Salmos do prisioneiro
Capítulo XX
Já desmaia o poente e, descorado, deixa crescer a noite e se
abandona a todo o seu império. Sentiu-a aproximar-se a ave infeliz. Redobra e é mais aguda e mais a oprime a lacrimosa mágoa em
que se perde.
É noite; é noite!… É a escuridão e o frio e o desamparo. Que peito o seu amor vai proteger?… Por quem há-de correr todo o seu
sangue?… Quem virá receber-lhe o seu alento?… Que boca o seu calor há-de aquecer?… Para que a vida senão para dar a vida?…
Para que, senão para a dar só por amor?!…
Ao fim, na solidão como contricta de tamanho sofrer em que comunga, ao gemido da ave respondeu a dôr, a companheira que
encontrou em seu tépido ninho onde afagára os sonhos de ventura malfadados.
E ao lamento da ave me prendi, como se prendem corações
irmãos. Porque, escutando-o, repetiu e disse a fortuna e desgraça do meu peito—quanta ilusão e sonho arrebatado só por amor criou
e acalentou, e quanto padecer é o seu martírio quando a sorte sinistra lhe converte seus enlevos mais belos na amargura.
XX
Dêsde o romper da aurora, quando o sol iluminando a terra me
acordou os braços e o afecto para a servir, andára a revolvê-la, respirando-lhe alentos da negrura abençoada, e generosa e dôce,
que me paga com todo o amor dos pomos e das rosas meu trabalho mesquinho e o meu amor, meu pobre amor fiel de obreiro débil.
Êsse humilde labor adormeceu-me o coração cansado e dolorido
das lutas e paixões que o mortificam nesta jornada ingrata, onde se arrasta sofrendo a sua cruz, pênas do mundo. Esqueceu seus
anseios infecundos, seu malogrado arrojo para se erguer à altura das visões que o seduziam. Esqueceu suas ruins turbações e o seu
error entre ambições, escuros cativeiros, que em meandros sem fim, de treva e dôr, inclementes mudaram a doçura feliz da candidez na
cerração de lívidos tormentos. Aí desconheceu, como se nunca as houvesse sentido em seus infernos, a impiedade, e a inveja, e a
soberba, e a impostura, e a traição da hipocrisia, espectros negros que entre os homens o cercam e em vão tentaram desprendê-lo de
Deus, precipitando-o na mentirosa fé e nos enganos de suas recompensas e prazeres. Êsse mundo que o ferira e ensanguentára,
ali se dissipára e se perdera sob os afagos brandos, caridosos, que a terra lhe mandava a ensinar-lhe a paz e a alegria na vontade e
misericordia do Eterno, tais quais as encontrava nos rosais, na espessura e nos silvados.
Resgatado, emquanto por amor servia a terra, abandonou-se à
ingenua lei da terra, na terra confundido e renascido, o coração doente, semimorto, que regando com o seu calor e sangue as
açucenas e a seára e o cedro e o jasmim, o pão e a formosura, assim baniu, em venturoso instante, suas dôres mais pungentes.
Nêsse enlevo lhe foi bem curto o dia: foram momentos rápidos, fugazes, quantas horas podia ter contado, e muitas decorreram,
muitas o sol marcou dêsde a fria palidez da madrugada, que foi seu berço e canto de glória, até que ao fim morreu para curta morte na
mortalha vermelha do crepusculo.
Então, quando cresciam as sombras percursoras do repouso da noite e seu silencio, um clamor pausado e lento me acordou do sono bemfazejo em que a terra, consoladora, me embalava.
Religiosamente, o campanário por sua voz de bronze anunciava aos campos e às estrelas que o trabalho findára e nos cumpria volver a
face e o peito e o coração para aquela Mãe de infinda piedade, que com o Senhor está, cheia de graça, bemdita entre as mulheres,
como é bemdito o fruto do seu ventre. Melancolicamente nos mandava que, crentes e fieis, a implorassemos para que a Deus e
aos ceus ela rogasse que a fraqueza dos homens perdoassem e em sua luz os redimissem e erguessem.
No extremo do campo, junto ao rio, onde os salgueiros bebem
refrigérios nas aguas que rebrilham sôbre as areias brancas, uma outra voz de bronze repetiu a oração que eu ouvira comovido. Logo
após a repete aquela torre do outeiro mais alto entre os irmãos que, levantando a cruz, guarda e protege a gândara prolongada e a
choupana, onde unidos não tardam a acolher-se cordeiros e crianças, seus moradores e filhos, por igual amamentados e
queridos de uma mesma candura. E mais distante, àlêm dos pinheirais, ainda uma voz igual renova a súplica para os cavadores
das margens da laguna que lhes dá às searas seus orvalhos, aos prados a frescura, e à deveza o esplendor viçoso das suas frondes.
Peregrina de Deus, de lar em lar, a prece dessa voz erguia os
homens para que orando terminassem o trabalho.
Então, por seu amor e mansidão, voltei ao mundo e aos homens pecadores que no amor da terra eu esquecêra, esquecendo
tambêm, por minha culpa, suas paixões e dôres e os seus tormentos, toda a fraqueza ingénita da sua sorte. Onde o meu
coração tinha morrido, maldizendo êsse mundo que temera e, fugindo, deixára, renasceu do enlevo para a mágoa, para prender-se àqueles que viviam e com êles sofrer seus suplícios, para comungar