Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 10 · O Terceiro Mundo
As duas grandes guerras do século XX assestaram golpes
profundos no poder das potências europeias. Na Guerra Fria, o poder global deslocou-se para os Estados Unidos e a União Soviética. A Grã-Bretanha e a França tornaram -se potências de segunda classe. A Alem anha, derrotada e dividida, foi excluída do círculo das grandes potências. Os dem ais Estados da Europa Ocidental perderam praticam ente toda a influência m undial.
O processo de descolonização, na Ásia e na África, m arcou o pós-
guerra, acom panhando e repercutindo a dim inuição do poder europeu. Nas três prim eiras décadas do pós-guerra, cerca de cem novos países independentes ingressaram na ONU, atestando a m undialização do sistem a internacional. O Estado nacional soberano, um a invenção da Europa, tornou-se o m odelo m undial de organização política das sociedades.
A Guerra Fria funcionou com o m oldura para o processo de descolonização, que dissolveu os im périos coloniais erguidos entre os séculos XVI e XIX. Esses im périos refletiam o poder e a influência de antigas potências m ercantis (Holanda, Espanha e Portugal) ou, principalm ente, das potências industriais do século XIX (Grã-Bretanha, França, Alem anha, Itália e Bélgica). O deslocam ento dos eixos m undiais de poder, no pós-guerra, destruiu os pilares de sustentação do colonialism o.
A descolonização decorreu, tam bém , do crescim ento e do
fortalecim ento dos m ovim entos nacionalistas na Ásia e na África. O nacionalism o, no pós-guerra, adquiriu significados e conteúdos novos, distinguindo-se radicalm ente da m atriz europeia. Os nacionalism os europeus do século XIX assentaram -se sobre noções étnicas e linguísticas e, em m uitos casos, evoluíram assum indo form as expansionistas e belicistas. Os nacionalism os asiáticos e africanos estruturaram -se em torno das lutas antiim perialistas, exigindo a igualdade de direitos e a soberania política.
A m archa da descolonização no pós-guerra iniciou-se com a
independência das Filipinas, concedida pelos Estados Unidos em 1946, e praticam ente se com pletou com a libertação das colônias portuguesas na África, em 1975. Na Ásia, a descolonização acelerou-se com a dissolução da Índia britânica, em 1947, e o fim do dom ínio holandês sobre a Indonésia, em 1949, alcançando seu zênite com a im plosão da Indochina francesa, em 1954. Na África, a descolonização eclodiu em 1960 e prosseguiu aceleradam ente nos anos seguintes, com o desaparecim ento dos im périos britânico e francês.
A descolonização percorreu dois cam inhos principais: o prim eiro,
baseado na retirada voluntária da potência colonial, com a concessão da independência; o segundo, baseado em guerras de libertação conduzidas por m ovim entos nacionalistas nas colônias. O exem plo m ais im portante do prim eiro cam inho é o da independência e partição da Índia britânica. Entre os exem plos m ais dram áticos do segundo cam inho estão as guerras da Indochina e da Argélia, que assestaram golpes profundos sobre a França, e das colônias portuguesas na África, que prosseguiram após 1975, em Angola e Moçam bique, com o confrontações indiretas entre as superpotências.
A partição da Índia britânica
A independência da da Índia e do Paquistão representou o m arco
decisivo da dissolução do im pério colonial britânico na Ásia. Em bora a luta pela independência tivesse se desenrolado por décadas, a retirada foi um a decisão de Londres, enquadrada num a estratégia de desm ontagem gradual do im pério colonial. Essa estratégia, forçada pela crise econôm ica do im ediato pós-guerra, procurava viabilizar um a transição suave do im pério para a Com unidade Britânica e conservar a influência internacional de Londres.
A Índia tornou-se colônia britânica em 1763, após o Tratado de
Paris, que encerrou a Guerra dos Sete Anos e excluiu a França da colonização do Indostão. Em 1858, o território colonial deixou de ser adm inistrado pela Com panhia das Índias Orientais Britânicas e passou ao controle direto da Coroa. A luta pela independência com eçou em 1885, com a criação do Congresso Nacional Indiano, que viria a ser o Partido do Congresso.
O Congresso Nacional Indiano firm ou-se com o m ovim ento
nacionalista representativo da população hindu. Em 1906, era criada a Liga Muçulm ana, a organização nacionalista baseada na população m uçulm ana. A divisão da luta pela independência segundo as linhas de clivagem religiosa prenunciava a partição da colônia em Estados rivais. Ao longo da Prim eira Guerra Mundial, os nacionalistas perm aneceram fiéis à Coroa, acreditando na concessão futura da independência. Após o térm ino das hostilidades na Europa, contudo, Londres prom ulgou o Rowlatt Act, que punia severam ente as m anifestações anticoloniais. Foi nesse contexto que em ergiu a figura de Mohandas Gandhi, o líder nacionalista hindu que se celebrizaria pelas cam panhas populares de desobediência civil. A resistência pacífica liderada por Gandhi, expressa no boicote aos m anufaturados britânicos e sim bolizada por sua túnica rústica de algodão, galvanizou a população das cidades. Entre 1922 e 1924, Gandhi ficou encarcerado com outros líderes nacionalistas.
Em 1929, o Partido do Congresso proclam ou a independência
com pleta com o m eta única. No ano seguinte, em nova cam panha, Gandhi, ao lado de m ilhares de partidários, percorreu 400 quilôm etros a pé, até o litoral, onde lançou a proposta de boicote ao sal, vendido em regim e de m onopólio pela adm inistração britânica, e da purificação caseira do produto.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o Partido do Congresso
estava firm em ente im plantado na população hindu. Gandhi era seu inspirador, m as a direção partidária estava sob o controle de Jawaharlal Nehru. Gandhi e Nehru defendiam a unidade da Índia independente. No entanto, a Liga Muçulm ana, dirigida por Moham m ed Ali Jinna, reivindicava a bipartição da colônia, com a criação de um Estado m uçulm ano independente.
Os planos de Londres coincidiam com os da Liga Muçulm ana. Em
j aneiro de 1947, Lorde Louis Mountbatten, designado vice-rei da Índia, engaj ou as negociações da independência com os dois m ovim entos nacionalistas. Gandhi opunha-se radicalm ente ao plano de partição, prevendo o confronto entre as com unidades religiosas. Se o preço da unidade era o adiam ento da independência, valeria a pena pagá-lo. Nehru não acom panhou Gandhi nessa conclusão, preferindo, a contragosto, aceitar o plano de partição.
Em j ulho, o Parlam ento britânico aprovou a proposta de
bipartição. A Índia, com capital em Nova Delhi, abrangeria as áreas de população m aj oritariam ente hindu. O Paquistão (o “país dos puros”), com capital em Karachi, abrangeria duas áreas geograficam ente separadas, de m aioria populacional m uçulm ana. As fronteiras entre os dois Estados, traçadas em Londres, recortavam arbitrariam ente regiões históricas e lançavam as sem entes da discórdia. O Punj ab ficava dividido entre a Índia e o Paquistão Ocidental. Bengala ficava dividida entre o Paquistão Oriental e a Índia. As com em orações da independência, proclam ada a 15 de agosto, não tiveram a participação de Gandhi.
Nas sem anas e nos m eses seguintes, tiveram início conflitos
sangrentos entre hindus e m uçulm anos, na Índia e no Paquistão. Cerca de 9 m ilhões de refugiados hindus deslocaram -se do Paquistão para a Índia, entre eles cerca de 5 m ilhões de sikhs, a com unidade religiosa hindu do Punj ab. No sentido oposto, aproxim adam ente 6 m ilhões de refugiados m uçulm anos deslocaram -se da Índia para o Paquistão. Os conflitos deixaram um saldo de m ais de 250 m il m ortos e geraram um a profunda hostilidade entre os dois Estados.
A Índia agregou a seu território, nos anos seguintes, o Estado
autônom o de Haiderabad e diversos enclaves coloniais litorâneos. A região da Cachem ira, no Him alaia, tornou-se obj eto de disputa entre a Índia, o Paquistão e a China, funcionando com o foco de guerras e conflitos fronteiriços que se arrastam até hoj e. Um m ovim ento secessionista no Paquistão Oriental provocou um a guerra trágica em 1971 que resultou na independência de Bangladesh.
A Guerra da Indochina
No século XIX, praticam ente todo o Sudeste Asiático foi
subm etido ao poder das potências coloniais. A Grã-Bretanha colonizou a Birm ânia (atual Mianm a), a Malásia, Cingapura e Brunei. A Holanda, a partir do antigo enclave m ercantil de Batávia, estendeu seu controle para toda a Indonésia. Os Estados Unidos, no curso de sua expansão m arítim a no Pacífico, tom ou dos espanhóis o arquipélago das Filipinas.
A França, a partir de 1858, colonizou o conj unto da península da
Indochina. Pouco m ais tarde, a adm inistração colonial francesa criou a União Indochinesa, que abrangia os atuais Vietnã, Laos e Cam boj a. O Vietnã foi subdividido no Tonquim , ao Norte, em Anã, no Centro, e na Cochinchina, ao Sul.
A luta pela independência da Indochina com eçou nas prim eiras
décadas do século XX, com a fundação do Partido Nacionalista e, depois, do Partido Com unista, liderado por Ho Chi Minh. Em 1940, na esteira de suas conquistas no Pacífico e na China, o Japão invadiu a Indochina. A adm inistração colonial francesa perm aneceu intacta, passando a servir aos generais j aponeses. Foi nesse contexto que Ho Chi Minh fundou o Vietm inh, um m ovim ento guerrilheiro que agrupava, em torno dos com unistas, todas as forças nacionalistas.
O final da guerra abriu um vazio de poder na região,
proporcionando ao Vietm inh a oportunidade de tom ar Hanói e proclam ar, na área do Tonquim , a República Dem ocrática do Vietnã. Enquanto isso, o im perador Bao Dai, de Anã, colaborador da adm inistração francesa, proclam ava o Estado do Vietnã nas áreas de Anã e da Cochinchina. Pouco depois, Paris reconhecia o Vietnã de Bao Dai com o Estado-associado e propunha a Ho Chi Minh um arranj o sem elhante para a República Dem ocrática do Vietnã. O Vietm inh recusou a proposta, exigindo a unificação e a independência. O im passe provocou um desem barque de tropas francesas e a recaptura de Hanói. Assim , com eçava a Guerra da Indochina.
A fase de equilíbrio m ilitar perdurou de 1948 até 1953. As forças francesas controlavam as cidades na Cochinchina e em Anã e bolsões isolados do m eio rural. O Vietm inh restabeleceu o dom ínio sobre a área de Hanói e conseguiu estabelecer-se em vastas extensões de florestas e m ontanhas vietnam itas. A incapacidade francesa de derrotar a guerrilha refletia o apoio da população cam ponesa ao Vietm inh. O im passe m ilitar erodia o apoio ao esforço de guerra na opinião pública francesa.
No fim de 1953, sem outras opções, o com ando m ilitar colonial
abriu a terceira fase da guerra. Procurando asfixiar o Vietm inh, cortando as fontes de abastecim ento de Hanói, o corpo expedicionário francês ocupou a aldeia de Dien Bien Phu, situada em zona controlada pela guerrilha, a Noroeste do Tonquim , próxim a à fronteira do Laos. A épica batalha de Dien Bien Phu desenrolou-se entre novem bro de 1953 e m aio de 1954, e encerrou-se com desastrosa derrota francesa. Um dia após a queda da aldeia, representantes de Paris sentavam -se à m esa de negociações com o Vietm inh, em Genebra.
Os acordos de Genebra determ inaram a partilha da Indochina em
quatro Estados independentes. O Vietnã foi dividido na altura do paralelo 17. A República Popular e Dem ocrática do Vietnã, ou Vietnã do Norte, com capital em Hanói, ganhou o reconhecim ento francês e alinhou-se, em definitivo, com a União Soviética. O Vietnã do Sul, com capital em Saigon, ganhou a independência. Um ano depois, Bao Dai foi deposto e proclam ou-se a República do Vietnã, que logo se colocou sob proteção am ericana. O Laos e o Cam boj a tornaram -se Estados neutros.
Em Genebra, estabeleceu-se a m eta da unificação do Vietnã, por
m eio de eleições livres. Essas eleições j am ais ocorreram . Apenas m eia década depois da independência, a atividade com unista crescente no Vietnã do Sul provocou o envolvim ento am ericano na Indochina. A unificação vietnam ita só viria em 1975, depois de outra guerra, dessa vez contra os Estados Unidos.
A Guerra da Argélia
O Magreb é a região form ada por Argélia, Tunísia e Marrocos na
África do Norte. Sua unidade geográfica decorre de com partilharem os am bientes da orla m editerrânea, da Cadeia do Atlas e do deserto do Saara. Sua unidade histórica e cultural decorre do povoam ento árabe, da islam ização nos tem pos m edievais, e da colonização francesa nos séculos XIX e XX.
O poder da França, no Magreb, tom ou progressivam ente o lugar
do Im pério Turco. A colonização francesa com eçou pela Argélia, em 1830. O protetorado sobre a Tunísia foi estabelecido em 1881. A Conferência de Algeciras, em 1906, conferiu, aos franceses, privilégios no Marrocos; em 1912, o território tornou-se protetorado da França.
A Argélia ocupou um lugar especial no Magreb francês. O longo
dom ínio sobre o território foi reforçado pelos fluxos de colonos que se estabeleceram , com o proprietários de terras, na fértil orla m editerrânea. Quando term inou a Segunda Guerra Mundial, a população de origem francesa som ava m ais de um m ilhão de habitantes. Quando eclodiram os m ovim entos anticoloniais no Magreb, a França revelou-se disposta a conceder a independência do Marrocos e da Tunísia, a fim de conservar a Argélia.
A Segunda Guerra Mundial assinalou a difusão popular do
nacionalism o argelino. Durante o conflito, os franceses da Argélia apoiaram m aj oritariam ente o governo colaboracionista de Vichy, liderado pelo general Henri Pétain. Os nacionalistas argelinos, porém , sustentaram ativam ente os Aliados e a Resistência francesa. O Corpo do Exército, recrutado entre árabes m uçulm anos de todo o Magreb, com bateu na frente italiana contra o Eixo, e os líderes anticoloniais argelinos apoiaram a reconquista da África do Norte pelas forças dos Aliados.
No final da guerra, os nacionalistas da Argélia aguardaram ,
ansiosam ente, por um estatuto de igualdade de direitos e autonom ia. Essas esperanças, porém , logo se desfizeram , quando Paris reafirm ou o antigo estatuto colonial. Na ocasião, explodiram m anifestações populares de descontentam ento, que foram duram ente reprim idas, deixando um saldo de cerca de 5 m il argelinos m ortos. A calm aria que se seguiu prenunciava a tem pestade: na Argélia, organizava-se clandestinam ente a Frente de Libertação Nacional (FLN), form ada por todas as correntes políticas anticolonialistas.
A guerra de libertação eclodiu em 1954, sob as influências do pan-
arabism o, difundido por Gam al Abdel Nasser a partir do Egito, e da derrota das forças coloniais francesas em Dien Bien Phu, no Vietnã. Dom inando as zonas rurais e m ontanhosas, arm ando em boscadas e atacando propriedades dos colonos, a FLN am pliava suas bases populares. As forças regulares da adm inistração colonial respondiam com “operações de lim peza”. Os franceses da Argélia — cham ados pieds-noirs, num a referência às suas botas pretas, que contrastavam com os pés descalços dos guerrilheiros argelinos — organizavam -se em m ilícias e aterrorizavam as aldeias.
A fase inicial do conflito estendeu-se até 1958. Os efetivos
franceses, no prim eiro ano da guerra, ultrapassaram os 150 m il. Em 1957, atingiram 400 m il. Na França, em crise política, sucediam -se gabinetes parlam entares e, entre os intelectuais e a opinião pública, cresciam as críticas à guerra colonial. Na Argélia, os pieds-noirs, tem endo o abandono, tram avam contra os gabinetes franceses e procuravam um general salvador. Em 1956, Paris concedia a independência do Marrocos e da Tunísia. Ao m esm o tem po, Ahm ed Ben Bella e outros líderes da FNL caíam num a em boscada e eram presos. Acéfala, a FLN partiu para ações terroristas cada vez m ais ousadas.
Na batalha de Argel, em 1957, paraquedistas franceses
conseguiram destruir os redutos da guerrilha na capital, im pondo um a severa derrota à FLN. Na segunda fase do conflito, porém , a derrota m ilitar transform ou-se em vitória política. A cisão na sociedade francesa aprofundava-se e, em m aio de 1958, os pieds-noirs tentaram derrubar a adm inistração colonial na Argélia. O fantasm a da guerra civil pairava sobre a França. Em m eio à crise, De Gaulle foi cham ado a assum ir o governo francês. O general conseguiu evitar um golpe m ilitar em preparação e, em j ulho, assum iu a chefia do gabinete, contando com poderes excepcionais.
De Gaulle foi recebido com j úbilo pelos partidários da Argélia
francesa. Porém , ele tinha ideias próprias sobre o futuro da França, e articulou um plano de concessão de autonom ia lim itada para a Argélia. Em setem bro de 1958 fez aprovar, em referendo, um a profunda reform a constitucional, que inaugurava a V República Francesa. O parlam entarism o dava lugar a um sistem a m isto, caracterizado por poderes presidenciais efetivos na condução da defesa e da política externa. Em j aneiro de 1959, De Gaulle era eleito com o prim eiro presidente da V República.
O plano de autonom ia para a Argélia colocou o general em rota de
colisão com os pieds-noirs e um a parte da alta oficialidade m ilitar. Em 1960, os pieds-noirs tentaram um novo golpe na Argélia. De Gaulle prendeu os golpistas, conseguiu o apoio da opinião pública francesa e intensificou as conversações com a FLN. Em desespero, os partidários radicais da Argélia francesa fundaram a Organização do Exército Secreto (OAS), que partiria para o terrorism o na França e tentaria derrubar De Gaulle. A radicalização convenceu o general de que a única alternativa consistia na independência da Argélia.
A fase derradeira do conflito com eçou com o plebiscito, em
j aneiro de 1961, no qual os franceses votaram favoravelm ente à independência da Argélia. Em abril, a OAS prom oveu um golpe m ilitar na Argélia e preparou-se para lançar paraquedistas sobre Paris. O golpe im inente foi evitado por um a conclam ação radiofônica do general, que pediu aos oficiais e soldados que evitassem a guerra civil, abandonando os golpistas. Alguns dos líderes da OAS foram presos, enquanto outros exilaram -se na Espanha franquista, de onde continuaram , por alguns anos, a prom over ações terroristas.
As conversações com a FLN culm inaram com os Acordos de
Evian, firm ados em m arço de 1962, que concediam a independência à antiga colônia. O tratado teve o referendo, nas urnas, de 90% dos franceses. Mais de 300 m il colonos deixaram a Argélia, instalando-se na França. O Estado argelino, governado inicialm ente por Ben Bella, organizou-se com o regim e nacionalista de partido único.
A Guerra da Argélia assinalou a desm ontagem final do im pério
colonial francês. Mais que isso, m arcou um a renovação decisiva da política externa francesa. Depois de Evian, a França redefiniu seu lugar no m undo, com prom etendo-se profundam ente com a Europa e soldando um a aliança duradoura com a Alem anha.
A política terceiro-mundista
A descolonização repercutiu sobre a configuração do sistem a
internacional de Estados. A em ergência de dezenas de novas nações independentes conferiu caráter m undial ao sistem a de Estados e trouxe à tona um a agenda de problem as que não podiam ser enquadrados na m oldura bipolar da Guerra Fria. No plano do discurso político, surgiu o Terceiro Mundo, que reclam ava influência na ONU e não aceitava subordinar-se às superpotências nucleares. No plano da política externa, o terceiro-m undism o articulou-se com o proj eto de construção de um polo de poder autônom o em relação a Washington e Moscou.
A prim eira expressão do terceiro-m undism o foi a Conferência
Afro-Asiática de Bandung, articulada a partir de um a reunião em Colom bo, no Ceilão (atual Sri Lanka), e patrocinada por Índia, Indonésia, Paquistão, Birm ânia e Ceilão. Nehru, da Índia, e o anfitrião Ahm ed Sukarno, da Indonésia, surgiram com o líderes da conferência, que congregou 24 Estados independentes da Ásia e da África.
A Carta de Bandung definiu dez princípios políticos que podem ser
considerados a plataform a original do terceiro-m undism o. Esses princípios enfatizavam os direitos hum anos e a denúncia do racism o, a igualdade entre as nações, o respeito à soberania e à autodeterm inação dos Estados, a necessidade de solução pacífica dos conflitos internacionais e, finalm ente, a recusa em participar nos m ecanism os de defesa coletiva controlados pelas superpotências. Os princípios, em seu conj unto, refletiam a luta anticolonial e as novas realidades geopolíticas do sistem a internacional.
Os Estados participantes de Bandung não form avam um grupo
político ou ideológico hom ogêneo. Na conferência, estavam Estados alinhados com Moscou (com o a China e o Vietnã do Norte) e com Washington (com o o Japão e o Vietnã do Sul). As divergências internas im pediam a tom ada de posições m ais nítidas, especialm ente sobre os problem as da econom ia m undial e da pobreza.
Logo depois da conferência, com eçou a ser articulado o
Movim ento dos Países Não-Alinhados. A articulação baseou-se na colaboração entre Nasser, do Egito, Nehru, da Índia, e Tito, da Iugoslávia. Aos líderes originais, j untaram -se Sukarno, da Indonésia, e Castro, que acabava de chegar ao poder em Cuba. O proj eto consistia em criar um a organização estável, que funcionaria com o terceira força, equidistante das superpotências, capaz de influenciar decisivam ente a Assem bleia Geral da ONU.
A XV Assem bleia Geral da ONU, realizada em 1960, adm itiu
m ais 17 países independentes, refletindo o im pulso adquirido pela descolonização africana. Aquele m om ento foi escolhido para a convocação da conferência de fundação do Movim ento dos Países Não-Alinhados, que se realizaria no ano seguinte, em Belgrado, na Iugoslávia. Durante sua fase áurea, o Movim ento voltaria a reunir-se no Cairo (1964), em Lusaca (1970) e em Argel (1973).
O terceiro-m undism o adquiriu sua m aturidade com o Movim ento
dos Países Não-Alinhados. As declarações políticas e os posicionam entos do Movim ento ultrapassaram os lim ites da Carta de Bandung, enfocando as desigualdades econôm icas globais e a problem ática do subdesenvolvim ento. Assim , ao lado da tradicional confrontação Leste-Oeste, o sistem a internacional conhecia um a rivalidade Norte–Sul, que refletia um m undo dividido entre potências industrializadas e países exportadores de produtos prim ários.
O Movim ento dos Países Não-Alinhados reuniu m ais de um a
centena de Estados. A fonte de sua força foi a m esm a que a de sua fragilidade: o caráter extrem am ente vago e am bíguo do terceiro-m undism o. O não-alinham ento geopolítico de Nehru significava neutralism o ativo e não excluía a cooperação econôm ica e diplom ática com a União Soviética. Para Tito, o não-alinham ento consistia, sobretudo, na afirm ação da autonom ia iugoslava perante Moscou. Nasser, por sua vez, perseguia a liderança do m undo árabe e a m odernização do Egito, pela via da cooperação econôm ica e m ilitar com os soviéticos.
Ray m ond Aron enfatizou a diversidade do neutralism o dos países
que se declararam não-alinhados, distinguindo-os da neutralidade tradicional de alguns Estados europeus:
Fora da Europa, não há o equivalente da neutralidade tradicional (Suíça, Suécia). A distinção principal que se pode fazer é entre os Estados neutros (Índia) e os que assum em um “neutralism o” m ais ou m enos positivo (o Egito de Nasser); quase todos os novos Estados declaram -se “não-alinhados”, e não querem ser envolvidos na Guerra Fria entre os blocos, m as a gam a do não-engaj am ento vai desde a sim patia tunisiana pelo Ocidente à quase adesão de Cuba ao bloco soviético.
China e Cuba procuraram liderar o Movim ento e chegaram a
exercer forte influência sobre seus posicionam entos. A m eta de Pequim , no contexto de sua rivalidade com Moscou, consistia em afirm ar-se com o principal potência não-alinhada e reduzir o peso da Índia entre os países não-alinhados. Havana, por sua vez, agia com o correia de transm issão da política soviética no Terceiro Mundo, e tropas cubanas chegaram a com bater na África, sobretudo em Angola, ao lado de governos sustentados por Moscou.
Sob o terceiro-m undism o floresceram as políticas nacionalistas de
lideranças latino-am ericanas, asiáticas e africanas. Essas políticas refletiram -se nos acirrados debates travados principalm ente no m arco das conferências das Nações Unidas para o com ércio e o desenvolvim ento (UNCTAD) e assinalaram a erosão das teorias econôm icas liberais. O nacionalism o funcionou, frequentem ente, com o cobertura para regim es autoritários e repressivos que representavam os interesses das elites abastadas de países do Terceiro Mundo.
O cortej o ideológico do terceiro-m undism o sofreu os prim eiros
golpes com a aproxim ação entre a China e os Estados Unidos, a partir de 1972, e com a crise do pan-arabism o, alguns anos depois. Na década de 1980, as crises econôm icas e financeiras que abalaram a Am érica Latina esvaziaram as políticas de desenvolvim ento nacional autônom o, contribuindo para enfraquecer ainda m ais o Movim ento dos Países Não-Alinhados.