Salmos do prisioneiro
Capítulo XIX
É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda
das suas frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um
severo desdem da sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o não beijasse, não houve
esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não sentiu a
tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol quando o alentava.
Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo
humilde!…
Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse, soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio
consumasse, e eu iria prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e luz e os seus coros, são os seios
que dão vida amamentando e os braços que dão o pão cavando a terra!
XIX
A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta.
Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.
Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida.
Em vão chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor, sedento, insaciavel de outro amor que agora não
encontra e experimentou em freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!…