Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 6 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo V

Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano

vermelho empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta

a morte e um murmurio de esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em seu seio e vem surgindo o

sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de abril lhe solta a aza.

 

Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas

brizas de novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o meu scismar!…

 

V

 

Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me

roubaste a liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me

possuiste e à tua pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz divina ao desprender da humildade e

modestia os mais perfeitos perfumes, os mais doces.

 

Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não

negariam, se Deus lhe désse a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me arrebatáram.

 

Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e

dos cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua purpura ocultam a gandara negra; escravo sem

sustento abandonado em solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras banhasse e convertesse