Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 4 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo III

afecto, religioso côro de louvor, a entoarem seus hinos recitados, em severa harmonia, por um só breviário.

 

E à tarde, quando o sol decaía e as formas se afundavam no

crepúsculo, e de manhã, quando rompia a luz àlêm dos montes e a custo ia acordando o salgueiral, a várzea e as amieiras, e ainda

quando ela em nuvens se perdia e melancolicamente transformava em palidez e sombra o meio dia, sempre dos ramos do pinheiro

vinha uma emanação doirada resplendente, como se o sol ali pousasse sempre, jámais o abandonasse à escuridão, e o

defendesse, para que por sua vez a árvore nos desse, perpetuamente, aquela mesma luz que o sol lhe dava e nunca se

apagava nos seus ramos.

 

A pobreza dos homens há muito arrancou já daquela terra, que esplendidamente engrandecia, o pinheiro rebusto a cuja sombra a

minha mocidade, cativada de todo o seu podêr e magestade, muitas vezes pediu que lhe dissesse o segredo da sua aspiração e o

mistério da sua formosura. Há muito é cinza e pó e ao pó volveu, sacrificado a chamas piedosas. Mas a perene claridade dos seus

ramos que, constante, o doirava em doce esmalte, ou o sol brilhasse alto ou se ocultasse, êsse sonhar do sol que ali pousava e nunca se

extinguia, êsse não se apagou nem dissipou e êsse me prende ainda e me fascina. Vive nos céus onde as estrelas vivem; de lá nos

ilumina e guia em nossa estrada; perpassa etéreo em toda a imensidade repetindo-me os salmos que eu ouvi aos ramos do

pinheiro murmurando sua ardente oração à luz do sol.

 

III

Prendeu-me a rola sob a sua aza. Ao sentir-lhe a carícia desarmou-

me de vontade e firmeza que, estando em mim, não mais me pertenceram. Cegou-me a côr morena do seu colo. Sua voz, seu

olhar… foram algemas.

 

Prendeu-me aquela rola do pinhal que balouçada ao vento, lá no cimo dos ramos mais subidos da floresta, ali canta e se alegra e dali

parte cortando o silêncio umbroso adormecido na sonolência ardente do estio, ora erguendo seu vôo à luz do sol, ora airosa

pousando tranquila, ora fugindo porque algures pressente um logar mais propício ao seu desejo.

 

Prendeu-me essa outra rola que em meus laços por minha arte

caíu no cativeiro, a desprendida monja resignada que resa o seu rosário à madrugada e o repete ao luar em seus gemidos,

mensageira bemdita do perdão que a mim, seu carcereiro! me saúda na brandura amorosa dos arrulhos, quando ao romper da

aurora eu a visito e, confiada, me vem pousar nas mãos, aquecendo-me o sangue com o seu sangue.

 

Por que graça de Deus ou por que esmola, por que estranha

indulgência consentiste, rola cativa, minha doce serva, que em minhas mãos eu prenda as tuas azas, te beije o peito e o toque a

boca impura que murmurou êrro, mentira, a maldade, a descrença e a impiedade?!… Porque quizéste que assim se amassem e vissem

nossos olhos, os teus que são a vida e a candidez, e a ternura sem mancha do teu ninho, e os meus que são a morte e a escuridão, e o

desejo sinistro e o remorso que uma dorida consciência acusa?!…

 

Oh, mansidão, aparição angélica, mandada a este mundo de treva a alumiar-nos a estrada que a Deus conduz e Deus traçou!… Só de sonhar prender-te, já me prende a própria tentação de te