Salmos do prisioneiro
Capítulo III
afecto, religioso côro de louvor, a entoarem seus hinos recitados, em severa harmonia, por um só breviário.
E à tarde, quando o sol decaía e as formas se afundavam no
crepúsculo, e de manhã, quando rompia a luz àlêm dos montes e a custo ia acordando o salgueiral, a várzea e as amieiras, e ainda
quando ela em nuvens se perdia e melancolicamente transformava em palidez e sombra o meio dia, sempre dos ramos do pinheiro
vinha uma emanação doirada resplendente, como se o sol ali pousasse sempre, jámais o abandonasse à escuridão, e o
defendesse, para que por sua vez a árvore nos desse, perpetuamente, aquela mesma luz que o sol lhe dava e nunca se
apagava nos seus ramos.
A pobreza dos homens há muito arrancou já daquela terra, que esplendidamente engrandecia, o pinheiro rebusto a cuja sombra a
minha mocidade, cativada de todo o seu podêr e magestade, muitas vezes pediu que lhe dissesse o segredo da sua aspiração e o
mistério da sua formosura. Há muito é cinza e pó e ao pó volveu, sacrificado a chamas piedosas. Mas a perene claridade dos seus
ramos que, constante, o doirava em doce esmalte, ou o sol brilhasse alto ou se ocultasse, êsse sonhar do sol que ali pousava e nunca se
extinguia, êsse não se apagou nem dissipou e êsse me prende ainda e me fascina. Vive nos céus onde as estrelas vivem; de lá nos
ilumina e guia em nossa estrada; perpassa etéreo em toda a imensidade repetindo-me os salmos que eu ouvi aos ramos do
pinheiro murmurando sua ardente oração à luz do sol.
III
Prendeu-me a rola sob a sua aza. Ao sentir-lhe a carícia desarmou-
me de vontade e firmeza que, estando em mim, não mais me pertenceram. Cegou-me a côr morena do seu colo. Sua voz, seu
olhar… foram algemas.
Prendeu-me aquela rola do pinhal que balouçada ao vento, lá no cimo dos ramos mais subidos da floresta, ali canta e se alegra e dali
parte cortando o silêncio umbroso adormecido na sonolência ardente do estio, ora erguendo seu vôo à luz do sol, ora airosa
pousando tranquila, ora fugindo porque algures pressente um logar mais propício ao seu desejo.
Prendeu-me essa outra rola que em meus laços por minha arte
caíu no cativeiro, a desprendida monja resignada que resa o seu rosário à madrugada e o repete ao luar em seus gemidos,
mensageira bemdita do perdão que a mim, seu carcereiro! me saúda na brandura amorosa dos arrulhos, quando ao romper da
aurora eu a visito e, confiada, me vem pousar nas mãos, aquecendo-me o sangue com o seu sangue.
Por que graça de Deus ou por que esmola, por que estranha
indulgência consentiste, rola cativa, minha doce serva, que em minhas mãos eu prenda as tuas azas, te beije o peito e o toque a
boca impura que murmurou êrro, mentira, a maldade, a descrença e a impiedade?!… Porque quizéste que assim se amassem e vissem
nossos olhos, os teus que são a vida e a candidez, e a ternura sem mancha do teu ninho, e os meus que são a morte e a escuridão, e o
desejo sinistro e o remorso que uma dorida consciência acusa?!…
Oh, mansidão, aparição angélica, mandada a este mundo de treva a alumiar-nos a estrada que a Deus conduz e Deus traçou!… Só de sonhar prender-te, já me prende a própria tentação de te