Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 20 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XIX

É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda

das suas frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um

severo desdem da sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o não beijasse, não houve

esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não sentiu a

tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol quando o alentava.

 

Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo

humilde!…

 

Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse, soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio

consumasse, e eu iria prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e luz e os seus coros, são os seios

que dão vida amamentando e os braços que dão o pão cavando a terra!

 

XIX

 

A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta.

Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.

 

Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida.

Em vão chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor, sedento, insaciavel de outro amor que agora não

encontra e experimentou em freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!…