Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 24 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XXIII

ao qual não vinham, por êrro e crime da avareza humana, as maceradas legiões proscritas.

 

XXIII

 

Na frieza alvacenta da manhã, quando, lentos, os montes,

ressurgindo da confusão da noite, de novo vinham a esculpirem na luz o seu orgulho, sonhei que as horas do nascer da aurora, essas

de redenção, eram contadas em torres de mármore, e, compassadamente, instante a instante, as apontavam, caminhando

sempre, os ponteiros doirados de um relógio, fulgentes, repetindo no fulvo scintilar o ardor dos astros. De espaço a espaço, como

anunciando um mandado solene inalterável, o bronze da torre modulava, em seu cavo bradar, pausadamente, aquelas mesmas

horas tão ligeiras que os ponteiros doirados lhes diziam.

 

Assim, altivamente ufana, a vaidade do mundo pretendia reflectir a glória dos céus e adorá-la, traduzindo-a nos bens da terra que

mais caros tinha. Porventura pensou, enlouquecida, igualar em seus falsos tesouros perecíveis a emanação divina da beleza que nas

alturas passa e não consente em ser cativa e serva da nossa arte.

 

Porêm, quando acordei, uma doçura estranha baniu essa ilusão que era o meu sonho, e perseguido e vão o dissipou. Quando a ave

cantou a despertar o cavador ainda adormecido nas minguadas palhas da choupana, quando a sua ternura, reanimando-os, exaltou

da obscura nudez que os oprimia os prados e as selvas, e as aguas, e os rochedos, e os orvalhos, fôram pobreza estreme e pequenina

aquêles sonhos doídos da grandeza fundada em ouro puro e claro mármore; como caíram as torres altas que ela edificou, de todo se calaram humilhados os écos magestosos do bronze que lhe