos a ciência e a
consciência de nosso propósito maior, que é a proteção ao trabalhador, e
internalizamos tal valor como um propósito, a verdade também será nosso
valor, assim como a moral e a ética.
Tanto em nosso país como em nosso planeta, vivemos hoje diversos
dilemas, conflitos e encruzilhadas que realmente não sabemos como
classificá-los. O que vivenciamos, na verdade, é uma demonstração
explícita do que a ganância e o egoísmo podem produzir como efeitos para
além do indivíduo.
Vemos em todo o mundo crises financeiras impressionantes, conflitos
religiosos e bélicos, e um devastador declínio econômico e social de muitos
países. Em nosso Brasil, neste ano de 2018, não conseguimos sequer
separar o joio do trigo em nenhum contexto – político, econômico ou social.
Perante esse desafio, os conceitos de moral e ética devem ser mais e
mais valorizados. A evolução desses conceitos inicia-se no século VI a.C.
Naquele momento, Pitágoras propôs o termo ‘filosofia’, juntando a amizade, ‘philia’, com a sabedoria, ‘sophia’, introduzindo assim o conceito
da procura pela sabedoria com amizade. Vale ainda, nesta etapa da viagem,
buscar o conceito da época do que viria a ser a sabedoria, ou seja, o saber
total, o saber da totalidade, atribuído naquela civilização aos deuses. Aos
homens cabia aproximarem-se desse saber, desejar o saber total, em outras
palavras, praticar a filosofia.
Tal prática pressupõe a adoção de um conjunto de valores, que serão
desenvolvidos à luz da razão, hábitos e papéis desempenhados em uma
sociedade, em uma determinada base temporal, utilizando-se para isso a
razão. Em outras palavras, cada sociedade e cada momento terão o seu
conjunto de valores formados com fundamento na sabedoria total desse
momento, à luz da razão que conduzirá o seu desenvolvimento.
Apenas para ilustrar, vejamos alguns exemplos disso: houve momentos
em que a posse de seres humanos era uma prática usual em muitas
sociedades. Até há pouco tempo – meados do Século XIX – a reprodução
humana não era compreendida do mesmo modo que nos dias de hoje e as
mulheres eram vistas como meros ‘depósitos’ das sementes masculinas, não
tendo qualquer participação na formação do novo ser, havendo que
participar apenas de seu crescimento.
Em todo o mundo, a mulher era considerada um ser humano de segunda
classe e, com pouquíssimas exceções, essa era a prática ou o conceito
racional.
Também se pode mencionar a maneira pela qual os textos religiosos
veem a natureza. O que hoje aparece como ecologia integral, diálogo
internacional, novo estilo de vida, conversão ecológica está descrito em
muitos deles como conceito de dominação da natureza e em outros 246
conceitos da brilhante encíclica Louvado Sejas, um belo exemplo da
evolução da moral baseada em uma mesma ética, à luz da evolução das
sociedades, ciência e tecnologia.
Podemos, portanto, dizer que os valores são criados pelas pessoas em
suas relações sociais, entre si e com a natureza. Esses valores, em
sociedade, sustentar-se-ão pela criação de normas e regras de convivência.
Tal conjunto de normas e regras que visa regular as relações entre os
membros de uma comunidade social é definido como ‘moral’, a qual terá
como papel a orientação para nossas respostas a questionamentos
individuais do tipo “como agir como uma mulher?”, “como agir como um
educador?”, “como agir como um perito judicial ou como um assistente
técnico?”, embutindo nesses questionamentos a palavra ‘corretamente’,
uma vez que estamos lidando com a expectativa em relação ao desempenho
de um papel que temos em nossa sociedade.
Como vimos até aqui, a prática de conceitos morais obriga-nos a nos
posicionarmos quanto a um momento temporal. E qual é o conceito que
exclui a temporalidade dessa discussão, levando-a a outra dimensão e outro
patamar? Sem dúvida, é o conceito de ética.
Em uma sociedade, a moral – por estar conectada a seu tempo – indica o
comportamento que deve ser considerado como bom ou mau. A ética, que
aqui surge pela primeira vez, vai mais fundo, buscando qual é o real
fundamento de um valor que vai nortear a adoção de um determinado valor
que será associado a comportamentos. Dizendo de modo mais simples, a
ética pode ser entendida como a eterna escolha pelo bem comum.
Então, ao analisarmos essa premissa seminal, qual é o nosso papel como
Engenheiros de Segurança do Trabalho ao atuar como peritos judiciais ou
assistentes técnicos? Buscamos nos comportar de modo moralmente
aceitável ou realmente, como define a nossa filosofia, buscamos uma
postura ética constante, persistente e vigilante, o que, em outras palavras, é
a constante escolha pelo bem comum?
Um grande pensador brasileiro, Oscar Motomura, propõe alguns
argumentos interessantes, que conecto neste momento com este raciocínio,
e faço a seguir minhas adaptações.
Se a ética é a escolha pelo bem comum, insistir em questões
administrativas e documentais de menor relevância em detrimento de fatos
constatados por observações próprias é ético?
Se a ética é a escolha pelo bem comum, decidir por uma participação
omissa ou por não se posicionar de forma alinhada à nossa consciência, por
medo de perder benefícios ou contrariar outros interesses, é ético?
Se ética é a opção pelo bem comum, aceitar participar dos ‘esquemas’,
participar do jogo político de empresas e sindicatos pelo que se vai ter,
pensar sempre ‘no que’ e nunca ‘no como’, fazer, sem medir as
consequências ou aceitar que isso seja a prática comum e usual em nosso
país e em nossas cidades, deixando tudo como está porque o caminho para a
perfeição é muito completo e difícil de implementar, definitivamente não é
ético.
E nós, Engenheiros de Segurança do Trabalho, temos o real
compromisso com o bem comum e com a ética. Cabe-nos garantir que esses
valores estejam presentes o tempo todo em nossos modelos mentais.
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