Salmos do prisioneiro
Capítulo XII
arrebatá-la envolvida na sombra da sua mágoa. Por certo, são visões que ali adejam e o coração lhe nutre no seu sangue,
aureolando-as da chama e do fulgor que do coração se ergue e o purifica, ora sinistramente, ora em glória, e sempre consumindo-o na
eternidade de um divino amor.
E entre visões que então a rodeiavam, recitando-lhe os salmos, todos lidos no seio que sofrera e confiára a afectos e ternuras e
carinhos a ventura e a sorte de um palpitar ardente, apaixonado de alegrias e penas e anseios, renasceu transmudada e foi feliz aquela
que «sempre só» eu encontrára. Vi-a cercada de anjos em sua côrte, que na pobreza tinham os seus paços e na lembrança as
únicas riquezas, e no silêncio sentem companheiros, no silêncio dizendo os seus mistérios de doçura e de paz e amor perene.
Nessa imagem em que a terra me mostrou na solidão a
bemaventurança, nessa imagem me tem prendido a terra, a rogar-lhe que acorde na minha alma os sonhos redentores, que ali sonhou
aquela que eu segui na solidão, e ali, na solidão, edificára, de cristal e sem mancha, resplendente, o seu cláustro e templo onde
guardava, sagrada e isenta, toda a sua fé.
XII
Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em
candidez, eu quereria erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que avistasse, e aí, tocando a
terra tão sómente no píncaro agudo revestido dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível, aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí libertaria o