Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 7 · O Sistema Bipolar
DA GUERRA FRIA
A crise do Bloqueio de Berlim representou o prim eiro grande teste
da Doutrina Trum an. Seu resultado consistiu na divisão da Europa em blocos geopolíticos antagônicos e na bipartição da Alem anha em Estados integrados a esses blocos.
Durante a crise berlinense, com pletou-se o processo de
transform ação da esfera de influência soviética no Leste Europeu num bloco de países-satélites. Nos Estados ocupados por tropas soviéticas, instalaram -se regim es de partido único, subordinados a Moscou.
De m odo geral, o processo de transição no Leste Europeu
atravessou três etapas políticas. A prim eira caracterizou-se pela form ação de governos de coalizão, nos m oldes definidos em Yalta. A segunda, deflagrada pelo discurso de Churchill e pela Doutrina Trum an, consistiu na supressão dos parceiros não-socialistas e no estreitam ento das coalizões. A terceira, im pulsionada pelo lançam ento do Plano Marshall, conduziu à absorção dos partidos social-dem ocratas ou à “fusão” entre com unistas e social-dem ocratas, resultando em regim es com pletam ente alinhados a Moscou. Nas fases interm ediária e final, a intim idação, os expurgos e o terror funcionaram com o m étodo político decisivo.
Um a com plexa dialética de percepções e reações ritm ou a divisão
da Europa em blocos geopolíticos. Os incidentes na Polônia, gerados pela polaridade entre o governo com unista, sustentado por Moscou, e as lideranças do exílio, apoiadas por Londres, convenceram Washington de que Stalin não se restringiria aos lim ites de Yalta. A substituição da visão dos “Quatro Policiais” pela estratégia da contenção deveu-se, em grande m edida, à evolução política polonesa. A Doutrina Trum an, por seu turno, convenceu Moscou de que a esfera de influência no Leste Europeu estava sob am eaça direta, aj udando a acelerar a m archa rum o à form ação do bloco de países-satélites.
Na m oldura de tensões daqueles anos, a dinâm ica política das
reações lim itava ao extrem o a eficácia da diplom acia. Na Tchecoslováquia, os com unistas tinham atingido quase um terço dos votos nas eleições parlam entares de m aio de 1946, realizadas no quadro do governo de união nacional liderado por Eduard Benes. Mas a popularidade do Partido Com unista com eçou a declinar depois de Moscou proibir que a Tchecoslováquia participasse das negociações do Plano Marshall. Nessas circunstâncias, os com unistas protagonizaram o golpe de Estado de fevereiro de 1948, que contou com apoio soviético. A supressão do governo de Benes causou forte im pacto nos Estados Unidos, proporcionando as condições políticas para um engaj am ento ainda m ais decisivo na estratégia da contenção:
Devido ao seu im pacto dram ático, o golpe tcheco produziu consequências que Stalin dificilm ente poderia ter im aginado. Ele deflagrou um efêm ero — e parcialm ente fabricado — tem or de guerra em Washington. Ele rem oveu as últim as obj eções no Congresso ao Plano Marshall, resultando na aprovação final dessa iniciativa em abril de 1948. Ele acelerou os planos dos am ericanos, britânicos e franceses de consolidar as suas zonas de ocupação na Alem anha e prosseguir rum o à form ação de um Estado ocidental independente. E ele levou os am ericanos a considerarem m uito m ais seriam ente [...] que a assistência econôm ica, por si só, não restauraria a autoconfiança europeia, e que os Estados Unidos teriam que assum ir responsabilidades m ilitares diretas na defesa daquela parte do continente que perm anecia fora do controle soviético.
O encerram ento do Bloqueio de Berlim assinalou a inflexão
definitiva da estratégia da contenção. Em sua form ulação original, de Kennan, a contenção possuía, antes de tudo, um sentido econôm ico, e seu instrum ento básico era a reconstrução da Europa Ocidental. As tensões desencadeadas pela crise berlinense adensaram o conteúdo m ilitar da contenção, resultando na criação, em abril de 1949, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A Otan reuniu, aos Estados Unidos e ao Canadá, todos os Estados
da Europa Ocidental, com exceção dos países neutros de econom ia capitalista. O Pacto de Varsóvia, criado em 1955 pela União Soviética, agrupou o conj unto dos países-satélites. A Iugoslávia, rom pida com Moscou desde 1948, não participou da aliança m ilitar soviética. A Albânia ingressou na aliança, m as acabou por se retirar na década de 1960. Os sistem as antagônicos de alianças m ilitares cim entaram a divisão do continente em blocos geopolíticos rivais e consolidaram a fronteira estratégica que, durante a Guerra Fria, separou a Europa Ocidental da Europa Oriental.
A fronteira estratégica representou, essencialm ente, um front
m ilitar. Contudo, os blocos rivais alicerçaram -se tam bém em instituições de cooperação econôm ica. O Conselho Econôm ico de Assistência Mútua (Com econ), criado em 1949, estruturou a divisão do trabalho e o com ércio na Europa Oriental. A Com unidade Econôm ica Europeia (CEE) e a Associação Europeia de Livre Com ércio (Aelc) estim ularam a integração e o intercâm bio na Europa Ocidental.
O equilíbrio do terror
A Otan nasceu com o resposta am ericana para as dificuldades
postas pelo cenário estratégico europeu. Essencialm ente, a aliança m ilitar ocidental representou a solução para o dilem a da dissuasão nuclear.
No im ediato pós-guerra, enquanto os Estados Unidos
desm obilizavam suas forças engaj adas na Europa, a União Soviética conservou e am pliou um a aplastante superioridade convencional no cenário europeu. Durante a crise berlinense, apenas o arsenal nuclear am ericano aparecia com o séria dissuasão m ilitar para a alternativa da pura e sim ples ocupação de Berlim Ocidental pelas forças soviéticas.
A prim eira bom ba atôm ica soviética foi testada apenas em j ulho
de 1949, após o encerram ento do Bloqueio de Berlim . Mesm o assim , a superioridade nuclear am ericana conservou-se inabalada nos anos seguintes. Os Estados Unidos tinham um arsenal de 299 arm as no final de 1950, 438 no final de 1951 e 841 no final de 1952. A União Soviética, pouco antes da m orte de Stalin, em m arço de 1953, possuía cerca de 50 arm as nucleares . Mas com o assegurar que a superioridade nuclear funcionasse com o dissuasão segura contra um ataque convencional voltado não para o território am ericano, m as para os aliados europeus?
O célebre artigo 5 da Carta da Otan forneceu a resposta. A
form ulação caracterizava um eventual ataque m ilitar a qualquer m em bro da aliança com o um ataque a todos os seus m em bros, e firm ava o com prom isso de reação conj unta e autom ática. Assim , no plano estratégico, os territórios dos aliados europeus passavam a se identificar com o território am ericano. Um ataque convencional soviético na Europa Ocidental deflagraria um a resposta nuclear am ericana contra a União Soviética.
A decisão de criar a aliança m ilitar ocidental conduziu à de
prom over o rearm am ento alem ão, no interior da m oldura da Otan. Basicam ente, as forças arm adas da Alem anha Ocidental funcionavam com o posto avançado do dispositivo m ilitar da Otan, na prim eira linha de com bate em face de um a hipotética ofensiva convencional soviética. A presença de tropas am ericanas na Alem anha Ocidental desem penhava a função sim bólica crucial de conferir credibilidade à estratégia da dissuasão assim étrica.
A entrada da Alem anha Ocidental na Otan, em outubro de 1954,
serviu de pretexto para a criação do Pacto de Varsóvia. A aliança m ilitar dirigida por Moscou definiu-se pela m esm a fórm ula utilizada pela Otan, m as a sim ilaridade é apenas form al. Ao contrário da Otan, que era um elem ento vital na estratégia da dissuasão nuclear am ericana, o Pacto de Varsóvia não foi concebido com o organização de segurança coletiva, pois a hipótese de um a ofensiva convencional am ericana na Europa do Leste não tinha sentido estratégico. A aliança estruturada por Moscou estava voltada para a estabilização interna do bloco de países-satélites, não para a defesa em face de um a am eaça externa.
O verdadeiro m otor para a criação do Pacto de Varsóvia não foi o
rearm am ento da RFA, m as a revolta popular que eclodiu em Berlim Oriental em j unho de 1953, pouco depois da m orte de Stalin. A fragilidade política dos regim es com unistas nos países-satélites, derivada da carência de legitim idade social dos aparelhos partidários associados a Moscou, não podia ser resolvida na m oldura das instituições nacionais. A solução foi a ancoragem dos Estados do bloco soviético na aliança m ilitar supranacional.
O Pacto de Varsóvia representou a supressão dos resquícios de
soberania dos países-satélites. Quando, em 1956, os líderes com unistas rebeldes da Hungria anunciaram a disposição de rom per a subordinação a Moscou, a aliança m ilitar forneceu a cobertura para a invasão soviética. A história repetiu-se em 1968, na Tchecoslováquia, quando a evolução do processo de reform as da Prim avera de Praga colocou em xeque os fundam entos do regim e de partido único.
O equilíbrio nuclear entre as superpotências — o cham ado
equilíbrio do terror — só existiu efetivam ente a partir de m eados da década de 1960. Durante a década de 1950, a União Soviética perm aneceu em condição de nítida inferioridade em arm as e, m ais ainda, em vetores, pois os Estados Unidos dispunham de um núm ero m uito m aior de bom bardeiros estratégicos e de bases distribuídas pelo m undo inteiro. Os m ísseis balísticos intercontinentais tornaram -se operacionais por volta de 1959 ou 1960 e, a partir daí, a União Soviética conseguiu não a paridade m as, ao m enos, reduzir significativam ente sua desvantagem nuclear.
A situação do equilíbrio do terror não requer a paridade, m as a
capacidade de resposta devastadora ao prim eiro golpe desfechado pelo inim igo. Esse prim eiro golpe visaria o dispositivo term onuclear do inim igo. A capacidade de resposta devastadora só existe se, depois de absorver o prim eiro golpe, restarem arm as e vetores suficientes para um a represália de proporções intoleráveis, que seria dirigida contra as cidades do Estado agressor.
O dispositivo term onuclear dos Estados Unidos foi erguido e
organizado em decorrência dos cenários analíticos assentados sobre a hipótese de um prim eiro ataque, de surpresa, desfechado pela União Soviética. A doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD) exigia capacidade de represália
devastadora, que seria a fonte últim a da dissuasão nuclear. A doutrina da MAD ritm ou a corrida arm am entista da era term onuclear. Sua lógica exigia arsenais superiores ao que seria necessário para a pulverização com pleta do inim igo, pois o que estava em j ogo era, precisam ente, a capacidade de represália devastadora.
O zênite da Guerra Fria foi alcançado no m om ento em que duas
graves crises sucessivas colocaram à prova a resolução das superpotências e, ao m esm o tem po, com provaram o perigo intolerável de um a guerra total. A prim eira ocorreu em Berlim , em 1961, e resultou na construção do Muro de Berlim . A segunda foi a Crise dos Mísseis, em Cuba, em 1962.
A crise de Berlim refletiu, principalm ente, a disparidade
econôm ica crescente entre a RFA e a RDA. Entre 1952 e 1961, m ais de 2,2 m ilhões de refugiados deixaram a RDA através de Berlim e receberam , com o previa a Lei Fundam ental de Bonn (a Constituição provisória da RFA), a cidadania alem ã-ocidental. A população da RDA declinou de 18,3 m ilhões de habitantes em 1949 para 17,3 m ilhões em 1959. A m aior parte dos refugiados era constituída por trabalhadores qualificados e profissionais especializados.
No final de outubro de 1958, Walter Ulbricht, o líder com unista da
RDA, acusou as potências ocidentais de violação dos Acordos de Potsdam , em virtude do rearm am ento da RFA, e exigiu a reunificação de Berlim . Pouco depois, Moscou m anifestou apoio à tese de Ulbricht e ofereceu a alternativa de transform ar Berlim Ocidental em um a unidade política independente, neutra e desm ilitarizada, sob controle da ONU. Nikita Kruschev acrescentou à oferta um ultim ato de seis m eses, que quando findados Moscou celebraria a paz em separado com a RDA e transferiria a ela seus poderes de potência ocupante.
A am eaça tinha sentido claro. O controle da RDA sobre as rotas de
acesso a Berlim Ocidental im poria às potências ocidentais as alternativas inviáveis de reconhecer o Estado alem ão-oriental e negociar, com ele, o estatuto das rotas para a cidade ou recorrer à força, provavelm ente deflagrando a guerra com a União Soviética.
A crise desenvolveu-se tortuosa e longam ente, gerando
negociações e im passes. Moscou refluiu de seu ultim ato e da am eaça da paz em separado. Em m aio de 1960, a derrubada pelos soviéticos do avião de espionagem U2 e a captura de seu piloto, Francis Gary Powers, provocou o fracasso da conferência de Paris entre as potências ocupantes. A solução apareceu, no fim das contas, por iniciativa de Ulbricht, que convenceu os soviéticos a apoiarem a separação física entre Berlim Ocidental e a RDA. Na noite de 12 de agosto de 1961, com eçou a ser erguido o Muro de Berlim .
A construção do Muro de Berlim dissolveu a tensão conservando o
estatuto político de Berlim Ocidental, m as interrom pendo o fluxo de refugiados, que drenava a energia da RDA. A separação física gerou o sím bolo m ais dram ático da Guerra Fria e da divisão da Europa em blocos geopolíticos antagônicos. A “Cortina de Ferro” ganhava um a representação m aterial extraordinariam ente adequada, que dirigia os holofotes para a bipartição da antiga potência da Europa central.
A Revolução Cubana de 1959, que conduziu Fidel Castro ao poder,
gerou um a situação nova e inusitada. A presença, no Caribe, de um regim e nacionalista e esquerdista, que se aproxim ava cada vez m ais de Moscou, parecia intolerável aos Estados Unidos. Em 1961, sob o im pulso da CIA, um grupo de refugiados cubanos em preendeu a aventura da Baía dos Porcos. O fracasso retum bante e patético dessa tentativa de deposição de Castro explodiu na adm inistração de John Kennedy, instalada havia quatro m eses apenas.
A Crise dos Mísseis foi deflagrada em virtude do tem or cubano de
um a invasão am ericana. No verão de 1962, Raul Castro e Che Guevara reuniram -se com Kruschev em Moscou e solicitaram proteção soviética. Naquele m om ento, iniciaram -se, em segredo, as operações de envio de técnicos m ilitares e m ísseis soviéticos para Cuba. A instalação de m ísseis interm ediários, equipados com ogivas nucleares, na ilha caribenha, pareceu a Kruschev resposta adequada à am eaça de invasão, m as constituía, tam bém , um a reação à presença dos m ísseis am ericanos Júpiter na Turquia.
A operação soviética foi descoberta em fotografias aéreas tiradas
num vôo de reconhecim ento do U2. Em 16 de outubro, a nova inform ação chegou a Kennedy. Seis dias depois, o presidente am ericano anunciou o bloqueio naval de Cuba e lançou o ultim ato, no qual exigia a retirada dos m ísseis e das ogivas em instalação na ilha. A am eaça de um ataque nuclear soviético a partir do Caribe virtualm ente suprim ia a superioridade estratégica dos Estados Unidos em vetores e ogivas. No cenário m ais am plo da rivalidade m ilitar entre as superpotências, a presença dos m ísseis em Cuba esvaziava a credibilidade da represália nuclear am ericana a um a ofensiva convencional soviética na Europa Central.
A crise evoluiu com picos de dram aticidade, ativados pela
possibilidade de confronto entre as em barcações soviéticas e am ericanas ao largo de Cuba e pelas pressões dos chefes m ilitares sobre Kennedy para que fosse autorizado o bom bardeio da ilha. Na ONU, o em baixador am ericano m ostrou as im agens das ram pas de lançam ento em Cuba e reiterou o ultim ato de Washington.
A solução foi encontrada em tensas negociações secretas, que
resultaram num acordo j am ais form alizado. Kruschev concordou na retirada dos m ísseis, das ogivas e dos aviões, assegurada por inspeções da ONU. Em troca, Kennedy prom eteu que os Estados Unidos desistiriam de derrubar o regim e de Castro e, num prazo de m eses, retirariam os m ísseis Júpiter da Turquia. A decisão de Moscou, anunciada a 28 de outubro, dissolveu a m ais perigosa das crises da Guerra Fria.
A crise berlinense de 1958-1961 acabou por estabilizar o cenário
europeu reforçando a fronteira estratégica entre os blocos antagônicos. A crise cubana de 1962, ao evidenciar os riscos da catástrofe nuclear, gerou regras m ais claras para o relacionam ento entre as superpotências e, no fim das contas, desanuviou um pouco o cenário global da Guerra Fria.
A “cortina de bambu” na Ásia
A Doutrina Trum an foi form ulada, originalm ente, com o resposta
aos problem as postos pelo “expansionism o soviético” na Europa. Contudo, a Revolução Chinesa e a Guerra da Coreia (1950-1953) evidenciaram a fragilidade da situação geopolítica da Ásia. Esses eventos provocaram um a reform ulação da estratégia da contenção, que passou a englobar o espaço asiático.
A tom ada do poder, em Pequim , por Mao Tsé-tung, em setem bro
de 1949, repercutiu na península coreana. Depois da derrota do Japão, em 1945, a Coreia tinha sido dividida, provisoriam ente, num a zona de ocupação soviética, ao Norte, e num a zona de ocupação am ericana, separadas pelo paralelo 38. O agravam ento das tensões entre as superpotências inviabilizou as eleições proj etadas para reunificar o país e, em 1948, a Coreia foi bipartida em Estados rivais.
A guerra estalou em j unho de 1950, com a penetração, através do
paralelo 38, de tropas norte-coreanas decididas a reunificar o país. Aparentem ente, o regim e de Py ongy ang tinha o beneplácito de Moscou e Pequim , que não acreditavam num a intervenção am ericana. Mas sob o im pacto da Revolução Chinesa, Trum an estava decidido a barrar a expansão do com unism o na Ásia.
Aproveitando o boicote soviético ao Conselho de Segurança (CS),
provocado pelo não-reconhecim ento ocidental do regim e com unista na China, Washington fez a intervenção de forças da ONU no conflito coreano ser aprovada. As tropas am ericanas e aliadas, sob a bandeira da ONU, e o com ando do general Douglas MacArthur, desem barcaram na península e em preenderam um a funda contra-ofensiva em território norte-coreano, até as proxim idades da fronteira chinesa.
A irrupção das forças arm adas chinesas na guerra, apresentadas
oficialm ente com o destacam entos de voluntários, m odificou radicalm ente a situação m ilitar. A retirada das tropas de MacArthur conduziu, em dezem bro, o front de volta ao paralelo 38. Em abril de 1951, as proposições do general, cada vez m ais insistentes, de bom bardeios aéreos da China, foram definitivam ente rej eitadas, e MacArthur perdeu seu posto de com ando. Esse evento assinalou o encerram ento da fase ativa da guerra.
A estabilização do front perdurou até o início de 1953. Então, a
m orte de Stalin abriu cam inho para a conclusão do Arm istício de Panm unj on, que produziu um cessar-fogo perm anente. A ausência de um tratado de paz transform ou o front do paralelo 38 num a fronteira instável, com partilhada por Estados tecnicam ente em guerra.
A deflagração da Guerra da Coreia colocou em m archa a
estratégia da contenção na Ásia. Em 1951, Washington firm ava acordos m ilitares bilaterais com o Japão e as Filipinas. Adicionalm ente, firm ava o Pacto Anzus com a Austrália e a Nova Zelândia. Com eçava a ser erguido um vasto sistem a de alianças entre os Estados Unidos e os países da orla litorânea da Ásia. O arm istício coreano im pulsionou, em 1954, os tratados m ilitares bilaterais com a Coreia do Sul e Taiwan. Por m eio deles, fechava-se o ferrolho estratégico m ontado em torno da China Oriental e do porto soviético de Vladivostok, no Pacífico Norte.
Enquanto o conflito coreano am ainava, o foco de atenção de
Washington voltava-se para a Indochina. No Vietnã, a guerra colonial sustentada pela França contra as forças do Vietm inh atingiu seu ponto final na batalha de Dien Bien Phu. Logo depois, em j ulho de 1954, o Acordo de Genebra determ inava a retirada francesa e a divisão do Vietnã em dois Estados.
A instalação do regim e com unista de Ho Chi Minh no Vietnã do
Norte conduziu à form ulação, em Washington, da cham ada “teoria do dom inó”. Segundo essa proposição geopolítica, a queda de qualquer novo dique de contenção im pulsionaria a difusão do com unism o no Oriente. Em consequência, os Estados Unidos expandiram ainda m ais seu sistem a de alianças asiáticas form ando a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Seato). A nova aliança abrangia Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas, Tailândia e Paquistão. A Seato colocou sob sua proteção os três Estados indochineses não-com unistas: Vietnã do Sul, Laos e Cam boj a.
O últim o elo do vasto sistem a de alianças foi erguido no Oriente
Médio, em 1955. A iniciativa partiu do Iraque, que se sentia am eaçado pelo pan-arabism o do Egito de Gam al Abdel Nasser. Os iraquianos conseguiram a adesão da Turquia, do Irã, do Paquistão e da Grã-Bretanha ao Pacto de Bagdá. Os Estados Unidos, em bora não participassem diretam ente, foram adm itidos no com itê m ilitar. A participação dos britânicos e turcos, integrantes da Otan, enlaçou o acordo regional na rede de tratados m ilitares liderada por Washington.
O sistem a de alianças asiáticas dos Estados Unidos configurou um
im ponente “cordão sanitário” em torno das potências com unistas. Esse dispositivo de segurança inspirou, por sim ilaridade com a “Cortina de Ferro” europeia, a expressão “cortina de bam bu”. Um a fronteira estratégica erguia-se na orla asiática separando dois blocos geopolíticos antagônicos.
A im ponência do “cordão sanitário” era, contudo, ilusória. Na 1949
Europa, a Otan deitava raízes na solidariedade histórica e cultural entre os Estados Unidos e os aliados do Velho Mundo. Na Ásia, com exceção do Pacto Anzus, as alianças m ilitares careciam de fundam entos sólidos lastreando-se apenas na vontade política dos regim es pró-ocidentais.
O Pacto de Bagdá com eçou a se degradar em 1958, quando o
novo regim e nacionalista iraquiano resolveu abandoná-lo. Transform ado na Organização do Tratado Central (Cento), sobreviveu até a Revolução Iraniana de 1979. Contudo, antes disso, a Guerra do Vietnã assestou o golpe m ortal na estratégia da contenção asiática, atingindo em cheio a credibilidade da Seato.
O envolvim ento m ilitar am ericano no Vietnã com eçou,
tim idam ente, em 1961, com o envio dos prim eiros assessores, que deveriam capacitar as forças do Vietnã do Sul a com bater a guerrilha com unista do Vietcong. O com prom isso de proteção da Seato e, no fundo, a “teoria do dom inó”, im punham sua lógica a Washington, em purrando os Estados Unidos para um conflito periférico no quadro da rivalidade global entre as superpotências.
O fracasso m ilitar das forças sul-vietnam itas provocou, a partir de
abril de 1964, a escalada am ericana. No início de 1967, as tropas am ericanas na Indochina atingiam 400 m il e, em 1969, cerca de 550 m il. Entretanto, a cada ano, evidenciava-se a im possibilidade de vencer a guerra nas condições geopolíticas existentes, que restringiam a ação das forças terrestres am ericanas e sul-vietnam itas ao território do Vietnã do Sul. Ao m esm o tem po, as perdas hum anas crescentes erodiam o apoio popular à guerra nas selvas distantes da Indochina, im pulsionando o m ovim ento pacifista nos Estados Unidos.
A grande Ofensiva do Tet, prom ovida pelas forças norte-
vietnam itas e do Vietcong no início de 1968, selou a derrota política am ericana. O republicano Richard Nixon, eleito presidente, incluiu em sua cam panha a prom essa de retirar as tropas do atoleiro da Indochina. A retirada prolongou-se por quatro anos, pontuados por im passes e decepções na m esa de negociações. Essa foi a etapa m ais violenta da guerra, que se alastrou para os santuários do Vietcong no Cam boj a e envolveu a retom ada dos pesados bom bardeios sobre o Vietnã do Norte.
A sangrenta estratégia de saída honrosa alcançou seus m odestos
obj etivos em j aneiro 1973 com a assinatura dos Acordos de Paris. Antes disso, porém , Nixon e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, j á tinham posto em m archa um a nova estratégia para a Ásia, destinada a substituir o vazio deixado pelo desm oronam ento do “cordão sanitário”.
A carta chinesa
A Revolução Chinesa, um m ovim ento nacional e popular que se
desenrolou por m ais de duas décadas, gerou um Estado socialista autônom o diante da União Soviética. O poderio geopolítico desse Estado — expresso na dem ografia, na extensão territorial e na base de recursos econôm icos — representou um desafio estratégico para Moscou. A rivalidade potencial entre Moscou e Pequim perm aneceu oculta durante a prim eira década do poder de Mao Tsé-tung, m as eclodiu quando a China tom ou a decisão de desenvolver um program a nuclear nacional.
O Cism a Sino-Soviético tornou-se público em j ulho de 1960,
quando a União Soviética rom peu o program a de cooperação m ilitar bilateral, suspendendo a assistência financeira e retirando todos os assessores técnicos que trabalhavam na China. A reação de Pequim consistiu no fecham ento da fronteira chinesa com a União Soviética. A ruptura expressava o tem or de Moscou em relação a um a China que agregava a m odernização m ilitar a seu potencial dem ográfico, alterando, desse m odo, o cenário estratégico asiático.
As raízes da rivalidade entre os gigantes com unistas foram
disfarçadas sob um espesso m anto de acusações ideológicas lançadas de lado a lado. Pequim assestou suas baterias contra o “revisionism o” de Kruschev, supostam ente expresso em suas m anifestações favoráveis à coexistência pacífica e à concorrência econôm ica entre o capitalism o e o socialism o. Moscou reagiu criticando o “aventureirism o” da política externa chinesa. O torneio retórico prosseguiu por duas décadas, até depois da m orte de Mao Tsé-tung.
A China explodiu sua prim eira bom ba atôm ica em 1964. Dois anos
m ais tarde, iniciou a Revolução Cultural, radicalizando suas experiências coletivistas e afastando-se ainda m ais da União Soviética. Em agosto de 1969, pouco depois da abertura das negociações de paz do Vietnã, estalaram conflitos arm ados ao longo do rio Ussuri, na fronteira sino-soviética. Naquele m om ento, a China e a União Soviética ficaram perigosam ente próxim as da guerra total, e a profundidade do cism a tornou-se patente até para os m ais céticos.
A reorientação da política externa am ericana em preendida por
Nixon e Kissinger tom ou com o ponto de partida as evidências de que a estratégia da contenção na Ásia tinha entrado em colapso e j á não correspondia às tendências dinâm icas do sistem a internacional. A retirada do Vietnã, um a necessidade política prem ente em decorrência da oposição dom éstica à guerra, significava a virtual supressão do “cordão sanitário”. O Cism a Sino-Soviético, cuj as causas não se relacionavam com a política am ericana, apresentava a oportunidade de reconfigurar positivam ente a contenção da União Soviética.
Kissinger interpretou essa reorientação, im posta pelas
circunstâncias, com o a substituição do idealism o wilsoniano por um realism o com plexo e nuançado, construído sobre alicerces geopolíticos:
Durante vinte anos, o idealism o wilsoniano capacitara os líderes am ericanos a conduzir seu papel global com um vigor m issionário. Mas os Estados Unidos do final dos anos 1960 — em im passe na Indochina e destroçados pelo conflito dom éstico — exigiam um a definição m ais com plexa e cheia de nuanças quanto aos seus envolvim entos internacionais. Wilson orientara um país que era novo em relação a questões internacionais e confiante em sua habilidade para conduzir qualquer problem a até a sua resolução final; Nixon herdou um a sociedade tom ada pela frustração, cuj o futuro dependeria da sua capacidade para estruturar m etas alcançáveis de longo prazo e perseverar nestas m etas m esm o diante da adversidade [...].
A política externa conduzida por Nixon e Kissinger girou em torno
de três eixos, que se reforçavam e apoiavam uns aos outros: a “retirada honrosa” do Vietnã, a aproxim ação e cooperação com a China e a distensão das relações com a União Soviética. Um processo de retirada do Vietnã, ainda que pontuado por um a intensificação conj untural dos bom bardeios no Norte, era condição indispensável para as duas m etas estratégicas. A redefinição radical das relações com Pequim servia ao propósito de contrabalançar o poder soviético gerando incentivos a um a nova atitude de Moscou. A distensão com a União Soviética deveria produzir um a dinâm ica de relaxam ento em diversas áreas de atrito, que parecia crucial para possibilitar a recom posição da autoconfiança dos Estados Unidos.
A abertura para a China constituiu o aspecto m ais sensacional e
dram ático da nova política externa de Washington. Em tese, essa possibilidade existia desde o início dos atritos entre Moscou e Pequim — e tanto o alem ão Konrad Adenauer, em 1957, quanto o francês Charles de Gaulle, no início dos anos 1960, apontaram a inadequação da ideia de contenção da China. Mas nas palavras de Kissinger, “durante m uito tem po, os elaboradores am ericanos de políticas, cegos por preocupações ideológicas, foram incapazes de apreciar que a ruptura sino-soviética representava um a oportunidade estratégica para o Ocidente”.
Do ponto de vista de Pequim , a aproxim ação com Washington
constituía um a necessidade geopolítica prem ente. O isolam ento internacional do país, no decorrer da década de 1960, tinha se tornado patentem ente perigoso, com o evidenciara o conflito na fronteira sino-soviética. A oportunidade de ingressar na ONU, ocupando a cadeira de Taiwan não podia ser desperdiçada, pois representava a consolidação diplom ática do Estado criado pela Revolução de 1949. Os chineses nem sequer aguardariam a conclusão de um tratado no Vietnã para estabelecer relações de cooperação com o Ocidente.
Os prim eiros sinais de disposição para o diálogo foram em itidos
pela adm inistração Nixon em 1969, ao expressar “profunda preocupação” com os conflitos de fronteira. Depois disso, o Paquistão passou a funcionar com o discreto interm ediário para as consultas entre Washington e Pequim , que culm inariam na viagem secreta de Kissinger à China, em j ulho de 1971. Os encontros do secretário de Estado am ericano com os líderes chineses prepararam a visita de Nixon à China, no ano seguinte, e um efeito diplom ático im ediato: em 25 de outubro de 1971, a Assem bleia Geral da ONU votou a adm issão da China, em substituição ao regim e de Taiwan. Assim , a República Popular da China assum ia um dos cinco assentos perm anentes no CS.
A aproxim ação sino-am ericana realizou-se sob a form a
sensacional da viagem do presidente am ericano à capital de um Estado que perm anecia sem relações diplom áticas com os Estados Unidos. Nixon visitou a China entre 21 e 27 de fevereiro de 1972, entabulando longas conversações com Mao Tsé-tung e Chu En Lai, o núm ero dois na hierarquia chinesa. A visita não produziu nenhum acordo diplom ático form al — nem era essa a pretensão. Contudo, o Com unicado de Xangai, declaração conj unta final, sugeriu, em linguagem apropriadam ente hiperbólica, um a aliança tácita destinada a se opor a eventuais tentativas soviéticas de dom inação da Ásia.
As conversações sino-am ericanas forneceram um a base de
entendim ento sobre a questão de Taiwan. Washington com prom eteu-se com a política de “um a China” e preparou a ruptura das relações diplom áticas com o regim e de Taipé. Pequim com prom eteu-se a buscar a reunificação por m eios pacíficos, afastando a am eaça de invasão da ilha. Apenas em 1979 com pletou-se, pelo reatam ento das relações sino-am ericanas e a ruptura form al entre Washington e Taipé, o processo aberto com a visita histórica de Nixon.
Diplomacia triangular e política da distensão
O acordo tácito sino-am ericano tinha consequências estratégicas
para a União Soviética. Daquele m om ento em diante, Moscou deveria trabalhar com o cenário com plexo de duas frentes de com bate: a Otan, na Europa, e a China, na Ásia. O arsenal nuclear chinês, em bora incom paravelm ente m enor que o soviético, proporcionava um a dissuasão lim itada. A prom essa im plícita de apoio am ericano à China no caso de um a agressão reduzia o espaço de m anobra soviético.
A nova configuração do sistem a internacional proporcionou
condições para o desenvolvim ento da política da distensão. Nixon e Kissinger acreditavam que os soviéticos seriam forçados a aceitar um a dinâm ica de redução das tensões em várias áreas do m undo e, em especial, no Oriente Médio. E, de fato, na conj untura crítica da guerra árabe-israelense de 1973, Moscou revelou m oderação e prudência, perm itindo que Washington assum isse a iniciativa diplom ática e conduzisse o processo que resultou, anos depois, no acordo de paz entre Israel e o Egito.
A diplom acia triangular, tal com o caracterizada por Kissinger,
substituía a contenção rígida — expressa no “cordão sanitário” — por um a dinâm ica de equilíbrio de poder no espaço asiático. A dinâm ica dessa política exigia que Washington conservasse sem pre a iniciativa fornecendo estím ulos para a cooperação bilateral tanto com Moscou quanto com Pequim . No esquem a do triângulo, a posição negociadora am ericana seria m ais favorável enquanto os Estados Unidos estivessem m ais próxim os de cada um a das potências com unistas do que estas estivessem entre si.
A política da distensão exprim iu-se em várias frentes m as, antes de
tudo, na esfera dos tratados de lim itação de arm am entos nucleares. Durante a década de 1970, a partir da adm inistração Nixon, ergueram -se os pilares do edifício de tratados que regularam o equilíbrio do terror.
O prim eiro pilar foi o Tratado de Lim itação de Arm as Estratégicas
(Salt-1), firm ado em 1972 por Nixon e o líder soviético Leonid Brej nev. As negociações, que estavam em perradas, com eçaram a se acelerar em m eados de 1970, por iniciativa am ericana. Na época, sob o im pacto do m ovim ento pacifista, o Congresso vinha cortando as verbas para o program a de defesa antim ísseis, o que conduziu o Pentágono a pressionar por um tratado abrangente com a União Soviética.
No núcleo do Salt-1 encontrava-se o acordo sobre m ísseis
antibalísticos (ABM), que lim itou as defesas contra m ísseis estratégicos a duas cidades apenas e 200 vetores para cada lado. Seu significado era o de, virtualm ente, im pedir a defesa da população diante de um ataque nuclear. A lógica que o orientava baseava-se na m anutenção da eficácia da represália devastadora, elim inando os incentivos de um sistem a de defesa nacional antim ísseis para um prim eiro ataque de surpresa. O segundo pilar foram os acordos de lim itação de arm as ofensivas estipulados pelo Salt-1 e, depois, pelo Salt-2, assinado em 1979 por Jim m y Carter e Brej nev. Nos dois casos, fixaram -se tetos m áxim os, extrem am ente elevados, de vetores e ogivas. Os lim ites defini dos nesses tratados não se destinavam a reduzir os arsenais nucleares, m as a ordenar a corrida arm am entista de m odo que conservasse a paridade estratégica assim étrica.
A política da distensão atingiu seu ponto m ais alto depois do
encerram ento da adm inistração Nixon, antecipado pelos desdobram entos do escândalo de Watergate. Em 1975, reuniu-se em Helsinque — com a participação dos Estados Unidos, da União Soviética, do Canadá e dos Estados europeus — a Conferência sobre a Segurança e a Cooperação Europeia (CSCE). A Ata de Helsinque, que encerrou a cúpula, legitim ava a ordem em anada do fim da Segunda Guerra Mundial e da divisão da Europa em blocos geopolíticos antagônicos. A CSCE tornou-se um fórum de segurança de prim eira ordem , abrangendo as superpotências e suas alianças m ilitares, a Otan e o Pacto de Varsóvia. Mais tarde, com o fim da Guerra Fria, iria se transform ar num organism o de caráter perm anente: a atual Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE).
A adm inistração Nixon representou um a inflexão – ou um
parêntese – na orientação predom inante da política externa am ericana. O principal form ulador das estratégias de Nixon sintetizou o contraste entre os fundam entos da política externa daquele período e a tradição diplom ática do país:
A nova abordagem de Nixon da política externa desafiou o excepcionalism o am ericano e seu im perativo de que a política fosse baseada sobre a afirm ação de valores transcendentes. O desafio dos Estados Unidos, da m aneira com o Nixon e seus conselheiros o com preendiam , era adaptar essas verdades tradicionais ao novo am biente internacional. A experiência dom éstica dos Estados Unidos os havia levado a interpretar a ordem internacional com o sendo essencialm ente benigna, e sua diplom acia com o um a expressão da boa vontade e disposição no que dizia respeito ao com prom isso. Nesse esquem a, a hostilidade era percebida com o um a aberração. A política externa de Nixon, por outro lado, percebia o m undo com o com posto de desafios am bíguos, de nações im pelidas pelos interesses [...] e de m udanças increm entais no lugar de finais — um m undo, em sum a, que poderia ser adm inistrado m as que não poderia ser nem dom inado e tam pouco rej eitado.