Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 18 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XVII

Mal me aparta da esperança o desengano, logo vem a prender-me

nova esperança de trazer a esta terra e vêr perfeitos os infinitos sonhos da minha alma, êsses que por Deus sonho e Deus me dá.

 

De cada mágoa me levanta e ergue, suave e doce e

caridosamente, o despontar da estrela da alegria, visões que vem dos céus a iluminá-los. Em toda a queda me protege e ampára um

eterno poder de fortaleza que me afoita e me manda caminhar. Onde vem desenganos desfazer desditosas venturas que findáram,

o seu cutelo é aquela dôr sagrada que em um só golpe dá a morte e nos reanima, que ao mesmo tempo é pena e é a indulgência, que da

própria amargura tira alentos para impôr a servidão de nova esperança. Onde, inclemente, o desengano ferindo-me me terminou

enlevos e encantos que uma súbita treva escureceu, aí mesmo me mandou o seu socorro, seus anjos bons que acendem nova luz para

me guiar na estrada e transportar-me aos reinos em que a esperança é a salvação.

 

Sem condições, rendi-me ao desengano. Divino portador de

muitos bens, já não o temo se vem ao meu encontro, pois nunca me mentiu e, se me punge, é para dar o meu sangue a nova esperança,

e nessa esperança me alongar a vida, e alongando-me a vida me ensinar o amor do Senhor de que êle é escravo.

 

XVII

 

Adormeci na escuridão da noite—cobria-me o luar quando acordei.

Na tréva se esvaíu a consciência—restituiu-ma a luz vinda dos céus!

 

A fadiga do dia, as canseiras e penas que atormentam a vida descontente porque o mundo lhe combate e lhe oprime a aspiração; os sonhos de bondade malfadados, ruíndade que escarnece da

doçura, astúcia que injuría a candidez, desamôr que responde ao bemquerer, ostentação preterindo a singeleza, a jactância suprindo

a descrição, a pureza entre lagrimas traída, a pobreza arrastada em seus andrajos e a mentira orgulhosa em seus fulgores; perversão,

crueldade, a fome e o ódio disputando os retalhos miserandos da riqueza mortal que a terra dá e à qual chamam os seus bens êsses

escravos que outros bens da alma nem sequer suspeitam, no mesmo trilho em que a cubiça os leva—todo êste amargor que o

passar de cada hora nos distila, o dorido bater do coração que em calvário de amor verte o seu sangue, êsse era meu algoz e

companheiro quando a noite desceu e se cerrou. Assim me adormeceu imerso em mágoa, e assim eu confiei meu desalento à

treva e à inconsciência, sem outra esperança que não fosse aquela de mais sofrer ainda e despertar mais forte para o sentir e para o

servir, para mais longe arrastar a minha cruz.

 

Quando acordei, porêm, sorria a terra no vestalino alvôr que era o seu véu.

 

E disse-me a brancura do luar:

 

—«Emquanto, exausto, tu adormeceste e abrandaste na treva o

padecer, Alguem, Consolador, velou por ti, convertendo na luz a escuridão. Alguem te transformou em claridade a negrura do mundo

e a do teu peito. Se a treva te prendeu e por fraqueza te rendeste ao martírio da tristeza, que só te mortifica porque foste infiel, feriste o

Senhor, renasce para a humildade e para a bondade, acorda e vê que a luz jámais fenece e sempre vem remir-te, para que a louves,

em teu ser e nos céus, onde a encontrares purificando a terra e o coração.