Relações Internacionais: Teoria e História

Demétrio Magnoli · Capítulo 28 de 43

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Relações Internacionais: Teoria e História

Capítulo 15 · Economia: Crise da

 

ORDEM BRETTON WOODS

A em ergência da indústria m oderna, no final do século XVIII,

divide a história da civilização ocidental em duas épocas nitidam ente distintas. Antes dela, a econom ia repousava sobre um a base técnica que se tranform ava m uito lentam ente: os m oinhos de água da Baixa Idade Média não eram m uito diferentes dos m oinhos rom anos da Antiguidade. Depois dela, a transform ação tecnológica tornou-se o fundam ento da vida econôm ica: as m áquinas de fiar inglesas da Prim eira Revolução Industrial desapareceram em poucas décadas e as locom otivas a vapor do século XIX foram relegadas aos m useus no século XX.

Dos pontos de vista social e cultural, as civilizações pré-industriais

norteavam -se pela tradição, ou sej a, pela reiteração das práticas e dos m odos de pensar ancestrais, enquanto as sociedades industriais norteiam -se pela m udança, ou sej a, pela ruptura incessante com o passado. A dinâm ica da econom ia industrial consiste em reiterar não a tradição, m as a ruptura, configurando aquilo que pode ser cham ado – num a paráfrase do pensador m exicano Octávio Paz – de “tradição da ruptura”.

A econom ia industrial desenvolve-se, desde o nascim ento das

fábricas inglesas, através de ciclos longos que com eçam com um a fase de rápido crescim ento e acum ulação de capital, percorrem um a fase de estabilização e, em seguida, conhecem um a fase descendente caracterizada pela redução do crescim ento e dos lucros em presariais. O russo Nikolai Krondatieff, pesquisando na década de 1920 as estatísticas de produção industrial, consum o, preços, j uros e salários da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da França, foi o prim eiro a identificar esses ciclos longos, constituídos por fases de prosperidade, recessão, depressão e recuperação a intervalos de 40 a 60 anos, entre 1782 e 1845 (Prim eira Revolução Industrial) e entre 1845 e 1892 (Segunda Revolução Industrial).

A tese de Krondatieff foi retom ada e desenvolvida pelo

econom ista austríaco Joseph Schum peter. Em 1927, num artigo célebre publicado na revista Econom ica, Schum peter associou os ciclos à m archa da inovação tecnológica. A teoria schum peteriana com pleta dos ciclos de inovação tecnológica apareceu num a obra publicada originalm ente no final da década de 1930, que se tornou um dos grandes clássicos do pensam ento econôm ico. Schum peter m ostrou que a econom ia industrial evolui por m eio da “destruição criadora”. Quando um conj unto de novas tecnologias encontra aplicação produtiva, as tecnologias tradicionais são “destruídas”, isto é, deixam de criar produtos capazes de com petir no m ercado e acabam por ser abandonadas. Na fase inicial, ascendente, do ciclo, as novas tecnologias proporcionam elevadas taxas de lucro e os em presários inovadores erguem verdadeiros im périos econôm icos. Na fase de estabilização, o acirram ento da com petição e a redução dos lucros assinalam a generalização do novo patam ar tecnológico. Finalm ente, a fase descendente caracteriza-se pela saturação dos m ercados e crises de superprodução, prenunciando m ais um a ruptura na base técnica, que deflagrará novo ciclo.

Alguns autores, discutindo os ciclos longos, procuraram identificar

alterações no seu funcionam ento provocadas pelas políticas key nesianas de regulação de m ercados introduzidas desde os anos 1930 nos Estados Unidos e na Europa. Esses trabalhos proporcionaram um a visão m ais agura das relações entre a econom ia e a política econôm ica, principalm ente após o advento do Sistem a de Bretton Woods.

A teoria dos ciclos longos perm ite situar a revolução

tecnocientífica contem porânea na traj etória evolutiva da econom ia industrial. Esse ciclo de inovações corresponde à ruptura do padrão tecnológico do pós-guerra, assentado sobre a eletrônica de consum o, a petroquím ica e a aeronáutica. No seu lugar, estrutura-se um padrão apoiado na m icroeletrônica, na inform ática, nas telecom unicações e na biotecnologia.

 

Os dois prim eiros ciclos tecnológicos de Schum peter estão

associados à consolidação e ao apogeu do ciclo britânico do m odelo histórico de Arrighi. O terceiro ciclo tecnológico schum peteriano assinala a substituição do ciclo britânico pelo ciclo am ericano de Arrighi. Nos Estados Unidos, o uso do petróleo com o com bustível e a tecnologia do m otor a com bustão interna, com binados com a introdução da linha de m ontagem na indústria autom obilística, proporcionaram um extraordinário salto produtivo e fizeram desabrochar a sociedade de consum o. A hegem onia econôm ica am ericana, durante o século

XX, assentou-se sobre o novo padrão tecnológico que fluiu, m ais tarde, para a Europa e o Japão.

 

Este terceiro ciclo tecnológico ativou a fase de prosperidade

econôm ica e expansão financeira dos anos 1920, que desem bocou no crash da Bolsa de Nova York em 1929. O círculo vicioso de deflação desencadeado com o crash foi agravado pelas políticas m onetárias restritivas e pelas políticas com erciais protecionistas adotadas nos principais países industriais. As im portações globais entraram em queda livre, retrocedendo de cerca de 3 bilhões de dólares em j aneiro de 1929 para m enos de 500 m ilhões em m arço de 1933. A recessão tornava-se depressão global, que não foi inteiram ente superada até a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

O padrão-ouro constituiu o arcabouço financeiro do “ciclo

britânico”, proporcionando um am biente de estabilidade cam bial no qual se estruturou a econom ia global. A Grande Depressão dos anos 1930 representou o golpe m ortal sobre o padrão-ouro e as tentativas de conservá-lo só serviram para agravar a crise econôm ica global. O colapso desse padrão assinalou o encerram ento da longa hegem onia financeira britânica.

Os Estados Unidos em ergiram da depressão antes de qualquer

outro país industrializado, a partir do esforço de guerra. No im ediato pós-guerra, em contraste com a Europa e o Japão devastados, os Estados Unidos ostentavam estruturas produtivas operando com plena capacidade. Nessa fase, a econom ia am ericana atingiu o zênite da sua hegem onia global. Em 1953, segundo a série histórica de Paul Bairoch, os Estados Unidos alcançaram 44,7% da produção industrial m undial, um a participação bem superior ao recorde anterior, de 39,3%, atingido às vésperas da crise de 1929.

Em 1950, o PIB am ericano representava m ais de 59% da

econom ia total dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvim ento Econôm ico (OCDE). Depois da Segunda Guerra Mundial, o crescim ento econôm ico foi retom ado sobre o alicerce de um novo padrão tecnológico, em grande parte desenvolvido durante o esforço bélico. A indústria eletrônica criou centenas de novos produtos e revolucionou a produção autom obilística. A petroquím ica deu origem às indústrias de plásticos e fibras sintéticas. A aeronáutica civil beneficiou-se dos avanços da aviação m ilitar, proporcionando m ais um a revolução nos transportes. O quarto ciclo tecnológico reativou a produção e a circulação de m ercadorias em escala global, possibilitando a reconstrução europeia e j aponesa e a industrialização por substituição de im portações em algum as econom ias em desenvolvim ento da Am érica Latina.

O ciclo tecnológico do pós-guerra consistiu num a idade de ouro da

econom ia industrial. Entre 1948 e 1971, a indústria global cresceu a um a taxa m édia anual de 5,6%, m uito m aior que o recorde anterior, de 4,2%, verificado entre 1900 e 1913. O com ércio global expandiu-se, por sua vez, a um a taxa m édia anual de 7,3%, ultrapassando de longe a taxa de 5,5% alcançada durante o boom de 1860-1870. O produto real per capita nos países da OCDE cresceu 120% entre 1950 e 1975, atingindo m ais de 5,2 m il dólares no final do período. Nos países em desenvolvim ento, o crescim ento relativo foi de 114%, e o valor absoluto alcançou 400 dólares em 1975 .

A hegem onia dos Estados Unidos foi atenuada, ao longo desse

ciclo, com o im pulso de reconstrução na Europa e no Japão. A série histórica de Bairoch registra um a participação dom inante, m as declinante, dos Estados Unidos na produção industrial m undial: 44,7% em 1953; 35,1% em 1963; 33% em 1973; 31,5% em 1980. A econom ia am ericana, que tinha chegado a representar m ais de 59% do PIB da OCDE em 1950, declinou relativam ente para 35,3% daquele total em 1980. A taxa de crescim ento m édio anual da econom ia am ericana ficou em 3,3% no quarto de século entre 1950 e 1975, contra 4,9% na França, 5,5% na Alem anha e 8,6% no Japão. Entre as potências industriais da OCDE, apenas a Grã-Bretanha apresentou crescim ento inferior ao am ericano, com taxa m édia de 2,5% no período .

A ordem de Bretton Woods

Henry Nau descreveu com propriedade a visão de longo prazo que

alicerçou a arquitetura geopolítica m undial do Ocidente no pós-guerra:

A definição dom inante do obj etivo nacional dos Estados Unidos antes da Segunda Guerra Mundial era o isolacionism o. O isolacionism o repudiava as dim ensões diplom áticas da política internacional e definia o papel dos Estados Unidos no m undo com o, essencialm ente, de não-envolvim ento. A Segunda Guerra Mundial m udou tudo isso. Tornou os Estados Unidos autoconscientes no cenário global. [...] A m aioria nos Estados Unidos veio a acreditar que o país teria que pôr a sua m arca no sistem a internacional, ou nunca m ais poderia sentir-se em segurança. Logo que a guerra explodiu na Europa, os Estados Unidos com eçaram a planej ar o m undo do pós-guerra. [...] No Departam ento de Estado, o secretário Cordell Hull ordenou que o planej am ento com eçasse em princípios de 1940 e pressionou Roosevelt, nas discussões sobre a Carta do Atlântico, em agosto de 1941, para obter dos britânicos com prom issos com acordos de com ércio não-discrim inatórios no pós-guerra [...]. Quatro dias após Pearl Harbor, o secretário do Tesouro, Henry Morgenthau Jr., pediu ao seu secretário-assistente [...] que preparasse um esboço para o sistem a m onetário do pós-guerra.

Tudo isso estava acontecendo m uito antes que se configurasse o

cenário da derrota da Alem anha e do Japão. Nau observa que, nessas condições, “o planej am ento era altam ente abstrato”, pois “ninguém sabia se a guerra seria ganha, quanto m ais o tipo de m undo que ela deixaria em sua esteira”. Paradoxalm ente, o am biente favorecia as grandes concepções assentadas sobre princípios políticos gerais:

A irrealidade de tudo isso facilitou o desenho de um a visão integrada e ideal da ordem no pós-guerra. As propostas de segurança (Nações Unidas) e econôm icas (Bretton Woods) cam inharam lado a lado, “tão interdependentes quanto as lâm inas de um a tesoura”, com o as descreveria depois Morgenthau. Em conj unto, as propostas

am ericanas proj etavam a visão abrangente de um a com unidade política com partilhada no pós-guerra, baseada em valores liberais de liberdade política (lei) e com petição econôm ica (com ércio). “A segurança econôm ica”, conform e observa Robert Pollard, significava que “os interesses am ericanos seriam servidos por um sistem a econôm ico aberto, em contraste com um grande sistem a m ilitar em tem po de paz”.

A Conferência de Bretton Woods foi precedida pelos planos White

e Key nes, que apresentavam abordagens distintas no que diz respeito ao problem a do financiam ento dos saldos devedores nacionais.

O Plano White, form ulado em 1942 pelo secretário-assistente do

Tesouro am ericano, Harry D. White, focalizava a sua atenção na estabilidade de preços internos e internacionais. O plano preconizava a criação de um Fundo de Estabilização das Nações Unidas, que deveria estabelecer bandas cam biais estreitas. Essas bandas só poderiam ser alteradas pelo voto de 80% dos Estados integrantes do Fundo. Na votação sobre as taxas de câm bio, cada Estado teria apenas um voto, o que representava, do ponto de vista de Washington, um a surpreendente abdicação de soberania sobre a sua própria m oeda.

O plano am ericano repudiava o capitalism o nacional de com ando,

tal com o praticado na década de 1930 pela Alem anha. Sustentava a necessidade de liberalização progressiva do com ércio internacional, por m eio da redução negociada das barreiras tarifárias, m as oferecia níveis m odestos de financiam ento externo para países atingidos por desequilíbrios no balanço de pagam entos, de m odo que o aj uste econôm ico desses países dependeria das suas políticas internas. Nesse aspecto, a proposta assem elhava-se penosam ente ao antigo padrão-ouro.

A principal singularidade do Plano White estava no papel previsto

para o Fundo de Estabilização, que poderia vetar, por decisão de um a m aioria qualificada, m edidas de política econôm ica nacional consideradas nocivas para o equilíbrio do balanço de pagam entos. Esse direito de ingerência inaudito não foi adotado em Bretton Woods. Mas o Fundo de Estabilização im aginado por White funcionou com o em brião ideológico do FMI.

O Plano Key nes, apresentado quase sim ultaneam ente ao proj eto

am ericano, tinha ênfases diferentes. No lugar do Fundo de Estabilização, previa um a União de Com pensação com direitos de saques a descoberto, cuj os m ontantes seriam definidos com base na participação dos Estados no com ércio global. Os saques se dariam em um a nova m oeda de reserva internacional. Os governos nacionais poderiam prom over m udanças cam biais de até 5% ao ano. Mudanças m aiores teriam de ser aprovadas pela União de Com pensação, na qual os Estados Unidos e a Grã-Bretanha disporiam de m aioria de votos.

A concepção de Key nes não incluía obrigações de redução de

tarifas com erciais e perm itia, em bora não estim ulasse, m edidas com erciais discrim inatórias. No fundo, ao contrário do Plano White, a proposta britânica adm itia aj ustes econôm icos nacionais baseados na expansão da oferta de m oeda e escudados, até certos lim ites, atrás de tarifas protecionistas e desvalorizações cam biais.

Não se deve exagerar as diferenças de ênfase entre os dois planos.

No fundo, o que os distinguia m ais claram ente era a interpretação que faziam dos interesses nacionais respectivos. O plano am ericano conferia fortes poderes de ingerência à internacional em relação aos países devedores – e os Estados Unidos se im aginavam com o perm anentes credores. O plano britânico conferia am plitude m aior de decisões nacionais aos devedores – e a Grã-Bretanha sabia que, durante a fase de reconstrução, seria um a devedora.

Em Bretton Woods chegou-se a um com prom isso entre os dois

proj etos. O FMI foi criado com recursos totais de 8,8 bilhões de dólares, m uito m enos que os 26 bilhões sonhados por Key nes para a União de Com pensação. No entanto, os Estados Unidos acabaram por aceitar m uito m enos ingerência internacional que a prevista pelo Plano White, possibilitando aj ustes nacionais baseados na desvalorização cam bial e no protecionism o.

O padrão dólar-ouro, que em ergiu de Bretton Woods, expressava o

com prom isso e erguia-se sobre a am biguidade. No acordo que criou o FMI, perm itia-se um a m udança única de 10% na taxa de câm bio dos países-m em bros, desde que j ustificada com o form a de corrigir “desequilíbrios fundam entais” no balanço de pagam entos. O Fundo poderia publicar um relatório criticando políticas dos países-m em bros que atentassem contra o equilíbrio das contas externas. White revelou a sua adesão ao com prom isso ao qualificar o sistem a m onetário com o “estável, ainda que m oderadam ente flexível”, e com parou a flexibilidade cam bial à oscilação norm al do Em pire State Building.

No fim das contas, a ordem de Bretton Woods acabou refletindo a

tríade de políticas de estabilidade de preços, m ercados flexíveis e com ércio internacional tendente ao liberalism o que era advogado por Washington. Essa tríade de políticas foi, na prática, im posta à Europa por m eio dos acordos do Plano Marshall, que selaram a hegem onia estratégica am ericana.

A m oeda internacional im aginada por Key nes, e tam bém

esboçada por White, j am ais saiu do cam po das ideias. A sua existência dem andaria um a instituição internacional responsável pela em issão, o que restringiria a soberania de todos os participantes do sistem a, inclusive os Estados Unidos, o que era inaceitável para Washington. Por razões sim ilares, fracassou a proposta inicial de criação de um a Organização Internacional de Com ércio (OIC). A Carta de Havana, que definia as funções do novo organism o, conferia direitos de voto iguais para todos os Estados, o que im plicava subm eter a política com ercial am ericana a restrições intoleráveis aos olhos de Washington. No lugar da OIC, foi assinado o Gatt, que tam bém se baseava nos princípios do m ultilateralism o e do liberalism o, m as não era um a organização reconhecida pelo direito internacional e funcionou sem pre a partir de acordos consensuais.

As instituições de Bretton Woods desem penharam funções

m arginais na fase da reconstrução do pós-guerra. O FMI funcionou com o em prestador de porte relativam ente pequeno até o início da década de 1960, para só depois am pliar os Direitos Especiais de Saque (SDRs). O Banco Mundial praticam ente circunscreveu a sua atuação à reconstrução durante as prim eiras duas décadas de existência, até que finalm ente voltou-se para o financiam ento do desenvolvim ento. O Gatt, criado em 1947, realizou a sua prim eira negociação verdadeiram ente global — a Rodada Kennedy — entre 1964 e 1967. Essas instituições passaram , de fato, a desem penhar papéis de prim eiro plano no m om ento em que se com pletava a descolonização afro-asiática e os países em desenvolvim ento incorporavam -se plenam ente ao sistem a internacional de Estados.

 

Revolução tecnocientífica e globalização

O ciclo tecnológico do pós-guerra entrou na fase descendente na

década de 1970. O declínio do ciclo foi m arcado pela redução das taxas de crescim ento das econom ias nacionais e pelo ressurgim ento de índices elevados de desem prego na Europa e nos Estados Unidos. Aproveitando a Guerra de Outubro, ou do Yom Kippur, em 1973, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) provocou o prim eiro choque de preços do petróleo. Um novo choque de preços ocorreu em 1979, após a Revolução Islâm ica no Irã. Os dois choques im plodiram a prolongada estabilidade de preços, provocando surtos inflacionários dos dois lados do Atlântico.

No início desse processo, o sistem a m onetário de Bretton Woods

fraquej ou e, em seguida, desabou. Em 1971, Nixon decretou unilateralm ente um a desvalorização do dólar em relação ao ouro, sinalizando a degradação do lastro que sustentava a ordem m onetária do Ocidente. Em 1973, o presidente am ericano foi m uito m ais longe e “virou a m esa” de Bretton Woods, decretando o fim do sistem a de paridade fixa e livre conversibilidade. O Tesouro dos Estados Unidos recusava-se a continuar lastreando os dólares em circulação no m undo com as reservas nacionais de ouro. O dólar passava a flutuar livrem ente, segundo as oscilações do m ercado de m oedas.

O padrão dólar-ouro estabelecido em Bretton Woods tinha com o

pressupostos a carência de dólares fora dos Estados Unidos e a abundância das reservas am ericanas de ouro. No fundo, o alicerce do sistem a era a concentração de riqueza nos Estados Unidos. As décadas de reconstrução europeia e j aponesa rem overam esses pressupostos ao proporcionarem um acúm ulo de dólares fora dos Estados Unidos. Naturalm ente, os aliados (e concorrentes) da superpotência do Ocidente resistiram à desvalorização de 1971, que era com pletam ente legítim a.

Mas a desvalorização logo dem onstrou ser insuficiente. A pressão

dos m ercados sobre o Tesouro am ericano evidenciava o encerram ento da era de hegem onia econôm ica absoluta dos Estados Unidos e o novo dinam ism o dos m ercados financeiros internacionais. O que se tornou patente, portanto, era a inviabilidade da m anutenção de um sistem a ancorado no congelam ento do câm bio da m oeda nacional que funcionava com o m eio de troca e reserva de valor internacional.

O sinal de alarm e soou alto em 1971, quando — pela prim eira vez

no século XX — desapareceu o saldo positivo no com ércio externo am ericano. A lógica da ordem de Bretton Woods solicitava um aj uste interno da econom ia am ericana, pela via dolorosa da redução dos salários reais, do consum o e das im portações. Mas a adm inistração Nixon, às voltas com as pressões sociais e com o descontentam ento gerado pelo desastre no Vietnã, preferiu inverter as regras do j ogo de Bretton Woods. Assim , prom oveu intervenções key nesianas na econom ia interna e ergueu barreiras ao com ércio exterior, enquanto libertava a esfera do câm bio e dos fluxos financeiros da disciplina im posta pelo sistem a de paridade fixa e livre conversibilidade.

Nessa fase, o Japão desem penhou um papel de proa nas

percepções econôm icas am ericanas. Os problem as na balança com ercial dos Estados Unidos foram atribuídos a supostas práticas desleais das em presas j aponesas e Nixon agiu contra os têxteis do Japão, inaugurando um a série de m edidas discrim inatórias e restabelecendo práticas de com ércio adm inistrado. Em poucos anos, sob o influxo do sucesso das m ontadoras autom obilísticas do Japão no m ercado am ericano, as percepções deslizaram para a construção de um a im agem de superioridade produtiva do m odelo j aponês. Na década de 1980, a previsão do declínio inevitável dos Estados Unidos tornou-se conhecida por todos.

Enquanto se discutia o fantasm a j aponês, despontava o quinto ciclo

tecnológico da econom ia industrial. A onda de inovações da revolução tecnocientífica assentou-se, na sua etapa inicial, nas tecnologias da m icroeletrônica e na indústria de com putadores pessoais e softwares. Em seguida, a fusão da m icroeletrônica com as novas tecnologias de transm issão de inform ações ergueu o setor da inform ática. Ao lado desse núcleo principal de inovações, floresceram os setores da biotecnologia, dos novos m ateriais e da robótica.

Os pólos principais da nova onda de inovações estruturaram -se nos

Estados Unidos, no Japão e na Europa. Mas o ciclo tecnológico proporcionou a em ergência de um a série de novas áreas produtivas na Ásia do Leste e do Sudeste. O crescim ento explosivo das econom ias da Coreia do Sul, de Taiwan, Cingapura, Hong Kong, da Malásia, Tailândia e Indonésia estabeleceu o grupo dos Novos Países Industrializados (NPIs). Esse processo tam bém propiciou o “m ilagre chinês” da década de 1990, que integrou as cidades litorâneas da China oriental e m eridional à econom ia globalizada. As im pressionantes estruturas produtivas erguidas na Ásia passaram a funcionar com o anexos industriais dos pólos tecnológicos am ericano e j aponês.

A revolução tecnocientífica confirm ou a liderança econôm ica dos

Estados Unidos. As principais em presas inovadoras da revolução da inform ação em ergiram nos Estados Unidos e tornaram -se corporações de alcance global. Na década de 1990, o crescim ento econôm ico am ericano ultrapassou o da Europa e do Japão. Entre 1990 e 1995, o índice anual de produtividade industrial am ericana ficou acim a do índice do Japão, invertendo um a desvantagem que persistiu durante as três décadas anteriores. O m odelo am ericano voltou a ser apresentado com o paradigm a da econom ia industrial capitalista.

O m odelo j aponês, baseado nas tradições de coesão entre as

corporações em presariais e o poder político, assentou-se sobre as políticas industriais com andadas pela burocracia estatal e am paradas pela subvalorização estrutural do câm bio. As noções de disciplina e fidelidade organizaram as relações entre a força de trabalho e as em presas. As redes de negócios estabelecidas entre os interesses financeiros e industriais e entre os produtores e o varej o criaram m ercados cativos, restringindo a concorrência. O sistem a econôm ico no seu conj unto orientou-se para a poupança produtiva, sacrificando o consum o. Esse m odelo alcançou o seu auge no quarto ciclo tecnológico, propiciando o sucesso da eletrônica de consum o e da indústria autom obilística j aponesa.

Na década de 1980, a econom ia j aponesa atingiu o seu ponto

m áxim o. Os altos lucros das em presas e os enorm es saldos com erciais provocaram um a im pressionante expansão financeira. O fenôm eno especulativo concentrou-se nos preços dos im óveis e das ações. A bolha inflou até o extrem o, estourando em 1990, quando o índice Nikkei, que m ede o valor das ações na Bolsa de Tóquio, desabou de quase 40 m il pontos, em j aneiro, para m enos de 20 m il, em dezem bro. Em 2002, o índice Nikkei vegetava ao redor dos 9 m il pontos. A derrocada dos m ercados de im óveis e ações repercutiu sobre a indústria e os serviços, provocando estagnação decenal e um a forte tendência deflacionária.

O m odelo am ericano, apoiado nas tradições com petitivas e

individualistas, tem características m uito diferentes. As corporações evoluíram para um a forte abertura do seu capital, no m ercado de ações. As leis federais antim onopolistas im pediram a construção de im périos entrelaçados envolvendo instituições bancárias e em presas industriais. Assim , os bancos não desem penharam papéis decisivos no financiam ento direto da produção. A orientação predom inantem ente liberal da política econôm ica estim ulou a concorrência entre as em presas e a desregulam entação do m ercado de trabalho. O sistem a no seu conj unto orientou-se para o consum o, em detrim ento da poupança. Esse m odelo proporcionou as condições ideais para a deflagração da revolução tecnocientífica.

Mas a recuperação do dinam ism o e da liderança não pode ser

atribuída apenas a essas características estruturais do m odelo am ericano. No fundo, os traços fortem ente liberais e concorrenciais do m odelo am ericano m ascaram as funções econôm icas desem penhadas pelo Estado, que subsidia direta e indiretam ente a inovação tecnológica por m eio dos contratos públicos ligados à indústria bélica. Nos anos 1980, sob as adm inistrações de Reagan e Bush, a forte reativação do orçam ento de defesa canalizou vultosos recursos para os program as de pesquisa e desenvolvim ento nos setores essenciais da m icroeletrônica e da inform ática. A deflagração da revolução tecnocientífica foi, em grande m edida, um fruto dessas políticas de Estado.

 

Crises financeiras da globalização

A onda de inovações da revolução tecnocientífica associou-se, nas

décadas de 1980 e 1990, a um poderoso fluxo de investim entos produtivos e financeiros, de caráter global. A oferta excepcional de capitais dirigiu-se seletivam ente para as cham adas econom ias em ergentes da Ásia, Am érica Latina e Europa Oriental. Esses capitais foram absorvidos por m ercados financeiros integrados internacionalm ente.

A ordem de Bretton Woods, com seu sistem a m onetário ancorado

na paridade entre o dólar e o ouro e a sua relativa estabilidade cam bial, era um entrave ao pleno desenvolvim ento dos fluxos internacionais de capitais. Esse entrave desabou na prim eira m etade da década de 1970, com a introdução da flutuação cam bial e o florescim ento dos negócios no m ercado de m oedas. Contudo, a liquidez excepcional gerada pelos choques de preços do petróleo circulou essencialm ente por m eio das instituições bancárias de alcance global.

O crescim ento acelerado dos em préstim os bancários para países

em desenvolvim ento produziu um a bolha de endividam ento externo, que assum iu feições explosivas após a elevação dos j uros internacionais, no início da década de 1980. As crises da dívida que atingiram econom ias com o as do Brasil, da Argentina, do México e da Polônia assinalaram o esgotam ento desse padrão de financiam ento externo.

O segundo entrave ao desenvolvim ento dos fluxos internacionais

de capitais era constituído pelos regim es de regulação nacional dos m ercados financeiros. Na década de 1980, a partir da Grã-Bretanha de Thatcher e dos Estados Unidos de Reagan, propagou-se um a onda de liberalização e desregulam entação dos m ercados financeiros. Paralelam ente, com o produto da revolução da inform ação, os diferentes m ercados financeiros nacionais se conectaram em tem po real. Esses dois fenôm enos – um , de natureza política; outro, de caráter tecnológico – libertaram a liquidez m undial da carcaça das instituições bancárias. O fluxo assom broso de investim entos internacionais da década de 1990 refletiu a em ergência de um m ercado financeiro integrado em escala global.

As crises financeiras nas econom ias em ergentes durante a década

de 1990 revelaram o potencial de instabilidade dos fluxos globalizados de capitais. O México (1994), o conj unto dos NPIs (1997), a Rússia (1998), o Brasil (1999), a Argentina (2001) e novam ente o Brasil (2002) experim entaram violentos m ovim entos de fuga de capitais e, em consequência, súbitas desvalorizações cam biais seguidas por episódios de profundas recessões ou depressões econôm icas. No am biente de expansão global, todas as crises financeiras, com exceção do colapso argentino, foram enfrentadas com vultosos em préstim os de em ergência coordenados pelo FMI.

A aceleração da onda de inovações tecnológicas produziu um a

expansão financeira nos m ercados acionários dos países ricos e das econom ias em ergentes. O centro do fenôm eno de expansão financeira foi a Bolsa de Nova York, que conheceu o desenvolvim ento de um a bolha especulativa sim ilar à que se form ou na década de 1920. A escalada dos preços das ações nos anos 1920 acom panhou, com o um a som bra am plificada, o crescim ento dos lucros das em presas do ciclo tecnológico do autom óvel e da eletricidade. Nos anos 1990, a bolha especulativa refletiu o sucesso das em presas de m icroletrônica, inform ática e telecom unicações.

A riqueza financeira gerada na Bolsa de Nova York estim ulou a

econom ia e sustentou o crescim ento do consum o am ericano até o final da década de 1990. Um dos efeitos do fenôm eno foi o surgim ento de um a nutrida corrente de teóricos da “Nova Econom ia” que, enxergando o m undo por m eio das lentes de aum ento da bolha especulativa, sustentaram que as tecnologias da inform ação estariam propiciando um novo ritm o de crescim ento econôm ico sustentado. A tese radical dessa corrente chegava a propor que teria sido suprim ida a etapa recessiva do ciclo econôm ico e alcançado o estágio da prosperidade perm anente.

A bolha especulativa am ericana estourou no fim da década. O

índice S& P, que m ede o valor das ações na Bolsa de Nova York, retrocedeu 40% entre 2000 e 2002. O índice Nasdaq, da bolsa eletrônica de em presas de alta tecnologia, despencou m ais de 70% no m esm o período. A etapa recessiva do ciclo em ergiu com o desdobram ento da crise financeira, reproduzindo a sequência célebre dos anos 1920 e a experiência m ais recente do Japão. O desastre em Wall Street repercutiu em escala global, provocando redução do consum o e do com ércio internacional. As econom ias em ergentes, em especial, sofreram os efeitos de um a retração generalizada dos fluxos internacionais de capitais.

A dinâm ica ciclotím ica dos fluxos de capitais da globalização

atestou a dissolução da ordem de Bretton Woods. A instabilidade cam bial inerente ao sistem a de flutuação do dólar arruinou a previsibilidade do am biente econôm ico internacional e provocou crises sucessivas. As taxas de crescim ento econôm ico m undial retrocederam sensivelm ente em relação ao ciclo tecnológico do pós-guerra. O Banco Mundial deixou de ser um a fonte significativa de financiam ento das econom ias, em razão do crescim ento extraordinário dos m ercados financeiros, passando a desem penhar funções de relevo apenas nas econom ias m ais pobres. O FMI revelou-se incapaz de conter a derrocada de econom ias atingidas por m ovim entos de fuga de capitais, tornando-se m uito m ais um gestor de crises e colapsos financeiros.

 

A OMC e o comércio mundial

A Rodada Uruguai do Gatt foi aberta em 1986, com prazo de

encerram ento m arcado para 1990. Contudo, os im passes se m ultiplicaram e, no final de 1991, o esboço de um acordo perm anecia incom pleto devido às divergências sobre o com ércio de produtos agrícolas. Finalm ente, em novem bro de 1992, o cham ado Acordo de Blair House entre os Estados Unidos e a União Europeia perm itiu um com prom isso relacionado à agricultura, desobstruindo o cam inho para a conclusão das negociações. O Acordo de Marrakesh foi assinado apenas em abril de 1994. Com ele nasceu a OMC.

A OMC é, form alm ente, um a organização internacional que

corporifica a retom ada dos fundam entos do proj eto da OIC. Reconhecida com o um tribunal, tem poderes para solucionar controvérsias entre os países-m em bros. Diferentem ente do FMI e do Banco Mundial, opera na base da igualdade entre os seus integrantes. Para que a organização possa adm inistrar com poderes reais o sistem a m ultilateral de com ércio, instituiu-se o princípio da “aceitação em bloco” (single undertaking): só podem ser m em bros da OMC os países que aceitarem todos os com prom issos, com o um conj unto indivisível.

O surgim ento da OMC coroou um longo período de expansão do

com ércio internacional. Entre 1970 e 1995, o produto m undial cresceu a um a taxa m édia anual de 3,6%, enquanto o intercâm bio de m ercadorias cresceu à taxa m édia de 5,8% ao ano. A curva de expansão do com ércio internacional acom panhou a do crescim ento da econom ia m undial, porém descrevendo um a traj etória m ais abrupta, tanto para cim a com o para baixo. Nas etapas recessivas do ciclo econôm ico, em 1974-1975 e 1980-1982, o intercâm bio de m ercadorias chegou a experim entar anos de retração absoluta (1975 e 1982). Em outra etapa recessiva, m ais branda, em 1991-1992, o com ércio m anteve crescim ento positivo. No conj unto, a curva do com ércio internacional perm aneceu quase sem pre em patam ar bastante superior à do produto. Ao longo de oito anos, nesse intervalo de um quarto de século, o intercâm bio de m ercadorias expandiu-se a taxas superiores a 8%, configurando crescim ento explosivo.

A expansão do com ércio a taxas m ais altas que a do produto

configura integração crescente dos m ercados nacionais, o que é um traço estrutural da globalização. Nesse processo, as econom ias nacionais tornam -se m ais dependentes da econom ia global: um a parcela m aior das atividades produtivas orienta-se para os m ercados externos e a sua dinâm ica passa a ser definida pelos níveis da dem anda internacional. Em consequência, os preços internos tendem a se alinhar com os preços internacionais, a produtividade nacional cresce na direção dos patam ares globais e as em presas m enos eficientes são elim inadas.

A dinâm ica de integração com ercial tem profundas repercussões

sobre a política externa. A diplom acia com ercial adquire im portância inédita, o que provoca reorganização nas chancelarias e especialização de diplom atas. Ao m esm o tem po, os chefes de governo passam a praticar diplom acia com ercial e, m uitas vezes, criam órgãos especiais, fora da estrutura das chancelarias, dedicados à prom oção das exportações. Em escala global, a substituição do Gatt pela OMC refletiu a im portância crucial do com ércio internacional.

Atualm ente, o com ércio internacional está estruturado em torno de

quatro grandes pólos: Europa Ocidental, Am érica Anglo-Saxônica, Japão e Ásia. Os três prim eiros correspondem a países desenvolvidos. O peso excepcional da Ásia no intercâm bio de m ercadorias é um a decorrência da revolução tecnocientífica, que proporcionou o surgim ento de um a significativa base industrial exportadora nos NPIs e na China.

As correntes com erciais internacionais refletem o descom passo

entre esses polos e o resto do m undo. A Europa Ocidental responde por m ais de 40% das exportações globais; a Ásia, sem o Japão e o Oriente Médio, por cerca de 18%; a Am érica Anglo-Saxônica, por cerca de 17%; o Japão, por 7%. Em conj unto, os quatro pólos concentram m ais de 80% das exportações m undiais. A parcela da Am érica Latina não chega a 6%; a da CEI e Europa Oriental está em torno de 5%; a do Oriente Médio é de 4% e a da África, estim ada em 2,5% .

A estrutura das correntes interregionais de com ércio revela que o

intercâm bio global tem um núcleo central, constituído por teias de fluxos intensos entre os quatro pólos, e áreas periféricas conectadas a um ou dois dos pólos principais. A Am érica Latina depende essencialm ente do m ercado dos Estados Unidos e, secundariam ente, do m ercado da União Europeia. A CEI e a Europa Oriental, assim com o a África, dependem criticam ente da União Europeia. Os exportadores de petróleo do Golfo Pérsico, dos m ercados da União Europeia, Ásia e dos Estados Unidos não se registram correntes com erciais significativas no âm bito Sul–Sul.

Os polos principais do com ércio m undial realizam intercâm bios

vultosos no interior de blocos regionais. O com ércio intra-regional da União Europeia corresponde a 28% de todo o com ércio m undial. Na Ásia (incluído o Japão), essa parcela é superior a 12%. O intercâm bio no interior do Nafta representa cerca de 10% do com ércio m undial. Em contraste, as dem ais áreas exibem intercâm bio intraregional quase insignificante, do ponto de vista relativo, e m odesto, o ponto de vista absoluto.

O panoram a do com ércio m undial expressa um duplo contraste:

de um lado, entre o elevado valor das exportações dos países desenvolvidos e o baixo valor das exportações dos países em desenvolvim ento; de outro, entre as grandes dim ensões dos m ercados consum idores dos países desenvolvidos e as dim ensões reduzidas dos m ercados consum idores dos países em desenvolvim ento. O prim eiro contraste reflete a difusão desigual das inovações da revolução tecnocientífica. O segundo, as profundas desigualdades internacionais de renda.

As desvantagens com erciais do Sul em relação ao Norte são, antes

de tudo, um a consequência das vantagens estruturais das econom ias dos países desenvolvidos. Mas a diplom acia com ercial tem funcionado com o instrum ento do aprofundam ento das desvantagens dos países do Sul.

A Rodada Uruguai do Gatt produziu significativos acordos de

redução de barreiras com erciais para os produtos industriais e, em particular, para os setores de alta tecnologia. Além disso, introduziu no sistem a m ultilateral de com ércio os tem as dos serviços, da proteção de patentes e propriedade intelectual. Todos esses avanços beneficiam , de m odo geral, os países do Norte. Contudo, as negociações para a rem oção de barreiras e redução de subsídios para o setor agrícola, que interessam sobretudo aos países do Sul, experim entaram avanços apenas decorativos. O Acordo de Blair House m aterializou um com prom isso entre a União Europeia e os Estados Unidos que praticam ente não tocou nos vultosos subsídios agrícolas destinados a proteger os produtores dos países ricos.

A assim etria consagrada pelo Acordo de Marrakesh era tão

evidente que a OMC com prom eteu-se, desde a sua origem , a priorizar o com ércio agrícola no ciclo seguinte de negociações m ultilaterais, previsto para

com eçar em 2000. Mas a proj etada Rodada do Milênio entrou em colapso no m om ento do estabelecim ento da agenda básica, devido à resistência de europeus e am ericanos em honrar o com prom isso de Marrakesh. Assim , o protecionism o agrícola dos países ricos tornou-se um elem ento de desestabilização do conj unto do sistem a com ercial m ultilateral, colocando em risco o próprio futuro da OMC.

 

A OMC se distingue das outras instituições de Bretton Woods pela

sua natureza essencialm ente m ultilateral, ou sej a, pela ausência de controle form al das decisões por parte das potências econôm icas globais. Os acordos com erciais globais precisam do consentim ento dos países em desenvolvim ento e os m ecanism os de arbitragem da OMC, ao m enos em tese, colocam em patam ar de igualdade os países do Norte e do Sul. É por isso que a preservação da instituição interessa, antes de tudo, aos países em desenvolvim ento.

Mas o m ultilateralism o da OMC é encarado com desconfiança pelos Estados Unidos, que recusaram o proj eto da OIC em nom e da m anutenção da sua plena soberania com ercial. Na União Europeia, o problem a não se encontra no princípio da soberania com ercial, m as na força dos interesses organizados em torno da Política Agrícola Com um (PAC). O prolongado im passe entre am ericanos e europeus, de um lado, e os países em desenvolvim ento, de outro, tende a enfraquecer as fundações do sistem a m ultilateral de com ércio e abre cam inho para a fragm entação regional dos acordos com erciais.