Salmos do prisioneiro
Capítulo XV
Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros
desmaiassem timidos e um estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta brandura e calma ela derrama. É
que uma nuvem perpassou errante e etereamente se esvaiu e perde.
Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida,
estranho ser que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas deixa com igual desamor e igual capricho,
imagem fugidia de um efemero delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o podêr mais ardente das estrelas
e pode te-lo turvado, escurecido e humilhado.
Ai de mim, ai de mim!… Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-
me os sonhos toda a luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da ventura, despóticos senhores e poderosos
de toda a glória e mágoa do meu peito.
XV
Ouvi chorar a noite porque a orgia lhe roubara o silêncio, o companheiro. Quando o céu lhe acendeu suas estrelas e no seu
negro manto esmoreceu todo o brilho que o sol cria na terra e toda a formosura que ele afaga, na benigna hora recolhida em que a noite
murmura a sua paz e acorda em seu mistério as orações que nos prendem a Deus e aos seus mandados e nos revelam aquilo que
sustenta o coração, quanto o eleva e quanto o enternece, quanto lhe abranda a mágoa e o incendeia, e quanto o arrasta exangue em
seus lamentos—nessa hora bemdita, à paz da noite e à sua redenção respondeu o alvoroço e o sacrilégio de multidões perdidas no torpe ardor de indignas cobiças. Abandonadas à sordida torrente