Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 5 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo IV

prender.

 

IV

 

Verteu outubro suas côres de outono, purpura e oiro, nos céus do poente em que o sol se perde. Melancólicamente a luz abranda.

Coroada de violêtas, a saudade chora entre brumas sua infinda mágua.

 

Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em

suavidade. E tão carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a sedução da morte nos anseia do que

a tentação da vida nos exalta.

 

Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o

inverno já não tarda, portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue para gloriosamente o dar à morte.

 

Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de

pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura,

insinuou-lhe tumidas raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae despir-se, vae dar à terra suas grinaldas

em um derradeiro clamor ardente. A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e em estos de verdura

ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a rudeza agreste de dezembro.