Salmos do prisioneiro
Capítulo XXII
do meu peito, contei impaciente e inquieto em esperança e penas as horas que corriam e as que tardavam; ou sôbre o mar o visse
declinar, ou atento aguardasse o seu rubro surgir de alêm dos montes, jámais o pressenti, jámais o vi, jámais me abençoou ou me
deixou sem que estranho pulsar me alvoroçasse, para só ao seu mistério confiar mistérios indizíveis da minha alma, para ali os
guardar na candidez de luz que os defendesse da corrupção da terra e seus ultrajes.
XXII
Ouvem-se perto os mangoais cantando os pausados cantares do
seu mestér.
Outras eiradas andam a aloirar os milhos sazonados copiosos.
Já vergados os turgidos vinhedos despertaram delírios das
bacantes; e às macieiras córa-lhes os pomos o sol amortecido, emfim liberto de abrazado ardor canicular. Ainda incensam a tarde
derradeiros perfumes do jasmim, mas, a dizer-nos que o estio finda, floriu côr de rosa o eloendro. E aquela madre-silva que murchára
sob a calma do mês de S. Tiago, de novo desprendeu seus ramos ágeis, de novo nos mostrou a palidez do cálice que verte os seus
aromas, rediviva ao respirar primícias da mansidão do outono, generoso de frutos e carícias.
E deleitosamente, ávaro e ávido, eu colho o meu quinhão de
encantos e de pão e de abundância, como se fôsse meu, me pertencesse, vagamente sonhando, em cego orgulho, que era só
minha a terra e o seu sustento, e a caridade infinda do Senhor só para meu benefício se gerára, e só para me servir ela existia, só
para meu contentamento e meu deleite.
Algures, porêm, passou uma voz rebelde, de dôr e de queixume e desalento. Uma sombra sinistra me turvou a alegria soberba dessa
hora, seu repouso e ventura triunfantes. Meu domínio e riquezas, severamente os julga o desamparo, para o qual nem abril nem
novembro teem mudança e por igual são negros. Mensageiros de Deus mo anunciaram no frouxo clamor dessa mendiga que vi
descer, curvada, dos montados, trazendo aos hombros o escasso feixe com que, cerrada a noite, irá avivar a amortecida cinza do seu
lar.
Cansada, extenuada, face a face com a visão das penas da sua sorte, pousou a lenha à beira do caminho para rehaver alento que a
animasse a levar a jornada até final.
E disse alto, erguendo aos céus cruéis o seu lamento:—«Meu divino Senhor!
Como é arrastada a vida que me déste!…»
Não a escutou a serena mudez inflexível dessa Vontade austera, onipotente, que a consagrára à cruz da desventura para a redimir
em tronos de humildade. Mas ouviu-a, hesitante, sucumbida, a atribulada consciência tímida que, emquanto dura a palidez mortal
da fome e da miséria, suspeitou em cada gozo uma traição, e repassa do mais amargo sal o pão e o fruto e quanto os lábios
tocam, e entretece de espinhos todo o linho e toda a seda que nos cobre.
Porque ali me tocou a sua aza, nessa tarde de outono doce e
fértil, me prendeu a indigência e a apeteci—impiamente, talvez, menosprezando o banquete opulento que o Senhor me oferecia e