Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 1 de 24

Páginas do PDF

Spartacus: A Rebelião

Dedicatória

Para Colm e Shane, os amigos mais antigos

 

e os dois melhores produtos da “nossa cidade”!

PRÓLOGO

 

Monte Garganus, costa leste da Itália, primavera de 72 a.C.

A batida furiosa do sangue em seus ouvidos abafava a cacofonia dos ruídos do campo de batalha: os gritos dos feridos e mutilados, os berros de seus seguidores mais corajosos e os gemidos dos mais medrosos. Apesar do clamor horrível e de sua raiva voraz — contra os romanos, contra os deuses, contra o que tinha acontecido até então naquela manhã —, a atenção do grande homem estava toda nas linhas inimigas, a uma centena de passos de distância. Toda fibra de seu ser queria atacar mais uma vez o declive rochoso e transformar o máximo possível de legionários em pedaços sangrentos. “Calma. Se temos alguma chance de conseguir, os homens precisam de tempo para recuperar as forças. Eles precisam recuperar as energias.”

O estrondo da bucinae cortou o ar, e ele franziu a testa. As trombetas mandavam que as duas legiões do cônsul Gellius se reagrupassem. Ele respirou fundo, se concentrando no som metálico das espadas dos soldados inimigos batendo nos escudos enquanto provocavam homens dele, tentando fazer com que iniciassem outro ataque ineficaz à colina. A resposta patética dos poucos guerreiros que ainda tinham voz suficiente para gritar era furiosa.

Suas gargantas não estavam debilitadas à toa. Ele também tinha muita sede. A luta havia começado duas horas depois do nascer do sol e só parou quando cada um dos três ataques anteriores foi repelido. Não havia chance de encontrar a bolsa de água que ele tinha deixado no chão. Ele não ficaria ressentido com o homem que a achasse. Por causa disso, estava na mesma situação que a maioria de seus seguidores. Uma rápida olhada na posição do sol no céu azul revelou que era quase meio-dia. “Três horas de combate sem água. Ainda bem que não é verão, ou metade do exército já teria perecido.” Outro sorriso amargo marcou seu rosto largo. Uma boa parte de seu exército jazia morta ou ferida no chão avermelhado de sangue diante dele. “Para que eles precisam de água?”

A área entre os dois lados — uma ladeira livre da cobertura de azinheiras, terebintina e arbustos da colina — estava repleta de cadáveres. Os milhares de corpos mutilados forneceriam semanas de alimento para os abutres que já pairavam no céu. A maioria dos caídos estava perto das linhas romanas. Em alguns pontos o desnível era tão grande que seus homens tinham sido forçados, nos ataques seguintes, a subir sobre corpos, o que os transformava em alvos fáceis para os dardos romanos. Aqueles que não tinham sido cortados ao meio pelos lançamentos de pilos que chegavam a escurecer o céu haviam sido bloqueados pelos gládios dos legionários. As espadas de dois gumes mortais tinham impedido a tomada das paredes impugnáveis de escudos, cortando os homens em pedaços, arrancando pernas e braços, afundando em seus peitos desprotegidos. Ele até tinha visto alguns de seus seguidores sendo decapitados.

Apesar das perdas terríveis, eles tinham conseguido chegar a alguns lugares durante o primeiro ataque frenético. Sua lembrança desse pequeno sucesso logo se amargou. Todas as brechas abertas — menos a dele — tinham sido rapidamente reparadas. Como seus homens não tinham armaduras, escudos e a disciplina dos legionários, além da vantagem da altura, os escravos se tornaram alvos fáceis. Vendo seus homens serem abatidos como ovelhas em um matadouro, ele ordenou que recuassem. Tinha desistido de seu próprio ataque brutal que quase havia esmagado a primeira linha romana.

“Por todo o bem que fizemos. Uma abertura nas fileiras inimigas não ganha uma batalha. O que ganha é manter a posição. Permanecer disciplinado.” Essa era uma dura lição para um gaulês. Apesar de ter nascido escravo, tinha crescido ouvindo as histórias dos ataques aterrorizantes de seus antepassados, homens que tinham derrotado as legiões romanas em várias ocasiões, cuja coragem derrotara tantos inimigos antes. Essa tática fracassou por completo hoje.

Ele viu um cavaleiro com um capacete polido e capa escarlate movendo-se de um lado para o outro por trás das linhas romanas. Lançou uma maldição. “Gellius pode ser velho para um cônsul, porém, escolheu bem o terreno. Foi idiotice minha deixá-lo acelerar a marcha e ficar na posição mais alta. Besteira apostar no número maior das minhas forças, quase o dobro, em comparação com a deles.” As primeiras sensações de desespero se instalaram em sua mente, mas ele as afastou com outras blasfêmias. Se juntasse seus melhores homens, talvez pudessem romper as linhas inimigas. Se matassem o cônsul, sem dúvida os romanos fugiriam. O desfecho da batalha ainda poderia ser mudado.

— Vamos, homens! Ainda estamos em maior número do que eles! — gritou. — Um último esforço! Vamos fazer um ataque final. Se matarmos aquele bastardo do Gellius, ganharemos o dia. Quem está comigo?

Só umas poucas vozes responderam.

Ele arrancou seu capacete de bronze da cabeça e o jogou no chão.

— Pedaço de merda romana. — Avançando uns trinta passos em direção à massa desorganizada de homens, ainda cerca de dez ou doze mil, ele se virou para que todos pudessem ver seu rosto. Estava agora ao alcance dos dardos. Pensou que sua cota de malha provavelmente evitaria as flechas, mas não se importava de fato com isso. A dor seria bem-vinda, incentivaria a raiva. — Ei! Estou falando com vocês!

Centenas de rostos desesperados e sujos de sangue o encaravam. Em seus olhos, ele via a derrota. Não sentiu medo. Mesmo se eles fracassassem agora, os romanos não poderiam impedir o fim almejado por ele. Morrer em batalha era tudo que sempre quis. É verdade que seria melhor morrer sabendo que seus homens tinham vencido Gellius, mas ele ainda era um homem livre e morreria dessa forma, levando muitos romanos com ele.

Clash, clash, clash fez sua espada batendo no metal do escudo. Os homens que estavam longe dele se aproximaram.

— Agora ouçam! — gritou ele. — Nós atacamos três vezes e fracassamos. Milhares de nossos camaradas estão caídos ali, mortos ou moribundos. A bravura, o sangue e as vidas deles exigem vingança. VINGANÇA!

Clash, clash, clash no escudo.

— VINGANÇA!

Houve um zumbido no ar atrás dele. Apesar da coragem, ele sentiu um arrepio. “Alguém lançou um pilo.” Ele não se moveu.

— VINGANÇA!

Thump. Ele olhou para sua direita, pegando o dardo que tinha caído na terra a menos de cinco passos dele. Jogou a cabeça para trás e uivou como um lobo.

— Isso é o melhor que eles podem fazer? Os malditos bastardos romanos não conseguiriam acertar uma pilha de trigo em um galpão de grãos!

Seus homens — pelo menos os que estavam mais próximos — pareceram mais animados.

“Ótimo. Eles ainda não desistiram.”

— Vou subir ali e cortar esses desgraçados em pedacinhos. Vou arrancar a cabeça de Gellius do maldito pescoço esquelético e depois rir quando seu exército fugir de medo. — A cicatriz em seu nariz e o sangue romano que o cobria dos pés à cabeça reduziam seu olhar encorajador ao olhar predador de um monstro, mas a paixão em sua voz era inconfundível. — Quem está comigo? Quem está com Crixus?

— Eu estou! — gritou um gaulês com tranças longas.

— E eu! — gritou um homem com o pescoço grosso como o de um touro e a túnica rasgada.

Mais vozes foram se juntando. “CRIX-US! CRIX-US!”, gritavam eles, e, sorrindo, ele bateu sua longa espada em seu scutum como resposta. O clima de medo que pairava sobre os escravos desapareceu. No entanto, sua bravura recém-redescoberta não duraria muito. Crixus sabia disso. Se quisessem ter sucesso, deveriam agir imediatamente. Virando-se para encarar os romanos, gritou:

— Vamos, homens! Vamos mostrar a eles o que significa ter coragem!

Sem olhar para trás, ele subiu a colina como um homem possuído.

Gritando como touros enlouquecidos, centenas de escravos o seguiram.

Contudo, muitos não se mexeram. Ficaram parados, olhando em silêncio seus camaradas atacarem as linhas romanas. Preparados para correr até o esconderijo denso formado pelos arbustos e árvores no declive abaixo.

Crixus sentia a presença de seus homens pelas costas. Sabia que nem todo mundo tinha se unido, mas sentiu uma onda de calor preenchendo-o mesmo assim. “Pelo menos, vamos morrer bem. Haverá lugar no paraíso dos guerreiros para todos nós.” Teve um último pensamento antes que a loucura da batalha o dominasse e a razão o abandonasse: “Talvez Spartacus estivesse certo. Talvez eu deveria ter ficado.”