Salmos do prisioneiro
Capítulo XIII
coração em seus laços mortais tão oprimido, aí os soltaria para seguir humilde e fielmente o seu anseio.
Quanto penso e a razão me contradiz, a oculta rebeldia desleal
que jura por certeza a própria dúvida, quantas palavras digo que eu não sinto, quantos passos eu dou atraiçoando meu querer e vontade
e aspiração, onde obedeço ás convenções do mundo e onde à impostura cedo por fraqueza, o falso pranto que cobre a indiferença
e o riso em que o enfado anda escondido, e o louvor sobrepondo-se ao desprêzo, e o desprêso negando as afeições, e o silêncio em que
a voz estrangulei só porque estranhos podem desama-la—de todo o pervertido engano em que, inerte e prostrado, sou levado, enganado
e enganando, mentindo à consciência, aos céus e aos homens, de toda a confusão dêsse tumulto em que o ímpio sacia o seu
escárneo, eu iria isentar-me, dissipando-o no cimo glorioso da montanha, revestida da neve imaculada. E para que fôsse tal qual
um cristal feito só de luz, assim eu lavaria o coração de quanto na mentira o enegrece. E então me sentiria redimido porque só a
Verdade me prendia!
XIII
Segui de olhos vendados a ilusão. Para que não visse a aspereza do meu trilho, para me guardar de espectros que o assaltam, para
me ocultar torpezas dêste mundo, cegou-me e desviou-se do caminho, juncado só de cardos, em que um ríspido destino me
trazia. Ergueu-me em suas azas e levou-me àquela altura onde não ha treva e a luz não tem fraqueza nem crepúsculo, onde os
espinhos se convertem em rosas, onde o veneno se transforma em filtros salutares vivificantes, e a amargura e a dôr e toda a pena se