Salmos do prisioneiro
Capítulo XI
verde reluzente, e o musgo do valado e os seixos brancos, esmaltando a charnéca escurecida pelas hastes das urzes lutuosas,
todos teem seu quinhão na luz dos céus, de todos êle disse a formosura através do cristal dessa manhã, dessa aurora sem nuvem
de dezembro. Aos olhos deslumbrados desvendou quanto a terra criou de mais altivo, quanto é soberbo, grande e magestoso, e
quanto de mais humilde ela gerou, quanto timidamente se escondeu nas prégas mais sombrias do seu manto. Em seu triunfo a luz os
tem igualados; um só esplendor os enaltece.
E entre tanta riqueza que ela ostenta, em tão pura glória fascinando, quis estranho mistério que a esquecesse e, rebelde ao
encanto, apenas visse e sentisse e amasse, subjugado, a rosa solitária mal aberta, derradeiro murmurio do rosal que
penitentemente vai sofrer sua nudez sevéra do inverno. Só ela me prendeu e cativou, só por vê-la adorei a claridade e tudo o mais
senti como dormindo, distante, inerte e frio, silencioso.
É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta, sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de
uma só rosa!… É que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem assim lhe pagou, mesquinho e misero, o
tributo do amor que êle lhe deve!…
XI
«Sempre só»[1] ali estava recolhida em sua estreita cela que habitava, na muda clausura de um retiro, sevéramente nú,
desadornado de quanto o luxo ordena, inventa e quer para saciar suas mortais doçuras e enganos.
[1] Quadro de Paul de Plument.
Respira austeridade aquela estância, a cuja porta cessa, proìbido,
o rumor apressado dos escravos, comprados, seduzidos pelo oiro, para servirem a gula, o capricho e a indolência dos fracos e
orgulhósos, abundando no fáusto, e ocultando nos fumos e vaidades da grandeza a miséria dos bens da alma e do corpo, um
ser enfêrmo que a força desherdou e o ânimo robusto desconhece; e é tão pobre de alfaias a morada onde a vi «sempre só»,
serenamente entregue ao seu scismar, que essas poucas, singelas, que lá tem e são quanto lhe basta para amparo das rudes
provações do seu viver, essas poucas alfaias da indigência mais alargam em torno a solidão do que quebram, em um tenue clamor, o
êrmo rigoroso da pousada.
Esplendor que a engrandeça, outro não tem, nem quer, nem recebeu, senão a luz do sol e a do crepusculo, e a da aurora, e o
luar, e a estrela, e a palidez da nuvem errante, quanto dos céus lhe vem, a visitá-la, infinitos e prodigos tesouros dos que a presença do
Senhor protege. Pela fresta rasgada na parede, amplamente aberta à sua benção, vem os ástros ungir a solidão e a obscura pobreza
que a agasalha.
Mas, iluminada dessa luz bemdita, da luz vinda dos céos, eis que a velhinha que na cela habita, e ali vi «sempre só» no seu silêncio, a
amá-lo e a aquecê-lo repassando-o dos alentos gerados do seu peito, eis que vai lêr a folha desbotada e a desdobrou diante dos
seus olhos, amortecidos para a luz do mundo. Uma estranha beleza a reanima; uma estranha doçura lhe sorri e em seu rosto sorrindo
acende a vida. Não sei se é de carícia, se de dôr, se de saudade, esperança ou desengano; se entreviu, já distante, a juventude na branca túnica que lhe foi seu manto, se é a velhice que desce a