Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 12 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XI

verde reluzente, e o musgo do valado e os seixos brancos, esmaltando a charnéca escurecida pelas hastes das urzes lutuosas,

todos teem seu quinhão na luz dos céus, de todos êle disse a formosura através do cristal dessa manhã, dessa aurora sem nuvem

de dezembro. Aos olhos deslumbrados desvendou quanto a terra criou de mais altivo, quanto é soberbo, grande e magestoso, e

quanto de mais humilde ela gerou, quanto timidamente se escondeu nas prégas mais sombrias do seu manto. Em seu triunfo a luz os

tem igualados; um só esplendor os enaltece.

 

E entre tanta riqueza que ela ostenta, em tão pura glória fascinando, quis estranho mistério que a esquecesse e, rebelde ao

encanto, apenas visse e sentisse e amasse, subjugado, a rosa solitária mal aberta, derradeiro murmurio do rosal que

penitentemente vai sofrer sua nudez sevéra do inverno. Só ela me prendeu e cativou, só por vê-la adorei a claridade e tudo o mais

senti como dormindo, distante, inerte e frio, silencioso.

 

É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta, sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de

uma só rosa!… É que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem assim lhe pagou, mesquinho e misero, o

tributo do amor que êle lhe deve!…

 

XI

 

«Sempre só»[1] ali estava recolhida em sua estreita cela que habitava, na muda clausura de um retiro, sevéramente nú,

desadornado de quanto o luxo ordena, inventa e quer para saciar suas mortais doçuras e enganos.

[1] Quadro de Paul de Plument.

 

Respira austeridade aquela estância, a cuja porta cessa, proìbido,

o rumor apressado dos escravos, comprados, seduzidos pelo oiro, para servirem a gula, o capricho e a indolência dos fracos e

orgulhósos, abundando no fáusto, e ocultando nos fumos e vaidades da grandeza a miséria dos bens da alma e do corpo, um

ser enfêrmo que a força desherdou e o ânimo robusto desconhece; e é tão pobre de alfaias a morada onde a vi «sempre só»,

serenamente entregue ao seu scismar, que essas poucas, singelas, que lá tem e são quanto lhe basta para amparo das rudes

provações do seu viver, essas poucas alfaias da indigência mais alargam em torno a solidão do que quebram, em um tenue clamor, o

êrmo rigoroso da pousada.

 

Esplendor que a engrandeça, outro não tem, nem quer, nem recebeu, senão a luz do sol e a do crepusculo, e a da aurora, e o

luar, e a estrela, e a palidez da nuvem errante, quanto dos céus lhe vem, a visitá-la, infinitos e prodigos tesouros dos que a presença do

Senhor protege. Pela fresta rasgada na parede, amplamente aberta à sua benção, vem os ástros ungir a solidão e a obscura pobreza

que a agasalha.

 

Mas, iluminada dessa luz bemdita, da luz vinda dos céos, eis que a velhinha que na cela habita, e ali vi «sempre só» no seu silêncio, a

amá-lo e a aquecê-lo repassando-o dos alentos gerados do seu peito, eis que vai lêr a folha desbotada e a desdobrou diante dos

seus olhos, amortecidos para a luz do mundo. Uma estranha beleza a reanima; uma estranha doçura lhe sorri e em seu rosto sorrindo

acende a vida. Não sei se é de carícia, se de dôr, se de saudade, esperança ou desengano; se entreviu, já distante, a juventude na branca túnica que lhe foi seu manto, se é a velhice que desce a