Relações Internacionais: Teoria e História

Demétrio Magnoli · Capítulo 32 de 43

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Relações Internacionais: Teoria e História

Capítulo 17 · O Japão e a Bacia

 

DO PACÍFICO

A redefinição dos significados do poder, num m undo onde se

dissolveu a confrontação bipolar da Guerra Fria, assinala a em ergência das potências derrotadas na Segunda Guerra Mundial. O Japão e a Alem anha – potências cuj o peso econôm ico específico não tinha correspondência política ou m ilitar durante a Guerra Fria – lentam ente com eçam a afirm ar seus interesses nacionais no sistem a internacional de Estados.

Os fluxos com erciais e os m ovim entos de capitais globalizaram -se

e geraram blocos econôm icos regionais. Na Europa, desde o Tratado de Rom a, um longo percurso consolidou as estruturas institucionalizadas da atual União Europeia. Na m acrorregião da Ásia/Pacífico, o dinam ism o da econom ia j aponesa e os investim entos de capitais ocidentais estim ularam a industrialização de países da orla oceânica, esboçando a constituição de um com plexo econôm ico dinâm ico cuj o foco é o Japão. Verifica-se com isso que a econom ia m undial não tem m ais um único centro.

O bloco econôm ico da Bacia do Pacífico não conta com estruturas

institucionais. Apóia-se na rede de fluxos de capitais em anada da poderosa econom ia do arquipélago j aponês, na dinâm ica de crescim ento dos Novos Países Industrializados (NPIs) e no im pulso surpreendente proporcionado pela abertura da econom ia chinesa. As am argas lem branças da Segunda Guerra Mundial – quando o Japão ocupou os territórios da orla asiática e as ilhas do Pacífico – estabelecem lim ites estreitos para a cooperação política na Ásia/Pacífico. O espectro de um a corrida arm am entista regional, deflagrada a partir do program a de m ísseis e arm as nucleares da Coreia do Norte ou da m odernização m ilitar da China, com bina-se com um com plexo em aranhado de tensões históricas, culturais e geopolíticas. O resultado é a dissociação entre as dinâm icas econôm icas e políticas em toda a m acrorregião.

O Japão da Guerra Fria encarnava um paradoxo de fundo: era,

sim ultaneam ente, um a potência econôm ica concorrente dos Estados Unidos e um Estado subordinado a Washington no plano estratégico. A segunda potência econôm ica global abrigava-se sob o “guarda-chuva nuclear” da superpotência ocidental. A questão que em erge do paradoxo é saber até quando, depois de elim inadas as circunstâncias da Guerra Fria, o Japão aceitará a condição de satélite geopolítico dos Estados Unidos. Um a segunda questão, associada à anterior, consiste em indagar sobre os lim ites da convivência, na Ásia/Pacífico, das fortes tensões políticas e m ilitares entre os Estados com os avançados processos de integração entre as econom ias nacionais.

Dos “navios negros” a Hiroshima

O Japão m oderno foi parido pelos Estados Unidos por duas vezes –

em m eados do século XIX e no pós-guerra. O produto do parto inicial caracterizou-se pelo m ilitarism o e pelo expansionism o. O segundo parto resultou em um Estado em presarial-burocrático, um a potência econôm ica que se resignou a viver à som bra do “guarda-chuva nuclear” am ericano.

Em 1854, no quadro m aior da expansão am ericana no Pacífico, o

com odoro Matthew Perry forçou a abertura do com ércio j aponês bom bardeando portos do país. Os “navios negros” de Perry desataram a crise e o colapso do sistem a político do xogunato, assentado sobre o poder regional dos senhores da guerra, os chefes regionais que m antinham os cam poneses sob servidão. A devolução do poder ao im perador Mutsuhito, com pletada em 1867-1868, tornou-se conhecida com o Restauração Meij i. Instalado em Edo (Tóquio), a antiga “capital do Leste”, o im perador suprim iu o poder do xógum e realizou a centralização política do país.

O novo sistem a político baseou-se num a fusão original entre o

absolutism o m oderno e a antiga religião xintoísta. O Estado Xinto, com o foi cham ado, identificou a nação ao im perador e coloriu o nacionalism o j aponês com os ingredientes da glorificação da guerra e da honra. O m ausoléu de Yasukuni, erigido em 1869 em hom enagem aos m ártires de guerra j aponeses, ocupou lugar sim bólico na m itologia nacional. Superando os particularism os político e econôm ico, a restauração do poder im perial conferiu um vigoroso im pulso m odernizador e industrializante ao país. Em poucas décadas, o Japão alcançou a condição de m aior potência do Oriente.

 

O m ovim ento de reação ao expansionism o am ericano no Pacífico

acabou conduzindo o Japão Meij i a desenvolver o seu próprio expansionism o im perial, nas ilhas oceânicas e no continente asiático. Em 1895, tropas j aponesas desem barcaram na China e conquistaram a ilha de Taiwan. O Japão assum ia um lugar de destaque entre as várias potências que partilharam os portos chineses, assenhorando-se de enclaves e m onopólios com erciais. Pouco depois, em 1905, Japão e Rússia entraram em conflito pelo dom ínio da península coreana. Para surpresa m undial, as forças j aponesas esm agaram o poderio da Rússia im perial, abrindo cam inho para a anexação da Coreia. O expansionism o j aponês edificou um a vasta área de influência no Oriente – a “esfera de co-prosperidade do Leste Maior asiático”. A prim eira fase do processo concentrou-se no dom ínio sobre as ilhas oceânicas. A anexação da Coreia e, sobretudo, a invasão da Manchúria chinesa assinalaram a proj eção do Japão em direção ao continente asiático. A

instalação do Estado Manchukuo, em 1932, e a subsequente incorporação da Manchúria ao im pério proporcionaram ao Japão o controle sobre vastas reservas de carvão m ineral e ferro, im pulsionando a m odernização industrial. Em 1937-1938, as forças j aponesas avançaram pelo Leste chinês, com pletando a segunda fase da expansão.

A Segunda Guerra Mundial assinalou o confronto tão adiado entre

o Japão e os Estados Unidos, as duas potências navais do Pacífico. A vitória em Pearl Harbor (Havaí) abriu cam inho para o avanço j aponês sobre as possessões europeias no Sudeste Asiático. Em 1942, a ofensiva im perial atingiu o seu ponto culm inante com as conquistas da Indochina, Indonésia e das Filipinas, que transform aram o Pacífico, por um breve período, num im enso “lago j aponês”.

Na hora da derrota, não faltou sim bolism o. Após os bom bardeios

atôm icos de Hiroshim a e Nagasaki, em agosto de 1945, os representantes do im perador tiveram de assinar a rendição incondicional a bordo de um porta-aviões am ericano. Com eçava, m ais um a vez pelas m ãos dos Estados Unidos, um a nova invenção da nação j aponesa.

O Japão contem porâneo nasceu da ocupação am ericana de 1945-

1951. Reform ado e ocidentalizado, foi envolvido na arquitetura m undial da Guerra Fria, tornando-se um a barreira contra a expansão da influência soviética no Leste Asiático. No im ediato pós-guerra, sob a adm inistração m ilitar do general Douglas MacArthur, foram proj etadas as reform as políticas destinadas a ocidentalizar o Japão. O im perador negou a sua divindade, em em issão radiofônica, destruindo os fundam entos do Estado Xinto. A nova Constituição lim itou os gastos m ilitares às necessidades estritas de defesa. No lugar de forças arm adas, o país passaria a ter, unicam ente, forças de autodefesa. Em 1954, na m oldura da Guerra Fria, firm ou-se o pacto bilateral que colocou o país sob o escudo protetor das arm as nucleares dos Estados Unidos.

 

Glória e esgotamento do modelo japonês

A Constituição aprovada sob MacArthur conservou a m onarquia,

m as transferiu o poder político para o Parlam ento. Contudo, o estabelecim ento do parlam entarism o tinha com o vício de origem a ausência das tradições ocidentais do j ogo político e partidário. Esse vazio foi preenchido pelo Partido Liberal Dem ocrático (PLD), que em ergiu com o instituição destinada a forj ar consensos no interior da elite em presarial e estendê-los para a esfera política e adm inistrativa.

O PLD funcionou com o partido hegem ônico desde o fim da

ocupação até o encerram ento da Guerra Fria. O seu arcabouço abrigou um a classe política singular, distante das disputas ideológicas ou program áticas, subordinada aos interesses im ediatos das corporações, fragm entada em clãs e facções, m as unida pelo fluxo de recursos em presariais para o financiam ento das cam panhas eleitorais.

O Estado m onárquico e parlam entar-burocrático erguido no pós-

guerra proporcionou as condições para a reconstrução econôm ica. A estratégia da reconstrução envolveu dois elem entos básicos: a form ação de poupança interna e a conquista dos m ercados externos. A capitalização dos conglom erados industriais apoiou-se no baixo custo da força de trabalho e na canalização da poupança popular para o investim ento em presarial. O consum o reduzido transform ava-se em capital, e o capital, em tecnologia. Ao contrário da Europa, a traj etória da reconstrução j aponesa realizou-se à m argem de fluxos de aj uda financeira dos Estados Unidos.

A conquista dos m ercados externos apoiou-se num a política

agressivam ente exportadora, fundada na subvalorização do iene. Por essa via, a política de câm bio funcionava com o um escudo protetor da indústria do arquipélago. Consistentem ente com essa estratégia, agências oficiais funcionaram com o centros de planej am ento econôm ico, instituindo políticas industriais flexíveis e um alto grau de integração entre o poder público e o em presariado nacional.

O m odelo capitalista j aponês distinguiu-se profundam ente do

m odelo liberal e com petitivo dos Estados Unidos. A tradição do Estado autoritário e de forte coesão entre as corporações e a elite política, oriunda da Era Meij i, foi retom ada e adaptada às condições do pós-guerra. A burocracia estatal coordenou e planej ou o crescim ento industrial. Por m eio do poderoso Ministério da Indústria e Com ércio Exterior, selecionaram -se as corporações que receberiam proteção, estím ulo e incentivos para concorrer no m ercado m undial.

O alicerce social do m odelo consistiu na estabilização prolongada

das relações entre a força de trabalho e as em presas, sob os princípios de disciplina e fidelidade e o esteio da garantia do em prego por toda a vida. O m ercado interno estruturou-se sobre bases sem elhantes, que vincularam os interesses de com pradores e fornecedores e entrelaçaram atacadistas e varej istas. Essas teias com plexas de interesses funcionaram com o um a redom a protetora da econom ia j aponesa, que se conj ugou com o escudo m ais am plo proporcionado pela política cam bial.

O sistem a econôm ico com o um todo, ao contrário do m odelo

am ericano, orientou-se para a poupança produtiva, reduzindo o consum o. Os preços relativos, definidos pela intervenção indireta da burocracia de Estado e pelo funcionam ento das instituições financeiras, punem os consum idores e prem iam os produtores. O extraordinário crescim ento econôm ico do país – m edido pelo PIB, pelas exportações ou pelo patrim ônio das corporações – contrastava com a relativa pobreza m aterial da população, expressa na desproporção entre tem po de trabalho e de lazer ou no custo dos im óveis residenciais.

O m ilagre j aponês traduziu-se por ritm os de crescim ento sem pre

superiores aos das outras potências ocidentais, até o final da Guerra Fria. O auge do m ilagre ocorreu na década de 1960, quando a expansão do PIB atingiu a excepcional taxa m édia anual de 11,2%, contra 4,7% da Alem anha e 3,8% dos Estados Unidos. Depois, o ritm o da expansão foi reduzido pelos choques de preços do petróleo e, principalm ente, pela dim inuição geral do crescim ento da econom ia m undial. Mesm o assim , perm aneceu superior ao das dem ais potências. O PIB j aponês alcançou e ultrapassou o da Alem anha ainda na década de 1960, refletindo o sucesso do m odelo do capitalism o-fábrica.

A indústria têxtil, a siderurgia e a construção naval deflagraram a

reconstrução. Depois, um a segunda etapa teve a liderança da eletrônica de consum o e da indústria autom obilística. A terceira etapa, associada à revolução tecnocientífica, foi im pulsionada pela m icroeletrônica, inform ática e robótica. A expansão econôm ica alastrou-se para além das fronteiras do arquipélago, increm entando o processo de industrialização dos NPIs.

Os choques de preços do petróleo de 1973 e 1979 elevaram o custo

m édio do barril no m ercado internacional de cerca de US$ 3 para m ais de US$ 30. A econom ia j aponesa, apoiada em indústrias de alto consum o energético e intensa utilização do fator trabalho, sofreu um processo de aj ustam ento radical, alterando a sua feição. Esses choques externos aceleraram a transição para um a base industrial sustentada pela m icroeletrônica e a inform ática, e forçaram um a rem odelação com pleta da produção autom obilística, que teve suas linhas de m ontagem largam ente autom atizadas.

Nesse contexto de aum ento dos custos internos de produção, os

conglom erados aceleraram a relocalização dos investim entos, deslocando unidades produtivas para o espaço periférico asiático e dinam izando as econom ias da Coreia do Sul, de Taiwan, Cingapura, Hong Kong, da Malásia e da Tailândia. A partir da década de 1980, os fluxos de capitais j aponeses desem penharam papel decisivo para a m odernização industrial da China.

A tendência à configuração de um espaço econôm ico integrado na

Ásia/Pacífico decorre, em grande m edida, da polaridade exercida pelo Japão. Os investim entos na periferia im pulsionaram poderosas correntes regionais de com ércio, estabelecendo laços de cooperação econôm ica que se acom odam num am biente de tensões políticas crônicas. Depois dos Estados Unidos, os principais parceiros com erciais do Japão são a China, a Coreia do Sul, Taiwan e a Indonésia. O Japão ocupa a posição de m aior fonte de investim entos externos na China e disputa com os Estados Unidos a condição de principal parceiro com ercial do gigante dem ográfico.

A especulação frenética da década de 1980 assinalou o esgotam ento do m odelo, reverenciado no m undo inteiro, do capitalism o-fábrica. O estouro da bolha especulativa, em 1990, traduziu-se em destruição extensiva da riqueza ilusória e descosturou o sistem a financeiro j aponês. As ações e os im óveis, sobrevalorizados, funcionavam com o garantias para os em préstim os bancários às indústrias e aos consum idores. A súbita deflação de preços das garantias deixou os bancos credores a descoberto, revelando o hiato entre a riqueza financeira e a econom ia produtiva. Sob o im pacto da brusca m udança, a econom ia entrou em hibernação, estagnando por quase toda a década de 1990.

O m odelo j aponês baseava-se num fluxo incessante de

financiam entos bancários baratos para as em presas industriais. O baixo custo do capital estim ulou o crescim ento da produção, m as elim inou os incentivos para a seleção dos investim entos. As em presas acum ularam capacidades produtivas em excesso, im obilizando capitais e realizando negócios extravagantes: corporações j aponesas com praram , a preços estratosféricos, estúdios cinem atográficos falidos nos Estados Unidos; a aquisição do com plexo im obiliário do Rockefeller Center, um sím bolo am ericano no coração de Manhattan, representou o m arco da “era de ouro”.

Quando a bolha estourou, as engrenagens do sistem a pararam de

funcionar. As instituições financeiras, em estado de falência técnica, passaram a depender da rolagem perm anente de dívidas e de vastas operações de salvam ento em preendidas pelo Estado, com recursos do orçam ento nacional. A destruição da riqueza ilusória chegou à percepção dos consum idores com o sensação de pobreza. A redução do consum o resultante som ou-se à drástica redução de investim entos em presariais, congelando a econom ia. Os preços de bens e serviços entraram em deflação, refletindo a queda da dem anda. A espiral deflacionária com eçou a se realim entar autom aticam ente, em função do adiam ento de decisões de consum o e investim ento. Entre 1990 e 1997, o PIB j aponês cresceu à taxa m édia anual de 1,5%, a m etade da expansão do PIB am ericano. Entre 1997 e 2001, a expansão j aponesa foi ainda m enor, à m édia de 0,7%, contra 3,4% nos Estados Unidos. A duradoura estagnação econôm ica repercutiu sobre o sistem a político, precipitando a crise política e eleitoral do PLD. Em 1993, sob o im pacto da revelação de escândalos de corrupção nos altos círculos governam entais, pela prim eira vez no pós-guerra, form ou-se um a coalizão de governo sem o PLD. Nos anos seguintes, o PLD participou de frágeis coalizões circunstanciais, governos efêm eros m inados pelo descrédito e por sucessivos escândalos financeiros. A lenta agonia institucional anunciava a desconstrução do Japão inventado no pós-guerra.

Contudo, em virtude da fragilidade dos partidos de oposição, a

crise do partido evoluiu com o conflito interno de facções. O PLD atingiu o seu zênite no início da década de 1970, sob a direção do prim eiro-m inistro Kakuei Tanaka, quando a “política do dinheiro” soldava firm em ente a elite governam ental aos grupos em presariais. Tanaka renunciou em m eio a um escândalo, em 1974, m as a sua facção continuou a controlar o PLD, indicando os prim eiro-m inistros e os integrantes principais dos gabinetes de governo. O governo de Yasuhiro Nakasone, eleito em 1982, chegou a receber a alcunha de “gabinete Tanakasone”. Yoshiro Mori, prim eiro-m inistro em 2000 e 2001, sequer era consultado nas questões m ais im portantes, que eram decididas fora do governo pela facção de Ry utaro Hashim oto, o herdeiro político de Tanaka.

O desafio à tradição veio de Junichiro Koizum i, que uniu as

correntes excluídas da direção do PLD, isolou a facção de Hashim oto e conquistou os eleitores com um a plataform a de ousadas reform as econôm icas e políticas. Koizum i conseguiu estrondosa vitória eleitoral em 2001 prom etendo m ais um a reinvenção do Japão. Na esfera econôm ica, o seu program a apontava para a supressão da redom a protetora que o Estado ergueu em torno das em presas industriais e das instituições financeiras. No plano social, o “em prego para toda a vida” estaria condenado ao m useu das relíquias históricas.

Na esfera política, o novo Japão agiria com o Estado plenam ente

soberano, elim inando as restrições constitucionais aos gastos m ilitares e às ações m ilitares fora dos lim ites do arquipélago. Num gesto polêm ico, o prim eiro-m inistro desafiou os protestos sul-coreanos e chineses e visitou o tem plo de Yasukuni, onde estão enterrados os “m ártires de guerra” j aponeses e tam bém os restos m ortais do general Hideki Toj o e vários outros condenados por crim es contra a hum anidade com etidos na Segunda Guerra Mundial. A visita oficial aconteceu a 13 de agosto de 2001, dois dias antes do aniversário da rendição j aponesa de 1945. Explicitando o sentido m ais am plo da nova atitude j aponesa, o discurso de Koizum i lam entou os horrores com etidos nos países ocupados durante a guerra.

 

O Japão na encruzilhada

As reform as estruturais anunciadas por Koizum i esbarraram na

inércia sedim entada pelos interesses das corporações e da elite política. Mas as tendências profundas que corroem o Estado j aponês recriado no pós-guerra continuam a agir, sinalizando m udanças históricas.

O centro do desafio global é a reorganização das relações com os

Estados Unidos. Durante a Guerra Fria, o Japão com portou-se com o subordinado estratégico da superpotência do Ocidente. O nacionalism o j aponês não foi extirpado, m as entrou em duradoura hibernação. Entretanto, os indícios do ressurgim ento do nacionalism o apareceram j á no m om ento em que a Guerra Fria se apagava.

Em 1987, num contexto de disputas com erciais entre Tóquio e Washington, o relatório anual do Ministério do Exterior destacava a ascensão j aponesa e o declínio relativo dos Estados Unidos. Significativam ente, esse relatório expressava preocupação com o sentim ento de arrogância que se dissem inava em Washington e am eaçava isolar diplom aticam ente o Japão. No ano anterior, o prim eiro-m inistro Nakasone protagonizara um incidente de proporções internacionais ao sugerir, em reunião com m em bros do PLD, a superioridade intelectual j aponesa diante dos am ericanos, ancorando-se em argum entos raciais.

Aqueles eram os tem pos da euforia econôm ica j aponesa. A

estagnação da década seguinte gerou um refluxo nessas m anifestações. Mas a plataform a de política externa de Koizum i revelou que há um a transform ação estrutural em curso: o Japão quer adquirir o direito de afirm ar seus interesses nacionais e pretende tornar-se um ator estratégico nos cenários global e m acrorregional. Esse proj eto se expressa na candidatura j aponesa a um a cadeira de m em bro perm anente do Conselho de Segurança da ONU.

Mesm o antes de Koizum i, lentam ente, a política externa de Tóquio

com eçou a m udar. O Japão com binou concessões e desafios nas disputas com erciais com os Estados Unidos, enviou soldados para o Cam boj a com o com ponentes das forças de paz da ONU, pediu desculpas oficiais pelas agressões m ilitares no Extrem o Oriente durante as décadas de 1930 e 1940. Um ponto crucial dessa nova fase reside no debate interno sobre a questão das tropas am ericanas estacionadas no arquipélago. Ecoando um ponto de vista cada vez m ais dissem inado, em bora rej eitado oficialm ente, o ex-prim eiro-m inistro Morihiro Hosokawa classificou com o positiva a hipótese de retirada total das tropas:

É egoísta, da parte dos am ericanos, acreditar que os Estados Unidos fizeram um favor ao Japão defendendo-o por todos esses anos através do estacionam ento de tropas no interior do país. As forças am ericanas som avam 260 m il nos anos 50, 47 m il em 1990 e hoj e são 37 m il. Os j aponeses interpretam com o boas notícias sem pre que m ais am ericanos partem .

Hosokawa, contudo, não defendia um a ruptura do tratado

estratégico que liga Tóquio a Washington, m as a sua redefinição. As tropas e as bases deveriam ser elim inadas, pois o Japão é capaz de assegurar, por m eios próprios, a defesa convencional do arquipélago. Mas o “guarda-chuva nuclear” é um tem a com pletam ente diferente:

Tanto a Rússia quanto a China, em bora fracas em poder

m ilitar convencional, detêm m ísseis nucleares suficientes para destruir o Japão. É legítim o perguntar com o o Japão poderia reagir à chantagem nuclear. Tóquio, que aceitou incondicionalm ente a extensão perm anente do TNP, em 1995, e renunciou ao desenvolvim ento da sua própria dissuasão nuclear, não tem escolha senão depender do “guarda-chuva nuclear” de um aliado. É do interesse dos Estados Unidos, enquanto ele não desej ar que o Japão se retire do TNP e desenvolva sua própria dissuasão nuclear, m anter a sua aliança com o Japão e continuar a fornecer o “guarda-chuva nuclear”. Os Estados Unidos estão cientes de que o Japão é seu m aior credor e tem um PIB próxim o a 70% do seu próprio. Além do m ais, não é pequena vantagem para a política externa dos Estados Unidos conservar um a aliança com um país que exerce forte influência econôm ica na Ásia.

Essa abordagem das bases estruturais da aliança, que vem se

tornando dom inante na elite política j aponesa, é fonte de irritação em Washington. Os Estados Unidos acreditam , realm ente, que o Japão deveria retribuir a defesa estratégica com m aior abertura com ercial, um engaj am ento m ais decidido na garantia da segurança das rotas m arítim as e um a firm e solidariedade nas questões que afetam a estabilidade m acrorregional da Ásia/Pacífico.

A reorganização da aliança com os Estados Unidos coloca o

problem a da inserção do Japão no sistem a internacional e, em especial, no subsistem a m acrorregional. Para se proj etar com o ator decisivo na Ásia/Pacífico, o Japão precisa superar as desconfianças dos países que, no passado, sofreram a ocupação m ilitar, estabilizar as relações com Pequim , definir o seu padrão de atitudes diante da persistente tensão na península coreana e resolver a pendência do arquipélago das Kurilas com a Rússia.

Na esfera m acrorregional, o principal desafio que se coloca diante

do Japão consiste em evitar o desenvolvim ento de um foco de tensões com a China. O poderio econôm ico e as capacidades tecnológicas j aponesas geram insegurança em Pequim . Esse é m ais um m otivo para que Tóquio afaste a hipótese de iniciar um program a nuclear, de resto rej eitada pela sociedade j aponesa. Porém , enquanto afirm a seus próprios interesses nacionais, o Japão precisa conservar a aliança privilegiada com os Estados Unidos, que desem penham o papel de ator extra-regional detentor da influência necessária para im por certa ordem e estabilidade no subsistem a da Bacia do Pacífico.

Durante a Guerra Fria, Tóquio experim entou o conforto relativo e paradoxal de sintetizar os seus interesses nacionais nos term os de um a diplom acia econôm ica e com ercial. A nova agenda externa j aponesa apresenta com plexidades e sutilezas m uito m aiores. Ela deveria ser capaz de associar o Japão a um diálogo trilateral com a China e os Estados Unidos, em torno dos tem as da segurança m acrorregional e da redução das tensões na península coreana:

O Japão deve definir as suas prioridades, políticas e interesses nacionais m ais claram ente. Os laços de segurança com os Estados Unidos devem ser fortalecidos, bem com o o diálogo entre China, Japão e Estados Unidos. Em bora o Japão não possa e não deveria desej ar com petir m ilitarm ente com a China ou os Estados Unidos, não pode ser excluído das discussões regionais e globais entre am bos. O papel de Tóquio pode consistir em am enizar as tendências hegem ônicas dessas duas grandes potências.

O Japão não pode m ais se dar ao luxo am bíguo de reduzir a sua

política externa à diplom acia econôm ica. A “guerra ao terror” desencadeada pelos Estados Unidos tem , entre seus obj etivos fundam entais, a contenção e supressão do program a nuclear da Coreia do Norte. Se Tóquio abdicar do papel que lhe cabe na estabilização regional, só restará a Washington o diálogo bilateral com Pequim , o que im plicaria a redução da im portância da aliança entre os Estados Unidos e o Japão. Nesse caso, em algum m om ento, o próprio “guarda-chuva nuclear” deixaria de existir, arrastando o Japão para o cam inho perigoso e dilacerante da disputa m ilitar com a China.