Salmos do prisioneiro
Capítulo IV
prender.
IV
Verteu outubro suas côres de outono, purpura e oiro, nos céus do poente em que o sol se perde. Melancólicamente a luz abranda.
Coroada de violêtas, a saudade chora entre brumas sua infinda mágua.
Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em
suavidade. E tão carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a sedução da morte nos anseia do que
a tentação da vida nos exalta.
Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o
inverno já não tarda, portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue para gloriosamente o dar à morte.
Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de
pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura,
insinuou-lhe tumidas raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae despir-se, vae dar à terra suas grinaldas
em um derradeiro clamor ardente. A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e em estos de verdura
ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a rudeza agreste de dezembro.