Perícia Técnica: Direito e Engenharia de Segurança do Trabalho
Apresentação
De Leonídio Francisco Ribeiro Filho [2]
Quando do primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Qualidade
Pericial, em 2001, na UNIP, foram ressaltadas a importância e a
necessidade de se ter um livro texto que envolvesse, de modo didático,
temas práticos e jurídicos desta tão importante área, que é a da perícia. Tal
necessidade faz-se mais presente nos dias atuais, pois tanto o perito judicial
como os assistentes técnicos encaram uma situação deveras complexa em
seus esforços para atingir o objetivo maior, que é a chamada ‘Qualidade
Pericial’. A perícia, se executada a contento, pode em muito ajudar e, por
que não dizer, prevenir e controlar acidentes e doenças do trabalho, danos à
propriedade e ao meio ambiente, com responsabilidade social.
Essa complexidade não se deve apenas aos avanços constantes da
tecnologia, com seus novos riscos associados, mas também a uma atuação
mais presente do Ministério do Trabalho, ao envolvimento sindical na
melhoria contínua das condições e ambientes do trabalho, ao incremento da
informação às pessoas e à comunidade, a causas de acidentes externas ao
trabalho, problemas de saúde pública e ambientais e de restrições econômicas, que estão ocorrendo nesta década. Trata-se de um contexto
complexo que está presente e permanece, o que torna imperativo que o
profissional dedicado à perícia entenda e aceite o seu papel e sua
participação em prol de colaborar para a existência de um local de trabalho
seguro e saudável, tendo em vista que a perícia com qualidade tem como
beneficiários o trabalhador (cujos paradigmas continuam a laborar no local
periciado), o profissional de SST (que, com a qualidade do laudo pericial,
terá condições de fortalecer a melhoria contínua das condições e ambientes
de trabalho), a previdência social (será minimizada a condição especial que
enseja a aposentadoria precoce) e a própria Justiça do Trabalho (o juiz terá
melhores e adequados subsídios para proferir a sua sentença com maior
segurança).
Dada essa necessidade, os autores, o prof. Marcelo Chohfi, Juiz do
Trabalho, e o prof. Ivan Rigoletto, Engenheiro de Segurança do Trabalho,
pessoas dedicadas e que vivenciam o dia a dia do campo pericial, se
reuniram, voluntariamente, a fim de transmitir aos alunos suas longas
experiências, trabalho relatado neste livro, que está desenhado como um
guia que contribuirá para disseminar princípios que irão colaborar para que
os objetivos previstos no artigo 473 do CPC sejam atingidos. Desse modo,
eles estão não só devolvendo à sociedade o que ela neles investiu, mas
estão, em muito, ajudando aqueles que querem se especializar nesta área e
tê-la como uma profissão.
Com visão técnico-legal e uma abordagem integral do Direito do
Trabalho e da Engenharia de Segurança do Trabalho no Capítulo 1 – Marco
legal e perspectiva da Justiça do Trabalho, os seguintes temas são
abordados pelo juiz Chohfi: discussão de prova, perícia e aspectos da
legislação brasileira para emprego de perícias trabalhistas e como se utilizar
perícias no Direito Processual do Trabalho. No Capítulo 2 – O ponto de
vista da Engenharia de Segurança do Trabalho, o engenheiro Rigoletto
efetua um breve resumo do que é a Engenharia de Segurança do Trabalho,
explica os tipos de perícias afetos à saúde e segurança no trabalho, descreve
os principais conceitos neles aplicados e ensina escrever um laudo pericial.
No Capítulo 3 – A importância da boa perícia para a tomada de decisões e
definição de sentenças, o juiz Chohfi, ressaltando a sua experiência, destaca
que há sempre uma apreensão e preocupação, por parte do magistrado, em
extrair da prova a versão mais próxima possível da realidade, já que a
chamada ‘verdade absoluta’ representa mais um ideal a ser atingido do que
algo concreto que se possa ter como certo na vida e no cotidiano do
Judiciário. No Capítulo 4 – A importância da compreensão das dimensões
legais e éticas de uma boa perícia, o engenheiro Rigoletto ressalta algo
deveras importante: “[...] independentemente da posição em que esteja em
uma reclamação trabalhista, sendo perito ou assistente técnico, a ética pode
e deve ser entendida como a eterna escolha pelo bem comum. Ao atuarmos,
como peritos judiciais ou assistentes técnicos, devemos nos comportar de modo moralmente aceitável, buscarmos uma postura ética constante,
persistente e vigilante, o que em outras palavras é a constante escolha pelo
bem comum. Cabe-nos garantir que estes valores estejam presentes o tempo
todo em nossos modelos mentais [...]”. No Capítulo 5 – A reclamação
trabalhista na sala de aula na visão do engenheiro, Rigoletto destaca a
importância entre a interdisciplinaridade da Engenharia e o Direito,
exemplificando-a na prática, por meio de perícia e da audiência simulados
com a participação dos alunos, sempre observando o que pode ser
melhorado na organização dessas atividades. No Capítulo 6 – A reclamação
trabalhista na sala de aula na visão do jurista, o juiz Chohfi também
enfatizando essa interdisciplinaridade, amplia as discussões sobre o Direito
Processual do Trabalho. No Capítulo 7 – O desafio na visão do jurista, ele
discute o estudo de caso “[...] Reclamante trabalhava em ‘casinha’ de
pagamento de posto de gasolina durante 8 anos, alega que substituía
frentistas com frequência, mas não consegue prova testemunhal deste fato.
Não recebia adicional de periculosidade. Pleiteia adicional de
periculosidade retroativo aos 8 anos, bem como adicional de
insalubridade...”. Após essa provocação acadêmica de tamanha relevância e
rica em oportunidades didáticas no âmbito do processo do trabalho, os
autores preocupam-se em apresentar a complementação necessária para
tentar construir e instigar a aplicação prática dos conhecimentos jurídicos
teóricos que costumam ser enfrentados pelos profissionais do Direito. No Capítulo 8 – O desafio na visão do engenheiro, o professor Rigoletto retrata
um tema sempre esperado por aqueles que querem se enveredar no campo
pericial: a condução da perícia e confecção dos laudos periciais
correspondentes. No Capítulo 9 – Os advogados preparam-se..., o professor
Chohfi descreve um item do fluxo pericial, ainda de pouco conhecimento
prático do profissional perito: a preparação de uma audiência. No Capítulo
10 – A audiência final, ele, com a sua experiência de juiz, dá continuidade
ao capítulo anterior e descreve a audiência, procurando esclarecer essa
importante etapa de um processo. No Capítulo 11 – A sentença, ele procura,
de modo didático, esclarecer praticamente a parte decisiva do processo,
questão normalmente não abordada em cursos e em livros similares: “[...] A
sentença contempla um exercício subjetivo, porém técnico e fundamentado,
de compreensão das pretensões, convencimento sobre os fatos, para a
melhor e mais prudente aplicação do direito ao caso concreto [...]”. No
Capítulo 12 – A audiência analisada pela Engenharia, o professor
Rigoletto faz uma análise didática da audiência pela perspectiva dos
Engenheiros de Segurança do Trabalho.
Como reflexão final, a leitura desta obra nos leva à compreensão da
importância do trabalho conjunto, envolvendo as disciplinas do Direito do
Trabalho e da Engenharia de Segurança do Trabalho, para uma adequada
solução da lide pelo juiz e, também, para que as partes, reclamante e reclamado, possam ter a oportunidade de fazer a ampla defesa de seus
interesses conflitantes.
Posso garantir que os autores não tiveram a pretensão de esgotar os
temas tratados, nem de se aprofundar em conceituações teóricas e em
detalhes técnicos, mas têm a intenção transparente de colaborar na
formação e no aperfeiçoamento não de ‘mais um perito’, mas sim “do”
perito judicial, cuja vida profissional exige um aprendizado constante, um
contato permanente com profissionais experientes, participação em cursos,
seminários e outros eventos sobre a apaixonante questão pericial, sempre
emoldurados por leituras adequadas, com reflexão e análise crítica, como se
faz no presente livro.
De Gilmar da Cunha Trivelato [3]
Este livro apresenta uma experiência inédita de formação de operadores
do Direito do Trabalho e Engenheiros de Segurança do Trabalho que irão
atuar em ações trabalhistas que visem ao reconhecimento do direito de
trabalhadores a adicionais de salário por trabalho em condições insalubres
ou perigosas, ou ações que visem obter indenizações por acidentes de
trabalho ou doença ocupacional.
Nessas ações a realização de perícias técnicas pelos engenheiros de
segurança, assim como a formulação de quesitos e a interpretação dos
laudos técnicos por parte dos profissionais do Direito do Trabalho – advogados, juízes ou procuradores, é uma tarefa complexa e exige
competências cujo desenvolvimento constitui um desafio. Não é suficiente
apenas o conhecimento técnico sobre o assunto, mas é também exigido
dispor de habilidades de comunicação com diferentes atores sociais e adotar
conduta ética.
A experiência de formação aqui apresentada é uma resposta concreta a
esse desafio. Trata-se de um efetivo esforço interdisciplinar de dois
docentes e profissionais de áreas distintas – Direito e Engenharia – com
sólida formação acadêmica e reconhecida experiência profissional no tema
central da obra – as perícias trabalhistas.
A abordagem adotada é interdisciplinar porque o mesmo objeto de
estudo é tratado por diferentes perspectivas profissionais e baseia-se na
interação entre os docentes, entre estes e os alunos e entre os alunos. A
sinergia observada é exemplar e as interações propostas contribuem
significativamente para a efetividade da formação dos estudantes.
Os autores relatam, de forma detalhada e precisa, o planejamento e a
execução do projeto pedagógico, discutindo os aspectos técnicos da perícia
e promovendo a reflexão ética sobre o assunto. São também incluídos
modelos de laudo técnico pericial e outros documentos que podem ser úteis
para os futuros profissionais.
A técnica de ensino empregada é o de estudo de caso. Embora se trate
de um caso simulado e singular, ele foi construído com base em situações efetivamente encontradas no mundo do trabalho, organizadas de forma que
se proporcione aos futuros profissionais a vivência de diferentes aspectos
conceituais e práticos que surgem nas ações trabalhistas. Essa construção
reflete a rica experiência profissional dos autores nesse campo.
O livro vem preencher a lacuna existente na literatura atualmente
disponível para a formação de profissionais que atuam na Justiça do
Trabalho, quer sejam operadores do Direito do Trabalho ou especialistas em
Engenharia de Segurança do Trabalho, ou mesmo Médicos do Trabalho.
Existem diversos manuais relativos a questões jurídicas e técnicas das
perícias trabalhistas já publicados. Mas desconheço obras similares voltadas
a como deve ser feita a formação desses profissionais.
A experiência relatada pode servir de modelo para o desenvolvimento
de outros projetos pedagógicos para assuntos complexos do mundo do
trabalho que exijam abordagem multiprofissional e interdisciplinar e
também poderá ser útil para profissionais já formados que não tiveram esse
tipo de experiência em seus cursos de especialização, ou que necessitem de
atualização.
Resta-nos apenas parabenizar os autores pelo resultado do trabalho
empreendido, materializado neste livro, e convidar leitores, docentes e
alunos de cursos de especialização na área de Segurança e Saúde do
Trabalhador ou do Direito do Trabalho a apreciarem e se beneficiarem de
seu conteúdo.
OceanofPDF.com