Salmos do prisioneiro

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 22 de 27

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Salmos do prisioneiro

Capítulo XXI

na comunhão sagrada da sua compassiva piedade.

 

XXI

 

Sonho dos astros que alimenta o sonho dos corações que ao sonho se renderam, a servi-lo votando todo o sangue e outra fé não

querendo conhecer, vagueia sobre os prados o luar, cobre as águas do rio, e na floresta, sorrindo brandamente, confundiu-lhe em

vagabunda alvura e infinita a mais ousada haste e a mais pequena, a mais endurecida e a mais tenra. A tortura dos ramos, mutilados

pela rajada agreste de dezembro, e a doçura das frondes ainda débeis, incertas da sua forma e robustez, repassadas da pálida

verdura em que as sustenta de suave orvalho um tépido abril, por igual as involve na sua paz. Espargiu sôbre a terra a mansidão;

renovou-a em candura, resgatando-a de seus espinhos, sombras e asperezas. E a terra, humilde, silenciosa, e muda, e religiosa, como

virgem que a Deus se consagrou e de um mundo cruel se desprendeu, adormeceu feliz, santificada no seio da pureza que a

protege, por graça do luar isenta e livre de agitados errores que a ferem e mancham, e dos tumultos vãos que a atormentavam, de

quanta fealdade a entristecia e de quanta escuridão a desvairava.

 

Consolador, 'místico luar, êsse que soube e ouviu na sua glória as ternuras ocultas e queixosas, devaneios que a vida atraiçoou,

anseios que o mundo nega se os escuta, saudades, desventuras e lamentos da cegueira contrária dos destinos; o sonho eterno da

eterna luz dos céus, que nos sonhos dos homens se engrandece e benignamente lhes responde e compassivo os ama e acrescenta:—

êsse foi senhor meu e ao seu império, ao seu casto império sujeitei-me, contente, apetecendo-o. Por lhe oferecer a misérrima oferenda