Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 9 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo VIII

existe.

 

O rouco arfar de um peito moribundo, no combate da morte inexoravel; o latejar irado da paixão, brazas ardentes da cobiça e

inveja; a tremura da ave no seu ninho, sopro ofegante de animal bravio, na incerteza da sorte e seu terror; a timidez da corça

perseguida, a criança dormindo no seu berço e os anjos que a visitam e em torno adejam; o cavador prostrado de fadiga, o velho

repousando docemente, no repouso de quem já avista proximo o termo dos enganos dêste mundo; a mansa vibração das orações, o

brando devaneio enamorado, e a tortura do mal que é irreparavel, e o anseio oprimido da saudade… Que vidas se conteem em um só

alento e no breve erguer do peito que o desprende! Que infinitos misterios nos confessa, em que mudez divina nos descobre o que a

voz mais clara não traduz, quantas lagrimas chora e em que alegrias de uma celeste luz banha a nossa alma!

 

Quanto se encerra e vive em um só alento!… Respirar é amor ou

aversão, esperança ou danação, suplício ou benção.

 

Nunca houve alento que me não prendesse. Dos ruins me fez escravo a compaixão, e aos bons foi por amor que me prendi.

 

VIII

 

A viuva contou-me o seu romance, onde nascera e amára e onde

chorára, seus folguedos, esperanças e infortunios, em que Deus lhe ensinára a obediência à sua lei divina.

A casa de seus pais era pequena, nas terras do morgado, ao qual

levavam, em cada ano, pelo S. Miguel, o pão, o vinho e aves, copioso quinhão, e o melhor, dos bens que o seu amor pedira à

terra e a misericórdia do Senhor criára.

 

Entre a pobreza o mundo lhe sorriu. Na pobreza cresceu e, descuidada, na pobreza cantou, teve alegrias, conduzindo as

ovelhas no pascigo pela charneca agreste e pela encosta, segando o prado quando abril floria, debruçada na ceifa ao sol de julho,

tingindo os braços no rubor do mosto e erguendo-os ao luar calmo de agosto a tanger a harmonia dos eirados.

 

Depois, no dia memoravel do arraial, ao pé da capelinha da

montanha, quando lá foi a ve-la em sua gloria, tão linda e tão garrida de grinaldas por tributo piedoso da candura que lhe guardou e deu

quanto a terra sonhou de mais formoso, turvou-se de tristeza a singeleza, e estranhas magoas, venturosas magoas, anseios de

paixão ergueram o peito daquela mesma alegre rapariga, criada na pobreza e no trabalho, enamorada agora do moço que a segue e a

acompanha, sombra apolinea que a graça e a gentileza fascinaram.

 

E, então, vieram o quebranto que esquece a obrigação, as tardes prolongadas junto à fonte, segredos murmurados no silêncio da

aldeia adormecida, e as timidas palavras de carinho que os labios dizem mal e incertamente, e a mudez de melancólico scismar, e a

confissão do olhar, ardor sem mancha, onde a nossa alma é luz e o coração vencido vem entregar-se. Até que um dia as rosas

desfolhadas no limiar da porta anunciaram a quem na estrada fosse na jornada que o céu abençoára mais um ninho. E ao pôr do sol,

quando o fumo dos casais se ergue e protege o tépido repouso do trabalho, mais um lar se acendeu e palpitou à beira da azinhaga,

entre os ulmeiros.

 

Depois ainda, volvidos breves mezes de afeição, os devaneios daquela enamorada de algum dia todos se trocaram por desvelos do

berço e por cantares de mansidão dolente enternecida em que a mãe aquecia o filho ao seio.

 

Criou seis filhos. Uns andam dispersos, além-mar, na aventura de

cobiças; outros ali habitam ao redor, nas aldeias visinhas donde avistam esse mesmo casal em que nasceram; e todos, em chão

estranho ou terra patria, redizem fielmente as orações do trabalho e amor e crença e fé que no regaço materno repetiam.

 

Por fim, a aza negra, a viuvez!… As agonias de um alento que se

esváe, esperanças que se apagam dia a dia; e a morte e o seu silêncio desolado que levaram do lar o companheiro; e a escuridão

da frígida vigília escutando debalde aquela voz que não mais voltará contar-lhe as horas; e o cansaço do mundo, inerte e pálido, porque

já não o aquece nem ilumina a chama do coração que o iluminava.

 

A terra, para a viuva, era um crepúsculo, tal qual êsse suave entardecer em que serena me contou o romance da sua vida

austera e prolongada, vivida só para amar e para servir, e ainda agora servida com afecto ao renovar-se na lembrança amorosa que

a evocava e parecia beijar-lhe o rasto e os passos pelos quais seguira a receber de Deus, como esmola bemdita da sua graça, a

amargura, a alegria, o riso e o pranto, quanto em sua vontade êle mandasse.

 

Ao ouvir as palavras da viuva, no meu peito sentindo transfundir-

se toda a ventura e dôr que ela sentiu, bebi o calice que me descerrava, aquele calice que o Senhor lhe déra, e fui cativo em