Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 17 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XVI

da impiedade, onde se afoga a candura e a fé e toda a essência que em nossos corações renova e alenta a imagem e a vontade do

Senhor, e do mundo nos ergue a êsse seu reino de amor e de perdão e de pureza, ignoram a noite e o seu consolo. Impenitentes

reprobos, profanam o divino silêncio emquanto escutam o rouco clamor da perdição.

 

E a noite, que orvalhou a bonina e acalmou os ramos agitados da

floresta e adormeceu o rebanho e o seu pastor, que soltou mais clara a voz das águas e fez crescer a sombra da montanha,

cingindo-a de grandeza e fortaleza, e compassiva veiu mansamente a resgatar de penas e trabalhos os vilares e casais afadigados,

prostrados da canseira que dá o pão—a noite, o arauto sagrado do silêncio, sua mística sérva e confiada, sentindo que uma chama

infernal a prostitue e no seu crepitar a martirisa, chorou amargamente o desvairo infiel que, ultrajando o silêncio, o

aborreceu na injúria que o trocou pelo rumor da cidade enlouquecida.

 

Ouvi chorar a noite atraiçoada porque uma orgia atroz afugentou

o seu supremo bem e companheiro que a inspira e lhe diz salmos divinos, o silêncio que ela ama e é o seu esposo. E então, ferida e

dorida, me prendeu em compungidos laços da sua mágua, apertados e estreitos, como aqueles, bemvindos e queridos, que eu

senti quando a vi, docemente, a proteger a bemaventurada terra a que trazia seus carinhos de sombra e de mudez.

 

XVI