Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 11 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo X

E quanto mais deserta foi a estrada e mais cerrado e fundo o seu

silêncio, mais quis à mágoa que me acompanhou; aí me possuiu inteiramente, e aí se me entregou, candidamente, isenta de temor e

de segredo. Essa foi a que mais amei na terra; foi essa que eu beijei na solidão, nascida do meu peito e nele oculta de corrompidos olhos

que a profanem, no meu peito habitando e respirando sua dôr e mudez, seu alimento, no meu peito guardada e aquecida, para só

viver com êle e aí morrer, ao abrigo do mundo e da traição, para só viver emquanto êle viver, revestida dos véus do seu pudor, reclusa

que nutro do meu sangue e jámais beberá outro sustento.

 

Essa foi minha luz e companheira. Essa teve a pureza dos sacrários. Essa me exaure a vida, e por sofrê-la eu quereria para

sempre a vida, aquela vida a que a mágoa me prendeu.

 

X

 

Rompeu clara a aurora de dezembro. O vento da manhã desce dos montes difundindo a secura sôbre a terra. As neblinas alvas

carinhosas, ásperamente proscritas pela briza que do oriente corre a perseguí-las, mal se suspeitam longe sôbre o mar, exiladas do rio

em que vogavam, brandamente cobrindo as suas águas, e banidas do vale onde habitavam, tranquilas, seguras, resguardadas no

repouso do prado entre os salgueiros.

 

Um translucido céo vem acordar a mais pequenina forma ignorada. É clara a montanha e o pinheiral, e a inquietação da água

da levada e o ribeiro profundo em que ela amaina as serenadas ondas passageiras. É clara a encosta pedregosa, inculta, e a aldeia

e o sobreiral em que se abriga. E os carvalhos da estrada e os pomares e a lhama prateada da oliveira, e o comoro espesso e a madresilva que nele tece a rede dos seus ramos, e o medronheiro