Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 13 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XII

arrebatá-la envolvida na sombra da sua mágoa. Por certo, são visões que ali adejam e o coração lhe nutre no seu sangue,

aureolando-as da chama e do fulgor que do coração se ergue e o purifica, ora sinistramente, ora em glória, e sempre consumindo-o na

eternidade de um divino amor.

 

E entre visões que então a rodeiavam, recitando-lhe os salmos, todos lidos no seio que sofrera e confiára a afectos e ternuras e

carinhos a ventura e a sorte de um palpitar ardente, apaixonado de alegrias e penas e anseios, renasceu transmudada e foi feliz aquela

que «sempre só» eu encontrára. Vi-a cercada de anjos em sua côrte, que na pobreza tinham os seus paços e na lembrança as

únicas riquezas, e no silêncio sentem companheiros, no silêncio dizendo os seus mistérios de doçura e de paz e amor perene.

 

Nessa imagem em que a terra me mostrou na solidão a

bemaventurança, nessa imagem me tem prendido a terra, a rogar-lhe que acorde na minha alma os sonhos redentores, que ali sonhou

aquela que eu segui na solidão, e ali, na solidão, edificára, de cristal e sem mancha, resplendente, o seu cláustro e templo onde

guardava, sagrada e isenta, toda a sua fé.

 

XII

 

Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em

candidez, eu quereria erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que avistasse, e aí, tocando a

terra tão sómente no píncaro agudo revestido dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível, aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí libertaria o