Salmos do prisioneiro
Capítulo II
Quando a saudade me repete as horas de infância e candidez, ha
longos anos já contadas e passadas, e sempre tão presentes, renovadas na obsessão de sonhos procurando um reino de pureza
onde não chegue o desengano amargo deste mundo que nos perturba a fé e o pensamento, renascem aos meus olhos
claramente quantas sombras então me protegiam, quantas árvores então fôram afago do despertar das minhas ilusões e das alegrias
em que me sorriam. Todas as vejo e todas me repetem a sua formosura e o seu encanto, tais quais nessa alvorada me
encontraram, amando-as com um amor que só cresceu, intemerato, isento, incorruptível, sofrendo vária sorte sem mudança, a sorte
mais contrária e a mais benigna. Em todos os meus passos me seguiu: foi amparo na dôr e acompanhou-me no mais rude trabalho,
e no repouso, e na alegria de descuidados dias de ventura.
Aquelas mesmas árvores que amei e o acaso funesto destruiu para consumarem um heroico holocausto de bondade, essas
mesmas eu vejo na lembrança, serenas e viçosas como as vi quando o meu coração as descobriu.
Lá ao fundo da encosta, onde a floresta acaba e vem o prado,
ainda vejo, do alto do casal que me agasalhava, toda a espessura do pinheiro manso, a marcar o extremo do valado, cerrada e firme,
quási insensível ao vento tormentoso dos invernos, e tão estreitamente unida e igual que pareciam tomadas de amizade as
hastes apertadas para viverem seu diferente viver em uma só vida, a cumprirem fielmente um juramento, para afrontarem juntas o rigor e para juntas se erguerem em exaltação—comunidade mística de