Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 11 · O Caso da Utopia
SOCIALISTA
Que as classes dom inantes trem am ante a ideia de um a revolução com unista. Os proletários nada têm a perder a não ser as suas correntes. Têm um m undo a ganhar. Proletários de todo o m undo, uni-vos!
Essas palavras fecham o Manifesto com unista, escrito em 1848
por dois j ovens alem ães: Karl Marx, 29 anos, e Friedrich Engels, 27.
Em 1937, Leon Trotski, o líder da Revolução Russa expulso da
União Soviética por Stalin, escreveu no México um prefácio à prim eira edição do Manifesto, publicada na África do Sul: “Os noventa anos do Manifesto do Partido Com unista”. Nesse prefácio, Trotski apontava, entre os trechos envelhecidos do panfleto clássico de Marx e Engels, a profecia da transform ação da revolução alem ã de 1848 em revolução socialista. Explicava que a hora final do capitalism o tinha sido anunciada apenas com a Prim eira Guerra Mundial, que “fazia de nossa época a época de guerras, revoluções e do fascism o”.
Entre os m arxistas, sem pre vigorou a certeza de que o futuro
pertencia ao socialism o. Os prazos e os ritm os da decom posição do sistem a capitalista eram m otivo de polêm icas, às vezes apaixonadas; a vitória final do com unism o não era posta em dúvida.
Nessa certeza, residia a força, o poder hipnótico do m arxism o.
Marx tinha fornecido um m étodo de organização da história que resum ia séculos de conflitos num esquem a de sucessão de sistem as sociais. O escravism o antigo dera lugar ao feudalism o m edieval, e este ao capitalism o. O capitalism o continha, em seu interior, as sem entes da própria destruição: com o os sistem as anteriores, estava destinado a desaparecer para dar lugar a um m odo superior de organização da sociedade. O socialism o não era apenas um ideal, m as um a necessidade histórica.
O pensam ento de Marx e Engels era um fruto de sua época,
profundam ente m arcada pelo positivism o. A crença inabalável no poder da ciência e o otim ism o diante do futuro da hum anidade são as fundações do m arxism o. O m aterialism o histórico seria a ferram enta para desvendar as leis da história.
O m étodo histórico m arxista funcionava com o um a chave m ágica,
que abria as portas do futuro. A adesão ao socialism o de Marx significava m uito m ais que a sim ples opção por um partido: ser com unista era rem ar na direção da correnteza da história. Os partidários de Marx, inicialm ente pouco num erosos, proliferaram no m undo inteiro. No interior da Prim eira Internacional (1864-1876), os m arxistas disputavam a hegem onia com os anarquistas. Quando Engels fundou a Segunda Internacional, em 1889, seis anos após a m orte de Marx, o m ovim ento socialista internacional j á era quase todo m arxista.
O marxismo no poder
A Com una de Paris, de 1871, constituída no contexto da derrota
francesa diante da Prússia, foi a prim eira tentativa de um governo socialista na história. O regim e da Com una abrigava um leque heterogêneo de correntes de esquerda, entre as quais os m arxistas não passavam de pequena m inoria. O próprio Marx, que não acreditava no sucesso da Com una, saudou os revolucionários franceses que tiveram a ousadia de lançar o “assalto ao Céu”.
O socialism o só conseguiu estabelecer-se duradouram ente no
poder m uitos anos depois da m orte dos autores do Manifesto, em 1917, com a vitória da Revolução Bolchevique na Rússia. Durante o 7 de novem bro (25 de outubro, segundo o velho calendário bizantino), os bolcheviques dirigidos por Lenin e Trotski protagonizaram um golpe que derrubou o frágil governo provisório, surgido da insurreição popular de m arço. Naquela noite, perante o Congresso dos Sovietes, constituía-se um governo com unista. Lenin, presidente desse governo, tom ou a palavra e disse sim plesm ente: “Agora vam os nos ocupar na edificação da ordem socialista”. A utopia chegava ao poder.
Apenas algum as sem anas antes de ocupar a posição de líder do
novo governo revolucionário, Lenin tinha term inado de escrever um ensaio de interpretação da doutrina de Marx e Engels sobre a transform ação do Estado na transição do capitalism o para o socialism o, e deste para o com unism o. O ensaio sintetizava a tese m arxista de que o Estado nada m ais era que um a “m áquina especial para a repressão” de um a classe social pela outra, e profetizava a extinção gradual dessa m áquina de repressão. No socialism o, logo após a tom ada do poder, o Estado com eçaria a se debilitar:
[...] na transição do capitalism o para o com unism o, a repressão é ainda necessária, m as é j á repressão da m inoria dos exploradores pela m aioria dos explorados. O aparelho especial, a m áquina especial para a repressão, o “Estado”, é ainda necessário, m as é j á um Estado de transição, j á não é um Estado no sentido próprio, porque a repressão da m inoria dos exploradores pela m aioria dos escravos assalariados de ontem é algo relativam ente tão fácil, sim ples e natural que custará m uito m enos sangue do que a repressão das insurreições de escravos, de
servos, de operários assalariados, que custará m uito m enos à hum anidade. E é com patível com a extensão da dem ocracia a um a m aioria tão esm agadora da população que a necessidade de um a m áquina especial para a repressão com eça a desaparecer.
O socialism o é, no esquem a m arxista, a fase de transição entre o
capitalism o e o com unism o. O com unism o é o ponto de chegada: a sociedade da abundância, liberta das velhas divisões de classes. O Estado debilita-se no socialism o até desaparecer gradualm ente com a passagem para o com unism o:
Finalm ente, só o com unism o torna o Estado com pletam ente desnecessário, pois não há ninguém para reprim ir, “ninguém ” no sentido de um a classe, no sentido de um a luta sistem ática contra um a parte determ inada da população.
Durante o governo de Lenin (1917-1924), a oposição foi proibida e, m esm o no interior do Partido Com unista, tornou-se ilegal form ar facções. Os tem pos difíceis, de fom e e guerra civil, serviam para j ustificar a ditadura, apresentada com o tem porária. A dem ocracia, em vez de se estender, agonizava. O Estado, em vez de se debilitar, sufocava toda a sociedade.
Os bolcheviques, à som bra da crise terrível que acom panhou a
im plantação de seu poder na Rússia, criavam na prática um a nova doutrina política, que j ustificava o m onopólio das instituições de Estado pelo Partido Com unista. Essa doutrina, que seria descrita com o a “ditadura do proletariado” e reproduzida m ais tarde em m uitos outros países, representava um a novidade entre os m arxistas. Num ensaio intitulado A revolução russa, escrito apenas um ano depois da tom ada do poder pelos bolcheviques, a revolucionária polonesa Rosa Luxem burgo, com panheira de Lenin no m ovim ento com unista internacional, lançou-se à crítica da ditadura soviética e à defesa das liberdades dem ocráticas:
Liberdade som ente para os partidários do governo, para os m em bros de um partido, por num erosos que sej am , não é liberdade. Liberdade é sem pre a liberdade daquele que pensa de m odo diferente. Não por fanatism o da “j ustiça”, m as porque tudo quanto há de instrutivo, de salutar e purificante na liberdade política prende-se a isto e perde sua eficácia quando a “liberdade” torna-se um privilégio.
O governo de Stalin (1924-1953) tornou perm anentes as m edidas
de repressão adotadas nos tem pos de Lenin. O terror transform ou-se em m étodo de governo. A repressão, brutal, caía não sobre um a m inoria de exploradores, m as sobre a m aioria da população soviética. Milhões de cam poneses foram m ortos durante a coletivização forçada das terras, entre 1928 e 1933. Nos processos de Moscou, na década de 1930, um a vasta farsa j udiciária, a oposição com unista foi dizim ada. Centenas de m ilhares de prisioneiros políticos eram enviados para os cam pos de concentração espalhados pela im ensidão da Sibéria, o célebre arquipélago Gulag descrito por Alexandre Solj enitsin.
O Partido Com unista identificou-se ao Estado. O sistem a totalitário
de Estado-Partido sedim entou o m onopólio do poder econôm ico e político pela burocracia com unista. No topo da burocracia, o Com itê Central e, m ais ainda, o Politburo, concentraram as decisões de Estado. No auge do stalinism o, expurgos cíclicos no aparelho burocrático asseguravam o poder absoluto do secretário-geral, que supostam ente encarnava a vontade da classe proletária.
Hannah Arendt desvendou as peculiaridades dos Estados
totalitários soviético e nazista. Sua análise revelou que não existe, verdadeiram ente, um poder m onolítico do Estado-Partido, m as um a dissolução das instituições públicas no aparelho partidário, que é a fonte últim a das decisões:
O que m ais cham a a atenção de quem observa o Estado totalitário não é, por certo, a sua estrutura m onolítica. [...] A relação entre as duas fontes da autoridade, entre o Estado e o Partido, é a relação entre um a autoridade aparente e outra real, de m odo que m uitos descrevem a m áquina governam ental do regim e totalitário com o fachada im ponente, a esconder e disfarçar o verdadeiro poder do partido.
Na Alem anha nazista, todas as funções adm inistrativas do Estado
foram duplicadas, m eticulosam ente, em órgãos do Partido. Quando antigos e prestigiados líderes nazistas tornavam -se altos funcionários do Estado, perdiam o poder real, passando a se subordinar, na prática, ao encarregado partidário por aquela função. Na União Soviética, sob Stalin, a estrutura estatal baseada nos sovietes perdeu qualquer traço de autonom ia diante do Partido, m as j am ais foi abolida. Os órgãos de Estado continuaram a exercer funções sim bólicas e decorativas, externas, ao passo que a autoridade real concentrava-se no Partido.
O Estado totalitário é am orfo. No lugar da clara divisão de
com petências e responsabilidades institucionais, há um a rede intrincada de órgãos, superpostos uns aos outros e m uitas vezes concorrentes, que se rem ete, invariavelm ente, ao núcleo do poder. A polícia política ocupa um lugar crucial no aparelho de poder, m as tam bém está subordinada, no final das contas, ao Politburo e ao secretário-geral:
Cada em preendim ento na União Soviética tem o seu departam ento especial de polícia secreta, que espiona tanto os m em bros do partido com o o pessoal com um . Coexiste com esse departam ento outra divisão de polícia do próprio partido, que por sua vez vigia todo m undo, inclusive os agentes da NKVD, e cuj os m em bros são desconhecidos pela entidade rival. [...] Muito m ais im portante que esses aparelhos, porém , é o “departam ento especial” da NKVD, que representa [...] um a polícia secreta dentro da polícia secreta. Todos os relatórios dessas agências policiais rivais vão term inar no Com itê Central de Moscou e no Politburo. É aí que se decide qual dos relatórios será levado em conta, e qual das divisões terá o direito de tom ar as respectivas m edidas policiais.
Na União Soviética, a utopia revolucionária de Marx vestia as
roupagens da razão do Estado-Partido. O sistem a totalitário ossificou-se, envenenando toda a vida política, científica e cultural soviética. Stalin encarregava-se de efetuar a prim eira m orte do socialism o: m uito antes de m orrer com o fenôm eno histórico, o socialism o m orreu com o horizonte de liberdade.
A expansão do socialismo
A Associação Internacional dos Trabalhadores (Prim eira
Internacional), fundada por Marx, reunia não m ais que algum as dezenas de grupos anarquistas e socialistas europeus. A Internacional Socialista (Segunda Internacional) foi o leito dos grandes partidos social-dem ocratas da Alem anha, Áustria, França, Grã-Bretanha e Rússia que fincaram o pensam ento m arxista na vida política e parlam entar da Europa.
A Prim eira Guerra Mundial provocou a divisão do m ovim ento
socialista internacional. As direções dos grandes partidos social-dem ocratas, agrupadas em torno da liderança do alem ão Karl Kautsky (o venerado colaborador do velho Engels e organizador dos últim os volum es de O capital), optaram por colaborar com os governos nacionais durante a guerra, votando os créditos m ilitares nos parlam entos e suspendendo a agitação socialista. Lenin, Trotski, Rosa Luxem burgo e Karl Liebknecht reagiram e rom peram com a Segunda Internacional, acusando os velhos partidos de terem sido dom esticados pela política parlam entar. Lenin, num panfleto célebre, proclam ou a falência da social-dem ocracia:
A falência da Segunda Internacional exprim iu-se com especial
clareza na traição escandalosa, pela m aioria dos partidos social-dem ocratas oficiais da Europa, de suas convicções e de suas resoluções solenes [...]. Mas essa falência, que m arca a vitória total do oportunism o, além da transform ação dos partidos social-dem ocratas em partidos operários nacional-liberais, não é senão o resultado de toda a época histórica da Segunda Internacional, do final do século XIX ao com eço do século XX. As condições obj etivas dessa época de transição, que vai do encerram ento das revoluções burguesas e nacionais na Europa Ocidental ao princípio das revoluções socialistas, engendraram e alim entaram o oportunism o.
Segundo a análise de Lenin, o crescim ento da capacidade
produtiva das econom ias industriais tinha proporcionado o surgim ento de um a aristocracia operária, que representava a base social das direções social-dem ocratas. No am biente das dem ocracias parlam entares, essas direções oportunistas teriam substituído os princípios do socialism o pela lealdade nacional. O alinham ento dos social-dem ocratas aos governos nacionais em guerra assinalava sua transform ação em “partidos operários nacional-liberais” e exigia a construção de novos partidos revolucionários e de um a nova Internacional.
A Internacional Socialista renunciava ao program a m arxista, à
revolução proletária e ao internacionalism o. Nessa renúncia, m uitas vezes reiterada nas décadas seguintes, encontra-se a origem dos atuais partidos social-dem ocratas. O reform ism o social-dem ocrata teve sua época de glória na fase final da Guerra Fria, durante as décadas de 1970 e 1980, quando o crescim ento econôm ico da Europa Ocidental criou as condições para o estabelecim ento das políticas sociais do Welfare State (Estado do Bem -Estar). Willy Brandt, na Alem anha Ocidental, Olof Palm e, na Suécia, François Miterrand, na França, e Felipe González, na Espanha, sim bolizaram o zênite dessa social-dem ocracia convertida à ordem capitalista. Brandt e Miterrand, entre outros líderes social-dem ocratas, figuraram com o parceiros de prim eira linha dos Estados Unidos na confrontação om a União Soviética.
O panfleto de Lenin contra a “traição dos partidos social-
dem ocratas” funcionou com o toque de reunir para os socialistas que perm aneciam fiéis à revolução internacional. Essa corrente denom inou-se com unista, apropriando-se de um term o que, no esquem a histórico m arxista, significava a etapa superior da sociedade socialista. Desde aquele m om ento, com unistas seriam os revolucionários m arxistas, que se separavam dos social-dem ocratas reform istas. A vitória da Revolução Russa, dirigida pelo partido de Lenin, abriu cam inho para a fundação da Internacional Com unista ou Kom intern (Terceira Internacional), que nasceu em Moscou em 1919.
O poder bolchevique anim ou a nova Internacional. Pelo m undo
todo, organizaram -se partidos com unistas. O m arxism o tornava-se m arxism o-leninism o, incorporando o m odelo soviético da ditadura do proletariado. A cham a revolucionária, porém , extinguiu-se cedo. Com Stalin e as políticas de expurgos, o Kom intern foi desfigurado até se tornar um instrum ento dócil da geopolítica de Moscou. Stalin enraizou-se no poder renunciando à ideia da revolução internacional. O “socialism o num só país”, proclam ado na segunda m etade dos anos 1920, destinava-se a com bater a dissidência trotskista no interior do PCUS. Trotski e seus seguidores enxergavam na revolução proletária europeia a única oportunidade para a consolidação do socialism o na União Soviética. A derrota dessa dissidência, que conheceu a anulação política e o exterm ínio físico, assinalou a subm issão com pleta do Kom intern à vontade de Stalin.
Os partidos com unistas, no m undo inteiro, transfiguraram -se em
tentáculos da política externa soviética. Em 1939, quando foi firm ado o Pacto Germ ano-Soviético, os com unistas passaram a tratar com sim patia a Alem anha nazista, concentrando o fogo de suas baterias nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Em 1941, quando Hitler lançou a ofensiva contra a União Soviética, os com unistas tiveram de prom over um a dolorosa reviravolta política, dirigindo o fogo contra as potências do Eixo. Em 1942, em troca da assinatura do tratado de aj uda m útua com a Grã-Bretanha, Stalin dissolvia o Kom intern.
O m arxism o foi, por duas vezes, vítim a do Estado. A Internacional
Socialista abandonou a ideia da revolução internacional, pois seus partidos enquadraram -se nas instituições de Estado das dem ocracias parlam entares europeias. A Internacional Com unista renunciou à ideia da revolução internacional, visto que seus partidos subm eteram -se ao com ando do Estado soviético.
A época da Guerra Fria assinalou a expansão geográfica do
socialism o para além das fronteiras da União Soviética. O processo de expansão assum iu form as variadas. Na Europa Oriental e na Coreia do Norte, decorreu da divisão do sistem a internacional nas esferas de influência das superpotências. Na China e em Cuba, foi o fruto de revoluções populares dirigidas por partidos socialistas. Na Ásia (Vietnã) e na África (Angola, Moçam bique), resultou de m ovim entos de independência em antigas colônias europeias. Nessa traj etória destacaram -se líderes com o Mao Tsé-tung, Ho Chi Min e Fidel Castro, representantes de um socialism o que havia m uito tinha rom pido com a tradição europeia de Marx e Engels.
Os autores do Manifesto acreditavam que o socialism o era produto
do esgotam ento histórico do capitalism o industrial. Suas esperanças revolucionárias concentravam -se nas sociedades europeias, em que o sistem a fabril criara um operariado num eroso, ativo e organizado. O dístico do Manifesto era: “A em ancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Essa crença os levava a acom panhar com atenção e em oção o desenvolvim ento do m ovim ento sindical na Grã-Bretanha, na Alem anha, na França e nos Estados Unidos.
Lenin e Trotski nutriam a m esm a convicção. Quando lideraram a
revolução na Rússia, pensavam estar apenas acendendo o pavio que incendiaria a Europa. Em m eio às terríveis dificuldades dos prim eiros anos, dirigiam olhares ansiosos para a classe operária dos países industrializados, de onde teria que vir aj uda para a pátria socialista isolada e esgotada.
O desenvolvim ento histórico foi cruel com as esperanças desses
revolucionários europeus que, de certa form a, representavam a continuidade e a culm inância da crença ilum inista no progresso. Durante a Guerra Fria, o socialism o expandiu-se para as sociedades agrárias, atrasadas, do Oriente, e em antigas colônias africanas e asiáticas. Os com unistas instalaram arrem edos da ditadura do proletariado em lugares onde virtualm ente não existia um a classe operária. Enquanto isso, a força social e política dos com unistas dim inuía cada vez m ais nos países industrializados da Europa Ocidental, onde a classe operária votava em m assa nos partidos social-dem ocratas da Segunda Internacional. O econom ista Walt W. Rostow interpretou essa evolução com o um sinal de que o socialism o não era senão um a enferm idade do processo de m odernização dos países atrasados.
O colapso do império vermelho
Ainda na década de 1950, Kennan tornou-se um crítico da política
externa am ericana. Despido das roupagens de Mr. X, o inspirador da doutrina da contenção insurgia-se contra aquilo que lhe parecia um a interpretação inadequada de suas próprias propostas. Washington errava, segundo Kennan, na ênfase posta sobre os aspectos estratégicos da contenção, expressa na prioridade à Otan, na form ação do anel de alianças m ilitares asiáticas e na corrida nuclear. Aron escreveu, em 1978, um artigo de crítica à “conversão” de Kennan:
Por ironia da história, Kennan, que não se tornou fam oso e não influenciou os acontecim entos senão na época em que se confundia com Mr. X, esforça-se há uns trinta anos para se livrar desse fiel e em baraçoso com panheiro. [...] Desde logo ele fez duas obj eções à doutrina do containment, da qual era considerado o inspirador: por um lado, o princípio da contenção não precisava ser estendido
ao m undo inteiro ou aplicado sistem aticam ente em toda parte; por outro, não convinha dar prioridade aos m eios m ilitares. Ele disse várias vezes: eu falava de containment político, não m ilitar.
Kennan oscilou em suas opiniões sobre a aplicação do princípio da
contenção, m as a insistência nos instrum entos políticos de confrontação com a União Soviética decorria do núcleo da análise original de Mr. X. Essa análise antevia a falência estrutural do Estado soviético sob o peso de um sistem a econôm ico e político carente de dinam ism o, incapaz de acom panhar a evolução dos países capitalistas industrializados. Kruschev, ao defender a política da coexistência pacífica, acreditava que o socialism o iria “alcançar e ultrapassar” o capitalism o na arena da com petição econôm ica. Kennan tam bém queria um a coexistência pacífica por razões sim étricas: o tem po se encarregaria de revelar o atraso e o anacronism o do sistem a soviético, provocando seu desm oronam ento interno.
A União Soviética conseguiu sustentar taxas razoavelm ente
elevadas de crescim ento econôm ico durante as décadas da expansão extensiva da indústria de base. Os prim eiros sinais de fadiga do m odelo econôm ico apareceram na era Brej nev (1964-1982), m ais precisam ente, na segunda m etade desse período. A expansão industrial extensiva, baseada na adição perm anente de fatores de produção, aproxim ava-se do ponto de esgotam ento. O sistem a de planej am ento central revelava-se inadequado para proporcionar increm entos de produtividade e eficiência na econom ia soviética.
A estagnação econôm ica que m arcou o final da era Brej nev
ilum inou o conj unto de distorções da econom ia de planej am ento central. A m á qualidade e a quantidade insuficiente dos bens de consum o contrastavam com a oferta excessiva de bens de produção e interm ediários. A baixa produtividade da agricultura coletivizada exigia volum osas e perm anentes im portações de cereais. As inovações tecnológicas penetravam na econom ia m ilitar, m as não na econom ia civil. A alocação geral de fatores de produção, destituída de um sistem a de preços de m ercado, resultava em desperdícios e ineficiência colossais.
O prim eiro governo de Ronald Reagan decidiu, no início da década
de 1980, perseguir as tecnologias para a im plantação de um sistem a espacial de defesa antim ísseis. A Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), conhecida com o program a “guerra nas estrelas”, contrariava frontalm ente o conteúdo do tratado ABM, que era o fundam ento do Salt. Do ponto de vista científico e tecnológico, o sucesso do program a parecia im provável, m as a lógica da corrida arm am entista im punha à União Soviética um a resposta à altura, que poderia ser o desenvolvim ento de um proj eto sim ilar ou a m ultiplicação dos vetores estratégicos ofensivos. No contexto de estagnação da econom ia soviética, contudo, o financiam ento desse novo esforço bélico significaria arruinar a produção civil.
A ascensão ao poder de Mikhail Gorbachev, em 1985, derivou do
reconhecim ento, pelo PCUS, da encruzilhada histórica decisiva em que se encontrava a União Soviética. O program a do novo dirigente — expresso nas estratégias de abertura política (glasnost) e reform a econôm ica (perestroika) — refletia um a guinada radical e desesperada, cuj a finalidade consistia em engatar a econom ia soviética na revolução tecno-científica que tom ava im pulso no Ocidente. Todo o program a de revitalização econôm ica de Gorbachev dependia, em últim a instância, da inversão das relações entre a União Soviética e o Ocidente. Moscou não podia acom panhar o ritm o do esforço arm am entista im posto por Washington e precisava do aporte de capitais e tecnologias internacionais.
O fracasso do program a reform ista de Gorbachev revelou a força
da análise original de Kennan. A econom ia de planej am ento central não tinha a flexibilidade necessária para incorporar os m ecanism os de m ercado sem ruir sob o peso de suas distorções estruturais. O poder totalitário não podia ser reform ado parcialm ente sem que fosse deflagrada um a dinâm ica política e social de desagregação do sistem a de Estado-Partido. O m érito histórico de Gorbachev consistiu em perseverar nos princípios reform istas, am pliando continuam ente o alcance de seu program a e com batendo as tentativas da burocracia soviética de retroceder, violentam ente, ao ponto de partida. No fim das contas, o dirigente adm inistrou o colapso inevitável do Estado soviético, im pedindo que degenerasse em guerra civil e conservando a segurança dos arsenais nucleares do país.
O colapso da União Soviética foi precedido e preparado pela
im plosão do bloco soviético no Leste Europeu. O caráter súbito, revolucionário, da derrocada dos regim es com unistas nos países-satélites desnudou a carência de raízes sociais desses regim es, que se sustentavam , quase exclusivam ente, no poder de Moscou.
Quando Gorbachev im prim iu um novo curso à política externa
soviética, descartando a Doutrina Brej nev, os Estados da Europa Oriental foram varridos por revoluções populares que desm ontaram os regim es de partido único.
A queda do Muro de Berlim , em 9 de novem bro de 1989, assinalou
a falência da RDA e a supressão da cortina de ferro. Esse evento m aior rem oveu a fronteira estratégica que dividia a Europa em blocos geopolíticos antagônicos e m arcou, real e sim bolicam ente, o encerram ento da Guerra Fria. Dissolvia-se o sistem a internacional de Estados configurado em Yalta e Potsdam .
A União Soviética não resistiu à desm ontagem do bloco de países-
satélites. No final da curta “era Gorbachev”, o desm antelam ento político do PCUS liberou as forças centrífugas com prim idas no Estado soviético. As burocracias do Estado-Partido que controlavam o aparelho de poder nas repúblicas soviéticas, no am biente da crise derradeira na cúpula do PCUS, passaram a agir com o elites nacionais autônom as. As tentativas desesperadas de Gorbachev de articular um novo pacto federativo esbarravam no esvaziam ento da autoridade de Moscou. O colapso do aparelho totalitário arrastava o Estado à im plosão. Em dezem bro de 1991, a pátria do socialism o deixou de existir.
Os nomes malditos
Os anos 1989-1991 assinalaram a segunda m orte do socialism o.
Meio século depois de m orrer com o horizonte de liberdade, o socialism o m orria com o fenôm eno histórico.
As revoluções dem ocráticas de 1989 form aram o capítulo inicial
do processo. Em todo o bloco soviético da Guerra Fria, o socialism o foi identificado com a opressão nacional, e os partidos com unistas ficaram estigm atizados com o instrum entos do poder im perial de Moscou. O historiador Tim othy Garton Ash com preendeu o significado profundo das revoluções na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Rom ênia, Bulgária e Alemanha Oriental:
Karl Marx j ogou com a am biguidade da expressão alem ã burgeliche Gesellschaft, que tanto podia ser traduzida com o sociedade civil quanto com o sociedade burguesa. Marx [...] nivelou deliberadam ente as duas “cidades” da m odernidade, os frutos da Revolução Industrial e Francesa, o burguês e o cidadão. [...] O que a m aior parte dos m ovim entos de oposição por toda a Europa central e grande parte do povo que os apoia está realm ente dizendo é: Sim , Marx tem razão, as duas coisas estão intim am ente ligadas — e nós querem os as duas! Direitos civis e direitos de propriedade, liberdade econôm ica e liberdade política, independência financeira e independência intelectual, cada um desses term os apoia o outro. De m aneira que, sim , querem os ser cidadãos, m as tam bém querem os ser de classe m édia, no m esm o sentido que a m aioria dos cidadãos da m etade m ais afortunada da Europa é de classe m édia.
Dois episódios sangrentos, do ano revolucionário de 1989, serviram
para recordar que as lum inosas esperanças igualitárias e hum anistas de Marx tinham se envenenado, a ponto de se tornarem m áquinas ferozes e descontroladas de repressão. Na Rom ênia, a polícia política de um ditador enlouquecido descarregou sua m unição sobre o povo, m as não conseguiu isolar o país do m ovim ento geral de dem ocratização do antigo bloco soviético. Na China, os m andarins verm elhos j ogaram os tanques contra a m ultidão desarm ada na Praça da Paz Celestial, afogando em sangue o em brião de um a revolução dem ocrática. A som bra sinistra do assassinato em m assa — um a realidade trágica na União Soviética de Stalin e no Cam boj a de Pol Pot — acom panhou, agourenta, o crepúsculo do socialism o.
O capítulo definitivo foi escrito pelo desenlace do golpe frustrado
de agosto de 1991 na União Soviética. O fracasso dos golpistas, rem anescentes de um PCUS em agonia, representou o dobre de finados do Estado criado pela prim eira revolução proletária vitoriosa. A pátria do m arxism o-leninism o, por um a ironia necessária, foi tam bém seu túm ulo. A utopia socialista sem pre reservou um lugar de honra para a iconografia: as im agens de Marx, Lenin, Stalin e Mao coloriram a paisagem dos lugares públicos dos Estados com unistas. Quando, na Rússia, as m ultidões derrubaram as estátuas do prim eiro chefe da polícia política, Felix Dzerzinski, e do fundador do Estado soviético, Lenin, expressavam sim bolicam ente o encerram ento de um ciclo histórico.
Os sím bolos, as im agens e os nom es são elem entos essenciais da
linguagem das utopias. Depois de 1989, os partidos com unistas da Europa e de m uitos outros países renegaram o velho dogm a da “ditadura do proletariado” e extirparam de seus program as as referências ao m arxism o-leninism o. Foram m ais longe ainda e trocaram seus nom es de batism o, substituindo o term o “com unista” por “socialista”, “social-dem ocrata” ou outros. Procuraram apagar o passado, às vezes apenas por interesse eleitoral, às vezes para encontrar um novo com eço. Quiseram reescrever a própria história, lim pando-a e purificando-a. Essa operação de linguagem desatualiza o Manifesto com unista e o rem ete para os lugares reservados aos docum entos de outra época.