Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 24 de 24

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Spartacus: A Rebelião

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Conheça também o primeiro livro da série!

 

SPARTACUS: O GLADIADOR

Confira o primeiro capítulo a seguir.

CAPÍTULO I

 

Sudeste da Trácia, outono de 74 a.C.

Quando o vilarejo apareceu no topo de um monte distante, uma grande alegria tomou conta dele. A estrada de Bitínia foi longa. Seus pés estavam cheios de bolhas, os músculos das pernas doíam e o peso da armadura machucava suas costas. O vento frio soprava por suas orelhas, e ele se amaldiçoou por não ter comprado uma touca de pelos no vilarejo pelo qual passara dois dias antes. Sempre se arranjara bem com um revestimento de feltro e, quando necessário, um capacete de bronze, e não um alopekis comum de pele de raposa. Naquele clima ruim, porém, talvez roupas quentes fossem mais importantes do que peças de combate. Mas, pelos deuses, ele ansiava dormir sob um teto confortável, longe das mudanças no clima. A viagem do campo romano de onde ele havia sido dispensado levara mais de seis semanas, e o inverno se aproximava depressa. Deveria ter demorado só metade do tempo, mas seu cavalo ficara manco apenas dois dias depois da partida. Desde então, não pôde mais cavalgar. O animal só conseguia carregar o escudo e os equipamentos; mais do que isso acabaria por piorar sua situação.

— Se eu tivesse montado em você, teria lhe mandado aos deuses há muito tempo — disse, puxando as rédeas que direcionavam o garanhão branco que mancava atrás dele. — Mas você já me serviu muito todos esses anos, não é? — E sorriu quando o animal relinchou para ele. — Não, não tenho mais nenhuma maçã. Mas você será alimentado em breve. Estamos quase em casa, graças ao Cavaleiro.

Casa. Parecia não ser verdade. O que isso significava depois de tanto tempo? Ver o pai seria a melhor coisa em estar de volta, ainda que ele já estivesse idoso. O viajante passara uma década fora, lutando por Roma. Um poder detestado por muitos trácios, no entanto, ao qual muitos serviam mesmo assim. Ele havia servido por bons motivos. “Para aprender como eles são e aí, um dia, poder combatê-los de novo. A ideia do pai foi boa.” O ato mais difícil de sua vida tinha sido obedecer às ordens dos mesmos soldados contra os quais ele lutara — homens que talvez tenham matado seu irmão e que certamente tinham conquistado sua terra. Mas tinha valido a pena. Ele adquirira muitas informações com aqueles desgraçados. Aprendera como treinar os homens sem misericórdia, até que eles passassem a lutar como unidade. Como era essencial obedecer a ordens, mesmo no ápice da batalha. Como os soldados eram treinados para se manterem firmes nas situações mais extremas. “Disciplina”, pensou ele. Disciplina e organização eram as chaves.

Não era apenas o desejo de aprender sobre eles que fazia você deixar seu vilarejo, mas também seu gosto pelo combate. Depois de ser derrotado, seu grupo fora acuado. Não havia a menor possibilidade de lutar contra alguém, muito menos Roma. Você é um guerreiro que segue o deus cavaleiro. Você ama a guerra. Derramar sangue. Matar. Unir-se aos romanos lhe deu a oportunidade de participar de campanhas sem fim. Apesar de tudo o que tem feito a seu povo, ainda assim, você sentiu prazer por lutar ao lado deles.

“Já estou cansado disso. É hora de me assentar. Encontrar uma mulher. Começar uma família.” Ele sorriu. Antes, desprezava tais ideias. Agora, elas se tornavam atraentes. Durante seu tempo com as legiões, vira coisas que deixariam qualquer homem de cabelos brancos. Acostumara-se a elas — no calor da batalha, ele havia agido da mesma maneira, mas saquear campos e vilarejos desprotegidos, e ver mulheres sendo estupradas e crianças mortas não eram coisas que conseguia aceitar com naturalidade.

— Planejar como levar a luta a Roma vai me bastar por um tempo. A hora da guerra chegará de novo — disse ele ao garanhão. — Enquanto isso, preciso de uma boa mulher da Trácia com quem eu possa fazer muitos filhos.

O cavalo mordiscou o cotovelo dele, sempre à espera de um petisco.

— Se quiser um pouco de cevada, mexa-se — disse ele, com um resmungo carinhoso. — Não vou parar para lhe dar comida tão perto do vilarejo.

Mais acima e à esquerda, algo rolou de uma rocha, e ele blasfemou por ter se distraído. O fato de não ter encontrado ninguém no caminho aquele dia não significava que estava seguro. Ainda assim, os deuses sorriram para ele durante toda a viagem a partir de Bitínia. Era uma época em que a maioria dos trácios evitava o clima ruim e lubrificava e guardava as armas para se preparar para a campanha seguinte. Para um viajante solitário, aquela era a melhor época para se deslocar.

“Tive sorte de não ter encontrado bandido algum até aqui. Esses estão muito próximos de meu vilarejo. Que não haja muitos deles.” Fingindo coçar os ombros e mexer o pescoço, ele olhou rapidamente para os dois lados. Três homens, talvez quatro, o observavam de seus esconderijos nas ladeiras tomadas por rochas do caminho. Como era comum na Trácia, eles pareciam armados com lanças. Olhou para o capacete de bronze que estava preso à bagagem na anca do garanhão, e decidiu não pegá-lo. Poucos peltastas conseguiam acertar a cabeça de um homem. Quanto ao escudo, bem, ele conseguiria alcançá-lo enquanto as primeiras lanças ainda estivessem no ar. Se fosse atingido, sua armadura provavelmente o protegeria. Tentar soltar a lança de ataque levaria muito tempo. Ele lutaria com eles para poder empunhar sua sica, a espada curva trácia que mantinha presa no cinto dourado. Eram possibilidades aceitáveis, concluiu. Desde que os salteadores não fossem especialistas no ataque. “Grande Cavaleiro, olhai por mim com a espada em punho.”

— Sei que vocês estão aí — disse ele. — Apareçam.

Ouviu-se uma risada repentina. A cerca de trinta passos dali, um dos bandidos se levantou. Olhos cruéis, em um rosto magro cheio de cicatrizes, observavam o viajante. Sua capa de lã bordada estava aberta, revelando uma túnica puída que descia até as coxas. Usava uma touca suja de pelo de raposa. Tinha pernas esqueléticas e as botas de couro de bezerro eram velhas. Na mão esquerda, ele empunhava uma típica pelta, um escudo em forma de lua crescente, e atrás deste, uma lança extra; na direita, havia outra lança leve, pronta para ser atirada.

Não usava armadura, e, à exceção das lanças, tinha apenas uma adaga no cinto, como o viajante notou. Ótimo. Os comparsas dele não estarão mais bem-armados.

— Que belo garanhão você tem aí — disse o bandido. — Pena que esteja manco.

— Está. Se não estivesse, vocês, bando de lixo, não teriam me visto.

— Mas está, e você está a pé e sozinho — disse uma segunda pessoa, rindo.

O viajante olhou para cima. O segundo homem era mais velho do que o primeiro, com um semblante mais marcado e cabelos grisalhos. Sua roupa de tecido grosso era igualmente puída, porém seu olhar atento era intenso. Mesmo sendo pobre, seu escudo redondo era bem-feito, e a lança que segurava parecia ter sido bem usada. Ele era o mais perigoso. O líder.

— Vocês querem o garanhão, creio eu.

— Rá! — Um terceiro homem apareceu. Era maior do que seus comparsas; tinha braços e pernas musculosos e, em vez de lanças, levava uma pelta grande e uma clava assustadora. — Queremos tudo. Cavalo, equipamento e armas. E seu dinheiro, se tiver.

— Queremos até a sua comida!

O quarto bandido era esquelético, com o rosto magro, abatido, e um aspecto doente. Não levava um escudo, mas três lanças leves.

— E se eu lhes der tudo isso, vocês me deixarão seguir caminho? — Sua respiração saiu branca no ar frio.

— Claro — disse o primeiro homem. Os olhos inexpressivos e as risadinhas dos companheiros mostravam que ele mentia.

O viajante não se deu o trabalho de responder. Virou-se, murmurando “Fique!” ao garanhão. Quando passou a mão por baixo do grande escudo circular e soltou a alavanca que o mantinha preso, escutou uma lança passando por cima de sua cabeça. Outra foi lançada em um arco mais baixo. Acertou a terra entre os cascos do cavalo, fazendo o animal se agitar.

— Calma — pediu ele. — Você já passou por isso muitas vezes. — Acalmado pela voz, o cavalo se aquietou.

— Oeagrus, pare, seu tolo! — gritou o líder. — Se ferir esse animal, acabo com você.

“Ótimo. Sem lanças. O garanhão é muito valioso.” De costas para o cavalo e erguendo o escudo, ele se virou. O bandido magricela estava atrás dele agora, porém, não arriscaria mais nenhuma lança. Nem os outros. Empunhando a sica, ele sorriu de modo ameaçador.

— Vocês terão que descer aqui para brigar comigo.

— Justo — resmungou o primeiro homem.

Usando os calcanhares como freios, desceu a ladeira. Os dois comparsas o seguiram. Atrás dele, o viajante percebeu que o terceiro homem também descia. O garanhão mostrou os dentes e relinchou, desafiador. “Que ele ouse se aproximar.”

Quando os três chegaram ao chão, discutiram por um momento.

— Estão prontos? — perguntou ele, sarcástico.

— Seu desgraçado — rosnou o líder. — Ainda será tão arrogante quando eu cortar as suas bolas e enfiá-las goela abaixo?

— Pelo menos vai conseguir encontrar as minhas. Duvido que algum de vocês, otários, tenha bolas.

O homenzarrão ficou furioso. Berrando, ele atacou, pelta e clava empunhados.

O viajante deu alguns passos à frente. Posicionando a perna esquerda atrás do escudo, preparou-se. Segurou a sica com mais força. “Isto precisa ser rápido, ou os outros se aproximarão de mim também.”

Felizmente, o bandido era tão inábil quanto era confiante. Ao acertar o oponente com o escudo, desferiu um golpe na direção da cabeça deste. O viajante, afastando-se com o impacto do ataque, abaixou a cabeça. Girando com a sica, ele cortou o tendão esquerdo do bandido, que deu um grito estridente e caiu no chão. Este ainda teve o reflexo de erguer a pelta, mas o viajante a derrubou com o escudo e acertou seu pescoço. O bandido morreu engasgado no próprio sangue.

Ele puxou a lâmina e empurrou o corpo para trás.

— Quem é o próximo?

O líder sussurrou uma ordem ao homem esquelético antes de ele e o bandido que usava touca cercarem a vítima.

O garanhão alardeou em desafio novamente, e o viajante percebeu que ele se erguia nas patas traseiras. Deu um passo adiante, saindo do caminho do animal.

Um instante depois, ouviu-se um grito abafado, o tum-tum de cascos esmagando ossos, e então o barulho de um corpo caindo ao chão.

— Meu cavalo pode estar manco, mas ainda tem um gênio difícil — disse ele, com calma. — Os miolos de seu amigo provavelmente estão decorando a estrada. Acertei?

Os dois bandidos que sobraram se entreolharam, chocados.

— Nem pense em fugir! — alertou o líder. — Oeagrus era filho da minha irmã. Quero vingar a morte dele.

Sem se intimidar, o viajante abaixou o escudo, expondo o pescoço. “Que isso faça um deles agir.”

O homem com a touca de pele de raposa contraiu a mandíbula.

— Que se dane se a fera for atingida — disse ele, jogando a lança.

O viajante não saiu do caminho. Simplesmente ergueu o escudo, deixando que ela batesse diretamente na madeira e no couro. A ponta afiada de ferro perfurou a superfície do escudo, atravessando uns dois dedos, mas não o feriu. Com um movimento do braço esquerdo, ele lançou o objeto inutilizado em direção ao bandido, que se afastou para não ser atingido. O que este não esperava era que o viajante surgisse apenas alguns passos atrás do escudo voador. Quando o bandido lançou a segunda lança contra o oponente, ela foi bloqueada com violência.

Mantendo o ímpeto de avançar, o viajante acertou o adversário com o punho esquerdo. A cabeça do homem foi lançada para trás com a força do golpe, e ele mal viu a sica enquanto esta era cravada em sua pele, na junção do pescoço com o torso. Espirrando sangue para todos os lados, e parecendo pouco surpreso, caiu de lado na estrada. Com o ritmo de seus batimentos cardíacos se tornando cada vez mais lento, uma mancha vermelha inundou o chão ao redor dele. “Três vencidos, o último, porém, é o mais perigoso.”

O viajante se virou depressa, esperando que o líder tentasse acertar suas costas. O movimento impediu que ele fosse ferido com gravidade, e a lança passou perto dos anéis de sua armadura e voou pelos ares, fazendo o criminoso cambalear. Um golpe com as costas da mão no rosto deste fez com que caísse sentado, perdendo a arma no meio do caminho.

Ele olhou para o viajante, aterrorizado.

— Tenho uma esposa. Uma fa-família pa-para manter — gaguejou ele.

— Você devia ter pensado nisso antes de me emboscar — foi a resposta.

O bandido gritou quando a sica cortou sua barriga, expondo as vísceras. Soluçando de dor, esperou pelo golpe mortal. Que não veio. Ele permaneceu ali, impotente, perdendo a consciência.

Alguns instantes depois, abriu os olhos. O assassino o observava impassivo.

— Não me deixe morrer aqui — implorou ele. — Nem mesmo Kotys faria isso com um homem.

— Kotys? — Não obteve resposta, então o viajante chutou a vítima. — Você pretendia cortar as minhas bolas e enfiá-las goela abaixo, lembra?

Ele engoliu em seco, agoniado.

— Por-por favor.

— Muito bem. — Ele ergueu a sica.

— Quem é você, em nome de Deus? — conseguiu sussurrar o homem.

— Só um viajante cansado com um cavalo manco.

A lâmina desceu, e os olhos do bandido se arregalaram pela última vez.

Ariadne puxou os cabelos para trás e enfiou com cuidado alguns grampos de ossos nas longas madeixas pretas, prendendo-os. Sentada em um banco de três pernas a uma mesa de madeira baixa, virou o espelho de bronze para que capturasse a luz que entrava pela porta aberta da cabana. O pedaço moldado de metal dourado era seu único luxo, e usá-lo de vez em quando servia para fazer com que ela se lembrasse de quem era. Era um daqueles dias. Para a grande maioria das pessoas no vilarejo, ela não era uma mulher, uma conhecida nem amiga. Era a sacerdotisa de Dionísio, e respeitada como tal. Na maior parte do tempo, Ariadne se sentia satisfeita com esse prestígio. Depois de uma criação difícil, sua posição elevada era melhor do que ela já tinha sonhado ser possível. No entanto, isso não significava que não tinha necessidades ou desejos. “Qual é o problema de desejar um homem? Um marido?” Ela contraiu os lábios. Atualmente, a única pessoa que demonstrava interesse por ela era Kotys, o rei dos medos. Não era de surpreender que o interesse dele afastasse outros possíveis pretendentes. Aqueles que entravam no caminho de Kotys costumavam acabar mortos — era o que se dizia. “Não que alguém tivesse aparecido antes dele”, pensou com amargura. Na verdade, homens corajosos o bastante para cortejar uma sacerdotisa eram raros.

Ariadne não queria nem gostava dos avanços lascivos de Kotys, mas não se sentia capaz de impedi-los. Ele não havia tentado nada físico, ela, porém, tinha certeza de que isso se devia a seu status conhecido — e à cobra venenosa que mantinha em um cesto perto da cama. Sua situação era complicada pelo fato de que ela precisava permanecer no vilarejo. Havia chegado ali por ordens dos sacerdotes em Kabyle, a única cidade da Trácia, que ficava mais ao nordeste. Apesar das circunstâncias extraordinárias, ela estava ali para ficar. Se voltasse a Kabyle, Ariadne certamente estaria presa a atividades domésticas no templo principal pelo resto da vida.

Não havia dúvida a respeito de voltar para sua família. Apesar de amar a mãe e de rezar por ela todos os dias, Ariadne nutria dois sentimentos pelo pai. Ódio era o primeiro, e ira, o segundo. Suas emoções tinham origem na infância violenta. Toda a sua vida tinha sido à base de surras, humilhação e coisas piores nas mãos do pai. Ele, guerreiro do grupo Odrysai, a destratava porque ela — sua única filha — não era um homem. Durante os muitos anos de tristeza, a única maneira de escapar dos sentimentos ruins era rezar para Dionísio, o deus da intoxicação e do êxtase ritualístico. Só quando entrava em contato com ele, conseguia sentir um pouco de paz interior, um estado que ainda prevalecia. Até hoje, Ariadne acreditava que Dionísio a havia ajudado a sobreviver aos abusos intermináveis.

Não conseguia pensar em nenhuma maneira de escapar do pai que não fosse pelo casamento. Ela não tinha para onde ir. Então, em seu 13º aniversário, as coisas mudaram por completo. Em uma intervenção surpreendente, a mãe oprimida de Ariadne convencera o pai a permitir que a filha fosse ao templo de Dionísio em Kabyle para se candidatar a sacerdotisa. Ali, sua determinação impressionou os sacerdotes, que permitiram sua permanência. Mais de uma década depois, ela ainda estava ali, sem vontade de ir para casa. A menos, claro, que fosse para matar o pai, o que não faria sentido. Ainda que a posição de Ariadne a diferenciasse das mulheres comuns, um patricídio só a levaria a um caminho.

Não, sua melhor opção seria enfrentar a atenção dispensada por Kotys — “Dionísio, fazei com que alguma beldade chame a atenção dele em breve” — e estabelecer-se ali. Havia apenas seis meses ela chegara ao principal vilarejo dos medos. Não fazia muito tempo. Ariadne levantou o queixo. Havia outra opção, claro. Se Kotys fosse destituído, um homem melhor tomaria seu lugar. Ela já estava ali por tempo suficiente para perceber o descontentamento crescente com as ordens dele. Rhesus, o rei anterior, e Andriscus, seu filho, não tinham deixado saudade, mas Sitalkes, um nobre que poderia tê-los substituído, era uma figura popular. Eles tomavam cuidado para não falarem perto dos guarda-costas de Kotys, mas muitos guerreiros falavam com saudosismo sobre Sitalkes e seus dois filhos; um deles fora morto em batalha contra os romanos e outro havia partido para servir aos conquistadores como mercenário e nunca mais voltou.

“Se ao menos alguém tomasse a dianteira e aproveitasse a raiva latente que eles têm de Kotys”, pensou Ariadne. Uma luta curta e certeira e o idiota desapareceria para sempre. Ela se amaldiçoou por ter nascido mulher, e aquela não foi a primeira vez. “Ninguém me seguiria.” Ela observou a reação familiar no espelho de bronze à sua frente. Um rosto em formato de coração, com um nariz reto e maçãs do rosto altas, emoldurado por longas madeixas escuras. Um queixo determinado. Pele branca e leitosa, muito inadequada para o sol forte que banhava a Trácia todo verão. Um desenho de pontos tatuado nos dois braços. Ombros magros, mas musculosos. Seios pequenos. “O que Kotys vê em mim?”, perguntou-se ela. “Não sou bela. Interessante, talvez, mas não bela.” Como sempre, a mesma resposta ocorreu a Ariadne. “Ele vê meu espírito selvagem e, por ser um rei, quer tomá-lo para si.” Era a mesma determinação que já havia lhe causado problemas durante o treinamento, e que também a ajudara a se tornar uma sacerdotisa mais cedo do que o esperado. Ariadne valorizava muito sua natureza tempestuosa. Graças a ela, podia entrar em transes dos mênades facilmente e chegar à zona em que era possível encontrar Dionísio e saber seus desejos. “Meu espírito não pertence a nenhum homem”, pensava Ariadne com determinação. “Apenas ao deus.”

Levantando-se, ela caminhou até a cama simples, com um cobertor sobre uma camada grossa de palha em um canto da cabana. Todos no vilarejo usavam esse tipo de cobertor. Os trácios eram conhecidos por sua austeridade, e ela não era exceção. Ariadne vestiu a capa vermelho-escura de lã. Além de marcar sua posição na vida, servia como um disfarce à noite. Ela pegou o cesto que ficava aos pés da cama e o levou ao ouvido. Nenhum som. Ela não se surpreendeu. A serpente ali dentro não gostava do clima frio do outono, e tudo o que Ariadne podia fazer era tirá-la de seu torpor de vez em quando e enrolá-la em seu pescoço antes de realizar um rito no templo. Felizmente, essa tática simples era suficiente para surpreender os moradores do vilarejo. No entanto, para Ariadne, a serpente era apenas uma ferramenta para manter seu ar de mistério. Respeitava a criatura, e até a temia um pouco, porém, havia sido exaustivamente treinada para lidar com ela e com outras de sua espécie em Kabyle.

Com o cesto embaixo do braço, ela saiu. Como a maioria dos outros no vilarejo, sua cabana de um cômodo tinha sido construída com uma série de galhos entrelaçados, sobre os quais havia uma camada grossa de barro. O forro era coberto por uma mistura de palha e lama, com uma abertura na ponta para que a fumaça da fogueira saísse. Nos fundos da cabana, ficava parte da muralha que cercava os aposentos de Kotys. Era uma proteção dentro do muro externo ao redor do vilarejo, reforçando a posição elevada do rei e servindo como defesa interna. Havia mais cabanas dos dois lados, cada uma cercada por uma paliçada que guardava os animais dos moradores. As moradias seguiam os caminhos amplos que dividiam o grande vilarejo. Como os montes de esterco e as pilhas de dejetos, elas tinham se transformado ao longo de séculos de habitação. Ariadne sentia-se grata por sua cabana estar a uma distância razoável de qualquer um desses amontoados necessários, porém fedidos.

Ela seguiu o caminho em direção ao centro do vilarejo, retribuindo os cumprimentos respeitosos daqueles que encontrava com um sorriso discreto ou um meneio de cabeça. Mulheres com bebês colados ao seio e idosos pediam sua bênção ou seu conselho, enquanto o restante, menos os guerreiros mais corajosos, costumavam evitar seu olhar. As crianças se dividiam em dois tipos: aquelas que sentiam medo dela e as que pediam para ver a serpente. As do primeiro tipo eram mais numerosas do que as do segundo. Pouca coisa atenuava a solidão na vida de Ariadne. Ela afastou a melancolia. O deus enviaria a ela um homem, se julgasse adequado. Se não fosse adequado, ela continuaria a servi-lo com lealdade, como prometera durante a iniciação.

A multidão diante dela se afastou, revelando um grupo de guerreiros muito bem-vestidos. Ariadne sentiu certo desânimo. Não era apenas a vanglória dos homens que mostrava quem eram. As túnicas de mangas compridas, vermelhas com listras brancas verticais, capacetes complexos em bronze e proteções de perna prateadas mostravam toda a imponência e a importância, assim como suas lanças bem-feitas, as espadas kopis e as adagas compridas e curvas. Ariadne blasfemou em voz baixa. Se havia tantos guarda-costas por perto, Kotys não devia estar longe. Ao olhar para a esquerda, cumprimentou uma senhora cujo marido enfermo ela havia tratado recentemente. Ariadne escutou vários elogios a Dionísio. Sorrindo, ela se aproximou da cabana da mulher, ficando de costas para o caminho. Com um pouco de sorte, os guerreiros não a teriam visto. Talvez nem estivessem à sua procura.

— Sacerdotisa!

Ariadne blasfemou. Continuou escutando o que a senhora dizia, mas quando a voz a chamou de novo, estava logo atrás dela.

— Sacerdotisa.

O viajante não se demorou na cena onde fora emboscado. Obviamente, os bandidos não tinham nada que valesse a pena levar. Ele só precisou limpar a sica, puxar a lança que havia atingido seu escudo e prendê-lo ao dorso do cavalo. Deixou os corpos onde tinham caído e partiu em direção ao vilarejo. A essa altura, teriam sorte se chegassem antes do anoitecer. Aquele contratempo não merecia ser analisado. As nuvens amarelas prometiam que a neve chegaria cedo. Ele estava com sorte, no entanto. Não sabia se era a adrenalina pulsando nas veias do animal ou uma intervenção do Grande Cavaleiro, o garanhão, porém, agora parecia mover a pata manca com mais facilidade. Eles progrediram bem, avistando o vilarejo quando os primeiros flocos começaram a cair.

Balidos altos cortavam o ar, e o viajante olhou para cima. Auxiliado por dois cães, um menino pequeno pastoreava um bando de carneiros e bodes pelo caminho à frente.

— Não somos os únicos à procura de abrigo — disse ele ao cavalo. Pararam, abrindo espaço para que o garoto guiasse os animais pelo caminho cheio de pedras. — O tempo está fechando. Você está certo em ir para casa agora — disse ele, em tom amistoso.

O menino não fez nenhum gesto que indicasse que desceria a ladeira.

— Quem é você? — perguntou ele, desconfiado.

— Meu nome é Peiros — mentiu o viajante. Mesmo tão perto de casa, ainda não sentia vontade de revelar sua verdadeira identidade.

— Nunca ouvi falar de você — foi a resposta desdenhosa.

— Você provavelmente ainda engatinhava sobre um tapete de pele de urso aos pés de sua mãe quando deixei o vilarejo.

Um pouco da prudência desapareceu dos olhos do garoto.

— Talvez.

Ele começou a levar os últimos carneiros e bodes pelo caminho com gritos agudos e movimentos dos braços. Os cães corriam de um lado a outro, cuidando para que não houvesse retardatários. O viajante observou, e quando o bando todo desceu em segurança, ele começou a caminhar ao lado do jovem pastor. “O que poderei descobrir?”

— Como está Rhesus? — perguntou.

— Rhesus? O antigo rei?

— Sim.

— Ele morreu há quatro anos. Uma praga tirou sua vida.

— O filho dele, Andriscus, deveria ser o rei, então.

O menino olhou para ele com escárnio.

— Você realmente esteve fora. Andriscus também morreu. — Ele olhou ao redor com atenção e sussurrou: — Foi assassinado, como Sitalkes. — O menino viu o brilho de susto nos olhos do viajante. — Eu sei, foi terrível. Meu pai diz que o Grande Cavaleiro vai castigar Kotys um dia, mas, por enquanto, precisamos viver com ele.

— Kotys matou Sitalkes?

— Sim — respondeu o menino, incisivo.

— E agora ele é o rei?

Ele assentiu com a cabeça.

— Entendo.

Fez-se um silêncio, que o garoto não ousou romper. Não admitiria, mas o viajante sisudo o assustava. Um momento depois, o homem parou.

— Você pode seguir. — Ele fez um gesto para o garanhão. — Não devo fazer com que ele ande por muito tempo com a pata ruim. Vejo você no vilarejo.

Assentindo aliviado, o menino voltou a levar o bando pelo caminho. O viajante esperou um pouco para fechar os olhos. A culpa pesava em sua consciência. “Se ao menos eu estivesse aqui, as coisas poderiam ter sido diferentes.” Ele não deixou a sensação durar muito. “Ou talvez não. Eu também estaria morto. A decisão do pai de me mandar embora foi boa.” De certo modo, ele sabia que Sitalkes não teria mudado o que aconteceu. No entanto, era impossível negar a tristeza que sentiu ao saber do assassinato do pai. Pensou em Sitalkes e em como o vira pela última vez: forte, de costas eretas, saudável. “Descanse em paz.” Ele só queria ir para casa. Para que sua interação com os inimigos mais detestados terminasse. Saber que o pai estava morto era bem ruim, e, se fosse verdade que ele fora assassinado, não haveria recepção calorosa. Não haveria descanso. Contudo, pensar em se afastar do vilarejo e voltar pelo mesmo caminho não era uma opção. Era preciso fazer vingança. A honra dele exigia. Além disso, para onde iria? Voltaria a atuar com as legiões? “Claro que não.” Estava na hora de voltar, independentemente da recepção que recebesse. “Não questiono sua vontade, Grande Cavaleiro. Porém, peço que me proteja, como sempre fez, e me ajude a punir o assassino de meu pai.” O fato de isso significar matar o rei não diminuía sua determinação.

— Vamos — disse ele ao garanhão. — Vamos procurar um abrigo e comida.

Ariadne virou-se devagar.

— Polles. Que surpresa.

Ela não tentou disfarçar a frieza na voz. Polles podia ser o campeão de Kotys, mas também era um valentão arrogante que abusava de sua posição de autoridade.

— O rei deseja falar com você.

Apesar da aparente cortesia, isso foi uma ordem. “Como ele ousa?” Ariadne forçou o rosto a permanecer calmo.

— Mas falamos ontem mesmo.

Os lábios finos de Polles se contraíram imitando um sorriso. Tudo nele, desde sua beleza aos longos cabelos pretos e músculos brilhosos, mostrava sua vaidade.

— Mesmo assim, ele deseja... ter o prazer de sua companhia mais uma vez.

Ariadne notou a leve, porém proposital, demora na resposta. A julgar pelas risadas dos outros guerreiros, eles também tinham percebido. “Desgraçados sujos”, ela pensou. “Iguais a seu mestre.”

— Quando?

— Agora — respondeu ele, com um tom surpreso.

— Onde está o rei?

Polles fez um gesto lânguido para trás.

— Na área central das reuniões.

“Onde as pessoas podem vê-lo.”

— Chegarei em um minuto.

— Kotys nos mandou acompanhá-la até ele. Imediatamente. — disse Polles, franzindo o cenho.

— Pode ser que ele tenha feito isso, mas estou ocupada. — Ariadne apontou para a senhora. — Não está vendo?

Polles ficou corado pela irritação.

— Eu...

— Os desejos do rei são mais importantes do que o trabalho do deus Dionísio? — perguntou Ariadne, erguendo a tampa do cesto.

— Não, claro que não — respondeu Polles, afastando-se.

— Ótimo. — Ariadne deu as costas para ele.

Ela ouviu sussurros irritados.

— Não sei o que devem dizer ao rei. Digam que não conseguimos encontrá-la. Digam que ela está em transe. Inventem qualquer coisa! — ordenou Polles.

Ariadne escutou pés se arrastando e sorriu discretamente. No entanto, em pouco tempo a conversa com a senhora acabou. O que não era surpreendente. Ter o protegido do rei a poucos passos, lançando olhares ferinos às duas, seria de intimidar qualquer um. Sussurrando uma bênção à mulher, Ariadne olhou para Polles.

— Estou pronta.

Impaciente, ele fez um gesto para que ela passasse entre os guerreiros. Eles se uniram com destreza e Polles caminhou à frente, gritando com todos os tolos que se colocavam no seu caminho. Não demorou muito para que chegassem à grande área que formava o centro do vilarejo. Era um espaço quase circular, cercado por dezenas de cabanas. Hordas de mulheres cochichavam enquanto levavam para casa as roupas lavadas no rio. Muitas crianças brincavam ou brigavam umas com as outras na terra, enquanto vira-latas magricelas saltitavam alegres ao redor delas, tomando o lugar com seus latidos estridentes. A fumaça escapava pelo telhado de uma forja num lado; o bater de um martelo em uma bigorna era ouvido dali de dentro. Diversos homens esperavam do lado de fora, com armas estragadas nas mãos. Havia tendas de madeira vendendo peças de metal, peles e alimentos básicos, como grãos, galinhas e sal, uma hospedaria pobre e três templos — a Dionísio, ao Deus Cavaleiro e à Deusa Mãe. Apenas isso.

Como os seus companheiros trácios, os medos não eram uma raça que dependia do comércio para viver. Seu território tinha poucos recursos naturais. A agricultura fornecia pouco mais do que o necessário para a subsistência; por isso, eles haviam se transformado em guerreiros cujo único propósito era fazer guerra, na terra ou fora dela. As pessoas testemunhavam isso: eles eram, em sua maioria, guerreiros muito fortes. A maioria tinha cabelos ruivos ou castanhos, pele morena. De idades diversas, de rapazotes a velhos, todos tinham a mesma atitude confiante. Vestidos com túnicas plissadas de manga curta, com cores que variavam do vermelho e verde ao marrom e creme, eles calçavam sandálias ou sapatos de couro com as pontas viradas para cima. Muitos usavam o tão comum alopekis, a touca de pele de raposa com as laterais compridas para cobrir as orelhas. Homens mais ricos ostentavam torques de bronze ou de ouro no pescoço. Uma espada ou adaga — às vezes ambas — podia ser vista no cinto de todos os homens. Eles se reuniam em grupos, gabando-se de suas façanhas e planejando futuras caçadas.

Polles e seus homens atraíam a atenção de todos na vizinhança. Ariadne sentiu o peso dos olhares dos que passavam conforme avançaram em direção ao templo de Dionísio, uma construção maior do que a maioria, com um pilar de pedra de cada lado da entrada. Ela também escutou o burburinho e detestou isso. Eles eram corajosos o bastante para entrarem numa batalha, mas não para se imporem ao rei de quem se ressentiam. Isso fazia com que ela se sentisse muito sozinha.

O rei a aguardava perto das portas do templo. Estava acompanhado de seus guarda-costas, e uma horda de guerreiros estava à sua frente. Era uma imagem forte. Apesar de ter quase cinquenta anos, Kotys parecia ser dez anos mais jovem. Os cabelos pretos e ondulados não tinham nem indícios de fios grisalhos, e havia poucas rugas em seu rosto, sagaz como o de uma raposa. Por cima da túnica roxa que descia até os joelhos, Kotys usava um corselete de ferro com aros de ouro e peitorais do mesmo metal precioso. Tecidos em camadas protegiam sua genitália, e armaduras de prata cobriam as partes inferiores das pernas. Ele levava uma espada machaira de cabo de ébano, que permanecia dentro de uma bainha com tachas no cinto dourado. Usava uma gálea na cabeça, para mostrar sua condição de rei.

Enquanto Polles e seus homens passavam pela multidão, Kotys observava Ariadne.

— Sacerdotisa! Finalmente nos dá a honra da sua presença — disse ele.

— Vim o mais rápido possível, majestade. — Ariadne não deu mais explicações.

— Excelente. — Kotys fez um gesto autoritário e seus acompanhantes se afastaram. Com relutância, ela deu um passo à frente, e depois mais alguns. Ariadne percebeu que Polles sorria. Ela virou a cabeça para olhá-lo. Kotys notou o gesto e acenou novamente. Com isso, os guarda-costas recuaram cerca de vinte passos para a forja.

— Perdoe a falta de modos de Polles — disse o rei. — Ele não sabe resolver pendências.

“Então, por que o enviou?”

— Compreendo — murmurou ela, forçando-se a esconder a raiva.

— Ótimo. — Uma palavra era o máximo da simpatia de Kotys. — Seria fácil fazer arranjos mais adequados — disse ele, bruscamente.

— E quais seriam? — Ariadne arqueou as sobrancelhas.

— Jante comigo em meus aposentos uma noite dessas. Não haveria a necessidade da presença de Polles, nem de acompanhantes.

— Receio que isso não seja possível — respondeu Ariadne, com frieza.

— Está se esquecendo de quem sou? — perguntou Kotys, franzindo o cenho.

— Claro que não, majestade. — Ariadne olhou para baixo fingindo modéstia. — Mas à noite é o melhor momento para entrar em comunhão com o deus — mentiu.

— Isso não pode acontecer todas as noites — resmungou ele.

— Não, os sonhos acontecem de vez em quando. Dionísio é misterioso, como deve imaginar.

Ele assentiu.

— O Deus Cavaleiro também é.

— Por sua natureza instável, devo sempre estar pronta para recebê-lo. Passar uma noite longe do templo está fora de cogitação. Agora, se me dá licença, devo orar ao deus. — Apesar de seu coração bater forte dentro do peito, Ariadne fez uma reverência e sorriu com doçura a Kotys, antes de passar por ele.

Para seu espanto, ele a segurou pelo braço. Ela soltou o cesto, mas infelizmente a tampa permaneceu nele.

— Está me machucando!

— Acha que isso dói? — Kotys riu e aproximou o rosto ao dela. — Saiba disso, vadia. Brinque comigo por sua conta e risco. Não tolerarei isso para sempre. Lembre-se de que também sou um sacerdote. Você irá para a minha cama de um jeito ou de outro. E logo. — De repente, ele a soltou, e Ariadne se afastou, abatida.

Ela daria qualquer coisa para que um raio caísse do céu e o acertasse, matando-o. Claro que nada disso aconteceu. Ela podia ser a representante de uma divindade, mas Kotys também o era. Em uma situação assim, ela era impotente. Kabyle, com seu poderoso conselho de sacerdotes, estava longe, muito longe. Não que eles chegassem a intervir. Como comandante dos medos e sacerdote do deus cavaleiro, Kotys era quem detinha todo o poder. Ela conseguiu fazer uma breve reverência. O rei apertou os lábios com sarcasmo, divertindo-se.

— Voltaremos a nos falar — disse ele, com voz rouca. — Em breve.

Com as mãos trêmulas, Ariadne levou o cesto às portas do templo, onde o colocou. Ergueu a barra pesada que mantinha o portal fechado, deixando a luz entrar no interior escuro. Assim que Kotys se foi, ela suspirou. Sentiu os joelhos fraquejarem e caminhou até um dos bancos que ficavam encostados nas paredes laterais. Com os olhos fechados, Ariadne inspirou profundamente e manteve o ar preso enquanto contava as batidas do coração. No quatro, soltou o ar aos poucos. “Dionísio, me ajude”, implorou ela. “Por favor.” Continuou a respirar de modo lento. Finalmente, uma leve sensação de calma tomou conta dela, e um pouco da tensão saiu de seus ombros. Contudo, o medo persistente permaneceu em seu estômago. Seria preciso muito mais do que orações para impedir Kotys de tomar as suas providências. Ela se sentia impotente.

Um pigarrear interrompeu seus pensamentos.

Ariadne virou a cabeça. A figura na porta era delineada pela luz do sol, e ela não conseguiu ver quem era. O pânico tomou seu corpo antes que ela retomasse o controle. Kotys ou Polles não seriam tão educados.

— Quem é você?

— Meu nome é Berisades — respondeu alguém, com voz respeitosa. — Sou um comerciante.

A postura profissional de Ariadne entrou em cena.

— Entre — orientou ela, caminhando em direção a ele.

Berisades era um homem baixo no fim da meia-idade com barba bem-aparada e olhos intensos e inteligentes.

— Você andou pela estrada — disse ela, olhando para a túnica verde e para a calça larga do homem, que estavam cobertas de poeira.

— Vim do leste. Foi uma longa viagem, mas conseguimos realizá-la sem muitas perdas. Queria agradecer ao deus imediatamente. — Berisades deu um tapa na bolsa pendurada em seu cinto, que fez barulho.

Ariadne levou o comerciante em direção ao altar de pedra. Atrás dele, sobre um plinto, havia uma estátua grande e pintada de Dionísio. Em uma das mãos, o deus barbado segurava uma vinha, e na outra, uma taça. As ondas se chocavam a seus pés, mostrando-o sobre a água. Havia um touro entalhado com o rosto de um homem em um dos lados e um grupo de sátiros no outro. A seus pés, havia buquês de folhas secas, vasos de argila em miniatura cheios de vinho e pequenas estátuas. A luz reluzia nas peças de âmbar e vidro. Havia conchas de mariscos afiladas, redondas e, as mais raras de todas, pintadas.

Ajoelhando-se, Berisades colocou sua bolsa entre as outras oferendas.

Ariadne se retirou, deixando-o com suas devoções. Ela se lembrou de Kotys de repente e ficou desanimada. Não conseguia imaginar uma maneira de escapar dele, e o desespero a dominou. Achando que a meditação ajudaria, ela fechou os olhos e tentou entrar em um estado calmo que costumava lhe ajudar a se conectar aos desejos do deus. Não conseguiu, pois à sua mente só vieram imagens de Kotys tocando-a em sua cama.

— Como eles a chamam, senhora? — A voz de Berisades estava próxima.

Com grande alívio, ela voltou ao presente.

— Ariadne.

— Você não estava aqui quando vim da última vez.

— Não, cheguei aqui há seis meses.

Ele assentiu.

— Eu lembro que, na época, o velho sacerdote não estava muito bem. Ainda assim, você é jovem e saudável. Sem dúvida ficará aqui por muitos anos, para alegrar os olhos de todo viajante agradecido que queira prestar respeito.

— Você é muito gentil — murmurou Ariadne, retraindo-se por dentro. “Se soubesse a verdade.”

— Não demorará muito até que o próximo peregrino chegue.

— Não? — Ariadne mal estava ouvindo. Estava de novo preocupada com Kotys.

— Ontem encontrei um guerreiro que estava voltando para cá. Ele poderia ter vindo conosco, mas seu cavalo está manco. Parece que passou anos com os romanos. Ele quer agradecer aos deuses por seu retorno em segurança. Um homem calado, mas que se expressou bem.

— É mesmo? — perguntou Ariadne, de modo vago. Tinha pouco interesse no retorno de outro homem do grupo que atuara como mercenário para os romanos.

Berisades percebeu que a mente dela estava em outro lugar.

— Meus agradecimentos, senhora — murmurou ele, retirando-se.

Ariadne abriu um sorriso para ele. No entanto, por dentro, ela gritava.

Ao subir o monte para o assentamento cercado, lembranças antigas retornaram. Dias quentes de verões passados nadando com outros garotos no rio caudaloso que corria por um lado do vilarejo. Selar os cavalos fortes que serviam de montaria para os guerreiros mais abastados. A caça de veados, porcos selvagens e lobos na juventude, entre os picos que se assomam adiante. Ser consagrado guerreiro depois de matar o primeiro homem aos 16 anos. Ajoelhar-se no arvoredo sagrado no topo de uma montanha próxima, pedindo orientação ao Deus Cavaleiro. As horas de sua vida que ele havia despendido desejando que a mãe não tivesse morrido no parto de sua irmã, um bebê que permaneceu por menos de um mês neste mundo. O dia em que recebeu a notícia de que Roma tinha invadido a Trácia. Ter ido para a guerra contra suas legiões com o pai, Sitalkes, o irmão Maron e o resto do grupo. A primeira vitória gloriosa, e as amargas derrotas que vieram depois. A morte agonizante de Maron, uma semana depois de ser atingido na barriga por uma espada romana, um gládio. As vãs tentativas de superar o maquinário de guerra romano. Emboscadas nos montes. Ataques noturnos. Envenenamento dos rios. União com outros grupos por traição ou por ganância, ou ambas.

— Nós, trácios, não mudamos nunca, não é? — perguntou ele ao garanhão. — Não importa o que pode ser melhor para a Trácia. Nós lutamos contra todos, até contra os nossos. Principalmente contra os nossos. Unir-se para lutar contra um inimigo comum, como Roma? De jeito nenhum! — Sua risada rouca foi curta e irritada. A primeira parte da tarefa para a qual seu pai o designara (servir com as legiões de romanos) tinha sido completada. Ele havia previsto um período de vida relativamente normal antes de tentar a segunda parte, aquela de tentar unificar os grupos. Não era para ser. A nuvem negra da guerra com sua base sangrenta ainda não o havia alcançado. Porém, ele não tentava ignorar a adrenalina. Na verdade, gostava dela. “Kotys matou meu pai. Desgraçado traidor. Vai morrer, e logo.”

Acostumado tanto a momentos de silêncio quanto de falatório, o cavalo seguia atrás dele.

Dois sentinelas armados com escudos e lanças estavam ao lado dos enormes portões do assentamento. Eles olharam para o homem semicerrando os olhos, cochichando um com o outro conforme ele se aproximava. Poucos viajantes chegavam tão tarde, com um clima tão ruim. Menos ainda tinham armadura ou capacete de metal. Apesar de o garanhão do recém-chegado estar manco, era bem forte. E também era branco — a cor valorizada pelos reis.

— Pare!

Ele parou, erguendo a mão esquerda em um gesto de paz. “Deixe-me entrar sem muitas perguntas.”

— A noite está difícil — disse ele. — Depois de demonstrar respeito pelo Deus Cavaleiro, é uma noite para se passar diante da fogueira com uma taça de vinho.

— Você fala a nossa língua? — perguntou o guarda mais velho, surpreso.

— Claro. — Ele riu. — Sou medo, como você.

— É mesmo? Não saberia diferenciar você de um monte de bosta de cachorro — resmungou o segundo sentinela.

— Nem eu — acrescentou o companheiro em um tom um pouco mais civilizado.

— Talvez não, mas eu nasci e fui criado neste vilarejo. — Ele franziu o cenho diante dos olhares irritados. — Esta é a melhor recepção que posso esperar depois de quase uma década longe? — Ele estava prestes a dizer que seu nome era Peiros, mas o primeiro guarda falou antes.

— Quem é você? — Ele olhou para os braços do recém-chegado, percebendo, pela primeira vez, as gotículas de sangue, e voltou a se concentrar no rosto. — Espere um pouco. Conheço você. Spartacus?

“Droga!”

— Isso mesmo — respondeu ele brevemente, passando a mão pela lâmina da espada.

Um sorriso incrédulo tomou o rosto do homem mais velho.

— Por todos os deuses, por que não disse? Sou Lycurgus. Sitalkes e eu cavalgávamos juntos. — Ele lançou um olhar de advertência para o outro guarda.

— Eu me lembro de você — disse Spartacus, com um meneio de cabeça amável. O olhar que lançou ao segundo sentinela foi bem menos simpático. Assustado, o guerreiro teve um interesse repentino pela terra entre seus pés.

— As coisas mudaram desde que você saiu de casa — disse Lycurgus, desanimado. — Seu pai...

— Eu sei — interrompeu Spartacus, de modo ríspido. — Morreu.

— Sim.

Ele não se conteve.

— Pelo que sei, morreu em circunstâncias suspeitas.

Lycurgus olhou para seu companheiro.

— Nós dois não tivemos nada a ver com isso. Você deve conversar com Polles.

— Polles?

— O guarda-costas principal do rei. — O desgosto na voz de Lycurgus era evidente.

— Mas e Getas, Seuthes e Medokos? Eles ainda estão vivos? — perguntou Spartacus, casualmente.

— Ah, estão. Perderam o prestígio, mas mantêm as coisas no lugar para que Kotys os deixem em paz. — Consciente do rumo perigoso da conversa, Lycurgus lambeu os lábios. — Você está...

Spartacus agiu como se não tivesse escutado.

— Estou cansado. Passei semanas na estrada. Tudo o que quero é comida quente na barriga e beber com meus velhos amigos. O rei pode esperar até amanhã. Ainda não precisa saber que voltei. — “E quando souber, se os deuses permitirem, será tarde demais. Agora que esses dois sabem quem sou, preciso agir

de uma vez. Getas e os outros ajudarão.” — Não é pedir muito, é?

— É-é claro que não — gaguejou Lycurgus. Olhou para seu companheiro. — Ele não dirá nada a ninguém.

— Ninguém — alertou Spartacus. Ao perceber o súbito tom frio na voz dele, os dois guardas assentiram amedrontados.

— Ótimo. — Puxando parte da capa sobre o lado inferior do rosto, o recém-chegado partiu sem dizer mais nada.

— Seu maldito idiota — disse Lycurgus assim que ele se distanciou. — Spartacus é um dos guerreiros mais mortais que nosso povo já viu! Agradeça por ele estar de bom humor. Não queira vê-lo irritado.

— O que ele está planejando?

— Não sei — respondeu Lycurgus. — Não quero saber. Se alguém perguntar, nós não o reconhecemos. Entendido?

Você terminou Spartacus: A Rebelião

Ben Kane

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