Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 5 · O Sistema
PLURIPOLAR EUROPEU
Os Tratados da Westfália geraram um sistem a europeu de Estados
que persistiu, com oscilações e rearranj os, durante um século e m eio. A estrutura geopolítica da Westfália acom odou as estratégias das principais potências e forneceu um a m oldura para a consolidação da autonom ia das potências m édias e pequenas. Ela foi o cenário em que a m onarquia absoluta francesa alcançou seu zênite, com Luís XIV. Contudo, até a Revolução Francesa e o advento de Napoleão Bonaparte, nenhum poder europeu contestou, com sucesso, os pilares fundam entais da ordem continental.
A “longa paz” da Westfália foi, na verdade, um período de guerras
perm anentes. Mas esses conflitos secundários reforçaram o equilíbrio de poder na Europa. Seu resultado geral consistiu na contenção da França dos Bourbon e no advento do poder hegem ônico da Grã-Bretanha no com ércio internacional.
Nesse período, o poder m arítim o holandês vergou sob a ascensão
naval inglesa. As derrotas iniciais das Províncias Unidas na segunda guerra anglo-holandesa consolidaram o dom ínio inglês no leste da Am érica do Norte. A rivalidade entre a França e a Inglaterra fixou-se com o um dos eixos dinâm icos do sistem a de Estados. Os franceses protegeram os holandeses durante a segunda guerra anglo-holandesa. Depois, no Tratado de Haia, de 1668, configurou-se a aliança entre a Inglaterra, as Províncias Unidas e a Suécia para proteger a m onarquia espanhola contra a França. Mais tarde, potências interm ediárias e decadentes coligaram -se contra a França form ando a Liga de Augsburgo. No final do século XVII, a suprem acia da frota inglesa afastava o risco de um a invasão francesa nas Ilhas Britânicas.
O Tratado de Utrecht, de 1713, com pletou o processo de
contenção da França e consolidou a posição austríaca com o potência da Europa Central. No século XVIII, o principal conflito europeu foi a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), na qual a coligação entre a Grã-Bretanha e a Prússia prevaleceu sobre a aliança entre a França e a Áustria. Seus resultados m ais im portantes consistiram na perda da m aior parte do im pério colonial francês na Am érica, no fortalecim ento da Prússia e na reafirm ação da hegem onia britânica nos m ares. A vitória prussiana contra a Áustria decorreu, diretam ente, da m udança de lado da Rússia. No final do século XVIII, o Im pério Russo consolidava sua posição de grande potência do Leste Europeu.
As guerras incessantes da “longa paz” representaram a prim eira
experiência histórica da política de equilíbrio no sistem a europeu de Estados. Aron explicou, sinteticam ente, o princípio geral da política de equilíbrio:
No nível m ais elevado de abstração, a política de equilíbrio se reduz à m anobra destinada a im pedir que um Estado acum ule forças superiores às de seus rivais coligados. Todo Estado, se quiser salvaguardar o equilíbrio, tom ará posição contra o Estado ou a coalizão que pareça capaz de m anter tal superioridade. Esta é um a regra geral válida para todos os sistem as internacionais. Contudo, se procurarm os elaborar as regras da política de equilíbrio, será preciso postular m odelos de sistem as, segundo a configuração da relação de forças.
O sistem a da Westfália tinha estrutura pluripolar. A m aior potência
em ergente, a Grã-Bretanha, expandia seu poder naval e com ercial. Sua segurança estava lastreada na relação equilibrada entre as potências continentais europeias. A política externa britânica consistiu, na prim eira etapa, em golpear o poder naval holandês. Na segunda etapa, concentrou-se em conter e derrotar as am bições expansionistas da França de Bourbon.
No transcorrer desse processo, o sistem a de Estados conheceu
rearranj os im portantes, com o declínio definitivo da Espanha e a ascensão da Rússia. No espaço fragm entado da Alem anha, organizou-se um eixo de rivalidade entre a Áustria, ainda m uito poderosa, e um a Prússia a cam inho de se tornar potência de prim eira linha. Esse cenário sofreu o im pacto revolucionário das guerras napoleônicas, m as, depois do grande terrem oto, foi reconstituído pelo Congresso de Viena.
A Grã-Bretanha e o equilíbrio europeu
A França napoleônica foi o prim eiro Estado-Nação a em preender
a tentativa de unificação europeia. Antes dela, a conquista m ilitar tinha sido o instrum ento da união continental em duas épocas distantes: o Im pério Rom ano, na Antiguidade, e o im pério de Carlos Magno, na Alta Idade Média. Rom a dom inou a Europa m editerrânea e ocidental por seis séculos, entre 146 a.C. (destruição de Cartago) e 476 d.C. (queda do Im pério do Ocidente). O Im pério Carolíngio durou m enos de um século, de 768 (coroação de Carlos Magno) a 843 (Tratado de Verdun), m as representou o estabelecim ento do poder com partilhado da dinastia e do papado sobre as terras da Europa centro-ocidental. As conquistas napoleônicas iriam recom por e am pliar o dom ínio territorial Carolíngio. O sim bolism o da “nova Rom a” acom panhou essas duas tentativas — a m edieval e a contem porânea — de reunião da Europa sob um único poder.
O Im pério Napoleônico durou m enos de duas décadas m as, em seu zênite, colocou sob hegem onia francesa quase toda a Europa Continental. Apenas cinco anos antes de Waterloo (1815), o poder de Paris estendia-se pelas penínsulas Ibérica e Itálica e pela Europa central.
O expansionism o de Napoleão colocou em confronto o poderio
continental francês e o poderio m arítim o britânico. Em term os geopolíticos, um a interessante abordagem desse conflito é a que recorre à dicotom ia entre o poder m arítim o e o poder continental, no sentido proposto pelo alm irante am ericano Alfred Thay er Mahan, no final do século XIX. Essa form a de encarar o problem a — aplicável, de resto, a um a série de configurações históricas diferentes do sistem a internacional — suj eita-se, naturalm ente, à crítica, em virtude do alto grau de abstração de seu instrum ental de análise. Entretanto, pode ser útil para caracterizar determ inadas regularidades e perm anências que se renovam em épocas m uito distintas.
A Grã-Bretanha foi o centro organizador das seis coligações de
potências — que envolveram , eventualm ente, a Prússia, a Áustria e a Rússia — form adas contra a França im perial. Com essas coligações, a potência m arítim a liderava m onarquias continentais diretam ente am eaçadas pela m aior potência continental.
O prolongado conflito — um a típica disputa entre o Urso e a
Baleia, ou sej a, entre poderes incontrastáveis em seu próprio elem ento — desenrolou-se na base do Sistem a Continental de Napoleão e da reação britânica, posta em prática pelo Bloqueio Marítim o. Visando estrangular o com ércio do inim igo, Napoleão procurou fechar os portos europeus para os navios britânicos. A Grã-Bretanha, por sua vez, investiu contra os dom ínios franceses de além -m ar, cortando as rotas oceânicas e atacando as bases coloniais do inim igo. A derrota das forças coloniais espanholas na Am érica Latina, a transferência da fam ília real portuguesa para o Brasil e a penetração britânica no Caribe foram consequências dessa disputa europeia.
O im passe perdurou enquanto cada um dos contendores continuou
absoluto em seu elem ento. As tentativas francesas de criação de um a esquadra poderosa e de invasão das Ilhas Britânicas fracassaram . A derrota napoleônica foi prefigurada na dem orada e desgastante cam panha contra a resistência espanhola e na catastrófica retirada da Rússia. Um ano depois do fracasso na Rússia, a Sexta Coligação derrotava a França em Leipzig, na Batalha das Nações (1813).
As guerras napoleônicas ilum inam o papel duradouro que a Grã-
Bretanha viria a cum prir de sentinela do equilíbrio continental de poder. Rainha dos m ares e núcleo de um im pério m undial, a Grã-Bretanha tem ia a em ergência de um a potência capaz de am eaçar seus interesses internacionais. Sua segurança repousava na fragm entação do poder continental: o equilíbrio europeu fazia as várias am eaças hipotéticas anularem -se m utuam ente. Napoleão representou um desafio para esse equilíbrio, que sustentava a liberdade de ação britânica nos oceanos e nas bases coloniais de além -m ar. A erradicação da am eaça abriu cam inho para a afirm ação da hegem onia m undial britânica, nos planos político e econôm ico, durante o século da Revolução Industrial.
O século da Revolução Industrial assinalou a estabilização do
sistem a europeu de Estados, sob o arcabouço de um equilíbrio pluripolar dinâm ico. A derrota da França napoleônica deu origem a um a estrutura pentagonal baseada na potência m arítim a — a Grã-Bretanha — e nas quatro m aiores potências continentais: França, Prússia (depois Alem anha), Áustria e Rússia.
A estrutura m ultipolar forneceu as bases para o funcionam ento de
um sistem a circunscrito, essencialm ente, ao espaço europeu. No final do século, a em ergência de novas potências m arítim as no Ocidente (Estados Unidos) e no Extrem o Oriente (Japão) gerou novos tipos de conflito e um a forte tendência à m undialização do sistem a internacional de Estados.
O equilíbrio geopolítico europeu foi a m oldura para a expansão e
consolidação da econom ia industrial e para o delineam ento de um m ercado m undial. No centro desse processo encontrava-se a Grã-Bretanha, potência econôm ica m aior até a últim a década do século XIX. A estabilidade dinâm ica da cena europeia, perturbada por conflitos secundários que não chegavam a am eaçar o sistem a em seu conj unto, garantiu um am biente favorável para a constituição do Im pério Britânico e a im posição da Pax Britannica nos territórios de além -m ar. É possível argum entar contra a natureza m ultipolar do sistem a europeu dessa época postulando a ideia de um a hegem onia britânica. Entretanto, com o registrou Paul Kennedy, a suprem acia flagrante da Grã-Bretanha nos dom ínios industrial, tecnológico e com ercial não chegou a ter correspondência direta no plano estratégico
[...] a crescente força industrial da Grã-Bretanha não se organizou, nas décadas posteriores a 1815, de m odo a dar ao Estado um acesso rápido ao equipam ento m ilitar e aos contingentes hum anos com o, digam os, ocorria nos dom ínios de Wallenstein na década de 1630, ou com o a econom ia nazista faria. Pelo contrário, a ideologia da econom ia política do laissez-faire, que floresceu j untam ente com esse com eço de industrialização, pregava as causas da paz eterna, dos reduzidos gastos governam entais (especialm ente com a defesa) e da redução dos controles estatais sobre a econom ia e o indivíduo. Talvez fosse necessário, com o Adam Sm ith havia adm itido [...], tolerar a m anutenção de um exército
e de um a m arinha, a fim de proteger a sociedade britânica “da violência e da invasão de outras sociedades independentes”; m as com o as forças arm adas per se eram “im produtivas” e não contribuíam para a riqueza nacional da m esm a m aneira que um a fábrica ou um a fazenda, deveriam ser reduzidas ao m enor nível possível, adequado à segurança nacional.
Do ponto de vista m ilitar, o poderio britânico só não era
nitidam ente inferior aos das dem ais potências europeias em virtude dos recursos proporcionados pela União Indiana:
O im pério [...] aj udou a conservar a Grã-Bretanha na condição de potência m ilitar em pé de igualdade com os grandes poderes continentais da França, Alem anha e Rússia. Isso se deveu, principalm ente, ao fato de que o Exército da Índia poderia ser em barcado para qualquer parte do m undo a fim de travar guerras em nom e da Grã-Bretanha [...]. Isso significa que, durante a m aior parte da história do envolvim ento e adm inistração britânicos na Índia, tropas recrutadas no subcontinente e pagas essencialm ente pela população do subcontinente asseguraram o status m ilitar global da Grã-Bretanha e, ao m esm o tem po, perm itiram que os políticos britânicos se afastassem do cam inho potencialm ente im popular do recrutam ento m ilitar com pulsório de j ovens britânicos.
O problem a do lugar da Grã-Bretanha no sistem a do século XIX,
com o tantos outros, tem soluções diferentes dependendo da perspectiva teórica e m etodológica que preside a abordagem . Sob a ótica da escola radical, a Grã-Bretanha ocupa lugar central na econom ia-m undo. Desse ponto de vista, o sistem a europeu de Estados é, apenas, um a feição im portante do cenário m aior. Contudo, sob a ótica da escola realista, a estrutura básica é o sistem a de equilíbrio europeu, em que a Grã-Bretanha ocupa posição de prim us inter pares.
O Sistema de Metternich
O Congresso de Viena (1814-1815) redesenhou as fronteiras
políticas da Europa e reorganizou os Estados visando suprim ir definitivam ente o espectro de Napoleão. A velha Europa passava um a borracha no passado recente, procurando recriar um fio de continuidade que tinha sido violentam ente rom pido.
O princípio da legitim idade foi um a das bases do proj eto europeu
articulado em Viena, gerando a política da restauração. Os governos oriundos da hegem onia napoleônica, alguns dos quais liderados por fam iliares do im perador francês, foram elim inados. A restauração devolveu o trono para as dinastias prussiana, austríaca, espanhola e portuguesa. Na França, a política da restauração conduziu Luís XVIII, irm ão de Luís XVI, ao trono.
Essa tentativa de barrar o cam inho para as ideias francesas de
1789 não duraria m uito. Na década de 1820 eclodiram revoltas liberais na Espanha, em Portugal, em Nápoles, em Piem onte e na Grécia. Os congressos de Troppau (1820) e Laibach (1821) m anifestaram o apoio das potências à repressão austríaca na Itália. Contudo, em 1822, no Congresso de Verona, a Grã-Bretanha recusava-se a intervir na guerra espanhola entre liberais e realistas. A recusa britânica representou golpe definitivo no sistem a de congressos das potências legitim istas.
Em 1830, um a insurreição em Paris suprim iu o absolutism o e acabou dando origem à m onarquia constitucional de Luís Felipe. A Revolução de 1830 repercutiu em toda a Europa, possibilitando a independência da Bélgica e dissem inando as ideias liberais pelas regiões italianas e alem ãs e tam bém na Polônia, que se encontrava sob dom ínio russo. O legitim ism o de Viena fracassaria definitivam ente em 1848 — ano da “prim avera dos povos” —, quando revoluções liberais pipocaram por todo o continente, desde a França até a Prússia e a Áustria.
Ao lado do legitim ism o, o princípio do equilíbrio europeu norteou
as decisões de Viena. Sob o pretexto da restauração das fronteiras políticas anteriores a Napoleão, procedeu-se a um a partilha territorial destinada a favorecer as quatro potências vitoriosas. A Grã-Bretanha apossou-se de im portantes territórios coloniais, am pliando seus dom ínios de além -m ar. A Rússia estabeleceu dom ínio sobre a m aior parte da Polônia, cristalizando sua posição de potência hegem ônica no m undo eslavo. A Áustria anexou os Estados italianos do Norte, de m aneira que o velho im pério decadente ganhou prolongada sobrevida. A Prússia incorporou a Renânia e parte da Polônia, em ergindo com o grande potência europeia. A Suécia, potência m édia, incorporou a Noruega.
Um dos pilares centrais da arquitetura do equilíbrio europeu
consistia na lim itação do poderio francês. Assim , j unto às fronteiras orientais francesas, foram erguidos novos Estados, que deveriam funcionar com o barreira de contenção da potência. A Suíça recobrava sua independência e, por disposição do Congresso de Viena, tinha garantida sua “neutralidade perpétua”. No flanco sudeste da França, constituía-se o Reino do Piem onte-Sardenha, que viria a ser o
vértice da unidade italiana. No flanco nordeste, a união de Holanda, Bélgica e Luxem burgo constituiu o Reino dos Países Baixos, que durou apenas quinze anos.
O outro pilar da arquitetura de Viena era a m anutenção da
fragm entação alem ã. No lugar do Sacro Im pério, destruído por Napoleão, surgia a Confederação Germ ânica. O reino da Prússia controlava a m aior parte dos territórios setentrionais da Confederação, enquanto os territórios m eridionais faziam parte do im pério da Áustria. No Centro e no Norte, sob o princípio da restauração, foram constituídos reinos, principados e ducados, rem iniscentes do feudalism o. Contudo, os cerca de 300 Estados pré-napoleônicos consolidaram -se em aproxim adam ente 30 unidades políticas.
A questão alem ã figurou com destaque na pauta de Viena, com o j á
tinha ocorrido na Westfália. A solução, contudo, não foi a m esm a. Com o observou Kissinger:
Os arquitetos do Congresso de Viena reconheceram que, para que a Europa central tivesse paz e estabilidade, seria necessário desfazer o trabalho de Richelieu dos anos 1600. Richelieu criara um a Europa central fraca e fragm entada, concedendo à França a posição tentadora de passar dos seus lim ites [...]. Consequentem ente, os estadistas em Viena trabalharam no sentido de consolidar, m as não unificar, a Alem anha. A Áustria e a Prússia eram os principais Estados germ ânicos, seguidos por vários Estados de tam anho m édio [...]. Estabelecendo um a defesa com um contra a agressão externa, a Confederação Germ ânica provou ser um a criação hábil. Era forte dem ais para ser atacada pela França, porém fraca dem ais e descentralizada para am eaçar os seus vizinhos.
Do ponto de vista geopolítico, os acordos do Congresso de Viena
resultaram , antes de tudo, das propostas britânicas que haviam sido organizadas no cham ado Plano Pitt. A sem elhança era tão grande que Castlereagh, o m inistro do Exterior britânico, apresentou ao Parlam ento, anexado aos acordos de paz, o esboço original do Plano Pitt. A Grã-Bretanha direcionou, explicitam ente, os estadistas de Viena para um acordo geral baseado no princípio do equilíbrio de poder. Assim , aquilo que estava subj acente ao pensam ento estratégico de Richelieu tornava-se, dois séculos m ais tarde, um program a de política externa.
O princípio da legitim idade seria sustentado por um a articulação
diplom ática das m onarquias do Leste Europeu — a Rússia, a Áustria e a Prússia —, surgida por iniciativa do czar Alexandre I, da Rússia. Essa articulação — a Santa Aliança — tornava-se a guardiã da “Europa das dinastias”. O czar j ustificava a Santa Aliança com os valores eternos e universais da religião cristã e encarava-a com o instrum ento de intervenção em assuntos internos dos Estados participantes, a fim de conservar o trono e a dinastia em face das am eaças liberais. Metternich, da Áustria, que com partilhava a ideia de proteger o trono, espantou-se com o conteúdo m issionário e cruzadista da visão do czar, e “afirm ou zom beteiram ente que ele encontrava-se confuso quanto à questão de discutir estas ideias no Conselho de Ministros ou no confessionário”. Mas nem a Áustria nem a Prússia podiam se dar ao luxo de recusar a coligação com a poderosa Rússia.
A Grã-Bretanha ocupava outra posição, e Castlereagh desprezava
o sentido m ístico da Santa Aliança. Castlereagh estava pragm aticam ente interessado no princípio do equilíbrio europeu e, para sustentá-lo, articulou a Quádrupla Aliança, com posta pela Grã-Bretanha, Áustria, Prússia e Rússia. A França, que foi representada em Viena por Talley rand, acabou reintegrada ao concerto de potências europeias em 1818, vindo a participar da Quíntupla Aliança. Dessa form a, o equilíbrio pentagonal do continente ganhava um a expressão diplom ática adequada.
Metternich desem penhou o papel de elo entre a estratégia britânica
e a cruzada legitim ista russa. O príncipe austríaco sabia que a Santa Aliança proporcionava-lhe oportunidade de exercer influência sobre a política do czar m oderando seus excessos e vinculando-a ao concerto europeu.
O Sistem a de Metternich, com o ficou conhecido o concerto da
Europa de Viena, cristalizava a estabilização de um equilíbrio de potências soberanas que zelavam , em conj unto, pela m anutenção da ordem continental. A ordem europeia passava a se estruturar num arcabouço irregular: um a potência m arítim a que sediava um im pério m undial (Grã-Bretanha), um a potência do ocidente europeu restringida pela derrota m ilitar (França), duas potências centro-europeias rivais (Prússia e Áustria), um a potência conservadora do oriente europeu (Rússia).
A ordem europeia de Bismarck
O concerto de Viena representou a m oldura para o m áxim o
florescim ento da realpolitik. O sentido e o conteúdo da política externa dessa época desvincularam -se notavelm ente das referências a valores m orais ou princípios universais. Nas palavras de Aron:
Os Estados estritam ente “nacionais” não se consideram inim igos de m orte, m as sim plesm ente rivais. [...] Todo Estado é, aos olhos de qualquer outro Estado, um possível aliado; o inim igo de hoj e é poupado porque poderá ser o
aliado de am anhã e porque é indispensável ao equilíbrio do sistem a. Nestas circunstâncias, a diplom acia é realista, às vezes m esm o cínica, e é tam bém m oderada e razoável. [...] Um a diplom acia de equilíbrio pura ignora (e deve ignorar) os sentim entos; não concebe os Estados com o am igos ou inim igos. Não considera estes últim os piores do que os prim eiros, e não condena a guerra em si. Adm ite o egoísm o e, se se quiser, a corrupção m oral (a aspiração à potência e à glória); m as esta corrupção que calcula parece, no final das contas, m enos im previsível e perigosa do que as paixões — m anifestações talvez idealistas, porém cegas
O concerto europeu de Viena gerou um a nova “longa paz” — m as
desta vez quase livre de guerras secundárias, com o as que tinham provocado um a turbulência perm anente no sistem a da Westfália. Depois de Viena, por quatro décadas, as grandes potências não se enfrentaram nenhum a vez no cam po de batalha.
O equilíbrio pentagonal europeu sofreu flutuações durante todo o
século, m as apenas um a grande m udança — a Unificação alem ã de 1871. Esse evento crucial divide o século em dois períodos distintos: depois dele, o crescim ento da influência da Alem anha iria corroer, lentam ente, a estabilidade europeia, até precipitar o continente na Prim eira Guerra Mundial.
O foco de instabilidade principal do Sistem a de Metternich foi,
desde o início, a rivalidade entre a Prússia e a Áustria. Ao distribuir regiões da Confederação Germ ânica aos dois com petidores, m antendo Estados neutros entre eles, o Congresso de Viena tinha acendido um pavio que continuaria a queim ar no decorrer do século. A disputa pela hegem onia sobre a Alem anha desaguaria na guerra direta entre os contendores. A unidade da Alem anha, realizada sob liderança prussiana, m odificaria profundam ente o equilíbrio de poder em todo o continente.
A m archa para a unificação com eçou em 1833, com a criação do
Zollverein, a união alfandegária dos Estados alem ães, que tinha com o eixo a Prússia e excluía a Áustria. Em 1862, a nom eação de Otto von Bism arck para chanceler da Prússia inaugurou a fase m ilitar da unificação. Em aliança com a Áustria, a Prússia derrotou a Dinam arca na Guerra dos Ducados (1864). Em seguida, Bism arck assegurou-se da neutralidade da França de Napoleão III e em preendeu a guerra contra a Áustria (Guerra Austro-Prussiana de 1866). A vitória prussiana resultou na constituição da Confederação Germ ânica do Norte e no afastam ento da Áustria dos assuntos alem ães.
Em 1870, eclodia a Guerra Franco-Prussiana, com que Bism arck obrigou os Estados germ ânicos do sul a colocarem -se sob sua proteção. A guerra foi desej ada e preparada pelos dois lados. A Prússia desenvolvia a escalada m ilitar da Unificação, que fertilizava o nacionalism o alem ão. A França tentava evitar a unidade alem ã para conservar um equilíbrio de poder que ruía lentam ente.
A colisão entre a Prússia e a França com pletou a unidade alem ã. O
novo Estado, organizado sob o poder da Prússia, nasceu à som bra da hum ilhante derrota francesa em Sedan. O coroam ento do im perador Guilherm e I e a proclam ação do Segundo Reich, em 1871, no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, dilacerou por m uito tem po o orgulho nacional francês. As indenizações e reparações de guerra e, principalm ente, a anexação da Alsácia e da Lorena, fertilizaram a rivalidade e pavim entaram o terreno para as guerras futuras.
O surgim ento da Alem anha com o potência unificada representou
a desestabilização definitiva do velho Sistem a de Metternich. A traj etória iniciada em 1871 desem bocaria, décadas depois, na guerra geral e no colapso da convivência m ultipolar europeia. Essas décadas de transição, tensas e decisivas, transcorreram sob o signo de outra organização dos poderes no continente: a ordem europeia de Bism arck.
No centro da nova ordem encontrava-se a Alem anha, que
atravessava um surto industrial sem precedentes. Em poucas décadas, ela sobrepuj aria a Grã-Bretanha, tornando-se a m aior econom ia europeia. A potência em ergente, situada no coração da Europa, funcionava com o elo entre o oeste e o leste do continente. Nos dois lados, seu poderio crescente gerava tem or e insegurança.
A ordem de Bism arck excluiu a Áustria de qualquer participação
na nação alem ã. O Im pério Austro-Húngaro, enfraquecido pelas guerras na Itália e envenenado pelos nacionalism os internos, ingressava em sua crise term inal. A Unificação Italiana (1861-1871) tinha-o privado dos Estados do nordeste da Itália, e crescia a instabilidade no norte da península balcânica.
Mas, sobretudo, a ordem bism arckiana assentava-se na
hum ilhação da França, onde germ inava a ideia da desforra escorada no proj eto de retom ada da Alsácia e da Lorena. A política externa de Bism arck estava consciente dos riscos em butidos nessa situação. Por isso, sua m eta principal era o isolam ento da França, evitando a constituição de alianças antigerm ânicas. Manobrando nessa direção, o chanceler prussiano costurou a Liga dos Três Im peradores, firm ada em 1872, envolvendo a Alem anha, a Áustria-Hungria e a Rússia. Essa form a derradeira e fantasm agórica da Santa Aliança nada tinha em com um com a articulação original de Alexandre I: representava apenas um hábil estratagem a do chanceler alem ão para ganhar tem po.
A Liga dos Três Im peradores não podia durar m uito j á que se aprofundavam os atritos entre russos e austríacos. Em 1879 era firm ada um a aliança austro-alem ã, cuj os term os precisos perm aneceram secretos, explicitam ente orientada para a defesa com um contra eventuais am eaças m ilitares russas. Pouco depois, Bism arck firm ava o pacto russo-alem ão, que ficou em segredo por insistência do czar. Assim , a Alem anha realizava um arriscado, m as indispensável, j ogo duplo, associando-se às duas potências rivais do Leste Europeu.
Até 1870, a França tinha se aproveitado das diferenças entre os
Estados alem ães para atuar contra a unidade da Alem anha. Feita a unidade, a França derrotada teria de buscar segurança fora da Alem anha e, obviam ente, contra a Alem anha. A Rússia era a potência disponível para a aliança antigerm ânica:
Os im pulsos que levaram , não apenas os altos círculos m ilitares franceses e os chauvinistas civis, m as tam bém parte considerável do restante da população francesa, a olhar esperançosam ente para a possibilidade de um a aliança com a Rússia são óbvios. O m ovim ento foi notadam ente um a reação à Guerra Franco-Prussiana e suas consequências. As sucessivas hum ilhações de 1871, recaindo sobre um povo desacostum ado a tais experiências, e a irritante natureza do isolam ento e do abandono que Bism arck im pôs à França nas duas décadas seguintes com certeza arrastariam as esperanças e aspirações dos franceses para a possibilidade de um a associação com a única grande potência m ilitar continental concebivelm ente capaz de rom per a dom inação de Bism arck sobre a diplom acia da época e de forçar um a divisão da atenção alem ã entre o Leste e o Oeste
Na últim a década do século XIX, a França conseguiu, finalm ente,
rom per o isolam ento im posto por Bism arck e firm ar aliança com a Rússia. O rum o foi traçado por Boulanger, m inistro da Guerra, que relançou a cam panha de opinião pela confrontação com a Alem anha para retom ada da Alsácia e da Lorena. O pacto russo-alem ão, renovado em 1887, entrava em crise term inal. No m esm o ano, a França concedia um vultoso em préstim o ao governo do czar, fortalecendo a posição dos eslavófilos antigerm ânicos na Rússia. Em 1890, ano da queda de Bism arck, rom pia-se o pacto entre o czar e o im perador alem ão. A entente franco-russa de 1891 foi um a consequência lógica do tem or, nos dois lados do continente, do poderio alem ão.
A aliança tinha base em am bições territoriais antigerm ânicas: a
França visava recuperar a Alsácia e a Lorena; a Rússia pretendia conservar a Polônia, alvo do interesse alem ão. O sentido lógico da entente não suprim e a polêm ica sobre sua inevitabilidade. Kennan, em sua obra clássica sobre a política externa russa do período, revelou a profundidade das desavenças na corte do czar e o peso das opções subj etivas, do fortuito e m esm o do acaso na decisão finalm ente adotada, de alinham ento com a França. Sobretudo, m ostrou que a diplom acia russa — ao orientar-se para o confronto com o Im pério Turco pelo controle do Mediterrâneo oriental e, depois, para o cam inho do conflito com a Alem anha pelo controle da Polônia — buscava o poder e a glória no exterior, m as arruinava as possibilidades de sobrevivência da dinastia e do próprio im pério.
A aliança antigerm ânica foi retardada, durante m ais de um a
década, pela hábil diplom acia de Bism arck. Ela só se concretizou quando as disputas entre a Rússia e a Áustria, ativadas pela confusa situação balcânica, dem oliram o j ogo duplo dos alem ães. Basicam ente, foi o nacionalism o sérvio que detonou o frágil e fantasm agórico equilíbrio que sustentava a ordem bism arckiana.
Nos Bálcãs, o nacionalism o sérvio recebia apoio russo em suas
pretensões de unificação nacional dos eslavos do Sul. O proj eto da Grande Sérvia am eaçava o flanco sul do Im pério Austro-Húngaro, onde se localizavam as províncias da Eslovênia e Croácia e partes da Bósnia-Herzegovina. O apoio diplom ático da Rússia aos sérvios era fruto não apenas da com unhão cultural, eslava e ortodoxa entre os dois povos com o, principalm ente, do antigo interesse por um a ponte na direção do Mediterrâneo. Os confrontos crônicos com a Turquia — que dom inava as saídas do Mediterrâneo oriental e os estreitos de Bósforo e Dardanelos — aprofundavam o fosso entre a Rússia e a Áustria, e aproxim avam ainda m ais os russos dos sérvios.
As tensões alcançaram um ponto insuportável em 1890. Dois anos
antes, o im perador Guilherm e I falecera. Com Guilherm e I, desapareceu o vínculo de confiança e respeito entre a Alem anha e a Rússia de Alexandre III. Na Áustria, os partidários da guerra procuravam arrastar a Alem anha para um ataque preventivo contra a Rússia. Bism arck, que considerava desastroso um conflito com os russos, procurou desarm ar os espíritos, na Áustria e na própria Alem anha, publicando os term os precisos, estritam ente defensivos, da aliança austro-alem ã.
A últim a m anobra de Bism arck não foi capaz de interrom per o
curso dos acontecim entos. Guilherm e II orientava-se, cada vez m ais, para o lado dos partidários da guerra, term inando por forçar a aposentadoria do velho chanceler. A saída de cena de Bism arck foi seguida pela ruptura do pacto russo-alem ão. A consequência im ediata consistiu na entente franco-russa, que cercava de hostilidade os alem ães e seus aliados austríacos. Alexandre III orientava-se, tam bém , para a guerra, solapando, de um a vez por todas, o edifício da ordem bism arckiana. Assim , esgotava-se a segunda versão do concerto europeu de Viena e delineava-se a estrutura de alianças da Prim eira Guerra Mundial.
O colapso do equilíbrio europeu
A ordem europeia entrou em dissolução acelerada após a entente
franco-russa. No lugar de um sistem a m ultipolar em equilíbrio dinâm ico, form avam -se alianças antagônicas prenunciando a guerra. A estabilidade m ultipolar com raízes na derrota napoleônica, que durou cerca de um século, desm anchava-se definitivam ente.
A queda de Bism arck conferiu im pulso suplem entar ao
expansionism o alem ão. Nos altos círculos do Estado, cim entava-se um a visão de m undo baseada na geopolítica do espaço vital (Lebensraum ) e no germ anism o cultural e racial (Kulturkam pf). A geopolítica alem ã, inspirada em Friedrich Ratzel, associava o progresso social à afirm ação territorial do Estado estim ulando as ideias expansionistas.
A Kulturkam pf incentivava o nacionalism o alem ão difundindo
ideias de superioridade racial e destino histórico. Em 1893 era fundada a Liga Pangerm ânica, círculo político e intelectual que propugnava o expansionism o na Europa central, em regiões habitadas por m inorias étnicas de origem alem ã. As noções expansionistas substituíam a ideia de equilíbrio de poder dos tem pos de Bism arck, configurando a agressiva política externa da virada do século (Weltpolitik).
O j ogo de alianças enrij eceu-se velozm ente. Em 1904, a França
concluía a Entente Cordial com a Grã-Bretanha. Em 1907, form ava-se a Tríplice Entente, envolvendo britânicos, franceses e russos. Isolada, a Alem anha aprofundava sua aliança com a decadente m onarquia dual austro-húngara, em prestando-lhe apoio no com plexo cenário balcânico.
O pavio que se acendeu no barril de pólvora europeu foi a crise
sérvia. Liderando os m ovim entos nacionalistas nos Bálcãs, os sérvios desafiaram o poder austro-húngaro. A crise culm inou no atentado de Saraj evo, em 28 de j unho de 1914, quando j ovens m ilitantes sérvios assassinaram o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono de Viena. Então o m ecanism o cego das alianças entrou em funcionam ento. Em j ulho, a Áustria atacava a Sérvia, e a Rússia m ovim entava suas tropas em defesa do aliado balcânico. Em agosto, a Alem anha declarava guerra à Rússia, e a França m obilizava-se. Logo depois, a Alem anha invadia a Bélgica am eaçando a França. Com o reação, a Grã-Bretanha engaj ava-se no lado da França e da Rússia declarando guerra à Alem anha.
A Prim eira Guerra Mundial foi um conflito europeu, não um a
guerra m undial. De certo m odo, representou a continuação e a expansão da Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, pois o eixo do confronto foi a disputa continental entre a Alem anha e a França. A Rússia, aliada da França, e a Áustria-Hungria, aliada da Alem anha, participaram com o coadj uvantes no conflito principal.
A Grã-Bretanha é um caso à parte. Essencialm ente, a m otivação
que a arrastava para o conflito era a m anutenção do equilíbrio de poder continental, pano de fundo indispensável à sua política m undial. Assim , os britânicos m antinham excepcional coerência histórica repetindo a atitude adotada cem anos antes contra Napoleão. Novam ente, tratava-se de derrotar a potência continental candidata à hegem onia europeia, desta vez m aterializada na Alem anha.
Entretanto, a Grã-Bretanha revelou-se incapaz de cum prir essa
função. Após as grandes batalhas de Verdun e do Som m e de 1916, ficou patente o equilíbrio de forças m ilitares e a im potência da Tríplice Entente para derrotar a Alem anha. Apenas com a entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, o panoram a bélico foi dram aticam ente m odificado, e a Alem anha entrou em colapso.
Os Estados Unidos praticavam , desde a Doutrina Monroe, de 1823,
um a política externa direcionada, prim ordialm ente, para a Am érica. O isolacionism o, em relação à intrincada diplom acia dos Estados europeus, constituía um a orientação estrutural de Washington, ancorada em m odos de enxergar o m undo derivados da própria form ação nacional dos Estados Unidos (vej a o Capítulo 8).
No final do século, a constituição de um a poderosa esquadra e o
alargam ento da influência am ericana para o Caribe e o Pacífico tinham consolidado a sensação de isolam ento da potência am ericana em relação ao Velho Mundo. Entretanto, esse isolam ento auto-im posto tinha com o pano de fundo a situação de equilíbrio de poder na Europa. Nela residia a garantia am ericana contra eventuais tentativas de interferência em assuntos hem isféricos.
Por isso, o expansionism o dos Estados Unidos nas Am éricas e no
Pacífico realizava-se à som bra das disputas europeias. Enquanto não em ergisse um a potência europeia hegem ônica (isto é, com poder suficiente para interferir nas questões do Hem isfério Am ericano), a segurança dos Estados Unidos estaria assegurada. Em essência, a ativa diplom acia britânica, voltada para conservar o equilíbrio europeu, form ava o biom bo atrás do qual escondia-se o isolacionism o am ericano.
A entrada dos Estados Unidos na Prim eira Guerra Mundial
decorreu da im potência britânica para conservar o equilíbrio derrotando a Alem anha. Assim , após dois anos de apoio m aterial indireto à Tríplice Entente, Washington declarou guerra à Alem anha em abril de 1917. O engaj am ento am ericano não representou, portanto, a ruptura de seu tradicional isolacionism o, m as, antes, o contrário: a única form a de recriar as condições anteriores, propícias ao isolam ento. Essa atitude seria confirm ada após o fim da guerra, com a retirada m ilitar am ericana do Velho Mundo e a recusa em participar da Liga das Nações.
A guerra alterou profundam ente o m apa político europeu. A
desagregação do Im pério Russo (substituído pela União Soviética após a Revolução Bolchevique), a dissolução da Áustria-Hungria e do Im pério Turco deram origem aos novos Estados da Europa centro-oriental e balcânica. A derrota alem ã acarretou a devolução da Alsácia e da Lorena à França, e tam bém a criação do “corredor polonês” isolando a Prússia oriental. Todo o sistem a de Estados do século XIX foi dem olido.
O Tratado de Versalhes (1919) e as outras disposições diplom áticas
que reorganizaram as fronteiras europeias (Tratado de Brest-Litovsk de 1918, Tratado de Saint-Germ ain e Tratado de Neuilly de 1919, Tratado de Trianon e Tratado de Sèvres de 1920, Tratado de Lausanne de 1923 e Tratado de Locarno de 1925) não foram orientados para a constituição de um sistem a equilibrado de poderes. Ao contrário do Congresso de Viena, os tratados que encerraram a grande guerra europeia pautaram -se, quase que unicam ente, pela desafronta aplicada contra as potências derrotadas. Longe de produzir um a arquitetura estável no conj unto do continente, m ultiplicaram as zonas de tensão e os focos de atrito.
O Tratado de Versalhes representou a hum ilhação nacional da
Alem anha. Ela foi responsabilizada pela guerra e obrigada a pagar indenizações financeiras e m ateriais. A França recebeu de volta a Alsácia e a Lorena, e adquiriu direitos de exploração do carvão do Sarre por quinze anos. As forças arm adas alem ãs foram quase dissolvidas e a fronteira franco-germ ânica foi desm ilitarizada sob supervisão francesa. Consolidou-se a independência polonesa e vastos territórios habitados por alem ães foram transferidos à Polônia. Finalm ente, a Alem anha perdeu as possessões coloniais, que se tornaram m andatos adm inistrados pelas potências vencedoras em nom e da Liga das Nações.
Em Versalhes encontram -se as raízes da ascensão do nazism o, em
m eio à dissolução m oral e desordem econôm ica da Alem anha de Weim ar. O nacionalism o alem ão fertilizava-se sob a hum ilhação im posta pelos vencedores. A geopolítica do espaço vital ressurgia fortalecida, reclam ando as terras povoadas por alem ães na Polônia, Tchecoslováquia e Ucrânia. A ascensão fulm inante de Hitler, em 1933, a destruição da frágil ordem republicana e a proclam ação do Terceiro Reich anunciavam o novo conflito.
GLOSSÁRIO
Poder Marítimo
Projeção geopolítica de poder baseada no domínio dos mares e na ação da marinha.
Poder Continental
Projeção geopolítica de poder baseada no domínio da massa continental e na ação das forças terrestres.
Equilíbrio europeu
Equilíbrio geopolítico de poder entre as potências do sistema europeu de Estados.
Equilíbrio pluripolar
Equilíbrio geopolítico de poder num sistema constituído por várias potências principais.
Sistema de Metternich
Organização geopolítica do sistema europeu de Estados gerada pelo Congresso de Viena de 1815.
Realpolitik
Política externa baseada, de modo exclusivo e explícito, no primado do interesse nacional. A realpolitik caracterizou a política externa dos Estados europeus no século XIX.
Ordem de Bismarck
Organização geopolítica do sistema europeu de Estados configurada com a Unificação Alemã de 1871.
Lebensraum
De acordo com o geógrafo alemão Friedrich Ratzel, o “espaço vital” indispensável para a plena realização das potencialidades econômicas nacionais.
Kulturkampf
Noção romântica da unidade racial, histórica e cultural dos povos germânicos.