Relações Internacionais: Teoria e História

Demétrio Magnoli · Capítulo 12 de 43

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Relações Internacionais: Teoria e História

Capítulo 6 · Origens da Guerra Fria

 

O sonho napoleônico de estabelecer um “im pério universal” na

Europa assinalou o encerram ento da ordem da Westfália. A ordem europeia de Viena entrou em crise com a Unificação Alem ã, m as desm oronou, definitivam ente, no processo turbulento das duas grandes guerras do século XX. A tentativa nazista de realizar o “im pério universal” m arcou o colapso final do equilíbrio europeu, que seria substituído, depois da Segunda Guerra Mundial, pelo sistem a bipolar da Guerra Fria.

Inicialm ente, a política de Hitler com binou, em doses apropriadas,

a ousadia e a prudência. A Alem anha retirou-se da Liga das Nações em 1933, m as assinou um acordo de não-agressão com a Polônia poucos m eses depois. Em 1935, Hitler anunciava a retom ada do treinam ento m ilitar e, um ano depois, rem ilitarizava a Renânia desobedecendo ao Tratado de Locarno. A passividade das potências do Ocidente estim ulou-o a ir m ais longe. O Eixo Berlim -Rom a foi form ado em 1936 e os Estados nazifascistas coligados passaram a apoiar os rebeldes de Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Em 1937, Cham berlain tornava-se prim eiro-m inistro britânico.

Com o francês Daladier, ele articulou a política do apaziguam ento, destinada a evitar um conflito com a Alem anha, cedendo posições ao nazism o. Essa política franco-britânica expressou-se com a passividade diante da anexação alem ã da Áustria (Anschluss), em 1938, e principalm ente no vergonhoso episódio da Conferência de Munique, quando a Tchecoslováquia foi despedaçada com a entrega dos Sudetos à Alem anha e dos territórios eslovacos à Hungria.

O apaziguam ento pode ser interpretado, retrospectivam ente, com o

um proj eto, que fracassou por com pleto, de edificação de um sistem a de dissuasão m útua da Alem anha nazista e da União Soviética bolchevique. Segundo essa interpretação, a Grã-Bretanha e a França acreditavam que o fortalecim ento de Hitler representaria um seguro contra a União Soviética e, para isso, sacrificavam a Áustria e a Tchecoslováquia.

Essa linha de explicação tem , atrás de si, a força da lógica, m as

carece de evidências históricas. Afinal, depois de tudo, britânicos e franceses decidiram enfrentar a guerra para recuperar a independência da Polônia. Por isso, no lugar de um a estratégia m aquiavélica, Kennan preferiu enxergar apenas um a política externa am bivalente, sem rum o:

Atualm ente é possível perguntar, a partir da vantaj osa perspectiva retrospectiva, se [...] não teria sido m ais sábio, por parte dos estadistas ocidentais, ter configurado suas

políticas de tal form a a provocar a confrontação entre as potências totalitárias a fim de que elas se esgotassem e se m antivesse firm e a segurança das dem ocracias ocidentais. Claro que isto é precisam ente o que a propaganda soviética acusou os estadistas ocidentais de estarem fazendo, no decorrer dos anos trinta, e de fato algum as de suas ações eram tão am bíguas e m al aconselhadas que pareciam sustentar a acusação. [...] Pessoalm ente, não posso encontrar provas de que qualquer corrente de opinião responsável em algum dos países ocidentais realm ente quisesse a guerra nessa época, nem sequer um a entre a União Soviética e a Alem anha. Era claro que um a guerra entre os nazistas e os com unistas soviéticos só podia ocorrer sobre os corpos prostrados dos pequenos Estados da Europa Oriental. E, apesar da tragédia de Munique, a extinção da independência desses Estados da Europa Oriental era algo que ninguém queria.

As vãs esperanças de Cham berlain e Daladier na estabilização da

Alem anha e da Europa serviram apenas para aplainar o terreno em que Hitler m anobrava. Em m arço de 1939, tropas alem ãs invadiam a Boêm ia e a Morávia tchecas. Em agosto, os chanceleres alem ão e soviético firm avam o Pacto Molotov-Ribbentrop, um tratado de não-agressão com cláusulas secretas de divisão da Polônia e dos Estados bálticos. Em setem bro, o Exército alem ão invadia a Polônia deflagrando a Segunda Guerra Mundial.

 

Teerã, Yalta e Potsdam

A história diplom ática da Segunda Guerra Mundial reserva um

lugar especial para as relações tecidas entre Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética. Os acordos e desacordos entre os Três Grandes revelaram diferentes pontos de vista sobre a condução da guerra, que ocultavam estratégias diferentes para a edificação da ordem europeia do pós-guerra.

Nos Estados Unidos, Roosevelt encarou dificuldades internas quase

insuperáveis para rom per a neutralidade, que tinha se firm ado com o um dogm a da política externa isolacionista do entre-guerras. O abastecim ento bélico da Grã-Bretanha, com o Lend-Lease, só com eçou em 1941. A declaração de guerra teve de esperar o ataque j aponês a Pearl Harbor. Durante 1942, as forças am ericanas engaj aram -se a fundo no teatro do Pacífico e, só no fim do ano, desem barcaram no norte da África. Na Conferência de Casablanca, entre Churchill e Roosevelt, em j aneiro de 1943, a estratégia foi definida pelo prim eiro-m inistro britânico, e seu núcleo consistia na invasão da Itália.

A União Soviética suportou, sem aj uda direta, a grande ofensiva

alem ã de 1941-1942. Nessa fase, Stalin tentou, quase desesperadam ente, convencer os aliados da urgência da abertura de um a frente ocidental a fim de reduzir a pressão sobre o território soviético. Na Conferência de Teerã, em novem bro de 1943, o prim eiro encontro dos Três Grandes, o líder soviético ainda insistia no tem a da frente ocidental. Naquele m om ento, o regim e de Mussolini j á tinha sido destruído, e as forças soviéticas em preendiam a vitoriosa contra-ofensiva no Leste.

A frente ocidental só foi aberta em j unho de 1944, com o

desem barque aliado na Norm andia. Na ocasião, j á era evidente que a linha adotada por Churchill, de aguardar o esgotam ento m útuo de alem ães e soviéticos na frente oriental, não surtira efeito. A contra-ofensiva soviética avançava rapidam ente no leste im pondo o recuo desordenado das tropas alem ãs. A últim a fase da guerra no cenário europeu consistiria num a disputa entre soviéticos, de um lado, e aliados ocidentais, do outro, pela ocupação da Europa centro-oriental.

As conferências de Yalta e Potsdam reuniram os vencedores da

Segunda Guerra Mundial e redefiniram a organização geopolítica do continente europeu. Os Três Grandes com eçaram a delinear, nesses encontros, a bipartição do espaço europeu em zonas de influência antagônicas.

A Conferência de Yalta realizou-se em fevereiro de 1945, poucas

sem anas antes da rendição alem ã. Nessa reunião histórica, reorganizaram -se as fronteiras soviéticas e foram estabelecidas as bases dos novos regim es políticos a serem im plantados nos satélites nazistas e países ocupados pela Alem anha, na Europa centro-oriental.

O território soviético foi am pliado, com a inclusão de áreas

pertencentes à Polônia e à Rom ênia. Sob protestos dos representantes ocidentais, a União Soviética confirm ou a anexação dos Estados bálticos, realizada em 1939. Dessa form a, o território soviético passava a coincidir, quase exatam ente, com o do Im pério Russo às vésperas da Prim eira Guerra Mundial. Stalin, o czar verm elho, reafirm ava a vocação im perial da Grande Rússia.

Na m aior parte da Europa centro-oriental, as tropas nazistas

tinham sido substituídas pelo Exército Verm elho nos m eses derradeiros do conflito. Em Yalta, o m apa m ilitar do final da guerra forneceu as bases para a organização dos novos regim es políticos que se instalariam na região. Um acordo inicial entre os participantes previa a form ação de governos de união nacional na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Rom ênia, Bulgária, Iugoslávia e Albânia. Tais governos contariam com representantes de todos os partidos antifascistas, m as

seriam dirigidos pelos partidos com unistas.

Nessas condições, Yalta assinalava a constituição de um a esfera de

influência soviética. De certa form a, a im posição da hegem onia soviética sobre os Estados do Leste Europeu era produto da estratégia conduzida por Churchill — e, relutantem ente, por Roosevelt — de retardar a abertura da frente ocidental. Os aliados ocidentais pagavam um alto preço geopolítico pelo erro de cálculo com etido durante o ano decisivo de 1943.

A Conferência de Potsdam realizou-se em j ulho de 1945, nos

arredores de Berlim , cidade ocupada pelas tropas soviéticas. Trum an ocupava o lugar de Roosevelt, falecido pouco antes. Na Grã-Bretanha, os trabalhistas de Attlee assum iam o gabinete após a derrota eleitoral de Churchill.

O centro das discussões foi a organização da adm inistração da

Alem anha derrotada. Decidiu-se a divisão provisória da Alem anha em quatro zonas de ocupação m ilitar adm inistradas pelas potências vencedoras (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética). Os ocupantes deveriam cum prir um program a de erradicação com pleta das estruturas nazistas e realizar reform as voltadas para a dem ocratização da sociedade alem ã. As m edidas concernentes ao conj unto do território seriam tom adas em com um acordo.

Berlim , situada na zona de ocupação soviética, na parte oriental da

Alem anha, foi subdividida em quatro setores adm inistrativos subordinados a com andantes m ilitares das potências vencedoras. A adm inistração do conj unto da área da cidade estaria a cargo de um Conselho de Controle Interaliado, em que teriam assento os quatro ocupantes. Delineava-se a futura partição geopolítica do território alem ão.

No ponto de partida, as concepções dos Três Grandes sobre a

ordem do pós-guerra distinguiam -se profundam ente. Nas palavras de Kissinger:

Cada um dos vencedores falava em term os da experiência

histórica da sua própria nação. Churchill desej ava reconstruir o tradicional equilíbrio de poder na Europa. Isto significava a reconstrução da Grã-Bretanha, da França e m esm o da Alem anha derrotada, de m odo que, j untam ente com os Estados Unidos, estes países pudessem contrabalançar o colosso soviético no leste. Roosevelt visualizou um a ordem pós-guerra onde os três vencedores, j untam ente com a China, agiriam com o um conselho de diretores, assegurando a paz contra qualquer vilão em potencial, que ele acreditava m ais provavelm ente ser a Alem anha [...]. A abordagem de Stalin refletia tanto sua ideologia com unista quanto a tradicional política externa russa. Ele em penhou-se em tirar proveito da vitória do seu país ao buscar estender a influência soviética na Europa central.

A perspectiva de Roosevelt decorria da tendência histórica dos

Estados Unidos de buscar a reform a do sistem a internacional e de rej eitar a noção realista do equilíbrio de poder. O presidente era um herdeiro legítim o da tradição idealista am ericana.

Sob Wilson, ele tinha sido secretário-assistente da Marinha e, com o

candidato dem ocrata a vice-presidente em 1920, havia defendido a causa da Liga das Nações. Em seu retorno de Yalta, perante o Congresso, m anifestara a esperança de que a conferência significaria “o fim do sistem a de ação unilateral, das alianças exclusivas, das esferas de influência, dos equilíbrios de poder e todos os outros expedientes que foram experim entados durante séculos — e sem pre falharam ”.

Mas Roosevelt não era um wilsoniano puro, pois possuía um agudo sentido dos interesses estratégicos am ericanos e sofrera influência m arcante do pensam ento geopolítico de Mahan. O “diretório das quatro potências” visualizado pelo líder am ericano representava um a com binação das ideias wilsonianas com as realidades do poder. Os “Quatro Policiais”, com o ficou conhecida essa visão, deveriam defender os interesses gerais da paz e da j ustiça, não seus próprios interesses nacionais. Entretanto, no fim das contas, os valores universais só poderiam ser resguardados pelas grandes potências. O Conselho de Segurança (CS) da ONU veio a refletir, em sua com posição e em suas funções teóricas, o ponto de vista rooseveltiano.

Churchill, o m aior dos herdeiros da realpolitik europeia, j am ais se

deixou levar pela m iragem da cooperação em torno de valores universais. Durante a guerra m undial, o líder britânico previa a rivalidade do pós-guerra. Desde a Conferência de Yalta, ele agiu com decisão e desenvoltura para transform ar em realidade sua previsão. A Guerra Fria assentou-se, efetivam ente, sobre o equilíbrio de poder. Contudo esse equilíbrio não se assem elhava ao do tradicional concerto europeu, pois os Estados Unidos e a União Soviética funcionavam com o polos de um sistem a m undial de Estados.

Stalin entendia perfeitam ente a linguagem de Churchill, que era

tam bém a sua. Do ponto de vista soviético, a vitória na guerra era a oportunidade para erguer um a poderosa m uralha geopolítica ao longo da fronteira ocidental do “im pério verm elho”. A criação da esfera de influência no Leste Europeu pouco tinha que ver com a ideia da expansão do com unism o, em bora esse pretexto pudesse ser utilizado com vantagens perante a opinião pública com unista:

O Krem lin [...] pensou apenas em esferas de influência; acim a de tudo, os russos estavam determ inados a proteger as suas fronteiras, e especialm ente as suas fronteiras ocidentais, cruzadas com tanta frequência e de m odo tão sangrento ao longo da sua terrível história. Essas fronteiras ocidentais careciam de m eios naturais de defesa — nada de grandes oceanos, cordilheiras m ontanhosas, pântanos

ou florestas im penetráveis. A história da Rússia tinha sido um a história de invasões, a últim a das quais estava naquela época exterm inando horrivelm ente 20 m ilhões dos seus habitantes.

As conferências do pós-guerra deflagraram um processo

conflituoso, em que se m anifestaram as divergências entre as perspectivas dos Três Grandes. A dinâm ica desse processo erodiu o proj eto rooseveltiano dos “Quatro Policiais” e alinhou os Estados Unidos na perspectiva britânica de contrabalançar o poder soviético no Leste Europeu. A Doutrina Trum an, enunciada no início de 1947, assinalou a transição para a Guerra Fria.

 

A Doutrina Truman

O “espírito de Yalta”, com o ficou conhecido o am biente de

esperança e cordialidade que em anou da conferência, escondia as divergências de fundo. A questão polonesa não tinha sido resolvida integralm ente. Um acordo entre Stalin e Roosevelt obrigou Churchill a aceitar, com relutância, as perdas territoriais polonesas no Leste, que seriam com pensadas, no Oeste, com a transferência de territórios alem ães para a Polônia. Mas Churchill exigiu que o governo de Lublin, instalado sob a proteção das tropas soviéticas, fosse alargado pela incorporação de integrantes do governo polonês de Londres. A discussão sobre o “governo provisório de unidade nacional” foi rem etida a um a com issão tripartite e iria se tornar um dos pom os da discórdia entre Moscou e as potências ocidentais.

O problem a do governo polonês era apenas um aspecto — ainda

que o m ais proem inente — da questão geral do futuro geopolítico dos Estados da Europa centro-oriental. A “Declaração sobre a Europa libertada”, firm ada na conferência, previa a constituição de governos definitivos com base em eleições livres, m as os acertos sobre os governos provisórios conferiam a Moscou influência decisiva sobre o Leste Europeu.

Depois de Yalta, a m orte de Roosevelt, a Conferência de São

Francisco, a captura de Berlim pelas forças soviéticas, a rendição alem ã e, sobretudo, o teste da bom ba atôm ica am ericana em Alam ogordo criaram um novo am biente diplom ático. A guerra na Europa term inara, e as potências ocupavam -se, exclusivam ente, da edificação da ordem do pós-guerra. Na Rom ênia, na Polônia e na Bulgária, a form ação dos governos provisórios suscitava protestos britânicos e am ericanos. Em Potsdam , a esperança e a cordialidade tinham se desvanecido.

Os Acordos de Potsdam constituíram um Conselho de Ministros do Exterior reunindo as cinco potências do Conselho de Segurança da ONU. Esse órgão ficou encarregado de redigir os tratados de paz com os antigos satélites da Alem anha nazista. Sobre a Alem anha, foram firm ados os princípios da política de desm ilitarização e de supressão com pleta das instituições e leis do nazism o.

Os fundam entos da divisão da Alem anha em zonas de ocupação e

da criação dos setores de ocupação de Berlim tinham sido estabelecidos em Yalta. Em Potsdam , esses acertos foram confirm ados e adm itiu-se a França com o potência ocupante no Conselho Interaliado. Nada se definiu sobre o futuro geopolítico da Alem anha, em bora existisse um vago consenso sobre os princípios da neutralização e descentralização do país. A Áustria foi subm etida a um regim e de ocupação sim ilar ao da Alem anha, com a confirm ação da divisão em quatro zonas estabelecida no m om ento da capitulação nazista.

Nos m eses seguintes à Conferência de Potsdam , as relações entre

as potências ocidentais e a União Soviética deterioraram -se progressivam ente. A constituição dos governos de união nacional na Europa Oriental acirrou as divergências em torno do grau de influência soviética sobre os novos regim es políticos. Na Grécia, a repressão britânica contra os com unistas do EAM-ELAS provocava protestos soviéticos. Na Alem anha ocupada, as políticas soviéticas voltadas para reform as sociais e econôm icas na zona oriental acentuaram os desentendim entos com britânicos e am ericanos. A reunião do Conselho de Ministros do Exterior, em Londres, em setem bro, realizou-se em am biente de acrim ônia. Descia-se o plano inclinado que conduzia à Guerra Fria.

No início de 1946, a crise polonesa acirrou-se. O governo

provisório, sob hegem onia com unista, anunciou a nacionalização da grande indústria iniciando a im plantação de um regim e socialista no país. Em m arço, Churchill proferia o célebre discurso de Fulton, no Missouri, alertando sobre a criação de um a “cortina de ferro” na Europa, “desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático”, atrás da qual os povos encontravam -se subordinados ao “controle de Moscou”. O ex-prim eiro-m inistro e líder dos conservadores britânicos clam ava por um a m udança de política dos Estados Unidos, insistindo na urgência de abandonar os sonhos de unidade dos Três Grandes.

Naquele m om ento, a esfera de influência soviética no Leste

Europeu não tinha se enrij ecido no que viria a ser o bloco de países-satélites de Moscou. Mas o alerta de Churchill funcionava com o profecia auto-realizável, m ultiplicando os atritos e intensificando as tensões entre os antigos aliados de guerra.

O discurso de Fulton logo recebeu o reforço das notas diplom áticas

assinadas por Mr. X, codinom e utilizado pelo então conselheiro da em baixada am ericana em Moscou, George Frost Kennan. Essas notas form avam um diagnóstico do com portam ento da política externa de Moscou e delineavam um a doutrina de contenção do “expansionism o soviético”. Aí se encontram os fundam entos do que viria a ser a estratégia am ericana na Guerra Fria:

[...] se verá claram ente que a pressão soviética contra as instituições livres do m undo ocidental é algo que se pode conter com a adequada e vigilante aplicação de um a contraforça em um a série de pontos geográficos e políticos em constante m udança, associados às m udanças e m anobras da política soviética [...].

Mr. X previa um a confrontação política, ideológica, econôm ica e

m ilitar de longo prazo. Mas a contenção das tendências expansionistas de Moscou acabaria por evidenciar a fragilidade dos alicerces do próprio regim e soviético, conduzindo-o ao colapso. Retrospectivam ente, é possível avaliar toda a força e profundidade da ousada previsão de Kennan no im ediato pós-guerra.

A Doutrina Trum an, nitidam ente inspirada nas notas de Mr. X, foi

form ulada em m arço de 1947. O evento que suscitou o discurso histórico do presidente am ericano consistiu na com unicação britânica de que Londres não podia m ais assum ir suas responsabilidades tradicionais de sustentação dos governos da Grécia e da Turquia, aliados ocidentais estrategicam ente localizados no Mediterrâneo oriental. A Turquia, que controlava os estreitos entre os m ares Mediterrâneo e Negro, vergava sob o caos econôm ico. O governo grego, corrupto e violento, controlava as cidades, m as os rebeldes — o que tinha restado do EAM-ELAS e dos bandos crim inosos sem ideologia — dom inavam o m eio rural. Os governos da Iugoslávia e da Bulgária apoiavam abertam ente os guerrilheiros com unistas gregos.

A m ensagem de Harry Trum an ao Capitólio representava, antes

de tudo, um com prom isso am ericano com a sustentação dos governos grego e turco. Contudo, ela definia os princípios gerais que passaram a orientar, durante m ais de quatro décadas, a política externa dos Estados Unidos:

No m om ento atual da história universal, quase todas as nações devem escolher entre form as de vida alternativas. Frequentem ente, essa escolha não é livre. Um a form a de vida baseia-se na vontade da m aioria e caracteriza-se por instituições livres, governos representativos, eleições livres, pela garantia das liberdades individuais, pela liberdade de expressão e de religião e pela ausência de opressão política. A segunda form a de vida baseia-se na vontade de um a m inoria, im posta pela força à m aioria. Assenta-se no terror e na opressão, no controle da im prensa e do rádio, em eleições controladas e na

supressão das liberdades pessoais. Creio que a política dos Estados Unidos deve consistir em apoiar os povos que estão lutando contra tentativas de subj ugam ento por parte de m inorias arm adas ou de pressões externas. Creio que devem os aj udar os povos livres a desenvolver seu destino à sua m aneira.

A form ulação apoiava-se sobre a defesa de valores universais. Os

Estados Unidos, fiéis à sua tradição, engaj avam -se na defesa dos “povos livres” do m undo am eaçados pelo “terror” e pela “opressão”. Mas os valores universais andavam lado a lado com a segurança am ericana: “[...] os regim es totalitários, im postos aos povos livres por m eio da agressão direta ou indireta, solapam as bases da paz internacional e, portanto, da segurança dos Estados Unidos”. Do ponto de vista histórico, a Doutrina Trum an representava um a notável reviravolta. Desde o século XIX, os Estados Unidos rej eitavam o engaj am ento na política europeia e denunciavam as noções de equilíbrio de poder e esferas de influência. Com a Doutrina Monroe, definiram o Hem isfério Am ericano com o espaço prioritário de seu engaj am ento internacional. Seu isolacionism o da Europa, rom pido m om entaneam ente durante a Prim eira Guerra Mundial, tinha sido reafirm ado e aprofundado no entre-guerras. A nova orientação transferia a Europa para o centro da política externa am ericana e — m esm o que essa transferência ficasse m ascarada pelas referências à defesa dos “povos livres” — a contenção do “expansionism o soviético” im plicava m over-se no quadro do equilíbrio de poder e das esferas de influência.

 

O Plano Marshall

No im ediato pós-guerra, a Europa enfrentou um a situação

próxim a à ruína econôm ica. O núcleo da crise encontrava-se na carência absoluta de divisas, que im pedia a retom ada de im portação de bens de consum o e de capital. O terrível inverno de 1946-1947, um dos m ais frios de toda a história registrada, aproxim ou as nações europeias do colapso econôm ico e social.

Na Grã-Bretanha, sob um program a de severa austeridade que

incluía o racionam ento de pão, o inverno provocou a paralização dos transportes ferroviários, a suspensão do abastecim ento de carvão e, em consequência, de parte significativa da atividade industrial. Na Alem anha, que recebia m ilhões de alem ães étnicos transferidos da Polônia e da Tchecoslováquia, a fom e e a falta de m oradia rondavam boa parte da população. Em j aneiro de 1947, o PIB equivalia a um terço do valor atingido em 1936. Maços de cigarros funcionavam com o m oeda corrente num m ercado que regredia às trocas diretas. Na França, o caos tinha sido evitado, m as as divisas escassas eram utilizadas para im portar alim entos, e faltava carvão para reativar a produção industrial. A siderurgia funcionava na m etade do nível atingido antes da guerra. As nevascas do inverno destruíram m ais de 3 m ilhões de acres de trigo, colocando em risco o frágil equilíbrio do conj unto da econom ia.

A ruína econôm ica refletia-se no espelho da política. Os partidos

conservadores conheciam profundo desgaste enquanto os trabalhadores e desem pregados voltavam -se para a esquerda. Na França e na Itália, onde os partidos com unistas desfrutavam raízes sociais sólidas, as tendências apontavam para um a verdadeira ruptura eleitoral. Os com unistas franceses receberam um quarto dos votos e seus colegas italianos, um terço. Nos dois países, o m ovim ento sindical expressava a radicalização dos ânim os com greves e m anifestações de rua.

O Plano Marshall representou a resposta am ericana à crise

europeia. Apresentado em j unho de 1947, concentrava-se na resolução do problem a da carência de dólar, que em perrava a reconstrução econôm ica. A solicitação, form ulada pela Organização Europeia de Cooperação Econôm ica, atingia um m ontante de US$ 33 bilhões. Trum an pediu ao Capitólio US$ 17 bilhões, que foram reduzidos pelos congressistas a US$ 13 bilhões. Mesm o assim , era a m aior transferência de capital de toda a história, realizada em condições excepcionais.

No Plano Marshall encontra-se a origem do Ocidente da Guerra

Fria. O program a de financiam ento am ericano da reconstrução europeia tornou-se o principal instrum ento da Doutrina Trum an. Entre 1948 e 1952, o Plano forneceu o im pulso para a reconstrução europeia e, nesse passo, proporcionou as condições para a estabilização política e institucional dos Estados da Europa Ocidental. Os partidos de esquerda retrocederam em todos os países, e os com unistas italianos e franceses, em bora conservassem influência ponderável, deixaram de ser candidatos viáveis a assum ir o poder.

A condição im posta por Washington aos países europeus consistiu,

apenas, em que o program a de reconstrução fosse articulado em bases supranacionais, com organism os de cooperação interestatais. Essa estratégia soldava o destino dos Estados participantes do program a, funcionando com o alicerce para a configuração de um bloco econôm ico e político europeu. O processo de integração europeia, que acabou conduzindo à form ação da Com unidade Europeia, teve com o berço o Plano Marshall.

Originalm ente, o Plano Marshall foi proposto a todos os países

europeus, inclusive à União Soviética. É pouco provável que os congressistas am ericanos tivessem aprovado o program a caso os soviéticos viessem a aderir. Mas essa adesão parecia quase im possível em virtude da condição im posta de cooperação econôm ica supranacional. De qualquer m odo, a ousada proposição colocava Washington na ofensiva diplom ática, encurralando Moscou entre alternativas pouco palatáveis. Aderir significava, quase, abrir m ão da m uralha invisível que protegia a econom ia soviética da influência corrosiva do m ercado capitalista. Recusar equivalia a assum ir a responsabilidade pela divisão da Europa.

A União Soviética, aparentem ente depois de algum a hesitação,

denunciou o program a com o um a tentativa am ericana de interferir na soberania soviética. Os governos do Leste Europeu, alinhados com Moscou, foram pressionados para abandonar as negociações. No final das negociações, apenas a Iugoslávia de Tito, em processo de ruptura com os soviéticos, acabou aderindo.

O Plano Marshall abrangeu 16 países europeus. A Grã-Bretanha, a

França, a Itália e a Alem anha Ocidental, nessa ordem , foram os m aiores beneficiados. Em 1950, a Europa Ocidental j á ultrapassava em 25% sua produção de antes da guerra. Em 1952, a cifra atingia 200%. No discurso de apresentação do program a, em Harvard, George C. Marshall asseverou: “Nossa política não é dirigida contra qualquer país ou doutrina, m as contra a fom e, a pobreza, o desespero e o caos”. Churchill qualificou a proposição com o “o ato m enos sórdido da história”. O program a tinha evidente caráter estratégico e geopolítico, m as seu alcance ultrapassava o cenário europeu. Na essência, o isolacionism o tradicional dos Estados Unidos figurava com o alvo prim ordial da iniciativa:

Considerado sob um a perspectiva am pla, o Plano Marshall refletiu a convicção com partilhada por boa parte — m as não todos — dos am ericanos de que o isolacionism o e agudo nacionalism o que tinham florescido entre a eleição presidencial de 1920 e Pearl Harbor, especialm ente durante a Grande Depressão, não deviam novam ente ganhar terreno.

 

Bipartição da Alemanha

Na Conferência de Potsdam , a principal preocupação soviética em

relação à Alem anha consistia em assegurar-se de que receberia reparações e indenizações. Na verdade, a pilhagem j á tinha com eçado: quando as tropas am ericanas e britânicas entraram em Berlim , em m eados de j ulho de 1945, cerca de m etade da m aquinaria pesada e dos equipam entos industriais da cidade haviam sido rem ovidos para a União Soviética.

Os Estados Unidos flertaram com a ideia de desindustrialização e

neutralização política da Alem anha. Pouco antes de Potsdam , Trum an recebeu um plano elaborado pelo secretário do Tesouro, Henry Morgenthau, que previa a “pastorização” da Alem anha, ou sej a, a elim inação do poderio industrial da econom ia do país e a sua reorganização em bases agropecuárias. O Plano Morgenthau não teve aprovação, m as só foi definitivam ente abandonado após a proclam ação da Doutrina Trum an.

A política alem ã de Moscou definiu-se aos poucos, sob o im pacto

das iniciativas am ericanas. Logo depois da capitulação nazista, as autoridades de ocupação soviéticas perm itiram o funcionam ento de todos os partidos antifascistas. Na zona soviética, o Partido Com unista (KPD) e o Partido Social-Dem ocrata (SPD) puderam se reorganizar. Tam bém foram criados dois partidos de orientação conservadora. Stalin apostava na m anutenção da unidade da Alem anha, associada à lim itação de seu poderio econôm ico e à sua neutralização política.

No decorrer de 1946, as posições enrij eceram -se. No contexto das

tensões crescentes entre os antigos aliados, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha decidiram suspender a transferência, a título de reparação, de m aquinaria e m atérias-prim as das zonas ocidentais para a União Soviética. Em seguida, surgiu a proposta am ericana de unificação das zonas ocidentais. A Alem anha deveria se reconstruir a fim de funcionar com o obstáculo ao expansionism o soviético. Paralelam ente a esses estratagem as, na zona soviética, a nacionalização das em presas industriais era radicalizada atingindo as em presas m édias, e acelerava-se a reform a agrária.

Em j aneiro de 1947, Washington e Londres anunciaram a

unificação das zonas am ericana e britânica. A iniciativa da Bi-Zona ignorou a oposição estridente dos franceses, que se orientavam para um a divisão perm anente do país e tem iam a ressurreição do poderio alem ão na Europa. Contudo, depois do anúncio da Doutrina Trum an e do lançam ento do Plano Marshall, a França teve de render-se às evidências e, a contragosto, acabou aceitando a form ação da Tri-Zona.

Em brionariam ente, com eçava a surgir a Alem anha Ocidental. Em

j ulho de 1947, Molotov, o m inistro do Exterior soviético, abandonou a reunião do Conselho de Ministros dos aliados advertindo que um a Alem anha reconstruída pelas potências capitalistas voltaria a estender seu poder sobre toda a Europa. Em dezem bro, as potências ocidentais tom aram a decisão de organizar um Estado federal na Alem anha Ocidental, convocando um a assem bleia constituinte e anunciando a introdução de um a nova m oeda, o m arco ocidental, na Tri-Zona. Os soviéticos reagiram retirando-se do Conselho de Controle Interaliado, que virtualm ente deixava de existir.

A reform a m onetária destinava-se a viabilizar a adesão da

Alem anha Ocidental ao Plano Marshall. Mas ela funcionou com o a gota d’água para o desencadeam ento da crise do Bloqueio de Berlim . O trânsito de trens e cam inhões para Berlim foi interrom pido em 24 de j ulho de 1948. Ao m esm o tem po, Moscou exigia o cancelam ento da reform a m onetária e da aplicação do Plano Marshall nas zonas ocidentais.

A reação ocidental constituiu um a das m aiores façanhas técnicas

de sustentação logística em tem pos de paz. Por m eio de um a ousada ponte aérea, am ericanos e britânicos conseguiram assegurar o abastecim ento de Berlim Ocidental durante 11 m eses. Sob um a atm osfera política carregada, a ponte aérea realizou, em m édia, m ais de m il aterrisagens diárias nos aeroportos de Tem pelhof, Gatow e Tegel. No ápice da operação, os aviões chegaram a descarregar — em carvão, alim entos, rem édios e outros bens essenciais — o equivalente a duas dúzias de trens de transporte.

Stalin suspendeu o bloqueio em m aio de 1949, quando Berlim j á

tinha se transform ado num sím bolo da unidade anti-soviética da Europa Ocidental e do engaj am ento dos Estados Unidos na Europa. O encerram ento do bloqueio possibilitou a constituição da República Federal da Alem anha (RFA), com capital em Bonn. Berlim Ocidental tornou-se um a entidade autônom a associada à Alem anha Ocidental. Em outubro, surgia a República Dem ocrática Alem ã (RDA) abrangendo a zona soviética e tendo com o capital Berlim Oriental. A Alem anha bipartia-se, form alm ente, sobre as ruínas das decisões da Conferência de Potsdam .

A Unificação Alem ã de 1871 tinha desequilibrado a ordem

pluripolar europeia, desencadeando o processo que conduziu às duas grandes guerras do século XX. A divisão da Alem anha em dois Estados subordinados aos blocos antagônicos da Guerra Fria, com pletada em 1949, restaurou o equilíbrio de poder na Europa. O novo equilíbrio, contudo, estava inserido na m oldura de um a ordem m undial bipolar baseada na rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética.