Salmos do prisioneiro
Capítulo V
Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano
vermelho empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta
a morte e um murmurio de esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em seu seio e vem surgindo o
sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de abril lhe solta a aza.
Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas
brizas de novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o meu scismar!…
V
Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me
roubaste a liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me
possuiste e à tua pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz divina ao desprender da humildade e
modestia os mais perfeitos perfumes, os mais doces.
Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não
negariam, se Deus lhe désse a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me arrebatáram.
Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e
dos cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua purpura ocultam a gandara negra; escravo sem
sustento abandonado em solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras banhasse e convertesse