Relações Internacionais: Teoria e História
Capítulo 20 · Mundo Árabe
MUNDO MUÇULMANO
“Só há um Deus, que é Alá, e Maom é é o seu profeta”. A voz do
anj o Gabriel transm itiu essa m ensagem a Maom é no ano 610. A partir da Noite do Destino, com o ficaria conhecida, o profeta recebeu várias outras revelações e passou a pregar a nova fé m onoteísta na cidade de Meca.
O m onoteísm o de Maom é difundiu-se entre os pobres de Meca e
diversas tribos do deserto, alarm ando os sacerdotes dos cultos dom inantes da cidade. Em 622, perseguido, o profeta abandonou a cidade e refugiou-se em Iatreb no episódio conhecido com o Hégira.
O islam ism o logo tornou-se predom inante em Iatreb, que passou a
cham ar-se Medina (a cidade do profeta). Então, Maom é organizou seus seguidores e proclam ou um a guerra santa (j ihad) contra os senhores de Meca. Em 630, as forças do profeta conquistaram Meca. Dois anos depois, à frente de dezenas de m ilhares de seguidores, Maom é realizou um a peregrinação coletiva a Meca e retirou da Caaba os ídolos politeístas, deixando apenas a Pedra Negra. Esse ato instituiu a nova religião m onoteísta e concluiu a unificação política das tribos da península.
O m onoteísm o islâm ico é m ais absoluto que o cristão. Para os
m uçulm anos, Deus não tem filhos, pois isso não seria coerente com a sua unicidade. Maom é é o principal profeta, m as, ao contrário do Jesus dos cristãos, não é filho de Deus. O Corão, livro sagrado dos m uçulm anos, contém as revelações recebidas por Maom é e é a única palavra direta de Deus. Mas não foi escrito por Maom é, e sim pelo califa Otm an, o terceiro sucessor do profeta, em 652.
O Islã, apesar da sua profunda unidade básica, divide-se em
diversas seitas. As m ais im portantes, tanto do ponto de vista dem ográfico quanto do político, são a sunita e a xiita. O quarto califa, Ali ibn Abu Talib, genro de Maom é, foi assassinado em 661 e, com o apoio da m aioria dos líderes islâm icos, o cargo passou para Moawiy a, governante da Síria. A m inoria revoltou-se pois desej ava que o califado ficasse com os filhos de Ali, que acabaram assassinados por soldados de Moawiy a. Os seguidores da m aioria form aram a seita sunita, que atualm ente constitui a im ensa m aioria do islam ism o. Os sunitas consideram que a fonte essencial para a lei islâm ica é a Suna, a com pilação da vida e do com portam ento do profeta.
A m inoria form ou a seita xiita. Os xiitas acreditam que só os
m em bros do clã de Maom é poderiam liderar os m uçulm anos. Ao contrário dos sunitas, que não atribuem qualidades divinas ao líder religioso, os xiitas atribuem ao im ã um a proteção sobrenatural contra o erro e o pecado.
O islam ism o representou um a poderosa força unificadora. A
noção da unidade divina proporcionou a centralização política das tribos árabes, antes divididas em diferentes cultos e engalfinhadas em incessantes conflitos. Desde o início, Maom é personificou a unidade religiosa e política. A unidade da fé propciou a unidade política, e, depois, a expansão.
Os fiéis m uçulm anos têm a m issão de difundir o Islã, de m odo que
am plie a umma, ou sej a, a com unidade islâm ica, definida pela subm issão a Deus e pela obediência aos preceitos do Corão. Esse foi, desde o início, o com bustível para a expansão islâm ica. Depois da m orte de Maom é, no século VII, os quatro prim eiros califas conquistaram a Mesopotâm ia e o im pério Persa, no Oriente Médio, e iniciaram a expansão para o Norte africano, dom inando o Egito. A dinastia Om íada prosseguiu o avanço para o Oriente, rum o ao Afeganistão e à Índia. Mas, sobretudo, o islam ism o expandiu-se pela África do Norte e penetrou na Europa, pela península ibérica.
Na atualidade, o Islã com preende m ais de um bilhão de fiéis. O
m undo m uçulm ano estende-se, de Oeste a Leste, desde o Senegal, no Ocidente africano, até as Filipinas, nos lim ites do Oceano Pacífico, e de Norte a Sul, desde o Cazaquistão, na Ásia Central, até a Tanzânia e a Indonésia, nos dois lados do Oceano Índico. Em toda essa faixa, o islam ism o é a religião m aj oritária e a cultura m uçulm ana exerce papel predom inante. Fora dos lim ites do m undo m uçulm ano, há significativas m inorias islâm icas na Índia e na Europa. Na Europa, além das populações balcânicas convertidas há séculos, o Islã cresce pela im igração proveniente da África e da Ásia m eridional.
O Islã experim enta vigoroso crescim ento, em função das elevadas
taxas de natalidade no Oriente Médio e na África do Norte, e tam bém da conversão de novos fiéis. Do ponto de vista espacial, os eixos atuais de expansão do Islã encontram -se na África Subsaariana, em países com o Sudão, Chade e Nigéria, que registram conflitos entre m uçulm anos e seguidores de outras religiões.
Mundo m uçulm ano e m undo árabe são conj untos geopolíticos e
culturais parcialm ente superpostos, porém distintos. O m undo m uçulm ano é m ais vasto que o m undo árabe. Os países com m aior população m uçulm ana não são árabes: Indonésia, Paquistão, Índia e Bangladesh.
O Islã é a religião predom inante nos países árabes e a cultura
m uçulm ana é o alicerce histórico das sociedades árabes, m as o m undo árabe se define pela língua, não pela religião. O Corão constituiu o fundam ento da unidade cultural dos árabes, pois prom oveu a difusão da língua com um . O árabe corânico proporcionou a fusão étnica de centenas de clãs e tribos antes separados por dialetos e costum es distintos. A influência da língua árabe se estende por todo o m undo m uçulm ano, pois as principais orações do Islã devem ser pronunciadas
em árabe.
Emergência e crise do pan-arabismo
As sociedades árabes atravessaram dois longos períodos de
dom inação externa. A partir do século XVI, na sua m aioria, foram incorporadas ao im pério Turco-Otom ano. A decadência otom ana abriu cam inho para o im perialism o europeu, na África do Norte e, depois, no Oriente Médio. No século XIX, a França estabeleceu o seu dom ínio no Magreb e a Grã-Bretanha, no Egito. Em 1912, a Itália ocupou a Líbia. Com a derrocada final do im pério Turco-Otom ano, na Prim eira Guerra Mundial, a Síria e o Líbano tornaram -se m andatos franceses, enquanto o Iraque, a Transj ordânia (atual Jordânia) e a Palestina passaram para o controle britânico.
As potências europeias criaram fronteiras coloniais e protetorados,
dividindo os territórios sob o seu dom ínio. Por essa via, surgiram os em briões dos Estados árabes contem porâneos. O dom ínio europeu gerou, com o reação, o aparecim ento de m ovim entos nacionalistas nas sociedades árabes. Esses m ovim entos, ainda que influenciados pela cultura m uçulm ana, não se identificavam pela religião. Os novos líderes e pensadores árabes desej avam a soberania política e a m odernização econôm ica.
A conquista da soberania foi um processo longo, m uitas vezes
doloroso. O Egito alcançou a independência em 1922, m as o poder verdadeiro continuou nas m ãos dos britânicos ainda por algum tem po. No Oriente Médio, as potências europeias retiraram -se após a Segunda Guerra Mundial. No Magreb, o dom ínio francês perdurou até o início da década de 1960.
Entretanto, nada contribuiu m ais para aum entar o ressentim ento
das sociedades árabes contra as potências ocidentais que a consolidação de um Estado j udaico, povoado por im igrantes, na Palestina. A im igração de j udeus, organizada pelas agências do m ovim ento sionista, com eçou no final do século XIX, m as desenvolveu-se aceleradam ente no entre-guerras. Desde 1918, com a ruína do im pério Turco-Otom ano, a Palestina tinha se tornado m andato britânico e a potência m andatária, por m eio da Declaração Balfour, havia se com prom etido a possibilitar a criação de um Estado j udeu no território.
A im igração j udaica provocou sangrentos conflitos com a
população árabe nativa. Em m uitos lugares, as terras adquiridas pelo m ovim ento sionista estavam ocupadas, há incontáveis gerações, por pastores e cam ponees que não detinham títulos de propriedade. As expulsões de residentes pelos novos colonos, organizados m ilitarm ente, tornou-se cada vez m ais frequente e gerou revoltas árabes que, na década de 1930, desestabilizaram a Palestina.
No final da Segunda Guerra Mundial, a revelação do Holocausto
horrorizou a opinião pública internacional. Em 1947, a ONU decidiu encerrar o m andato britânico na Palestina e prom over a partilha do território em dois Estados. A resolução contou com o apoio de Washington e Moscou, m as teve a oposição decidida dos novos Estados árabes. O plano de partilha conduziu à guerra, que term inou com a vitória das forças de Israel. A guerra de 1948-1949 deixou com o legado um a população de refugiados palestinos no Oriente Médio e as sem entes do proj eto de unidade árabe contra Israel.
O proj eto pan-arabista nasceu no Egito do pós-guerra e foi
estim ulado pelos rancores oriundos da presença britânica no Canal de Suez. A m onarquia egípcia foi derrubada em 1952 e, dois anos m ais tarde, um golpe de oficiais m ilitares conduziu Gam al Abdel Nasser ao poder. O Egito nasserista orientou-se para a m odernização econôm ica, firm ando acordos de cooperação com a União Soviética. A construção da hidrelétrica de Assuã, no rio Nilo, constituiu o m arco dessa política m odernizante. Mas o nacionalism o nasserista voltou-se, sobretudo, para a supressão da influência europeia no país e a difusão da ideia da unidade política dos árabes.
O fundam ento do pan-arabism o consistia na noção da existência
de um a única nação árabe, fragm entada pelo im perialism o europeu. A unidade política possibilitaria a reunião dos recursos dos diferentes países árabes e a configuração de um a potência econôm ica. O petróleo abundante da região do Golfo Pérsico e a vasta m ão-de-obra disponível em países com o o próprio Egito serviriam com o plataform a para um renascim ento do brilho e poder dos árabes.
A “Carta Nacional”, divulgada pelo regim e nasserista em 1962,
sintetizava a linha oficial:
A revolução é o m eio pelo qual a nação árabe pode libertar-se de seus grilhões, e livrar-se da negra herança que a tem sobrecarregado [...]. É a única form a de superar o subdesenvolvim ento que lhe foi im posto pela supressão e exploração [...]. Eras de sofrim ento e esperança acabaram produzindo obj etivos claros para a luta árabe. Esses obj etivos, a verdadeira expressão da consciência árabe, são liberdade, socialism o e unidade [...]. A estrada para a unidade é a convocação popular para a restauração da ordem natural de um a única nação.
A liderança nasserista firm ou-se com a crise internacional
deflagrada pela nacionalização do Canal de Suez, em 1956. A intervenção de forças anglo-francesas, que ocuparam o canal, e a interferência de tropas israelenses, no Sinai, cercaram a figura de Nasser de um a aura heróica. Mas o desenlace decorreu da atitude das superpotências. A União Soviética am eaçou enviar forças em defesa do Egito. Os Estados Unidos desaprovaram a iniciativa dos aliados europeus, que não consultaram Washington, e a qualificaram com o ação colonialista.
A crise de Suez deixou m arcas profundas, tanto no sistem a
internacional quanto na política árabe. A hum ilhante retirada anglo-francesa assinalou o canto de cisne das velhas potências europeias e sua definitiva subordinação às regras da bipolaridade da Guerra Fria. Nasser em ergiu com o ponto de encontro das aspirações árabes de renascim ento geopolítico e econôm ico. Nos anos seguintes, o Egito chegou a em preender a tentativa de form ação de um a confederação com a Síria, m as o proj eto da República Árabe Unida acabou fracassando m elancolicam ente. O pan-arabism o fez da oposição a Israel a sua principal bandeira geopolítica. Israel sintetizava, aos olhos dos árabes, a opressão colonial europeia e, de m odo geral, a arrogância im perial do Ocidente.
No contexto da afirm ação da liderança de Nasser, o Egito m ontou
ao seu redor um a coligação com a Síria e a Jordânia, que enfrentou Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O desastre m ilitar, m aterializado na ocupação de territórios palestinos, sírios e egípcios, constituiu um golpe fatal nas aspirações de unidade árabe. Depois da m orte de Nasser, em 1970, o pan-arabism o diluiu-se nas m ãos do sucessor, Anuar Sadat. A retom ada da coligação antiisraelense foi aceita pela Síria, m as não pela Jordânia. Na Guerra de Outubro (ou do Yom Kippur), em 1973, apesar da derrota, a coligação árabe revelou m aiores capacidades m ilitares e, no início do conflito, chegou a controlar parte dos territórios ocupados por Israel. Mas o cessar-fogo assinalou a derrocada da liderança internacional egípcia. Nos anos seguintes, Sadat rom peu a cooperação entre o Cairo e Moscou, construiu um a firm e aliança com Washington e, finalm ente, assinou a paz em separado com Israel.
Fora do Egito, o nacionalism o árabe e o pan-arabism o
expressaram -se pelo Partido Baath, que tinha pretensões internacionais. O Baath alcançou o poder na Síria e no Iraque, m as paradoxalm ente, essas vitórias contribuíram para diluir o apelo do pan-arabism o. Iraque e Síria tornaram -se pólos concorrentes e rivais do baathism o, a ponto de Dam asco ter expressado apoio ao Irã, um país exterior ao m undo árabe, na guerra contra o Iraque, nos anos 1980.
O esgotam ento do pan-arabism o deveu-se, em grande parte, ao
fracasso da m odernização econôm ica, que não foi capaz de am enizar as profundas desigualdades sociais e a pobreza nas sociedades árabes. Mas revelou, sobretudo, que o m ito da nação árabe não tinha força suficiente para sobrepuj ar os interesses geopolíticos divergentes dos Estados árabes. Os Estados petrolíferos do Golfo Pérsico, liderados pela Arábia Saudita, j am ais aceitaram trocar seus laços com as grandes potências ocidentais pelo proj eto da união com o populoso e pobre Egito. A disputa pela liderança árabe, que envolveu Egito, Síria, Iraque e até m esm o a Líbia, lançou ao descrédito os grandiosos discursos pan-arabistas.
O renascimento fundamentalista
Os fundam entos corânicos do Islã não prevêem a separação entre
religião e política. Toda a umma constituiria um a só nação: a com unidade dos fiéis. O califa, íder da com unidade islâm ica, é um chefe religioso e político. Mesm o ele, contudo, deve se subm eter inteiram ente ao Corão. A unidade entre as esferas da religião e da política m anifesta-se no plano j urídico. Segundo a tradição, o corpo de leis das sociedades m uçulm anas deve se assentar na Sharia, que condensa os princípios do Corão e da Suna sob a form a de legislação civil.
O princípio da separação entre política e religião é a fonte do
Estado contem porâneo, estabelecido no Ocidente com o Ilum inism o. O novo princípio difundiu-se e ultrapassou os lim ites das sociedades ocidentais. No im pério Turco-Otom ano, que então dom inava grande parte do m undo m uçulm ano, j á não existia um a unidade absoluta entre as duas esferas do poder: o sultão exercia a liderança política; o califa funcionava com o líder religioso.
O im pério Turco-Otom ano proporcionou, durante m uito tem po,
um quadro de unidade geopolítica para a umma. A captura de Constantinopla, em 1453, assinalou a em ergência do poder otom ano. Entre os séculos XVI e XVII, o novo im pério expandiu seu dom ínio para grande parte do m undo m uçulm ano, no Oriente Médio e na África do Norte. Os dom ínios im periais alcançaram tam bém a península balcânica, convertendo ao Islã parte dos eslavos do Sul. No longo período de hegem onia turco-otom ana, o centro político do Islã deslocou-se para fora do m undo árabe.
Apesar da separação parcial entre os poderes político e religioso, o
califa turco sim bolizou a unidade da umma até o início do século XX. Contudo, com a derrocada final do im pério Turco-Otom ano e a proclam ação da república, em 1923, a Turquia transform ou-se num Estado laico. O cargo de califa ficou vago e, para todos os efeitos, a umma desagregou-se.
O fundam entalism o islâm ico contem porâneo em ergiu no vácuo
criado pelo fracasso do pan-arabism o. A restauração da umma — ou sej a, a recuperação das glórias perdidas de um passado m ítico — constituiu a sua finalidade. A hum ilhação política e a pobreza econôm ica funcionam com o seus m otores. O Ocidente é o inim igo, representado pelos Estados Unidos e, regionalm ente, por Israel.
A obra Sinalizações na estrada, de Say y id Qutb, publicada no Cairo
em 1964, form ulou as bases do fundam entalism o islâm ico contem porâneo e pode ser considerada o seu m anifesto. Nela está escrito:
A liderança do hom em ocidental no m undo hum ano está chegando ao fim , não porque a civilização ocidental estej a em bancarota m aterial ou tenha perdido sua força econôm ica ou m ilitar, m as porque a ordem ocidental j á cum priu sua parte e não m ais possui aquele acervo de “valores” que lhe deu sua predom inância [...]. A revolução científica concluiu seu papel, com o concluíram o “nacionalism o” e as com unidades territorialm ente lim itadas que surgiram em sua época [...]. Chegou a vez do Islã.
Em todo o m undo m uçulm ano, essas ideias repercutiram e
serviram com o program a para novas correntes políticas, que contestam a subserviência dos governos ao Ocidente, rej eitam a m odernidade e exigem a subordinação da política à religião. No Egito, a Irm andade Muçulm ana voltou-se contra Nasser e Qutb foi preso, j ulgado e executado em 1966. O assassinato de Sadat, em 1981, foi perpetrado por um dos grupos radicalizados que se form aram a partir da Irm andade Muçulm ana.
Do Egito, o centro do fundam entalism o deslocou-se para o Irã. A
revolução de 1979, dirigida pelo aiatolá Khom eini, gerou um Estado islâm ico controlado pelo alto clero xiita. O Estado iraniano, na prim eira década revolucionária, enxergou-se com o pólo irradiador do despertar do Islã. Na guerra contra o Iraque, o Irã procurou levantar a m aioria xiita iraquiana. Tam bém passou a financiar o Hezbollah (“partido de Deus”) que com bateu, no Líbano, a ocupação m ilitar israelense. Mas a influência iraniana esbarrou nas singularidades do país, persa e xiita, que o separam dos m uçulm anos sunitas e do m undo árabe.
O fundam entalism o dissem inou-se no Oriente Médio e na África
do Norte, sob a form a de partidos e grupos oposicionistas, associados a redes de caridade religiosa. Alguns procuraram o cam inho das urnas, chocando-se contra regim es autoritários e sofrendo perseguição política. Outros preferiram o cam inho da luta terrorista. Na Argélia, a Frente Islâm ica de Salvação (FIS) foi banida depois de vencer as eleições gerais de 1992. Na Palestina ocupada, o Ham as desafiou a autoridade de Yasser Arafat, organizou atentados suicidas e se apresentou com o liderança alternativa de com bate a Israel.
O islam ism o político, sob form a m ais m oderada, im pregnou até
m esm o a Turquia, que é um aliado fundam ental dos Estados Unidos. Desde a fundação da república, por Mustafá Kem al Ataturk, na década de 1920, a Turquia tornou-se um Estado laico e optou pelo cam inho da m odernização e da ocidentalização. O ingresso na Otan consolidou a posição turca no dispositivo estratégico do Ocidente. A Turquia controla os estreitos de Bósforo e Dardanelos, que conectam o Mediterrâneo ao Mar Negro. Participa, sim ultaneam ente, da Europa e do Oriente Médio. Influencia, histórica e culturalm ente, povos turcom enos da Ásia Central. O valor estratégico da Turquia explica a pressão insistente de Washington sobre os aliados europeus pela adm issão do país na União Europeia.
A consolidação de um poderoso partido islâm ico na Turquia
acendeu o sinal de alarm e em Washington. A cúpula m ilitar turca, que exerce a função política de guardiã da herança institucional de Kem al Ataturk, reafirm ou os princípios da separação entre o Estado e a religião e do alinham ento externo do país à Otan. Ao m esm o tem po, assegurou que Ancara continuará a reprim ir o nacionalism o curdo e a recusar qualquer tipo de autonom ia para a população curda das províncias m eridionais, independentem ente das flutuações do j ogo eleitoral.
A Arábia Saudita é o m ais im portante centro de difusão do
islam ism o político contem porâneo. Esse fato constitui um profundo paradoxo, pois o Estado saudita tornou-se, desde o final da Segunda Guerra Mundial, o principal aliado dos Estados Unidos na região do Golfo Pérsico e, desde os choques de preços do petróleo dos anos 1970, o parceiro crucial na regulação do m ercado m undial do petróleo.
A Casa de Saud, estruturada sobre um clã da Arábia central,
firm ou, no final do século XVIII, um pacto com a seita islâm ica Wahabita. Fanáticos defensores de um Islã puritano e inflexível, os wahabitas forneceram a linha de frente das forças da Casa de Saud, contribuindo para sua vitória nas incontáveis guerras clânicas que varreram a península. A m onarquia criada por Ibn al Saud nos prim eiros anos do século XX alicerçou-se sobre o pacto da dinastia com a seita puritana. Esse pacto, por sua vez, lastreou-se nos casam entos entre clérigos wahabitas e m em bros da num erosa fam ília real.
Durante décadas, a Casa de Saud conservou um a posição
dom inante no pacto e a seita puritana exigiu apenas a m anutenção das suas prerrogativas no âm bito religioso. Assim , o Estado saudita podia ser um firm e aliado de Washington desde que as regras estritas da Sharia continuassem a regular os assuntos civis do país. Contudo, esse equilíbrio com eçou a ser corroído nas décadas de 1970 e 1980, quando a m onarquia deu guarida aos m ilitantes da Irm andade Muçulm ana, perseguidos no Egito e em outros países árabes.
Oferecendo proteção e cargos nas esferas religiosa e educacional
aos m ilitantes fundam entalistas, a m onarquia saudita pretendia contrabalançar a influência do nacionalism o árabe e reforçar a sua própria posição no m undo m uçulm ano. O Islã “verdadeiro” deveria funcionar com o alternativa ao pan-arabism o m odernizante de países com o o Egito, o Iraque e a Síria. Mas a m anobra resultou, inesperadam ente, na politização do wahabism o e, depois, na em ergência de um a oposição fundam entalista à aliança entre a Casa de Saud e os Estados Unidos.
Num a prim eira etapa, a politização do wahabism o pareceu servir
tanto à m onarquia saudita quanto a Washington. Sob os auspícios da seita puritana, foram recrutados e arm ados os “guerreiros da fé” que com bateram a União Soviética em solo afegão. O dinheiro saudita tam bém financiou os m uçulm anos bósnios que resistiram aos sérvios, os guerrilheiros da Chechênia que desafiaram a Rússia, e os separatistas albaneses de Kosovo. Nos tem pos da guerrilha anti-soviética no Afeganistão, Osam a Bin Laden teve o apoio da CIA e dos m ais altos círculos da dinastia saudita. Um a década depois, o Taleban chegou a ser visto com o sócio potencial da corporação am ericana Unocal, que proj etava construir um duto em território afegão.
Na segunda etapa, os “guerreiros da fé” voltaram -se contra a
m onarquia saudita. A ruptura derivou do apoio da Arábia Saudita aos Estados Unidos na Guerra do Golfo e da instalação de bases am ericanas perm anentes em território saudita. O im pacto dessas decisões repercutiu negativam ente por todo o m undo islâm ico e, especialm ente, nos países árabes, num a conj untura m arcada pela frustração dos esforços de paz na Palestina. Na síntese oferecida pelo príncipe Nay ef, irm ão do rei Fahd e ex-m inistro do Interior saudita: “Desde a Guerra do Golfo de 1991, som os vistos no m undo árabe com o um peão dos Estados Unidos”.
Bin Laden, em particular, acusou a m onarquia saudita de suj eitar-
se à política m undial dos infiéis, declarou a j ihad contra os Estados Unidos e instalou-se no Afeganistão. Paralelam ente, avolum aram -se as m anifestações subterrâneas, entre os wahabitas, de oposição à Casa de Saud. A m onarquia, encostada contra a parede, foi obrigada a reprim ir as lideranças m ais radicalizadas do islam ism o político e, ao m esm o tem po, a aceitar tacitam ente o financiam ento da Al-Qaeda a partir de ram os da própria fam ília real.
Quinze entre os dezenove terroristas que praticaram os atentados
de 11 de setem bro de 2001 eram sauditas. Depois dos atentados, a adm inistração Bush exigiu da m onarquia saudita o desm antelam ento com pleto da rede que conecta os wahabitas a Bin Laden, o que im plicaria a dissolução do alicerce político do Estado saudita. A incapacidade da Casa de Saud de realizar essa m issão e a crise política do Estado saudita im pulsionaram Washington a desencadear a operação de derrubada do regim e de Saddam Hussein, cuj a finalidade consistia, antes de tudo, em evitar a desestabilização da hegem onia am ericana na região do Golfo Pérsico.
Washington assum iu riscos significativos ao prom over a operação
m ilitar no Iraque em 2003. De um lado, abriu um a fenda profunda na unidade do Ocidente e da Otan, expressa na oposição de franceses e alem ães à supressão m ilitar do regim e de Saddam Hussein. De outro, com plicou o panoram a geopolítico j á bastante com plexo do Oriente Médio, arriscando provocar a im plosão territorial do Iraque. A estabilidade turca foi potencialm ente com prom etida, pois a elim inação de Saddam Hussein tende a reativar o nacionalism o curdo no Iraque e na Turquia. Mas o espectro da turbulência na Arábia Saudita foi percebido em Washington com o um a am eaça direta à vitalidade estrutural da econom ia am ericana.
O renascim ento fundam entalista não é um fenôm eno inerente ao
Islã. As suas raízes profundas estão, evidentem ente, fincadas no solo de um a tradição cultural que não sofreu nada com parável ao im pacto que tiveram a Reform a e o Ilum inism o na form ação do Ocidente. Mas a sua dinâm ica política é contem porânea, está conectada ao fracasso do nacionalism o árabe e aos ressentim entos criados pela política m undial de Washington, e pelo conflito nacional entre Israel e os palestinos. A hegem onia m ilitar dos Estados Unidos no Oriente Médio, reforçada e atualizada pela operação no Iraque em 2003, não só não pode suprim ir o islam ism o político com o tende a conferir audiência ainda m aior aos novos “guerreiros da fé”.
Duas bandeiras na Palestina
A Guerra dos Seis Dias é um divisor de águas na história da
Palestina. O conflito não derivou do nacionalism o palestino, que se encontrava em estágio em brionário, m as do entrechoque do nasserism o com o expansionism o israelense. Contudo, a fragorosa derrota da coalizão árabe gerou consequências terríveis para a população palestina. Toda a Palestina histórica, além do Sinai egípcio e das Colinas de Golã, da Síria, passaram ao controle de Israel. A ocupação m ilitar israelense da Cisj ordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém Oriental produziu um a nova leva de refugiados, que se som ou à diáspora de 1949. Atualm ente, cerca de três m ilhões de palestinos vivem na Jordânia, no Líbano e em outros países do Oriente Médio.
O nacionalism o palestino m aterializou-se na consolidação da
Organização de Libertação da Palestina (OLP) e na agitação política entre as populações da diáspora. A m onarquia hachem ita da Jordânia quase foi desestabilizada pelos levantes palestinos, até prom over o m assacre do Setem bro Negro, em 1970, im pondo a transferência da liderança da OLP, prim eiro para o Líbano e depois para a Tunísia.
A Guerra de Outubro, em 1973, não m odificou o estatuto dos
territórios ocupados, m as originou profundos rearranj os políticos regionais. O esgotam ento do nasserism o conduziu à paz em separado entre Egito e Israel, com
os Acordos de Cam p David, e à devolução do Sinai, em 1979. Na sociedade israelense, o expansionism o sionista adquiriu novo fôlego e a hegem onia tradicional do trabalhism o foi rom pida. Sob o governo de direita do Likud, Israel am pliou a política de assentam entos nos territórios palestinos ocupados. Jerusalém , declarada “capital eterna e indivisível” do Estado j udaico, tornou-se foco de um a estratégia de povoam ento israelense que se destinava a reduzir a população árabe à condição de m inoria confinada aos bairros históricos. Na Cisj ordânia e, em m enor escala, na Faixa de Gaza, m ultiplicaram -se os assentam entos israelenses.
Os assentam entos im plantados na Cisj ordânia pelos trabalhistas,
até 1977, tinham funções declaradam ente estratégicas. De m odo geral, form avam um a linha dupla, estabelecida no vale do rio Jordão e nos lim ites entre a Cisj ordânia e Israel. O vale do rio Jordão constituía o prim eiro escudo defensivo e um a fonte valiosa de fornecim ento de água. O segundo escudo defensivo situava-se na vertente ocidental do platô da Cisj ordânia. O desenho básico da estrutura de assentam entos devia-se a um plano elaborado pelo m inistro da Defesa Ygal Allon.
O cham ado Plano Allon não previa um a difusão de assentam entos
destituída de m otivos estratégicos. Mas a partir da chegada do Likud ao governo, o m ito sionista do “Grande Israel” firm ou-se com o política expansionista, e a anexação perm anente dos territórios palestinos passou a ser j ustificada com base em argum entos bíblicos. A aceleração do estabelecim ento de assentam entos provocou a transferência de quase 120 m il colonos israelenses para a Cisj ordânia.
O nacionalism o palestino expressou-se, inicialm ente, com o
discurso das lideranças políticas da diáspora. A sua interiorização ocorreu, de fato, com a deflagração da política de colonização dos territórios ocupados. Na Cisj ordânia, povoada por m ais de 1,3 m ilhão de palestinos, e na Faixa de Gaza, povoada por quase um m ilhão, a presença cotidiana do soldado de Israel e do colono j udeu consolidou a identidade palestina. Na década de 1980, sob as lideranças concorrentes de nacionalistas ligados à OLP e m ilitantes islâm icos ligados ao Ham as, a população palestina deflagrou um a tenaz resistência contra a potência ocupante. A intifada (revolta das pedras), com o ficou conhecido o m ovim ento de resistência, revelou a incapacidade de Israel de estabilizar a ocupação e evidenciou a necessidade de um acordo político entre os nacionalism os em conflito.
A oportunidade para esse acordo político surgiu com a Prim eira
Guerra do Golfo. Em nom e da participação dos árabes — Egito, Síria e Arábia Saudita — na coalizão antiiraquiana, a adm inistração am ericana com prom eteu-se a em purrar Israel até a m esa de negociações. Sim ultaneam ente, a m oderação da OLP, expressa na adm issão de um Estado palestino lim itado à Cisj ordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, proporcionou o terreno para a deflagração de um processo de paz. Os Acordos de Oslo, firm ados em 1993 por Israel e pela OLP, sob os auspícios de Washington, inauguraram esse processo.
O roteiro de paz de Oslo, longo e com plexo, previa a concessão de
autonom ia adm inistrativa para áreas da Cisj ordânia e da Faixa de Gaza, e a negociação posterior de um acordo de paz definitivo. O seu pressuposto básico consistia na aposta no progressivo isolam ento dos expansionistas israelenses e dos fundam entalistas islâm icos palestinos. Em bora ausente da letra dos acordos, ficava im plícito o princípio de criação futura de um Estado palestino. O destino dos assentam entos israelenses nos territórios ocupados, a solução para a questão dos refugiados palestinos e a decisão a respeito da soberania sobre Jerusalém Oriental ficavam adiados para o acordo definitivo.
O m étodo de Oslo, da paz por etapas, fracassou sob o peso dos
radicalism os israelense e palestino. A Autoridade Palestina, instalada pela OLP nas áreas autônom as, revelou-se incapaz de conter os extrem istas islâm icos, que prom overam cam panhas de atentados suicidas nas cidades de Israel. A direita israelense, agrupada no Likud e em partidos religiosos, j am ais se conform ou com a perspectiva de devolução dos territórios ocupados. Depois de alguns anos de estagnação do processo de paz, m arcados por atentados suicidas e retaliações violentas contra a população palestina, o acordo político de Oslo entrou em colapso.
As esperanças e a desilusão geradas a partir dos Acordos de Oslo
m odificaram , para sem pre, o estatuto da questão palestina. A resistência palestina transcendeu os lim ites de um a luta nacional e atingiu a condição de sím bolo de alcance global, insuflando os ressentim entos em todo o m undo árabe e m uçulm ano. Sob o pano de fundo da violência do Estado israelense, os terroristas suicidas adquiriram , aos olhos de árabes e m uçulm anos, a aura de m ártires e arautos de um a nova era. A aliança entre Israel e os Estados Unidos passou a funcionar com o foco de agitação do fundam entalism o islâm ico, tanto no m undo m uçulm ano quanto no Ocidente.
O apelo da tese de Huntington do “confronto de civilizações” não
procede da frouxa teorização geral, m as exclusivam ente da em ergência do Islã com o força política fundam entalista. Desde o 11 de setem bro de 2001, a doutrina am ericana da “guerra ao terror” am plifica a percepção de um conflito sem trégua entre o Ocidente e o Islã. Irônica e tragicam ente, o com bustível m ais im portante desse conflito consiste no choque entre Israel e os palestinos, cuj as m otivações essenciais não são religiosas ou culturais, m as nacionais e territoriais.