Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 16 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XV

Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros

desmaiassem timidos e um estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta brandura e calma ela derrama. É

que uma nuvem perpassou errante e etereamente se esvaiu e perde.

 

Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida,

estranho ser que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas deixa com igual desamor e igual capricho,

imagem fugidia de um efemero delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o podêr mais ardente das estrelas

e pode te-lo turvado, escurecido e humilhado.

 

Ai de mim, ai de mim!… Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-

me os sonhos toda a luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da ventura, despóticos senhores e poderosos

de toda a glória e mágoa do meu peito.

 

XV

 

Ouvi chorar a noite porque a orgia lhe roubara o silêncio, o companheiro. Quando o céu lhe acendeu suas estrelas e no seu

negro manto esmoreceu todo o brilho que o sol cria na terra e toda a formosura que ele afaga, na benigna hora recolhida em que a noite

murmura a sua paz e acorda em seu mistério as orações que nos prendem a Deus e aos seus mandados e nos revelam aquilo que

sustenta o coração, quanto o eleva e quanto o enternece, quanto lhe abranda a mágoa e o incendeia, e quanto o arrasta exangue em

seus lamentos—nessa hora bemdita, à paz da noite e à sua redenção respondeu o alvoroço e o sacrilégio de multidões perdidas no torpe ardor de indignas cobiças. Abandonadas à sordida torrente