Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 13 · A “Nova Roma” e
AS POTÊNCIAS:
O Muro de Berlim foi, por quase três décadas, um sím bolo
peculiar do sistem a internacional da Guerra Fria. Ele m aterializou a linha de dem arcação, erguida no centro da Europa, entre os blocos geopolíticos antagônicos, e assinalou o foco nervoso principal de tensões, localizado no coração da Alem anha dividida. Sim ultaneam ente, representou a incom patibilidade m útua dos regim es sociopolíticos vigentes na Europa e a dim ensão coercitiva essencial da bipartição da nação alem ã.
A queda do Muro de Berlim constitui, por isso, um m arco
adequado para o encerram ento da Guerra Fria. Para a concretização desse evento singular, concorreram os levantes populares revolucionários que varreram a Europa Oriental e que provocaram a decom posição dos regim es totalitários instalados nos anos do im ediato pós-guerra, acabando por desm ontar o bloco soviético. Dessa form a, o 9 de novem bro de 1989 constituiu algo com o a conclusão de um processo, cuj as raízes encontram -se nas reform as deflagradas na União Soviética, por Gorbachev, a partir de 1985.
Entre as consequências diretas da queda do Muro de Berlim está a
reunificação alem ã, que se consum ou no ano seguinte. Com ela, o conj unto da geom etria do espaço europeu foi radicalm ente alterado e as fronteiras geopolíticas desenhadas em Yalta e Potsdam perderam seu significado. Um ano depois, com o epitáfio do m eio século de Guerra Fria, a desintegração da União Soviética suprim iu o polo oriental do sistem a internacional de Estados.
O historiador Eric Hobsbawm conferiu um a perspectiva ainda
m ais profunda à queda do Muro de Berlim e ao colapso da União Soviética, interpretando esses eventos com o o encerram ento do “breve século XX”:
[...] a estrutura do Breve Século XX parece um a espécie de tríptico ou sanduíche histórico. A um a Era da Catástrofe, que se estendeu de 1914 até depois da Segunda Guerra Mundial, seguiram -se cerca de 25 ou trinta anos de extraordinário crescim ento econôm ico e transform ação social, anos que provavelm ente m udaram de m aneira m ais profunda a sociedade hum ana que qualquer outro período de brevidade com parável. Retrospectivam ente, podem os ver esse período com o um a espécie de Era de Ouro, e assim ele foi visto quase im ediatam ente depois que acabou, no início da década de 70. A últim a parte do século foi um a nova era de decom posição, incerteza e crise — e, com efeito, para grandes áreas do m undo, com o a África, a ex-URSS e as
partes anteriorm ente socialistas da Europa, de catástrofe.
O colapso da União Soviética, que surpreendeu a quase totalidade
dos observadores, polarizou as discussões sobre a estrutura do sistem a que sucede ao da Guerra Fria. Em particular, instigou os debates relativos ao novo papel dos Estados Unidos no sistem a internacional de Estados.
A Guerra Fria m oldou um sistem a internacional de características
peculiares, organizado em torno de dois polos de poder de âm bito planetário. As superpotências term onucleares estabeleceram um conflito que repercutiu em todos os planos: os m odelos econôm icos, as instituições políticas, a diplom acia, a ideologia e a propaganda, os dispositivos m ilitares... De certa form a, o conflito foi tam bém um a cooperação: os contendores respeitaram escrupulosam ente as linhas dem arcatórias das respectivas esferas de influência. Os Estados Unidos e a União Soviética, com o explicou Aron, conflitavam cooperando:
A afirm ativa de que as duas superpotências dom inantes do sistem a internacional são irm ãs, além de inim igas, devia ser considerada um dado banal e não um paradoxo. Por definição, se um a delas não existisse, a outra reinaria só; ora, os candidatos a um m esm o trono têm sem pre algo em com um . As unidades de um sistem a internacional pertencem a um a m esm a zona de civilização. É inevitável, portanto, que os “grandes” adotem em parte os m esm os princípios e que m antenham um diálogo enquanto se com batem .
A presença de um Terceiro Mundo, politicam ente refletida no
Movim ento dos Países Não-Alinhados, nunca im pugnou a natureza bipolar do sistem a da Guerra Fria. Paradoxalm ente, a ideologia do não-alinham ento confirm ava a bipolaridade do sistem a, pois tinha com o referência precisam ente a rivalidade entre os dois contendores. De fato, não existe sequer sentido lógico na afirm ação de um não-alinham ento em sistem as de poder m ultipolares.
A bipolaridade da Guerra Fria apoiou-se sobre um a inédita
acum ulação e aperfeiçoam ento de m eios de destruição em m assa. Os arsenais nucleares tinham por finalidade não a preparação da guerra, m as a sua prevenção. No tem po em que o em bate m ilitar prom etia apenas a devastação m útua, excluindo a hipótese da vitória, a acum ulação de arsenais sem pre m aiores transform ou-se num fim autônom o. Esses arsenais crescentes visavam não a alteração, m as a m anutenção do equilíbrio de poder existente.
Nessas condições, a força m ilitar tornou-se sinônim o de poder,
m arginalizando outras referências tradicionais do poderio dos Estados com o a produtividade e eficiência da econom ia nacional. Assim , países com o a Alem anha e o Japão, potências econôm icas excluídas politicam ente do clube nuclear, perm aneceram à m argem dos centros fundam entais de poder e decisão do sistem a internacional.
Pax americana
O fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética deixaram aos
Estados Unidos a condição de única superpotência. A “Nova Rom a” reúne, sim ultaneam ente, a força m ilitar e a hegem onia estratégica global. Em princípio, a bipolaridade cede lugar a um a distribuição unipolar do poder: o im pério, sem opositor, dos Estados Unidos.
Essa form a de encarar a geom etria do sistem a internacional que
em ergiu das ruínas da Guerra Fria originou a expressão “nova ordem m undial”, cunhada pelo presidente am ericano George H. Bush às vésperas da desintegração da União Soviética. A Guerra do Golfo, deflagrada em 1991, enquanto se desenrolava o dram a final do Estado soviético, e encerrada com um a im pressionante dem onstração de capacidade estratégica e poder m ilitar de Washington, contribuiu para difundir e conferir intensa força persuasiva à im agem unipolar do m undo.
As inúm eras crises localizadas da década de 1990, além de
cristalizarem a percepção de um a realidade internacional m ais instável que a das décadas do pós-guerra, ressaltaram a liderança estratégica dos Estados Unidos. As crises da Som ália (1992-1994), da Bósnia-Herzegóvina (1993-1995), do Haiti (1994) e de Kosovo (1999), apesar das peculiaridades de cada um a, reforçaram o papel-chave de Washington na form ulação das decisões adotadas no quadro do Conselho de Segurança da ONU. Entrem entes, a expansão da Otan para a Europa centro-oriental reafirm ou a influência determ inante dos Estados Unidos na m anutenção do equilíbrio estratégico básico no cenário europeu.
As atitudes de Washington diante dessas crises oscilaram entre
um a form a particular de neo-isolacionism o, expressa nas prioridades dom ésticas e na valorização da diplom acia com ercial proclam adas no prim eiro m andato de Bill Clinton, e o super-engaj am ento expresso na disponibilidade intervencionista e na ideia de construção de nações, que ganhou curso no m om ento da pacificação da Bósnia e de Kosovo. Num a vertente, tanto quanto na outra, a política externa am ericana deixou transparecer a penosa im pressão de carência de paradigm as e acentuado em pirism o.
Nos Bálcãs, as duas intervenções da Otan recolocaram , sob novas
form as, o antigo dilem a entre o espírito cruzadista da política externa am ericana e as necessidades realistas de segurança e influência. O bom bardeio das tropas sérvias na Bósnia foi j ustificado em term os hum anitários, m as o Acordo de Day ton, de 1995, que encerrou o conflito bósnio, fundam entou-se na noção de divisão de esferas de influência entre a pró-ocidental Croácia e a pró-russa Sérvia. O aparente sucesso na Bósnia concorreu, decisivam ente, para a deflagração da cam panha aérea contra a Sérvia, no m om ento da crise de Kosovo, em 1999. Essa cam panha, apesar do seu resultado positivo, tendeu a enfraquecer os argum entos cruzadistas para intervenções externas.
Em Kosovo, as m etas estratégicas m ais ou m enos evidentes — a
prevenção da extensão do conflito para a Macedônia e do envolvim ento da Grécia e da Turquia — ficaram encobertas pela barragem de j ustificativas hum anitárias oficiais. Mas essas j ustificativas experim entaram um a prova difícil quando os bom bardeios aceleraram a catástrofe que se pretendia evitar e as fronteiras da Albânia e da Macedônia cobriram -se de cam pos de refugiados kosovares. O protetorado m ilitar internacional estabelecido na província sérvia, que se som ou ao protetorado bósnio e im plicou o com prom etim ento duradouro de forças da Otan, não solucionou a intrincada questão balcânica.
A Doutrina Trum an esvaziou-se de significado m as não foi
substituída por um a nova orientação geral de política externa durante a prim eira década do pós-Guerra Fria. Contudo, essa nova orientação surgiu, subitam ente, com o reação aos atentados terroristas de 11 de setem bro de 2001, que destruíram as torres gêm eas do World Trade Center, em Nova York, e um a das alas do Pentágono, em Washington. O traum a nacional provocado pelos ataques, conduzidos pela Al-Qaeda, do líder terrorista saudita Osam a Bin Laden, catapultou os neoconservadores republicanos para o centro das decisões da adm inistração de George W. Bush e abriu cam inho para a declaração da guerra ao terror.
A guerra é o confronto entre as forças em arm as de Estados
beligerantes. Os ataques de 11 de setem bro não foram atos de guerra, m as atentados terroristas, ou sej a, ações políticas com etidas por organizações ou indivíduos contra alvos civis ou m ilitares desarm ados. A sua identificação com atos de guerra exigiu a construção de um discurso baseado na teoria do sistem a terrorista internacional. A tese, relativam ente antiga, da “internacional do terror”, sugeria a existência de um a articulação política e operacional entre organizações terroristas abrigadas em diversos países. A teoria do sistem a terrorista, difundida após os atentados de setem bro de 2001, foi m ais longe, sustentando que as organizações do terror participam de um sistem a internacional m ais am plo, cuj os pilares são Estados hostis ao Ocidente. Esses Estados, além de fornecerem apoio financeiro e logístico para o terror, desem penhariam funções cruciais na form ulação estratégica e na coordenação das cam panhas de atentados.
A cam panha m ilitar do Afeganistão, liderada pelos Estados Unidos
e apoiada por um a coalizão internacional, figurou com o prim eira resposta aos atentados de setem bro. Entre o final de 2001 e o início de 2002, as forças da coalizão derrubaram o regim e fundam entalista do Taleban, que dava abrigo à Al-Qaeda, e destruíram quase com pletam ente a rede terrorista em território afegão. A vitória ficou incom pleta, pois Osam a Bin Laden e o principal líder do Taleban não foram capturados. Mas isso não im pediu Bush de anunciar um a segunda fase da guerra ao terror, voltada contra os Estados do cham ado “eixo do m al”: Iraque, Irã e Coreia do Norte.
No “eixo do m al”, não figuravam Estados associados a
organizações terroristas de alcance m undial. A acusação principal aos três Estados envolvia os program as de produção de arm as de destruição em m assa — nucleares, quím icas ou biológicas. Segundo a tese de Bush, a existência desses program as consistia em am eaça à segurança nacional am ericana, pois as arm as de destruição em m assa poderiam ser utilizadas, diretam ente ou por m eio de organizações terroristas, contra os Estados Unidos ou seus aliados. O Iraque destacava-se, no interior do “eixo do m al”, com o o alvo principal e o foco de um a nova cam panha m ilitar destinada a elim inar o regim e de Saddam Hussein.
A Doutrina Bush em anou da teoria do sistem a terrorista
internacional. Em m arço de 2002, no discurso que assinalou os seis m eses dos atentados de 11 de setem bro, o presidente am ericano form ulou, de m odo com pleto, a nova orientação estratégica de Washington. Na “guerra ao terror”, o inim igo não tem rosto, m as um a infinidade de m áscaras, definidas, periodicam ente, pelos Estados Unidos. Nessa m oldura, o Afeganistão do Taleban e de Osam a Bin Laden, o Iraque de Saddam Hussein, o “eixo do m al” constituem etapas de um a única guerra, que pode se estender por décadas.
A revisão da estratégia m ilitar am ericana com pletou o dispositivo
conceitual da Doutrina Bush. Rom pendo um com prom isso tácito da Guerra Fria, Washington passou a adm itir, em tese, o uso de arm as nucleares contra Estados não-nucleares. Na linha do com bate às novas am eaças, o Pentágono decidiu reduzir, significativam ente, o arsenal nuclear intercontinental e, ao m esm o tem po, am pliar e diversificar as arm as nucleares táticas. Essas arm as táticas destinam -se a atingir alvos com o bunkers subterrâneos e instalações de pesquisa ou produção de arm as de destruição em m assa.
Mas o aspecto crucial da revisão da estratégia m ilitar consistiu na
proclam ação do direito à guerra preventiva. Rom pendo os princípios consagrados pela ONU e a própria tradição da política externa am ericana, que definem o direito de guerra no quadro estrito da reação a um a agressão consum ada, Bush proclam ou o suposto direito de atacar prim eiro para suprim ir am eaças potenciais. Evidentem ente, o princípio da guerra preventiva, se aplicado generalizadam ente, teria o poder de cortar os fios tênues que sustentam a ordem internacional. Basta im aginar o uso do novo direito pela Índia, contra o Paquistão, ou pela China, contra Taiwan.
A visão de um m undo som brio, hostil e am eaçador é o alicerce da
Doutrina Bush. A Nova Rom a acredita estar sitiada por hordas ferozes de bárbaros, dispostos a tudo para destruir seus valores e m odo de vida. Os inim igos, difusos e onipresentes, não poderiam ser enfrentados de m odo convencional. As novas am eaças do sistem a do terror exigiriam o recurso de instrum entos extrem os, que não estão disponíveis norm alm ente na dem ocracia — com o departam entos e agências reservados à segurança interna, tribunais m ilitares de exceção e prisões preventivas sem acusação form al. A “guerra ao terror” congela, parcialm ente, alguns princípios basilares da república dem ocrática am ericana.
A “guerra ao terror” im plicou a renovação e expansão do
engaj am ento m ilitar internacional am ericano. Na verdade, a distribuição de bases e tropas iniciada com a cam panha do Afeganistão superava tudo o que tinha sido feito ao longo da Guerra Fria. Bases avançadas am ericanas foram im plantadas em países da Ásia Central, próxim o das fronteiras da Rússia e China, o que seria inim aginável nos tem pos da Guerra Fria. Além disso, forças am ericanas atuaram nas Filipinas, treinando tropas locais para o com bate a um grupo fundam entalista islâm ico, e oficiais m ilitares, forças especiais e agentes dos serviços secretos intensificaram operações nos m ais diversos países, desde o Oriente Médio até a Colôm bia.
À prim eira vista, a Doutrina Bush representou, portanto, um a nítida
opção internacionalista e um a ruptura com os gestos isolacionistas que caracterizaram os prim eiros m eses da adm inistração Bush. Entretanto, a atitude fundam ental da hiperpotência era isolacionista. Esse isolacionism o profundo se m anifestou com o desprezo em relação às instituições m ultilaterais. A “guerra ao terror” inaugurou um a fase m arcadam ente unilateralista da política externa de Washington.
O isolacionism o do início da adm inistração Bush expressou-se por
um a tendência à ruptura de diversos tratados e acordos internacionais. A adm inistração m anobrou sem cessar contra a ratificação do tratado de criação de um Tribunal Penal Internacional (TPI), argum entando que a corte poderia ser utilizada contra integrantes de forças am ericanas no exterior. Quando o tratado entrou em vigor, a adm inistração Bush se dedicou a extorquir dos aliados a anuência a cláusulas de exceção que, na prática, lim itam a j urisdição do tribunal e im pedem a abertura de processo contra am ericanos no exterior. Os Estados Unidos tam bém denunciaram o tratado ABM, de 1972, que funcionava com o pilar da estratégia do equilíbrio nuclear, a fim de desenvolver um escudo nacional antim ísseis. Além disso, Bush retirou o país do Protocolo de Ky oto, que im põe lim ites às em issões de gases estufa.
A Doutrina Bush transitou para o unilateralism o adaptando o
conceito isolacionista às novas prioridades de política externa dos Estados Unidos. Na cam panha do Afeganistão, a Otan foi solenem ente ignorada, m esm o depois de ter invocado, pela prim eira vez na sua história, o m ecanism o de defesa coletiva previsto na Carta do Atlântico. À ONU foi reservado um papel m enor e quase decorativo, de articulação diplom ática do governo provisório afegão, depois de concluídas as principais operações m ilitares. Bush explicitou, desde o início, que os Estados Unidos exerceriam a liderança da “guerra ao terror” e contavam com a adesão irrestrita de seus aliados. Tam bém deixou claro que eventuais posições de neutralidade seriam interpretadas com o hostis aos interesses dos Estados Unidos.
G. John Ikenberry interpretou a Doutrina Bush e, em particular, o
proclam ado direito à guerra preventiva, com o um a visão neo-im perial:
Nas som bras da guerra ao terrorism o da adm inistração Bush, circulam novas ideias arrebatadoras sobre a grande estratégia dos Estados Unidos e a reestruturação do m undo unipolar atual. Elas clam am pelo uso da força am ericana de m odo unilateral e antecipado, até m esm o preventivo, se possível facilitado por coalizões dos que desej am participar — m as, no fim das contas, não lim itado pelas regras e norm as da com unidade internacional. No lim ite, essas ideias configuram um a visão neo-im perial na qual os Estados Unidos arroga para si a função global de determ inação de padrões de conduta, identificação de am eaças, uso da força e distribuição de j ustiça. É um a visão na qual a soberania se torna m ais absoluta para os Estados Unidos, enquanto se torna m ais condicional para países que desafiam os padrões, definidos por Washington, de com portam ento interno e externo.
“Meu trabalho não consiste em estabelecer nuances. Meu trabalho
é o de dizer o que penso. Eu penso que a pureza m oral é im portante.” Essas palavras, com as quais Bush explicou certa vez o unilateralism o da sua política externa, revelam as raízes profundas da orientação estratégica definida depois do 11 de setem bro. A Doutrina Bush não é um raio no céu azul, m as a retom ada e a reinterpretação do espírito cruzadista que inform a, desde o início, a política externa dos Estados Unidos.
A novidade está na história e nas características estruturais do
sistem a internacional. No século XIX, o cruzadism o am ericano, expresso pela Doutrina Monroe, estava lim itado ao Hem isfério Am ericano e era exercido na m oldura do equilíbrio entre as grandes potências europeias. Na Guerra Fria, sob o im pacto da bipolaridade global, o espírito de cruzada em bebeu-se de fortes colorações realistas. A liderança am ericana no Ocidente, expressa na Doutrina Trum an, foi exercida por m eio de um a densa rede de instituições m ultilaterais. Depois do 11 de setem bro, finalm ente, as tendências à cruzada puderam se desenvolver num am biente internacional favorável, caracterizado pela hegem onia dos Estados Unidos. Então, essas tendências aglutinaram -se sob a form a da visão neo-im perial inscrita na Doutrina Bush.
Hegemonia limitada
O fim da Guerra Fria não se lim itou a m odificar a distribuição do
poder m as, essencialm ente, alterou a própria natureza do poder geopolítico. Durante as décadas da Guerra Fria, arm as e poder tornaram -se quase sinônim os. O sistem a internacional que se desenhou após a queda do Muro de Berlim tende a diluir essa identidade, desvinculando, ao m enos parcialm ente, o poder geopolítico dos arsenais m ilitares. Outras dim ensões de poder, quase esquecidas, reaparecem no centro da cena. A força do dinheiro, em especial, lança um a som bra na direção da força das arm as.
Durante as décadas do pós-guerra, a reconstrução da econom ia
capitalista m undial produziu um a redistribuição geográfica da riqueza. A hegem onia econôm ica incontestável dos Estados Unidos, que concentravam um a riqueza bastante superior à das dem ais potências capitalistas j untas, no final da guerra, foi sofrendo erosão contínua. Ainda em 1960, o PIB am ericano representava 40% do PIB m undial; em 1990, representava m enos de 25%. Paralelam ente, a Europa Ocidental e o Japão adquiriram um a nova capacidade industrial, com ercial e financeira.
Essas tendências de longo prazo inspiraram as teses sobre o
declínio da influência e do poderio dos Estados Unidos. Paul Kennedy, o m ais célebre dos analistas declinistas, ancorou as suas observações em um a interpretação histórica acerca da ascensão e decadência das potências im periais. Os seus argum entos principais destacavam o peso do fardo representado pelos interesses e engaj am entos estratégicos das potências nas fases de redução do seu dinam ism o econôm ico e os efeitos das transform ações tecnológicas na correlação global de forças:
Em bora os Estados Unidos ocupem atualm ente ainda um a posição especial, própria, econôm ica e talvez m esm o m ilitarm ente, não podem deixar de enfrentar duas grandes provas que desafiam a longevidade de toda grande potência que ocupa a posição de “núm ero um ” nos assuntos m undiais: a capacidade de preservar, no setor
estratégico-m ilitar, um razoável equilíbrio entre as necessidades defensivas do país e os m eios de que dispõe para atender a elas; e a capacidade de preservar, com o ponto estreitam ente ligado à prim eira, as bases tecnológicas e econôm icas de seu poder contra a erosão relativa, frente aos padrões sem pre cam biantes da produção global total. Essa prova da capacidade am ericana será ainda m aior porque os Estados Unidos, com o a Espanha im perial de cerca de 1600 ou o Im pério Britânico de cerca de 1900, são os herdeiros de um a vasta série de com prom issos estratégicos feitos décadas antes, quando a capacidade política, econôm ica e m ilitar que tinham de influenciar as questões m undiais parecia m uito m ais assegurada.
No m om ento em que foram form uladas, as teses declinistas
dispunham , a seu favor, de sólidos argum entos m acroeconôm icos. O déficit público am ericano, que escapou de qualquer controle ao longo da década de 1980, tinha tornado o financiam ento governam ental dependente dos fluxos financeiros internacionais e da credibilidade dos papéis oficiais postos à venda no m ercado. O déficit com ercial, que se m antém em níveis m uito elevados, resiste às flutuações do dólar perante a divisa j aponesa e reflete a perda relativa de com petitividade externa de im portantes setores da econom ia am ericana. Os crônicos e, às vezes, intratáveis contenciosos com erciais com j aponeses e europeus reforçaram as percepções vinculadas à tese do declínio.
Mas m esm o no terreno das análises sobre os grandes equilíbrios
econôm icos internacionais, desenvolveu-se desde o início um a contestação ativa das teses declinistas. Joseph S. Ny e argum entou que a fase de declínio relativo da econom ia am ericana circunscreveu-se às décadas de 1950 e 1960, j ustam ente quando o brilho do poder estratégico de Washington era m ais intenso do que nunca. Em outra linha, Henry R. Nau sustentou que a década de 1980 assinalou o início de um a nova fase de afirm ação da liderança estratégica e do poderio econôm ico dos Estados Unidos, abalados pelos im passes e pela indecisão típicos do período anterior, m arcado pela retirada do Vietnã, o “caso Watergate”, a revolução iraniana e a vitória sandinista na Nicarágua.
A tese do declínio entrou, ela própria, em declínio durante o longo
ciclo ascendente da econom ia am ericana, na década de 1990. O brilho econôm ico renovado ganhou cores vivas pelo fato de derivar da liderança das em presas do país nos setores glam urosos de alta tecnologia e por contrastar com a dem orada recessão no Japão e na Europa. Contudo, não passaram despercebidas aos analistas m ais sofisticados as fragilidades do ciclo am ericano de crescim ento apoiado m uito m ais sobre o consum o que sobre a elevação da produtividade e fortem ente dependente da riqueza criada no m ercado de ações.
Não é preciso adotar a tese do declínio para constatar a
em ergência de polos de poder de prim eira grandeza exteriores à Am érica do Norte. A em ergência desses polos de poder perm ite esboçar o desenho de um sistem a internacional que tende à m ultipolaridade econôm ica. Essa tendência, que não suprim e a liderança estratégica dos Estados Unidos, reflete-se na im portância crescente da diplom acia com ercial, de instituições m ultilaterais com o a OMC e o FMI, e dos blocos econôm icos regionais. Ao m esm o tem po, explica o com plexo j ogo de ações unilaterais, pressões, com posições de interesses e com prom issos que viabilizam o exercício da liderança am ericana.
A noção da Pax Am ericana descreve apenas parcialm ente as
características do sistem a internacional. Isoladam ente, ela não é capaz de explicar as com plexas reacom odações geopolíticas que envolvem a consolidação dos blocos econôm icos regionais ou do exercício de poder e influência por parte de potências com o a China, a Rússia, o Japão, a França e a Alem anha.
Sam uel Huntington sintetizou as dificuldades para a descrição da
estrutura do atual sistem a de Estados e ofereceu um a proposição conceitual:
Existe, agora, apenas um a superpotência. Mas isso não significa que o m undo é unipolar. Um sistem a unipolar teria um a superpotência, nenhum a grande potência e diversas potências m enores. Com o resultado, a superpotência poderia, de m odo efetivo, resolver sozinha im portantes assuntos internacionais e nenhum a coalizão entre outros Estados teria o poder de im pedi-la de agir assim . Durante diversos séculos, o m undo clássico sob Rom a [...] aproxim ou-se desse m odelo. Um sistem a bipolar com o o da Guerra Fria tem duas superpotências, e as relações entre elas são centrais para a política internacional. [...] Um sistem a m ultipolar tem várias grandes potências de força com parável que cooperam e com petem entre si, segundo padrões cam biantes. [...] A política internacional contem porânea não se aj usta em qualquer desses três m odelos. Ela consiste num estranho híbrido, um sistem a uni/m ultipolar, com um a superpotência e várias grandes potências. A solução para assuntos internacionais cruciais requer a ação da única superpotência m as sem pre em algum a com binação com outras grandes potências; a superpotência pode, contudo, em assuntos cruciais, vetar a ação pretendida por um a
coalizão dos outros Estados.
O sistem a internacional atual parece funcionar segundo a
dinâm ica sugerida por Huntington. Nenhum a iniciativa im portante, sej a no terreno estratégico, sej a no econôm ico e com ercial, pode frutificar sem o aval dos Estados Unidos. Até m esm o tratados com o o do TPI e o Protocolo de Ky oto parecem condenados a funcionar no m áxim o precariam ente devido à oposição de Washington. No entanto, os Estados Unidos precisam de algum tipo de apoio de outras grandes potências nos m om entos decisivos.
A hiperpotência não faz o que quer, do m odo com o quer. Em 2002,
apesar do seu poder m ilitar virtualm ente incontrastável, Washington decidiu-se a negociar, no quadro do Conselho de Segurança (CS) da ONU, um a resolução que abria as portas para o ataque e a ocupação do Iraque de Saddam Hussein. A incapacidade de Washington de passar a resolução não evitou a guerra, m as gerou fortes em baraços à “Nova Rom a”.
A estrutura do sistem a de Estados talvez possa ser m ais bem
com preendida pela análise das suas duas cam adas superpostas. A prim eira, a do poder das arm as, apresenta-se nitidam ente unipolar e convida a raciocinar nos term os da Pax Am ericana. Os m om entos de aguda tensão geopolítica e os conflitos m ilitares tendem a enfatizar essa dim ensão do sistem a interestatal. A segunda, a do poder do dinheiro, apresenta-se m ultipolar e assim étrica, revelando a form ação de blocos geoeconôm icos m acrorregionais.
Zbigniew Brzezinski sugeriu um esquem a cartográfico para
representar o sistem a caracterizado por Huntington com o “uni-m ultipolar”. A força desse esquem a consiste em destacar a dinâm ica sim ultânea da liderança am ericana e da form ação de blocos geoeconôm icos regionais.
A Doutrina Bush exerceu im pactos am bivalentes sobre as relações
da hiperpotência com as grandes potências. De um lado, o unilateralism o am ericano gerou tem ores, desconfianças e, sobretudo, acentuou os sentim entos de insegurança. De outro, paradoxalm ente, produziu certo revigoram ento das relações de Washington com Moscou e Pequim .
A Rússia e a China deparam - se com am eaças internas ou na sua
periferia im ediata. No caso russo, há os rebeldes da Che chênia, que utilizam ações terroristas. No caso chinês, num a escala m enor, existem os desafios dos m uçulm anos do extrem o Oeste e do nacionalism o tibetano. A noção da “guerra ao terror” e o direito à guerra preventiva ser vem , em tese, para conferir a Moscou e a Pequim um a nova liberdade de m ovim ento. Além disso, a derrubada do regim e do Taleban e a repressão aos m ovim entos fundam entalistas islâm icos coincidem com os interesses estratégicos de russos e chineses na Ásia Central. A “guerra ao terror” tam bém foi saudada entusiasticam ente pela Índia, pois forçou o regim e paquistanês a reprim ir ou, no m ínim o, colocar em quarentena os grupos islâm icos que funcionam com o pontas de lança do conflito crônico da Cachem ira.
Entretanto, as grandes potências — com a exceção parcial e
qualificada da Grã-Bretanha — ressentem -se da visão neo-im perial da Doutrina Bush, que se m anifesta no exercício brutal de hegem onia protagonizado pelos Estados Unidos. A m anutenção da capacidade das grandes potências de defender interesses estratégicos globais e exercer influência regional dem anda a lim itação do poder dos Estados Unidos.
A síntese de Huntington sobre o funcionam ento do sistem a uni-
m ultipolar é, na verdade, incom pleta. Num sistem a desse tipo, as grandes potências precisam , em nom e dos seus próprios interesses gerais, cooperar para contrabalançar o poder da única superpotência. No caso do sistem a atual de Estados, essa tendência se exprim e na defesa do m ultilateralism o e na afirm ação da precedência das instituições m ultilaterais contra os im pulsos unilateralistas de Washington. É por isso que as potências europeias, inclusive a Grã-Bretanha, uniram -se em torno do tratado do TPI e do Protocolo de Ky oto, afrontando abertam ente a posição am ericana. É por isso tam bém que, em 2002, a França, a Rússia e a China uniram forças no CS da ONU e bloquearam a resolução que legitim aria a ocupação do Iraque.
No sistem a uni-m ultipolar, a Pax am ericana não pode ser
sim plesm ente im posta, tem de em anar de um a negociação. Essa negociação organiza-se em torno da política e das prioridades da hiperpotência, e seus resultados não podem contrariá-la. Contudo, quando as grandes potências conseguem alcançar um a posição consensual ou am plam ente m aj oritária, a hiperpotência é obrigada a adaptar a sua política às circunstâncias.
A ONU adquire um a nova im portância no atual sistem a
internacional. As grandes potências precisam do CS para form ular posições com uns e, sobre essa base, lim itar e am enizar os im pulsos unilateralistas da hiperpotência. Mas a hiperpotência tam bém precisa do quadro m ultilateral do CS, que funciona com o fonte de legitim ação das suas prioridades, políticas e orientações.