Salmos do prisioneiro
Capítulo I
entregar ao seu poder; e a mudez que diz mais que a voz mais alta, e a sedução da morte, quanto anseio a minha alma pressentiu;—e
quanta formosura nos afaga e quanta sombra nos aterra e prostra, a água clara do regato límpido, a luz do dia, a verdura do prado, e
toda a austeridade da montanha, severa, grande e rude, imperturbável, e o inflamado terror da tempestade, e o mar e as
suas ondas tormentosas, e os pômos rescendentes de perfume; a rosa, e a criança; e os olhos que fascinam; e a graça que incarnou
na juventude, e a nobreza que é a graça de velhice:—venceram-me, prenderam-me!…
E sempre que me ergui para libertar-me, sempre escravo caí do
seu encanto; e no meu peito ouvi salmos de amor, louvando os ferros que o apertavam e louvando o Senhor que lhos mandava; e o
meu peito os cantou e repetiu, sorrindo à sorte que o rendeu cativo.
I
Da lívida tormenta, que em nuvens repassadas do seu luto turva o dia amoroso de setembro, cai sôbre a terra a chuva maternal a dar
seu leite às seivas minguadas e a dar aos pômos tumidos a unção de um derradeiro e salutar frescor.
Realça na levada alvas espumas; redobra no açude o seu cantar;
banha em cristal a rama dos carvalhos; a veiga reverdece; e o pinheiral, que àlêm sofria a sêde entre os penhascos donde,
heroico, brotou a desmentir-lhes sua infecunda aspereza abandonada, serenamente bebe o refrigério, como sofreu sereno a
crueldade da ardência do estio prolongado, seus ramos apontados às estrelas, quer padeça tormentos, que se exalte em bens das suas horas mais felizes,—por certo vendo amor que nós não vemos,
mas que em suas esmolas nós sentimos, na sombra, na fogueira e na choupana, no tecto dos casais e sôbre as águas, salvando do
naufrágio os desvairados filhos de cobiça.
Ao longe, o traço agudo das montanhas cortando a seu capricho os horisontes, seus píncaros audazes e a profundeza das suas
largas sombras misteriosas; e as ermidas onde vivem, guardadas da corrupção do mundo e da mentira, a fé e a singeleza; e os castelos
onde em ruinas penam as vaidades e as ilusões do orgulho e fortaleza—todos dos nossos olhos se perderam na confusão das
nuvens insondáveis, todos por sorte igual já se ocultaram na plácida cinza humedecida que brandamente os cobre em seu repouso.
Depois, dissipada a tormenta, veloz em seus errores transpondo
os montes, um silêncio velado lhe sucede; e no caír da tarde, magoada de sombra e de mudez, ressurgem as ermidas e castelos,
as montanhas e os cerros mais erguidos, casais, verduras, relvas e florestas, renascidos para a vida e formosura na benção baptismal
de águas lustraes.
Mas agora, por toda a vastidão da serrania, docemente vagueiam sonhos de candidez. Beijando o chão, pousou ali a alvura de nuvens
desprendidas da procela, como se os céus quizessem ser humildes, mandando à terra anjos de pureza e bondade e caridade, a cobrir-
lhe a aspereza misera e cruel, seus cardos e os espinhos mais agudos, e o nosso desamor, nossa traição aquele eterno Pai que
nos criou, mais negra e mais cruel que a avareza da terra a mais ingrata.
E a minha alma prendeu-se nessas nuvens, com elas rastejou
meu coração, esmolando dos céus que o redimissem naquela alvura em que remiram os montes e os cardos e os espinhos mais agudos!