Perícia Técnica: Direito e Engenharia de Segurança do Trabalho
5. A reclamação trabalhista na sala de aula na visão do engenheiro
A RECLAMAÇÃO TRABALHISTA
NA SALA DE AULA NA VISÃO DO
ENGENHEIRO
Todo Engenheiro de Segurança do Trabalho que atue na área, cedo ou
tarde se verá envolvido com perícias. Em muitos casos, ele estará
trabalhando em empresas nessa função e será convidado a opinar sobre a
procedência ou não de reclamações trabalhistas que possam ser recebidas.
Em outros momentos, como consultor ou autônomo, poderá ser contratado
como assistente técnico pela reclamada ou mesmo reclamante. Também
poderá ser nomeado por Juízes do Trabalho para atuar como perito judicial.
Por tais razões, não é possível imaginar que a discussão sobre perícias
fique de fora da formação de um Engenheiro de Segurança do Trabalho. E
por não existir previsão explícita na grade curricular, a opção natural é o
uso das horas reservadas para as disciplinas optativas. No caso do UNISAL
Campinas, foi adotada essa solução.
E uma vez que este assunto se origina no campo do Direito, houve o
consenso em integrar alunos regulares de graduação que estivessem
cursando a disciplina correspondente nesse curso com o curso de especialização da Engenharia, fundamentando a estratégia nos seguintes
princípios:
Aulas teóricas em separado, onde cada professor aborda os
aspectos relevantes e importantes para a formação principal de seus
alunos, engenheiros ou advogados;
Aulas teóricas em conjunto, onde os dois professores
compartilhariam a perspectiva de cada parte com todo o conjunto
de alunos, incluindo a proposição do caso de estudo;
Divisão do grupo de alunos de Direito entre os representantes dos
reclamantes, reclamados e observadores, e dos alunos de
Engenharia entre peritos judiciais e assistentes técnicos;
Simulação das condições de uma perícia, com os professores e
alunos participando como atores ou orientadores, e os demais
alunos acompanhando e sugerindo posturas a seus colegas. Uso de
intervalos para troca de opiniões entre os alunos, definições de
estratégia e comentários dos professores a respeito do andamento
da perícia;
Aulas em conjunto para elaboração dos laudos periciais e peças
produzidas pelos estudantes de Direito, comentários sobre o laudo
pericial pelos assistentes técnicos por intermédio de parecer
técnico e réplica do perito judicial;
Aula em conjunto para finalização da estratégia e planejamento da
audiência;
Condução da audiência em conjunto;
Discussão em separado dos resultados do processo como um todo;
Devolutiva da sentença proferida e discussão com os dois
professores envolvidos.
A turma era composta por alunos de formação variada, com engenheiros
e engenheiras civis, ambientais, mecânicos, de produção, eletricistas, e de
automação. Essa disciplina foi ministrada após diversas disciplinas
importantes, como Higiene do Trabalho, Proteção de Máquinas e
Equipamentos, Ergonomia, Legislação e Normas Técnicas, que tiveram o
propósito de servir de subsídios aos alunos para a interpretação do caso
didático, planejamento das atividades e elaboração dos laudos e demais
tarefas da disciplina.
A estrutura das aulas foi a seguinte:
Três encontros regulares de quatro horas-aula para formação
teórica dos alunos em sala de aula do UNISAL São José,
envolvendo os tópicos de:
– Preceitos constitucionais de Segurança e Saúde no Trabalho;
– Responsabilidades legais do empregador;
– Conceitos de perícia e modalidades de perícias judiciais de
Segurança e Saúde do Trabalho;
– Avaliação ambiental para fins de análise de acidentes, embargo e
interdição;
– Avaliação ambiental para fins de insalubridade;
– Avaliação ambiental para fins de periculosidade;
– Súmulas de jurisprudência relevantes;
– Processos trabalhistas – conceitos básicos da prática processual;
– Como realizar uma perícia em campo – requisitos necessários;
– Laudo pericial – conteúdo, estrutura e redação;
Proposição de um caso didático que fosse compatível tanto com o
curso de Direito quanto com o curso de – Engenharia de Segurança
do Trabalho e que se relacionasse com assuntos pertinentes aos
cursos, tais como procedência da reclamação trabalhista, múltiplos
itens, necessidade de perícia técnica, conflito entre as partes,
versões diferentes para os fatos, ou seja, uma caracterização clara
de litígio;
– A atividade deveria ser facilmente compreendida por todos os
alunos;
– Se necessário, as tarefas poderiam ser observadas in loco pelos
alunos em condição similar ao caso proposto, sem qualquer
dificuldade;
– A atividade deveria ser simples de ser discutida entre os alunos
dos dois cursos;
– Ainda que simples, a discussão teria de trazer questões completas
e complexas.
Com base nessa premissa, proposição de caso didático envolvendo
um operador de caixa de posto de gasolina, com estação de
trabalho em cabine isolada próxima às bombas de atendimento. O
caso apresenta o desenho e características definidas da seguinte
maneira:
– A alegação seria de que ele exercia atividades múltiplas durante
oito anos;
– Ele circulava por todas as áreas do posto, auxiliava os colegas no
abastecimento de veículos e em outras atividades;
– Além de suas atividades, ao proceder dessa maneira, ele estaria
exposto a outros riscos e a outras condições de trabalho;
– Ele não recebia qualquer adicional, quer seja de periculosidade
ou de insalubridade, uma vez que trabalhava como operador de
caixa em estação de trabalho isolada;
– Os frentistas do posto recebiam adicional de periculosidade;
– Uma nuance de assédio moral também estava presente, pois o
dono do posto se referia de modo pejorativo à capacidade
intelectual do reclamante;
– A reclamação era de pagamento de adicional de periculosidade e
insalubridade no período em que o reclamante foi empregado deste
posto de gasolina;
– As condições de trabalho existentes, a serem verificadas na
perícia, também poderiam indicar outras questões e outros direitos
a serem pleiteados pelo reclamante;
– Os alunos teriam total liberdade de arguição nas condições de
perícia;
– As partes – reclamante e reclamado – demonstrariam de modo
explícito sua discordância e sua condição de litígio, cabendo aos
alunos gerenciar as situações e conflitos gerados de forma que se
atingissem os resultados esperados;
Um encontro comum para discussão do caso didático, com
simulação da perícia, incluindo:
– Arranjo físico o mais representativo possível, ao menos das
distâncias, para a simulação, disponibilização de fotografias e
vídeos de curta duração das atividades de um posto de gasolina,
simulação teatral da perícia propriamente dita, envolvendo os
professores e alunos divididos em grupos de apoio ao reclamante e
à reclamada, intervalos para discussão do andamento do exercício,
compartilhamento dos comentários dos professores, sugestões de
abordagem e conclusão da perícia e orientações práticas sobre as
próximas etapas.
Essa simulação foi conduzida no átrio principal do campus UNISAL
Liceu. Dela participaram diversos alunos de forma interativa, com
interrupções em que os professores apresentavam e discutiam os conceitos e
momentos à luz de suas percepções.
Após a simulação, atividades específicas foram ainda executadas pelos
engenheiros, a saber:
Uma aula no UNISAL Liceu, próxima à sala do curso de Direito,
para elaboração dos laudos periciais e pareceres técnicos,
interagindo com os alunos de Direito envolvidos nas atividades
propostas pelo prof. Marcelo;
Uma aula no UNISAL Liceu, simulando os tempos de comentários
ao laudo pericial da parte dos assistentes técnicos e réplica dos
peritos judiciais, de forma proporcional aos tempos definidos no
rito processual (dez dias para os comentários e impugnação e cinco
dias para a réplica), atribuindo duas horas para os comentários dos
assistentes técnicos e uma hora para a réplica final dos peritos
judiciais;
Um encontro entre as classes para preparação para a audiência;
Audiência propriamente dita na sala do júri simulado, campus
UNISAL Liceu, conduzida pelo prof. Marcelo Chohfi. Diversos
alunos participaram como reclamante, advogados das partes,
peritos e assistentes técnicos. Os demais, assistiram à audiência no
espaço reservado para os alunos;
Encontro entre as turmas para a devolutiva da turma de Direito
(professor e alunos) a respeito do resultado da audiência,
comentários e percepções finais.
Ao final, foram utilizadas 30 horas-aula para o curso de Engenharia,
embora o planejamento inicial previsse carga horária de 24 horas para essa
disciplina.
Ao longo do experimento, identificamos uma oportunidade de melhoria
no planejamento mais detalhado, aula a aula, com os tempos dedicados a
cada atividade. É importante observar que houve, sim, um planejamento do
conteúdo, forma e metodologia a ser compartilhada; entretanto, como uma
primeira experiência, observamos que nem sempre aquilo que tínhamos
planejado era executado na prática, principalmente quanto às questões de
tempo, que faltou. O aprendizado é que o tempo que deve ser planejado no
maior detalhe possível ao se integrar alunos de cursos diferentes em um
tema comum, com diferentes abordagens, que foi exatamente o nosso
projeto. Questões práticas e logísticas como trânsito e acessos, dificuldades
de encontrar a sala, ambientação entre os alunos, também devem ser
consideradas nesse tipo de planejamento.
Como outra lição aprendida, seria interessante programar também as
disciplinas de Prevenção e Combate a Incêndios e Ambiente e Doenças do Trabalho, que também seriam relevantes para a melhor compreensão e
desenvolvimento das atividades periciais e de confecção dos documentos.
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