Relações Internacionais: Teoria e História

Demétrio Magnoli · Capítulo 35 de 43

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Relações Internacionais: Teoria e História

Capítulo 19 · O Indostão e

 

A ÁSIA CENTRAL

A India, principal potência da Ásia Meridional, ocupa posição

dom inante no Indostão ou Subcontinente Indiano. A população perfaz praticam ente 1,1 bilhão de habitantes e apresenta taxa de crescim ento vegetativo superior à da China, o que perm ite prever que a Índia alcançará 1,5 bilhão de habitantes em 2040, tornando-se a m aior potência dem ográfica m undial.

O Estado indiano, surgido da descolonização, caracteriza-se antes

de tudo pela diversidade, que é étnica, linguística, religiosa e cultural. Centenas de dialetos regionais convivem na Babel indiana. O hindi, língua nacional, é utilizado por pouco m ais de um terço da população e convive com 14 outras línguas oficiais. O inglês é a língua das elites e funciona com o principal veículo para as com unicações com erciais e políticas nacionais.

A religião m aj oritária, o hindu, congrega cerca de 81% da

população. A m inoria m uçulm ana está concentrada na Índia setentrional e perfaz 12% da população, o que equivale a cerca de 130 m ilhões de habitantes e torna a Índia o segundo m aior país m uçulm ano do m undo, superado apenas pela Indonésia. Existem inúm eras outras m inorias religiosas, entre as quais se destacam , em função do papel político que desem penham , os 20 m ilhões de sikhs do Punj ab. O sistem a de castas da cultura hindu divide a população em 3 m il castas e 25 m il subcastas. Mesm o não reconhecido pela Constituição e cada vez m ais enfraquecido no m eio urbano, o sistem a de castas continua a estruturar as relações sociais no m eio rural, onde vivem em torno de 70% dos indianos.

A pluralidade social e cultural da Índia reflete o m osaico de

civilizações que floresceram no Indostão. Mas essa pluralidade entra em contradição com a unidade e a coesão que costum am caracterizar o Estado-Nação contem porâneo e se expressa num a m iríade de conflitos e tensões regionais. Os dois focos destacados de conflitos separatistas são a Cachem ira, onde se desenvolve a disputa internacional com o Paquistão, e o Punj ab, que é palco do m ovim ento separatista dos sikhs. Mas o eixo principal de tensões, em escala nacional, é form ado pela rivalidade entre a m aioria hindu e a m inoria m uçulm ana.

Essa é um a rivalidade de fundas raízes históricas, ligadas às

conquistas m uçulm anas no vale do Ganges, ao estabelecim ento do sultanato de Delhi, no século XIII e do im pério Mogol, no século XVI, que chegou a estender o seu dom ínio sobre quase toda a Índia. As revoltas hindus contra Aurangzeb perm itiram a criação do Reino Mahratta, no final do século XVII e enfraqueceram o poder Mogol, abrindo cam inho para o reforço das posições europeias no litoral.

Mas as form as da rivalidade contem porânea entre as duas grandes

religiões do Indostão surgiram da partição da Índia britânica, em 1947. A criação do Paquistão com o Estado m uçulm ano gerou identidades nacionais erguidas sobre alicerces religiosos. Essa identificação entre nação e religião é explícita no Paquistão. Na Índia, em bora oficialm ente rej eitada, constitui um a realidade política e cultural inegável.

O Congresso Nacional Indiano, origem da Índia independente,

concebeu um Estado laico e dem ocrático, fundado na separação entre a esfera pública da política e a esfera privada da religião. A dem ocracia indiana produz, periodicam ente e sem interrupção desde a independência, o acontecim ento das m aiores eleições livres de todo o m undo. Esse é o esteio m ais firm e da unidade da Índia. Contudo, na década de 1990, o acirram ento dos conflitos entre hindus e m uçulm anos configurou um a am eaça real ao caráter laico e dem ocrático do Estado indiano.

As tensões religiosas adquiriram intensidade e dram atism o em

1992-1993, quando eclodiram sangrentos confrontos entre hindus e m uçulm anos no vale do Ganges e na Índia ocidental. Esses episódios enraizaram o Bharatiy a Janata Party (BJP), partido nacionalista hindu, entre as populações da Índia setentrional. O desgaste crescente do Partido do Congresso, atingido por desm oralizadores escândalos de corrupção desde o governo de Indira Gandhi (1966-1977), conferiu ainda m aior apelo ao BJP, principalm ente nos grandes centros urbanos. No final da década de 1990, pela prim eira vez, o Partido do Congresso sofreu um revés eleitoral decisivo. O resultado foi a form ação de um gabinete liderado pelo BJP.

Por princípio, os nacionalistas do BJP identificam a nação indiana

à religião hindu. Nos seus prim eiros tem pos, quando constituíam um pequeno núcleo oposicionista, os líderes do BJP prom etiam m udar a Constituição e conferir privilégios aos hindus. O discurso fundam entalista am enizou-se aos poucos e tendeu a tornar-se circunstancial depois da chegada do partido ao poder. Mas os m uçulm anos tem em que os velhos princípios se expressem , eventualm ente, com o política de governo. Nessa hipótese, o Estado indiano estaria colocado diante de um a encruzilhada histórica e as bases institucionais da unidade da Índia teriam sido violentam ente solapadas.

A política externa indiana conservou notável coerência desde a

independência. O neutralism o, elaborado no governo de Nehru, expressou-se ativam ente pela participação, em posição de liderança, no Movim ento dos Países não-Alinhados. Durante a Guerra Fria, a Índia não integrou o dispositivo de alianças m ilitares pró-ocidentais na orla asiática e firm ou tratados de cooperação econôm ica e tecnológica com Moscou.

O governo de Nehru e, m ais ainda, o de Indira Gandhi procuraram

consolidar a liderança da Índia no Indostão. A rivalidade com o Paquistão conduziu Nova Delhi a apoiar m ilitarm ente a secessão do Paquistão Oriental (Bengala), que originou o Estado de Bangladesh.

A Índia m antém disputas de fronteiras com Bangladesh e o Nepal.

Contudo, a disputa realm ente explosiva é a que envolve o Paquistão e a China, e tem por foco a Cachem ira.

O encerram ento da Guerra Fria e a im plosão da União Soviética

aprofundaram drasticam ente a percepção de insegurança da Índia. No plano geopolítico, a am eaça continental representada pela China deixou de ser contrabalançada pelos laços especiais tecidos com a União Soviética. À am eaça continental, som a-se a am eaça regional, representada pelo Paquistão. O am biente externo hostil tem provocado, com o reações, a aceleração do program a nuclear e um a disposição para o estreitam ento de relações com os Estados Unidos. É nesse contexto que se situa a estratégia de m odernização e liberalização de um a econom ia que m escla fundam entos arcaicos com elem entos de surpreendente dinam ism o.

 

O conflito indo-paquistanês

A rivalidade regional entre a Índia e o Paquistão tem as suas raízes

na estratégia britânica de descolonização e nas divergências entre o Partido do Congresso e a Liga Muçulm ana, que conduziram à bipartição da União Indiana segundo critérios político-religiosos. A soberania sobre a Cachem ira, região encravada na faixa de fronteiras do Him alaia, fixou-se com o foco m ais im portante da rivalidade entre os dois novos Estados.

Em outubro de 1947, a Cachem ira tornou-se palco da prim eira

guerra indo-paquistanesa. Confrontado com um a invasão de forças tribais paquistanesas, o m araj á hindu que governava a região m aj oritariam ente m uçulm ana optou pela adesão à Índia, em bora preferisse a independência. Um a resolução do Conselho de Segurança da ONU, em abril de 1948, exigiu a retirada das forças paquistanesas e determ inou a realização de um plebiscito regional para a escolha entre a adesão à Índia ou ao Paquistão.

O plebiscito j am ais foi realizado e a Cachem ira passou a refletir o

antagonism o entre os princípios de construção nacional dos Estados rivais. O Paquistão ergueu-se sobre o princípio das “duas nações”, segundo o qual a religião define as identidades nacionais distintas de paquistaneses e indianos. Esse princípio fundam enta a reivindicação de soberania sobre o território da Cachem ira. Porém , o princípio nacional indiano assenta-se sobre a precedência da língua e da cultura. A secessão da região m uçulm ana de Bengala com o Paquistão e a independência de Bangladesh são apresentados pela Índia com o provas da falácia do princípio da identidade religiosa.

A Cachem ira é um a região histórico-geográfica situada na faixa

de contato entre a Ásia Central m uçulm ana e as civilizações indiana e chinesa. Com território de aproxim adam ente 220 m il km , é atravessada por duas cadeias m ontanhosas paralelas: o Hindu-Kush e o Him alaia. A m aior parte da região está situada em cotas de 2 a 6 m il m etros de altitude e diversos picos ultrapassam os 7 m il m etros. Entre o Hindu-Kush e o Him alaia encontra-se o vale do rio Indo, que nasce nos altos planaltos tibetanos do sudoeste da China e percorre quase toda a Cachem ira, antes de entrar no Paquistão.

O Indo constitui o corredor vital da geografia e da econom ia

paquistanesas. Seus principais afluentes, na m argem esquerda, têm nascentes na Cachem ira indiana e a m aior parte de seus cursos no Paquistão. As águas do Indo e as de seus afluentes abastecem o m aior perím etro irrigado do m undo, que é o núcleo geoeconôm ico do Paquistão.

Na prim eira m etade da década de 1960, duas guerras explodiram

na Cachem ira. O estatuto regional atual é produto desses conflitos. Hoj e, a Cachem ira abriga pouco m ais de 10 m ilhões de habitantes e está dividida entre Índia, Paquistão e China. A Cachem ira indiana, com pouco m ais de 100 m il km e cerca de 6,5 m ilhões de habitantes, corresponde ao Estado de Jam u/Cachem ira, o único de m aioria dem ográfica m uçulm ana. Jam u/ Cachem ira pode ser dividido em três sub-regiões culturais. A prim eira corresponde ao vale do rio Jhelum , habitado predom inantem ente por m uçulm anos sunitas. Esse é o núcleo histórico da Cachem ira, onde se localiza a cidade de Srinagar. A segunda sub-região é o Jam u, nos contra-fortes do Him alaia, na parte m eridional da Cachem ira, habitado m aj oritariam ente por hindus. A terceira sub-região é o Ladakh, m uito acidentada e pouco povoada, com m aioria de tibetanos budistas.

Um a linha de controle separa o Estado de Jam u/Cachem ira da

Cachem ira paquistanesa, que ocupa cerca de 78 m il km e abriga quase 3,5 m ilhões de habitantes, na sua m aioria m uçulm anos xiitas. A Cachem ira paquistanesa com preende duas sub-regiões: os Territórios do Norte, com cerca de 600 m il habitantes, e o Azad Cachem ir (Cachem ira Livre), com população pouco inferior a 3 m ilhões. A cham ada Cachem ira Livre dispõe de autonom ia lim itada e funciona, do ponto de vista da propaganda paquistanesa, com o m odelo político para a adm inistração futura de um a Cachem ira reunificada.

A Cachem ira chinesa foi, em parte, conquistada na guerra sino-

indiana de 1962. Com apenas cerca de 40 m il km e alguns m ilhares de habitantes, corresponde quase totalm ente à área do Aksai Chin, que está ligada à região autônom a do Tibete.

A Índia considera toda a região com o parte integrante de seu

território. O Paquistão considera-se um país incom pleto, enquanto não conseguir a incorporação da Cachem ira. Oficialm ente, a China aceita discutir o futuro da área que controla, m ediante um acordo bilateral prévio entre Nova Delhi e Islam abad. Entre os habitantes da região, um a pesquisa independente de opinião conduzida em 1995 apurou larga m aioria favorável à independência.

Por suas próprias faltas, a Índia perdeu os corações e as m entes

dos habitantes da Cachem ira. Nos tem pos de Nehru, o m ais popular líder m uçulm ano regional, o xeque Muham m ad Khan, preferia o secularism o indiano ao sectarism o religioso paquistanês. Mas quando o xeque flertou com a ideia da independência, conheceu a prisão na Índia. Mais tarde, seu filho, Farooq Khan, participou do m inistério de Indira Gandhi, até ser rudem ente afastado.

A guerra de 1962 e o desenvolvim ento do program a nuclear

chinês, até o teste atôm ico de 1964, im pulsionaram os esforços indianos para a construção de um a bom ba atôm ica. Em 1974, a Índia conduziu o seu prim eiro teste nuclear e definiu a sua política, que consiste na com binação da “dissuasão m ínim a” e da doutrina de uso do arsenal nuclear apenas em resposta a um a agressão nuclear prévia. No plano internacional, Nova Delhi assum iu a linha de frente da crítica ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), consubstanciando a sua política em sucessivas propostas voltadas para o desarm am ento nuclear global. Jaswant Singh sum arizou essa política, sob a perspectiva de Nova Delhi:

A Índia foi o prim eiro Estado a pedir o banim ento dos testes nucleares, em 1954, um tratado não discrim inatório de não-proliferação, em 1965, um tratado de não utilização de arm as nucleares, em 1978, o congelam ento dos arsenais nucleares, em 1982, e um program a em etapas de elim inação com pleta de arm as nucleares em 1988. Desafortunadam ente, a m aior parte dessas iniciativas foram rej eitadas pelas potências nucleares, que ainda consideram essas arm as essenciais para a sua própria segurança. O que em ergiu, consequentem ente, é um regim e discrim inatório e equivocado de não-proliferação que am eaça a segurança da Índia.

Em função da sua política externa neutralista, a Índia se distingue

crucialm ente dos países europeus e do Japão, pois não dispõe da segurança fornecida pelos Estados Unidos. Assim , do ponto de vista de Nova Delhi, o TNP representava, pura e sim plesm ente, o congelam ento da vulnerabilidade indiana diante da China.

Na década de 1990, a im plosão da União Soviética e o

fortalecim ento econôm ico e m ilitar da China acenderam luzes verm elhas entre os estrategistas de Nova Delhi. Concom itantem ente, a ascensão do BJP, no contexto de crise do sistem a político indiano e ruptura da hegem onia do Partido do Congresso, provocou o recrudescim ento das tensões indo-paquistanesas. Esse foi o pano de fundo dos cinco testes nucleares conduzidos pela Índia no deserto do Raj astão, em m aio de 1998.

Mas os testes indianos constituíram , m ais especificam ente, um a

resposta à evolução dos tratados e regim es internacionais voltados para a não-proliferação nuclear. Em 1995, a vigência do TNP foi estendida indefinida e incondicionalm ente. Em 1996, após um a série de explosões chinesas, foi assinado o tratado de banim ento de testes nucleares. Esses eventos assinalaram o fracasso da diplom acia indiana voltada para o desarm am ento nuclear geral, reafirm aram o status quo discrim inatório e, sobretudo, am eaçaram congelar ou m esm o am pliar a vantagem estratégica da China diante da Índia.

Os testes de 1998 evidenciaram a decisão estratégica da Índia de

prosseguir no curso de edificação de um a dissuasão m ínim a contra a China, assegurando a m odernização e o caráter operacional do seu pequeno arsenal nuclear. Mas com o era de esperar, a lógica da situação aguçou a percepção de insegurança paquistanesa, provocando reação im ediata. O Paquistão provavelm ente dispunha da capacidade de construir um artefato nuclear desde m eados da década de 1980. Essa capacidade foi evidenciada pelos seis testes no Baluquistão realizados logo depois das explosões indianas.

As explosões nucleares dos Estados rivais do Indostão

estrem eceram os alicerces de todo o edifício de não-proliferação erguido durante décadas e coroado pelo tratado de banim ento de testes. O seu significado não pode ser m inim izado: pela prim eira vez, Estados que não fazem parte do CS da ONU alçavam -se, abertam ente, à condição de potências nucleares.

No m om ento das explosões indianas e paquistanesas, o TNP

abrangia 182 Estados não-nucleares, além das cinco potências nucleares do CS. Apenas quatro Estados — Índia, Paquistão, Israel e Cuba — m antinham -se fora do regim e global. Entre esses Estados, a Índia tinha realizado, m ais de duas décadas antes, um único teste nuclear, Israel e o Paquistão dispunham de arm as nucleares, porém j am ais tinham realizado testes conhecidos e Cuba quase certam ente não dispunha de arm as nucleares. Com as explosões no Indostão, o TNP subitam ente parecia se esvaziar de legitim idade e eficácia. Poucos m eses depois, Strobe Talbott, subsecretário de Estado am ericano, colocou o dedo na ferida:

[...] desde os testes da Ásia m eridional, diversos Estados não-nucleares registraram , enfaticam ente, que ao aderir ao TNP, estavam aceitando a existência de cinco Estados que tinham declarado possuir arsenais nucleares, não sete. Se falharem os esforços para sustentar o lim ite, evitando erosão m aior, os testes do ano passado poderão deflagrar

um a sucessão de retiradas do TNP.

Em m eados de 1999, as tensões crescentes na Cachem ira

degeneraram , m ais um a vez, em hostilidades abertas. Militantes m uçulm anos, apoiados m ais ou m enos abertam ente pelas forças arm adas e organism os de segurança do Paquistão, avançaram pela linha de controle e ocuparam posições na porção indiana da região. A Índia enfrentou o conflito, rej eitando propostas paquistanesas de m ediação internacional e lançando ataques aéreos e de artilharia pesada. Durante algum as sem anas, a am eaça de um desfecho nuclear pairou sobre os dois países, m as o enfrentam ento term inou com a retirada das forças apoiadas pelo Paquistão, sob um cessar-fogo tácito da Índia. A prudência da China, que preferiu m anter-se à distância da posição de Islam abad, abrindo cam inho para um eventual descongelam ento das relações com Nova Delhi, parece ter desem penhado papel decisivo no recuo paquistanês.

O desenlace representou um a hum ilhação para a política externa

paquistanesa, aprofundou a crise institucional no país e preparou terreno para a tom ada do poder pelos m ilitares. Mais im portante que isso, o eco da artilharia nas alturas do Him alaia revelou a extrem a fragilidade de toda a arquitetura estratégica asiática, que não está adaptada à existência das duas novas potências nucleares.

A Doutrina Bush, assentada sobre a “guerra ao terror”, tem

im pacto direto no conflito indo-paquistanês. O governo paquistanês foi forçado a abandonar o Taleban e apoiar a cam panha am ericana no Afeganistão, após os atentados de 11 de setem bro de 2001. A decisão de alinham ento a Washington colocou Islam abad em rota de colisão com os partidos islâm icos fundam entalistas e, até certo ponto, com seus próprios serviços secretos, que treinam os separatistas da Cachem ira.

Se a posição paquistanesa foi fragilizada pela “guerra ao terror”, a

da Índia ganhou nova força e alento. Em dezem bro de 2001, durante os bom bardeios am ericanos no Afeganistão, m ilitantes fundam entalistas islâm icos praticaram um sangrento atentado contra a sede do Parlam ento indiano, em Nova Delhi. A reação indiana consistiu em utilizar o argum ento da guerra ao terror para exigir que Islam abad reprim isse os partidos fundam entalistas paquistaneses. Encurralado, o governo paquistanês não encontrou alternativa senão prender centenas de m ilitantes islâm icos e proibir o funcionam ento de dois grupos extrem istas.

 

Geopolítica dos dutos na Ásia Central

A Ásia Central é a m acrorregião habitada por povos m uçulm anos e form ada pelo Afeganistão e cinco antigas repúblicas soviéticas — Cazaquistão, Uzbequistão, Turcom enistão, Tadj iquistão e Quirguistão. Ao Norte, lim ita-se com a Rússia; a Leste, com a China; ao Sul, com o Paquistão; a Oeste, com o Irã. Desde a Antiguidade, a Rota da Seda conectou o Mediterrâneo ao Indostão e à China, com a travessia da Ásia Central. Por m eio dessa rota m ítica, persas e turcos difundiram influências culturais, que se sedim entaram nas línguas e na religião dos inúm eros grupos étnicos centro-asiáticos.

No século XIX, russos e britânicos engaj aram -se no “Grande

Jogo”, com o Rudy ard Kipling alcunhou a longa e com plexa disputa que se desenrolou no Afeganistão, m as que tinha por foco o controle do Indostão. O im pério Russo tentava prosseguir a sua m archa de conquista na Ásia Central, até atingir o Oceano Índico. A Grã-Bretanha procurava consolidar a sua obra im perial no Indostão e ganhar acesso à rota interior para a Pérsia e a China. O Grande Jogo conduziu à delim itação das fronteiras do Afeganistão, em 1893. O novo Estado centro-asiático funcionaria com o separação entre os dom ínios russos, ao Norte, e britânicos, ao Sul.

Em toda a m acrorregião, as fronteiras dos Estados atuais separam

grupos étnicos e culturais. Na China, vivem m ais de um m ilhão de cazaques. O Afeganistão abriga um a num erosa m inoria de uzbeques. Os tadj iques participam do tronco linguístico persa; os turcom enos, cazaques e uzbeques participam do tronco linguístico turco. O traçado das fronteiras reflete o poder das potências — Grã-Bretanha, Rússia e União Soviética — e não a história dos povos centro-asiáticos.

Na Ásia Central, especialm ente na área do Mar Cáspio,

encontram -se vastas reservas, em início de exploração, de gás natural e petróleo. A bacia do Cáspio abriga reservas com provadas de 28 bilhões de barris de petróleo e quase 70 bilhões de barris equivalentes de petróleo em gás natural. Provavelm ente, as reservas são m uito m aiores, pois as prospecções encontram -se ainda em estágio inicial.

A m aior parte dos cam pos de petróleo se encontram em território

do Cazaquistão, e a m aior parte do gás, no deserto do Turcom enistão. Em bora m uito m enores que as do Golfo Pérsico, as reservas do Cáspio são grandes o suficiente para atrair investim entos bilionários das transnacionais do petróleo e para que a região j á sej a vista com o a “nova fronteira” dos hidrocarbonetos. Sob a perspectiva dos investim entos estrangeiros, um dos grandes trunfos da bacia do Cáspio reside no fato de que, ao contrário do Golfo Pérsico, seus recursos estão disponíveis para exploração pelas grandes em presas ocidentais. Mobil, Chevron, Texaco, Agip e British Gas estiveram entre as prim eiras em presas a firm ar contratos no Cazaquistão.

A bacia do Cáspio é a única vasta reserva de hidrocarbonetos

distante de qualquer saída oceânica. A Rússia controla o grande duto que escoa petróleo e gás para o Mar Negro (rota 2, no m apa). Outro duto, m ais recente, parte do Azerbaij ão e atinge o porto de Supsa, na Geórgia (rota 3). Apenas um gasoduto de pequena extensão, que conecta o Turcom enistão ao Norte do Irã, inaugurado em 1997, evita o território russo. O novo “Grande Jogo” que se desenvolve na Ásia Central tem por foco as rotas dos futuros dutos que viabilizarão as exportações de petróleo e gás.

A diplom acia dos dutos na Ásia Central é um j ogo com plexo, pois

os interesses em presariais m uitas vezes estão em conflito com os interesses geopolíticos. A Rússia pressiona pela construção de um novo duto, ligando o Cazaquistão ao Mar Negro, por dentro do seu território (rota 1), e pela interligação das reservas cazaques ao seu sistem a nacional de dutos (rota 4). Todas essas soluções tendem a reforçar o poder de Moscou sobre a antiga Ásia Central soviética.

A China participa ativam ente da diplom acia dos dutos, com o

proj eto de um a rota oriental que conectaria as reservas do Cazaquistão ao seu território (rota 10). Esse duto percorreria cerca de 2 m il quilôm etros apenas em território cazaque, envolvendo custos astronôm icos. As suas j ustificativas não se encontram na esfera da econom ia, m as na da geopolítica.

 

As rotas ocidentais são as preferidas pelos Estados Unidos, m as a

Turquia alega que o Estreito de Bósforo não com porta a expansão do trânsito de superpetroleiros. Nessas condições, Washington parece apostar na construção de um duto ligando a Geórgia ao porto turco de Cey han, no Mediterrâneo (rota 5). Essa solução, evidentem ente, agrada à Turquia e às antigas repúblicas soviéticas do Cáucaso. Contudo, envolve custos elevados, inclusive de construção de dutos transcaspianos (rotas 6 e 7). Além disso, no cam inho para Cey han, o novo duto atravessaria o turbulento Curdistão turco.

Do ponto de vista em presarial, as m elhores soluções são as rotas

m eridionais. Contudo, essas rotas apresentam sérios inconvenientes estratégicos. Há proj etos de conexões entre o Turcom enistão e o Mar Mediterrâneo ou o Golfo Pérsico, por dentro do Irã (rotas 8 e 9). Mas esses proj etos enfrentam a oposição de Washington, que não quer transform ar o Irã em corredor dos hidro-carbonetos do Cáspio.

A em presa am ericana Unocal expressou interesse em construir

um oleoduto e um gasoduto entre o Turcom enistão e o Paquistão, pelo território afegão (rota 11). Geográfica e econom icam ente, a ideia tem sentido, m as o obstáculo é a instabilidade política crônica no Afeganistão.

 

Função estratégica do Afeganistão

O Afeganistão surgiu com o Estado-tam pão, na m oldura da disputa

 

anglo-russa do século XIX. Essa entidade geopolítica artificial reúne grupos étnicos e culturais disparatados, cuj as histórias estão associadas às dos povos dos países vizinhos — Paquistão, Uzbequistão, Tadj iquistão e Turcom enistão. A fronteira cultural básica separa os tadj iques, uzbeques e hazaras do norte da num erosa etnia pashtun do Sul.

O país é cortado diagonalm ente por dois grandes sistem as

m ontanhosos, separados pelo extenso vale do rio Cabul, que é tributário do Indo. Ao longo da história, os conquistadores do Afeganistão sem pre conseguiram se estabelecer em Cabul, m as j am ais tiveram o controle das cordilheiras, que funcionam com o santuários e plataform as para os guerrilheiros. Os britânicos, no século XIX, e os soviétcos, no século XX, vivenciaram as dificuldades intransponíveis que a geografia física coloca diante dos em preendim entos de controle do conj unto do território afegão.

Sob a perspectiva da antiga União Soviética, o Afeganistão era um

elem ento geopolítico crucial para a estabilidade das repúblicas da Ásia Central soviética. Um a influência decisiva de Moscou sobre o Estado afegão parecia indispensável para evitar o surgim ento de m ovim entos separatistas m uçulm anos nas repúblicas centro-asiáticas, especialm ente no Uzbequistão, Tadj iquistão e Turcom enistão. Quando, em 1979, essa influência foi abalada por um a m udança de regim e em Cabul, a União Soviética deflagrou a ocupação m ilitar do Afeganistão.

Durante um a década, o Afeganistão foi o “Vietnã da União

Soviética”. Os guerrilheiros m uj ahedin afegãos receberam financiam ento dos Estados Unidos e da China. Arm as e suprim entos fluíam pelo Paquistão. Controlando as m ontanhas, sob a direção dos senhores da guerra regionais, os m uj ahedin j am ais perm itiram a consolidação do dom ínio soviético, que se lim itava a Cabul e a algum as rotas estratégicas. A desm oralizante retirada soviética, em 1989, contribuiu para acelerar a crise que conduziria à im plosão do “im pério verm elho”.

Do ponto de vista paquistanês, o Afeganistão apresenta um duplo

interesse. De um lado, a influência sobre o país vizinho perm itiria que o Paquistão se tornasse o corredor principal entre os hidrocarbonetos do Cáspio e o m ercado m undial. De outro, o controle sobre o regim e de Cabul conferiria ao Paquistão a profundidade estratégica necessária para sustentar um prolongado conflito com a Índia. Depois da retirada soviética, o Estado afegão entrou em virtual dissolução, com o resultado da guerra entre as facções m uj ahedin rivais. Nesse am biente, sob o patrocínio paquistanês, surgiu o grupo fundam entalista Taleban, que chegaria ao poder em 1997.

O Taleban nasceu nas m adrassas, as escolas islâm icas sunitas

m antidas pelo Jam iat e Ulem a e Islam (JUI), partido fundam entalista paquistanês, nos dois lados da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Financiado e arm ado pelos serviços secretos de Islam abad, o Taleban aproveitou-se da guerra clânica afegã para conquistar apoio popular na etnia pashtun, que habita o Sul e Oeste paquistanês e o Sul afegão. O controle dos “guerreiros da fé” do Taleban sobre Cabul e o Afeganistão m eridional encurralou os grupos m uj ahedin enfraquecidos no Norte do país.

No poder, reconhecido apenas pelo Paquistão, Arábia Saudita e

Em irados Árabes Unidos, o regim e Taleban im plantou a lei corânica e isolou o Afeganistão da com unidade internacional. A sua radicalização fundam entalista conduziu a Rússia a financiar a guerrilha residual dos m uj ahedin e provocou tensões crescentes com o Irã xiita. Em pouco tem po, até m esm o o governo de Islam abad descobriu que o Taleban não podia ser controlado do exterior.

Os atentados de 11 de setem bro em Nova York e Washington

foram fruto da cooperação entre o regim e Taleban e o grupo terrorista islâm ico Al-Qaeda, liderado pelo saudita Osam a Bin Laden. A Al-Qaeda surgiu a partir da ruptura de Bin Laden com a m onarquia saudita, em virtude da aliança da Arábia Saudita com os Estados Unidos na Guerra do Golfo de 1991. O líder terrorista, que havia com batido a ocupação soviética ao lado dos m uj ahedin, na década de 1980, instalou o seu quartel-general no Afeganistão. Sob a proteção do Taleban, a Al-Qaeda articulou atentados ousados contra alvos am ericanos no Oriente Médio e no Leste africano. Em agosto de 1998, o presidente am ericano Bill Clinton ordenou um ataque de m ísseis contra cam pos de treinam ento da Al-Qaeda no Afeganistão.

A intervenção am ericana e a derrubada do Taleban, no início de

2002, assinalam o início de um a nova etapa na história turbulenta do Afeganistão. O regim e instalado em Cabul, sob o patrocínio de Washington e das Nações Unidas, representa um a coalizão am pla de lideranças étnicas e clânicas. A coesão desse regim e estruturalm ente instável depende da presença de forças m ilitares estrangeiras. Mesm o assim , o poder governam ental só é exercido plenam ente na área de Cabul, pois diferentes senhores da guerra m antêm o controle das regiões distantes da capital.

A cam panha no Afeganistão proporcionou a Washington a

oportunidade para o estabelecim ento de bases m ilitares nas repúblicas centro-asiáticas vizinhas, que fazem parte da CEI. No plano geopolítico, a presença m ilitar am ericana em Estados do “Exterior Próxim o” da Rússia seria inim aginável antes do 11 de setem bro. A m anutenção dessas bases e o estreitam ento de laços diplom áticos com os governos centro-asiáticos conferem aos Estados Unidos um a forte influência na m acrorregião, que certam ente se desdobrará no novo “Grande Jogo” pelo controle dos recursos naturais do Cáspio.