Salmos do prisioneiro
Capítulo XIV
dissipam em auras incensadas.
Se, porêm, a ilusão me abandonou e o desengano apunhalou o meu peito e o fez chorar, não descri da ilusão nem a neguei.
Sentindo-me infeliz, pedi aos ceus que aos anjos de ilusão me confiassem, que de novo os mandassem libertar-me da vileza da
terra e seu tormento, da malquerença, do odio e da avareza, de quanto mal nos prostitue a alma e atraiçoa o Senhor. Pedi-lhes a
cegueira da ilusão, pois quanto mais me cega mais a amo, mais distante me leva da ruindade, mais no seio de Deus me faz sonhar.
Tanto a amei e lhe dei meu coração, tanto lhe quiz meu peito e a
adorou, que jámais me rendi ao inimigo. Se o desengano me assalta e fere e prostra atormentado, não lhe imploro graças ou consôlo, só
da ilusão espero a fortaleza.
Prendeu-me nesta vida! Fui seu servo. Assim na morte a encontra bemfazeja!… De contínuo lhe rogo, humildemente, que na morte me
guie e arrebate das certezas mesquinhas dêste mundo à incerteza feliz em que ela reina e em sua benção nos redime e exalta.
XIV
Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez
incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.
Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a
purificava?!…