Salmos do prisioneiro
Capítulo XXIV
apregoavam o breve império. Efémera quiméra, afugentou-a o místico poder que na ave incarnou e a fez arauto e missionário
sobrehumano.
Cai o palácio, a fortaleza, o templo; desfaz-se em pó e é nada o diamante. Não renascem se o vento os arrastou. Mas a ave, essa
de peito em peito volta e revive, a cantar perenamente a madrugada, ou na terra se ostentem monumentos, ou no chão se
esboroem as ruinas. Não sei que eternidade a faz eterna onde foi fraca, tenue e transitória a fôrça mais robusta, quanto o homem
imagina duradouro. Mistério da candura dominando toda a mortal jactância da soberba, foi a maior grandeza a singeleza e mais pôde
em nossa alma que o fausto da volupia, ainda mesmo quando impulsos sagrados transviados ofereceram à glória de Deus e ao
amor da luz toda a fortuna que é a paixão e pasto da avareza.
Erradamente, sonhei, louvei e amei o sonho passageiro que me contava as horas da existência no mármore e no ouro. Mas outro
sonho, e êsse foi constante, e fiel e seguro não mentiu, êsse me desprendeu do pérfido fulgor que me enlevava, êsse me libertou
para arrebatar-me àquêles reinos de infinda pureza em que as horas da vida são contadas pelo cantar ingénuo e pela ave.
E então, outras jámais contei, essas sómente ouvi, louvei e amei
humildemente.
XXIV
Não tarda a madrugada. E o campanário, e a igreja, e a fortaleza da muralha impassivel que resguarda as eiras, as moradas e a deveza, se o ímpeto das águas ameaça, quando em torrente desce das
montanhas, geladas, no inverno; e o rio, e os amieiros, e os palácios, e a ponte, sombriamente altiva e orgulhosa:—sonham
encantos ao luar cadente que em derradeiro afago ainda os protege no silencio da sua mansidão. A rocha e a onda, que eram inimigas e
porfiádos combates combatiam pertinázmente disputando o chão, confundiram-se, adorando o luar; e na mesma doçura
adormeceram, dormindo o mesmo sôno, desarmadas, ambas humildes, dóceis e sujeitas à magia divina desse bemdito alvôr que
as alumia. E o coração, dorido dos anseios que o agitam, prostrado dos enlevos e das penas que lhe são cadafalso e o seu consolo,
sustento, pão e cálice e o algôz, a cicuta mortal e a perdição, acalmou-se, como o rochedo e a onda, em seu lutar; à luz piedosa
do luar se entrega e em seus sonhos lhe roga e lhe implora que benignamente suavise, e lhe abrande, embalsame e lhe receba
esperanças e tormentos, e os vôos da ilusão e a loucura de engânos que só querem renascer renovados e crescidos em muitos
mais enganos e mais loucos.
Mas vem a despertá-los a manhã. Além, onde as estrelas desmaiaram, o ceu pressente a aurora e o seu rubôr. E rochêdos, e
igreja, e amieiros, e muros, e palácios, a criação dos deuses e a dos homens, e o próprio coração que Deus habita, acordam para sofrer
uma outra luz, essa do sol cruel e inclemente na turbação candente de um ardor que por igual é vida e consumpção, géra e destrói.
Que destino adverso as amedronta para fugirem pálidas,
vencidas, as sombras carinhosas do luar em que a nossa alma e a terra redimidas cantavam confiadas e felizes, como se estranha fé
as afoitasse a dizerem segredos do seu seio, como se a sombra feita de ternura as confessasse e ouvisse cautelosa e lhes rasgasse os véus do seu mistério?!… Porque passaram, assim breves e