Salmos do prisioneiro
Capítulo VII
bemditas que conquistam o chão e o seu poder e os seus tesouros para os sonhos floridos de verdura, que a primavera sonhará no
encanto do colorido esplendor do seu triunfo, e para as messes doiradas do estio, cálice de oiro que se faz em sangue, sustento e
amor que nos fortalece o peito e os nossos braços e nos aquece e alenta o coração.
E os orvalhos que a manhã fez diamantes, e as turgidas
sementes a crescerem, seu doce brilho e seu infindo anseio de eterna juventude, eternamente renascida e erguida do pó e da
secura, a redenção das cinzas apagadas do estio na brandura outonal e sua esperança, emquanto me adormecem no seu canto,
murmurando-me os salmos dos seus córos, louvando ao Deus que os engrandece e exalta, na própria obediência me teem preso,
acorrentado à terra na qual bebem todo o vigor e força de crescer, e arrebatado aos céus que lhes ensinam, e por eles me dizem, o
misterio da sua caridade, a gloria da sua aspiração e o enlevo da sua formosura.
VII
Vive oculto um misterio em cada peito. Se o sangue o anima e
move, insinuou-lhe um ser de luz ou treva, a força eterea, a do bem e a do mal, o fogo que consome e o que alumia, a cegueira mortal
que precipita em profundas gehenas insondáveis, onde só a piedade vae salvar-nos, e o sonho que alevanta a espaços limpidos,
onde os olhos não chegam nem alcançam e só o nosso coração póde subir. E êsse deus íntimo, ou seja luz ou treva, ou dôr ou benção, todo respira e vive em um alento, todo nele se evola e nele