Spartacus: A Rebelião

Ben Kane · Capítulo 12 de 24

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Spartacus: A Rebelião

Capítulo XI

 

 

Naquele dia, quando chegou a hora de procurar um lugar adequado para pernoitar, Carbo e Spartacus estavam longe de qualquer vilarejo ou estalagem. Mas Carbo estava contente. Já fazia uma semana desde que eles haviam deixado Roma. O tempo bem quente significava que mesmo depois de se afastarem da planície fértil de Campânia, com sua vegetação densa e suas propriedades, e chegarem à região mais montanhosa de Lucânia, era agradável dormir ao ar livre. Por estarem sozinhos, podiam conversar sem medo de serem ouvidos. Tinham provisões, vinho e cobertores, e, com os cavalos que haviam comprado quatro dias antes, podiam cavalgar à procura de lugares mais escondidos com facilidade.

Para tristeza de Carbo, ele tivera que continuar vestindo a toga de Varus todos os dias. Como dissera Spartacus, isso lhe dava um ar de homem rico, o que explicaria, se fosse questionado, por que seu “escravo” viajava montado em um cavalo em vez de seguir a pé. Ter de suportar o calor diário dentro da peça grossa era outro motivo para Carbo preferir pernoitar. Todas as noites, para diversão de Spartacus, ele tirava a toga e pulava no riacho mais próximo a fim de se lavar e tirar o suor do corpo. Ele ansiava por isso sempre que havia uma parada. Depois de se refrescar, eles podiam relaxar perto do fogo, saboreando pão, queijo e uma jarra de vinho.

Carbo se esforçava para, pelo menos por um tempo, esquecer o pesar pelos pais. Apesar de ter feito o que considerou ser o melhor na época — entrar no ludo para ganhar dinheiro —, ele ainda era tomado pela culpa por não ter permanecido com os pais, por não ter ido a Roma com eles. Sentia-se culpado por não lhes ter enviado dinheiro nos meses seguintes nem tentado com mais afinco estabelecer contato. No fundo, ele sabia que tais pensamentos eram delírios, porém isso não diminuía sua dor. Para suportá-la, alimentou um ódio profundo por Crassus. Se não tivesse sido por ele, seus pais ainda estariam vivos. “Dê-me mais uma chance de matar Crassus antes de eu morrer”, clamava repetidas vezes.

Carbo esperava que Spartacus contasse mais histórias de sua juventude na Trácia. Surpreendera-se nas últimas noites, quando seu líder havia se aberto mais do que nunca. Agora, Carbo sabia os nomes dos pais e do irmão de Spartacus, além dos de seus amigos de infância. Ouvira com muita atenção as histórias sobre caçadas a porcos selvagens e lobos, de roubos de cavalos e carneiros de tribos vizinhas, e de lendas dramáticas sobre o Grande Cavaleiro, a divindade adorada pela maioria dos guerreiros trácios. Carbo não percebeu, mas essas histórias, em parte, tinham o objetivo de desviar sua atenção dos pais. O trácio percebera seu pesar enquanto viajavam.

Spartacus contou pouco ou quase nada sobre a guerra iniciada por sua tribo contra Roma e sobre o tempo que ele passou nas legiões. Carbo não achou ruim; não queria lembrar a realidade da situação deles. Os dois estavam aproveitando a relativa falta de preocupação que a viagem lhes proporcionara.

Apesar disso, Spartacus pensava em Ariadne, se ela já tinha dado à luz. Fez um pedido silencioso aos deuses para que ela tivesse um parto tranquilo. Em geral, as mulheres com partos complicados morriam, assim como os bebês. Pensar nisso fez com que ele se arrependesse por ter discutido com ela antes da partida. Decidiu que faria as pazes assim que chegasse ao acampamento. Era inútil permitir que discussões durassem tanto tempo, sobretudo quando o perigo — ou a morte — se aproximava.

Porém, naquele momento, eles ainda estavam em trânsito. Spartacus ouviria com prazer o chiar das cigarras dos carvalhos e das castanheiras dos dois lados da estrada. Relaxaria com as batidas dos cascos dos cavalos no chão de basalto. Aproveitaria o calor do sol, que descia devagar em direção às montanhas de topos irregulares a oeste. Se abstraísse o fato de a estrada ser pavimentada, quase podia se sentir na Trácia de sua época, no breve momento em que ele fora livre.

Mais à frente na estrada, ele percebeu alguém pequeno se aproximando depressa. Os pelos de sua nuca se arrepiaram, e ele virou a cabeça. Atrás do estranho, surgiram mais três cavaleiros.

— Companhia — alertou em voz baixa. — Quatro cavaleiros.

Assustado, Carbo voltou ao presente e virou-se para ver.

— São mensageiros?

— Provavelmente, um mensageiro com escolta — respondeu Spartacus.

— A mensagem dele deve ser importante. Eles costumam viajar sozinhos. Para onde será que estão indo? Pompeia e Pesto estão na direção em que avançam.

— Talvez Crassus esteja mandando notícias a Thurii, esperando que a recebam antes de nosso exército chegar.

Carbo fez uma conta maluca.

— Dois para um não é tão ruim, hein?

— Nem invente. Eles estarão armados com espadas. Independentemente de qual seja a mensagem, não vale a pena arriscarmos.

Carbo se endireitou no cavalo. Spartacus estava certo.

Os dois seguiram cavalgando, olhando para trás de vez em quando. Quando os estranhos se aproximaram, os dois apearam à sombra das árvores em um lado da estrada. Observaram quando o cavaleiro da frente seguiu pela estrada a galope e os outros três o acompanharam a curta distância.

Qualquer dúvida sobre o desígnio do homem desapareceu quando este chegou bem perto. Vestia uma roupa militar típica: uma cota de malha por cima de uma túnica e um elmo de crina bronze. Ele levava um saco de couro, que balançava na altura do quadril do lado direito, e uma espada comprida embainhada no ombro esquerdo. Seu cavalo era de raça e tinha as letras “SPQR”, de Senatus Populusque Romanus, marcadas no pescoço.

“Talvez valesse a pena descobrir a mensagem levada por ele”, pensou Spartacus com um ar maldoso. “Não. Já corri perigo suficiente nos últimos tempos.”

O cavaleiro os observou ao se aproximar, mas não fez nada.

— Boa viagem, amigo — cumprimentou Carbo.

Em resposta, o mensageiro apenas soltou um resmungo e, então, se foi.

Os batimentos cardíacos de Carbo se aceleraram quando ele olhou para os três cavaleiros. Se houvesse perigo naquela situação, viria dos três, cujo trabalho era um pouco menos urgente do que o do mensageiro. Os dois primeiros passaram galopando sem olhar para eles, e Carbo relaxou. Este quase não viu a pedrinha que veio voando das patas traseiras do cavalo da frente. Ela atingiu o último cavaleiro no rosto, como um tiro de estilingue. Ele gritou de dor e fez o que pôde para não cair. Puxando as rédeas com força, parou o cavalo diante de Spartacus e de Carbo. Praguejando, levou os dedos ao corte profundo na bochecha direita, que já sangrava muito.

— Você está bem? — quis saber Carbo.

— Quê? — Ele só pareceu notar os dois naquele momento. — Sim, sim. Foi só um ferimento.

Pegou uma faixa de pano que levava a tiracolo e a pressionou contra o rosto.

— Homens como você estão acostumados a coisas muito piores — observou Carbo, com um tom de admiração.

— Verdade. Com certeza uma coisinha dessas não me impedirá de chegar a Messina.

Spartacus prestou atenção à última palavra. “Messina fica na Sicília.”

O cavaleiro os observou.

— Você se arrisca, jovem senhor, ao viajar na estrada com ninguém além de um escravo. Não ouviu sobre Spartacus e seu grupo? Eles controlam boa parte do sul da Itália agora. Se vocês os encontrarem pelo caminho, será a última coisa que verão.

— Sei disso muito bem, mas minha família tem poucos escravos agora — disse Carbo, suspirando. — Saquearam nossa fazenda há um mês; a maioria fugiu para se unir a Spartacus. A milícia local não fez nada, claro; estão com muito medo. Meu pai me mandou para Roma a fim de pedir ajuda no Senado. Eu estava lá semana passada para ouvir Crassus falar... Foi maravilhoso! Nosso sofrimento não durará para sempre, graças aos deuses. Ele está criando dez legiões!

— Isso mesmo — concordou o cavaleiro com um sorriso confiante. — Quando eles marcharem para o sul, o chão vai tremer. Os escravos de Spartacus sujarão as calças quando os virem.

Um grito ecoou na estrada, e o cavaleiro piscou amigavelmente para Carbo.

— É melhor eu ir. Que você chegue à sua casa em segurança. Diga a seu pai para se manter firme e rezar a Júpiter.

Um músculo do rosto de Spartacus se contraiu, mas o cavaleiro não notou.

— Quando Crassus marchará? — perguntou Carbo.

— Isso é algo que só ele sabe. Mas será antes do que pensamos! Os malditos escravos se assustarão quando as legiões atravessarem esta estrada! Adeus. — Com um sorriso, ele se afastou.

— Maldita Fortuna pela cadela que é! — xingou Carbo, em voz baixa. Encarou Spartacus, que estava sério. — Quando acha que isso vai acontecer?

— Quem sabe? Acho que só pode ser depois de três meses. As legiões estão sendo formadas agora. Os soldados têm que ser treinados antes que Crassus possa pensar em lutar contra nós. Pelo menos, soubemos com antecedência. Assim, temos tempo para planejar. Imagine se a primeira coisa que ouvíssemos fosse que o exército de Crassus está a vinte ou quarenta quilômetros de Thurii?

Carbo não queria nem imaginar isso.

— O que faremos?

— Esperaremos um pouco e iremos para o nosso acampamento, seja lá onde esteja.

— Eu me refiro a quando Crassus chegar aqui. — Carbo havia evitado questionar seu líder sobre isso até aquele momento.

Spartacus sorriu, mostrando os dentes.

— Bem, vamos lutar. — “Até o fim, seja o que for. Vitória... ou morte!” — Não pense que estou intimidado, pois não estou, de jeito nenhum.

Carbo assentiu. Admirando a coragem do trácio, ele prometeu a si mesmo que, se e quando essa luta acontecesse, ele ficaria na linha com todo mundo. Com Spartacus. Até o fim. Ainda que isso significasse morrer. Ficar lado a lado com aqueles a quem amava era só o que importava. Isso, e matar Crassus. Olhou para Spartacus, que assoviava uma canção qualquer de modo contido. “Deuses, será que nada o assusta?” Carbo se sentiu mais orgulhoso do que nunca por seguir o trácio.

Quando o sol se pôs, eles estavam sentados perto de uma pequena lareira, envoltos por cobertores e com copos de vinho na mão. Os cavalos magros os observavam, felizes por terem bebido água e comido. Como sempre, haviam montado acampamento próximo a um riacho e fora da vista da Via Annia. Eles tinham subido o morro por cerca de meio quilômetro pela mata e encontraram um vale pequeno dominado por faias enormes caídas. Apesar de não terem qualquer indício de que alguém seguia em seu encalço desde Roma, era bom ter cautela.

— Aquele mensageiro mencionou Messina — disse Spartacus.

— Sim. Na Sicília. O que isso tem a ver conosco?

— Duas rebeliões de escravos aconteceram lá nos últimos cem anos, não? O que você sabe sobre elas?

— Só o que meu pai me contava quando eu era mais jovem.

— Tente se lembrar de tudo o que puder.

A curiosidade de Carbo aumentou.

— A primeira ocorreu há cerca de sessenta anos, perto da cidade de Enna. Foi liderada por um escravo sírio chamado Eunus, que tinha a fama de prever o futuro graças a mensagens enviadas pelos deuses.

Spartacus pensou em Ariadne e esboçou um leve sorriso.

— Eunus foi abordado por alguns escravos que eram maltratados por seus senhores. Incentivados por suas profecias, centenas de homens atacaram moradores de Enna. Mataram todo mundo, até mesmo bebês e animais domésticos. — Carbo recordou com repugnância a carnificina que presenciara em Forum Annii, quando eles atacaram a cidade. Pensou no fim violento de Chloris. Mas, graças a Spartacus, a violência não tinha sido tão grande quanto em Enna. “É algo pelo qual se deve agradecer”, constatou ele, com amargura.

— Continue.

— Ao saberem da notícia, outros escravos fugiram para se unir a Eunus. Em pouco tempo, ele tinha mais de dez mil homens sob seu comando e se autoproclamou rei. Nas semanas seguintes, ele e suas tropas lutaram várias vezes contra as forças romanas locais e as venceram graças ao número maior de homens. Em pouco tempo, mais uma revolta teve início em outro ponto na ilha. Foi liderada por um cilício chamado Kleon. Mas, em vez de lutarem um contra o outro, como os romanos esperavam, os dois líderes rebeldes se uniram. Os escravos derrotaram os romanos muitas outras vezes nos três anos seguintes. Finalmente, o Senado enviou Publius Rupilius, um dos cônsules, para enfrentar a revolta.

— Será que eles demoraram tanto para reagir por a Sicília ser distante de Roma? — perguntou Spartacus.

— É o que dizem.

— E a segunda rebelião?

— Foi praticamente a mesma coisa. Maus-tratos dispensados aos escravos. Um líder carismático, que supostamente falava com os deuses. Massacres em ampla escala da população local.

— Durou quanto tempo?

— Quatro anos, até o Senado enviar um general para resolver a situação.

— Os líderes dessas duas revoltas eram soldados treinados?

— Até onde sei, não.

O coração de Spartacus se acelerou. “O que eu poderia ter feito no lugar deles!”

— Mas por que a Sicília?

— Meu pai sempre disse que era por causa do grande número de fazendas e de escravos do campo.

— Eles poderiam nos ser úteis como milhares de novos recrutas, não?

— Há duas legiões lá.

— Duas legiões nunca foram problema para nós, certo?

— Acho que não. Mas como levaríamos nossos soldados pelos estreitos?

— Simples. A Sicília cultiva a maior parte dos grãos que alimentam a Itália, certo? Os navios que carregam os grãos são imensos. Já os vi. Precisaríamos de cerca de mil homens no porto do mercado central. Nossa principal preocupação seria o exército romano.

— Duvido que eles representem um grande perigo. Desde a última guerra contra Cartagena, o exército tem estado em declínio. Os piratas da Cilícia e de Creta controlam o Mediterrâneo, levam os navios para fora da costa sul da Itália.

— É mesmo? — perguntou Spartacus, batendo uma mão na outra, animado.

— Foi o que soube. Os desgraçados até sobem a costa até Ostia. O Senado vocifera contra eles, mas nada de importante tem sido feito desde que a campanha de Publius Servilius Vatia terminou há três anos. Os navios da República andam ocupados na guerra contra Mitrídates do Ponto.

— Excelente, Carbo. Talvez os piratas possam nos levar para atacar os navios de grãos. O que acha?

Carbo sorriu. O plano de Spartacus parecia maluco, mas eles já tinham vencido muitas vezes, mesmo contra todas as possibilidades. Por que não conseguiriam de novo?

— Boa ideia.

— Está na hora de descansarmos — disse Spartacus, bocejando. — Sua vez de fazer a primeira vigília. Acorde-me daqui a algumas horas. — Ajeitando o cobertor, ele se deitou perto da fogueira e adormeceu logo depois.

Carbo jogou outro pedaço de madeira nas chamas. Então, sentou-se, prestou atenção aos sons e observou o fogo que crepitava e lançava faíscas no ar. Um pouco distantes, os cavalos eram duas sombras escuras contra a luz. Uma brisa suave vinha do vale abaixo, fazendo os galhos das árvores estalarem. Folhas caídas farfalhavam perto dali enquanto um animal pequeno passava. Uma coruja piou. Do riacho, veio o murmúrio calmo da água corrente. Carbo relaxou. Antes de se mudar para Cápua, vivera anos na fazenda da família, perto da cidade. Os sons da natureza lhe eram familiares e reconfortantes.

Ele logo sentiu sono. Lutou contra o cansaço por um tempo, porém, sempre que tentava se concentrar, não ouvia nem via nada de preocupante. “Tem sido assim desde que partimos de Roma”, pensou ele, sonolento. Que mal faria se ele descansasse um pouco?

Minutos depois, acordou assustado. Olhou ao redor com o coração acelerado. A alguns passos, Spartacus dormia profundamente. A clareira estava vazia. O riacho corria como sempre. Longe dali, um lobo uivava sua solidão para a lua fina visível apenas entre as folhas das árvores. Tudo permanecia como antes, menos o fogo, que já estava quase extinto. O cobertor de Carbo havia escorregado de seus ombros, e ele sentiu frio. “Pelos deuses, devo ter dormido por horas.” Sentindo-se culpado, ele remexeu as cinzas com um graveto para ver se havia alguma chance de reacender a fogueira. Ficou contente ao ver que ainda restavam algumas brasas.

Um dos cavalos relinchou baixo e bateu os cascos no chão.

Carbo parou o que fazia. Feliz por conseguir enxergar além da iluminação do que restara da fogueira, olhou na direção dos cavalos. Como antes, só distinguiu o contorno deles contra as sombras mais escuras das árvores.

Não houve nada de diferente por alguns minutos, e ele ficou menos tenso.

O cavalo relinchou de novo.

Carbo voltou a ficar receoso. Apurando os ouvidos, ele olhou para os animais.

Nada.

Fez-se silêncio por um breve momento.

Então, o cavalo bateu o casco no chão.

Agora, Carbo sentiu o estômago embrulhar. Deixou o cobertor escorregar pelos ombros e se aproximou de Spartacus. Pousou a mão no ombro do trácio, torcendo para que este não fizesse barulho.

Para seu alívio, o outro acordou na mesma hora e em silêncio, depois sentou-se.

Carbo se abaixou para falar no ouvido dele.

— Um dos cavalos está irrequieto.

— Mais alguma coisa?

— Ouvi um lobo. Longe. Só isso.

Spartacus assentiu e apontou para o vale.

Os dois permaneceram lado a lado, esperando. Ouvindo com toda a atenção.

Uma coruja piou à sua direita. O barulho não preocupou Carbo, mas ele sentiu Spartacus ficar tenso.

Quando o piado foi respondido nas árvores à esquerda, Carbo ficou enjoado. O cavalo nervoso e as duas corujas tão próximas não podiam ser coincidência. Quando um terceiro piado foi ouvido, qualquer dúvida desapareceu. “Merda.”

Spartacus aproximou o rosto do de Carbo. Mexendo os lábios sem emitir qualquer som, disse:

— Vamos.

— E os cavalos?

— Vamos deixá-los.

Carbo viu Spartacus empunhar a adaga e fez o mesmo. Abaixados e fazendo o mínimo de barulho possível, eles subiram o monte para longe da fogueira. Vinte passos à frente, Carbo ouviu mais corujas atrás dele. Sua pele se arrepiou. Elas estavam mais próximas dessa vez. Esperando sentir uma lâmina perfurar sua espinha a cada passo que dava, ele seguiu o trácio.

Spartacus não olhou para trás. Aumentou a velocidade, ciente de que eles tinham que sair da clareira depressa. Seus instintos indicavam que havia homens ali prontos para matá-lo. Havia pelo menos três, porém tinha certeza que outros estariam escondidos. Quem quisesse matá-lo não mandaria menos de seis ou oito homens, talvez até mais. Ele bateu o joelho numa raiz alta e precisou se controlar para não gritar de dor. Continuou agachado, amaldiçoando o fato de quase não haver vegetação rasteira. Ainda que não houvesse muitos obstáculos impedindo seu progresso, havia pouquíssimos lugares onde eles poderiam se esconder.

Mais piados de coruja. Spartacus os contou. Um. Dois. Três. Quatro. Agradeceu ao Grande Cavaleiro por nenhum deles vir da frente deles. Não tinham sido cercados... ainda.

Ele enfim chegou à beira do vale, e a um carvalho grande com tronco partido. Ficou de pé. Carbo se colocou ao lado dele e, em silêncio, os dois olharam em direção ao fogo, suas últimas brasas cor de laranja.

“Mostrem-se, seus malditos”, pensou Spartacus.

Carbo teve a sensação de estar em um pesadelo. Fora sua culpa, ele não devia ter adormecido. Quem, em nome de Hades, estava atrás deles?

Nada aconteceu no período de trinta batidas do coração.

— Eles querem ter certeza de que estamos dormindo antes de atacarem — sussurrou Spartacus.

Um dos cavalos relinchou. Em seguida, o outro.

Quatro sombras surgiram de uma vez — três atrás das árvores caídas e uma correndo pela ponta. Spartacus e Carbo distinguiram as lanças empunhadas por seus inimigos. Os homens correram em direção aos cobertores abandonados. Vários golpes foram dados, porém os assassinos logo perceberam que o alvo deles tinha desaparecido. Xingamentos foram ouvidos, e um dos homens vociferou:

— Os malditos se foram!

Um golpe certeiro na cabeça dele, aplicado por um dos companheiros, o silenciou. Outro piado de coruja foi ouvido, dessa vez mais urgente. Os homens se espalharam, caminhando na ponta dos pés pela clareira. Em direção a Spartacus e a Carbo.

— Hora de irmos — sussurrou Spartacus.

— Para que lado? — perguntou Carbo, com desespero na voz.

— Para cima. Vamos devagar primeiro, mas, quando eu mandar, correremos como o vento. Isto é, se você quiser viver! — Os dentes do trácio brilhavam à luz da lua, e Carbo desejou ter a coragem de seu líder. Embainhando a adaga, pois não queria perdê-la, ele assentiu.

— Estou pronto.

— Bom rapaz. — Spartacus se virou e passou a caminhar devagar como um lobo.

As lembranças de Carbo daquela noite o acompanhariam para sempre. Nunca tivera de viajar antes entre as montanhas à noite e esperava não ter que repetir a experiência. Pelo menos não enquanto fosse perseguido por um número desconhecido de homens armados, portando uma simples adaga. No começo, subir foi fácil, mas logo Spartacus começou a dar passadas compridas.

“Como ele sabe para onde ir?”, perguntou-se Carbo, seguindo-o o mais rápido que conseguia. O coração batia forte no peito, não pelo esforço da corrida, mas de medo. Ele tinha a sensação de ser um animal perseguido por um grupo de caçadores. Atrás de cada árvore e de cada moita havia um inimigo em potencial e, a cada passo, Carbo corria o risco de quebrar o tornozelo por causa de uma raiz protuberante ou um pedaço de madeira seca. Antes, achava que tinha bom senso de direção, mas a viagem fez com que ele mudasse de opinião. A liteira densa só permitia que eles vissem o céu da noite de vez em quando, o que o confundia ainda mais. Spartacus, por outro lado, corria sem parar e subia cada vez mais, como se Hermes, o mensageiro dos deuses, guiasse seus passos.

Eles paravam com frequência para ouvir os sons da perseguição. Na primeira vez, discerniram o barulho baixo de homens em movimento, mas estes retrocederam quando os dois pararam pela segunda vez. Depois disso, para a satisfação de Spartacus e enorme alívio de Carbo, não ouviram mais nada. Carbo esperava que o trácio andasse mais devagar depois daquilo, porém se decepcionou. O trácio passou a avançar ainda mais depressa, com os pés ágeis, como se tivessem asas. Foi difícil acompanhá-lo e proteger os olhos dos galhos empurrados por Spartacus.

Quase uma hora se passara quando eles chegaram ao topo da montanha. Depois de percorrerem uma distância curta, chegaram a uma clareira. Pela primeira vez, tiveram uma boa visão do céu, iluminado por muitas estrelas. A posição da lua acima indicava que demoraria a amanhecer. O trácio deu uma rápida espiada no espaço aberto antes de entrar, andando devagar como um gato. Carbo o seguiu, olhando de vez em quando para trás com impaciência. Ele não ouvia nada. Pela primeira vez, sentiu-se um pouco mais calmo.

— Se fosse um pouco mais iluminado, teríamos uma boa visão daqui. — Spartacus apontou a escuridão. — Onde estamos?

— Não faço ideia — respondeu Spartacus com um sorriso. — Mas acho que este topo é o mesmo que flanqueia a Via Appia, o que significa que ele se estende na direção norte-sul. Vamos acompanhá-lo.

— Podemos nos desviar do caminho por quilômetros. — Carbo se sentiu um tolo assim que terminou a frase. — Mas não temos alternativa, certo?

— Não — respondeu Spartacus, sério. — Aqueles filhos da puta ficarão na nossa cola assim que clarear, por isso temos que manter a máxima distância que conseguirmos deles. Mas eu adoraria parar. Montar uma armadilha, talvez fazer um prisioneiro.

— Para descobrir quem eles são?

— Sim!

— Acho que não são romanos.

— Nem eu. Se estivéssemos sendo seguidos por Roma, eles já teriam nos atacado. Não parece ser o cavaleiro com quem falamos. Ele não estava interessado em nós.

— Não é só isso. O homem que falou tinha um sotaque forte. Não tem como ele ser um falante nativo de latim.

— Também reparei nisso. Só podem ter sido enviados por alguém que sabia que fomos a Roma.

Carbo se assustou.

— Está se referindo a Castus ou a Gannicus?

— Sim, ou outra pessoa que tenha algo contra mim.

“Malditos. Como ousam, depois de tudo o que fiz por eles?” Se visse os dois naquele momento, Spartacus arrancaria seus membros.

— Malditos traidores!

— É de se esperar. Muitos homens não gostam de seguir um líder. Se estivéssemos na Trácia, esse tipo de armação poderia ter acontecido antes — retrucou Spartacus.

— Talvez pudéssemos pegar um deles — começou Carbo.

— Não! Vimos quatro deles, e aposto que era só a metade.

— Então, não teremos como descobrir quem mandou os desgraçados — protestou Carbo.

— Às vezes é preciso encarar a incerteza — ponderou Spartacus. — Ela faz um homem ficar atento! — Carbo sorriu, porém o gesto pareceu mais uma careta. — Descobriremos mais quando voltarmos — declarou Spartacus. — Você fez bem em me acordar. Não acho que é demais dizer que devo minha vida a você. Obrigado.

Carbo se sentiu orgulhoso. Contudo, ao lembrar-se de que havia acordado do cochilo por acaso, sentiu a garganta secar de culpa. Não poderia admitir isso.

— De-de nada — conseguiu murmurar. — Não é nada mais do que você já fez por mim.

Spartacus lhe lançou um sorriso confiante.

— Vamos, é um longo caminho até chegarmos a um local seguro. — Ele não deixou transparecer a preocupação que o dominava desde que pensara em quem poderia ter enviado os assassinos. “Grande Cavalheiro, peço que cuide de Ariadne e de nosso bebê.” Virou-se e deu um passo em direção ao lado mais distante da clareira.

No dia seguinte, já escurecia quando eles chegaram ao acampamento do exército rebelde. Carbo sentia os pés doloridos, sede e mais fome do que nunca, mas estava vivo. Sentiu vontade de comemorar.

— Conseguimos.

— Não conseguimos ainda.

Encarou Spartacus, chocado.

— Mas é o nosso exército. Não vai demorar muito para descermos o monte.

— Ficamos longe por mais de duas semanas. Como saber o que aconteceu nesse período? — Se Castus e Gannicus eram capazes de enviar assassinos atrás dele, o que mais poderiam ter feito?

— O que devemos fazer, então? Você quer se... — Carbo engoliu a palavra esconder — ficar aqui enquanto vejo como as coisas estão?

Spartacus riu.

— Não estou com medo, só estou sendo cauteloso. Nosso objetivo são as barracas maiores no meio. É onde Ariadne e os citas estarão.

— Quais são seus planos depois disso? Vamos matar os gauleses?

— Não há nada que eu gostaria de fazer mais, se eles forem os responsáveis — vociferou Spartacus. — Contudo, eles têm se empenhado muito para garantir a lealdade de seus seguidores. Se forem mortos, mais de dez mil homens podem desertar. É uma perda que não posso sofrer agora.

— Então, você deixará que eles saiam impunes?

— Não foi o que eu disse, de jeito nenhum — retrucou Spartacus, com um sorriso. — Vamos. Mantenha a cabeça baixa enquanto caminhar. A maioria dos homens não nos notará.

— Se você está dizendo...

Nervoso, Carbo tocou o cabo da adaga, para ter certeza de que ela estava ali.

— Estou. Você primeiro. Vou depois.

Rezando para que Spartacus estivesse certo, Carbo foi na frente. Não demorou muito para eles encontrarem soldados: homens que voltavam de uma tarde de caça, de um encontro com uma mulher na privacidade da mata ou simplesmente aqueles que precisavam de um local para fazer suas necessidades. Carbo ignorou todos que encontrava. Quando alguém o cumprimentava, ele resmungava uma resposta e seguia em frente. Spartacus permanecia perto dele, de cabeça baixa.

Chegaram ao acampamento sem contratempos. Em vez de caminhar pelos maiores espaços entre as barracas, Carbo decidiu seguir pelos mais estreitos. Por causa disso, tinha que pular cordas, mas a chance de alguém notá-los era bem menor. Como logo percebeu, também era uma boa maneira de ouvir conversas.

— Thurii ainda está muito longe?

— Não mais do que oitenta quilômetros, segundo meu oficial.

— Por Hades, quem peidou? Fede mais do que um cadáver apodrecendo!

Risos.

— Você não deveria ter comido tantas folhas no jantar!

Carbo sorriu, animado para dar risadas com Navio e Arnax.

— Onde está Spartacus? — perguntou alguém com a voz grave do lado de fora da barraca adiante. — Há quanto tempo ele partiu?

Carbo sentiu um tapa nas costas, dado pelo trácio. E parou.

— Quase três semanas.

— Então, não vai mais voltar, certo?

— Não temos como saber — disse a segunda pessoa. — Quem somos nós para saber quando ele voltará? Ele é o líder do exército, faz o que acredita ser o melhor.

— Ele não vai mais voltar ou já morreu e está jogado em uma vala qualquer. O que ele estava pensando ao nos deixar nas mãos desses gauleses imundos?

— Egbeo e Pulcher também estão no comando, e você sabe disso. Muitos homens também ouvem Ariadne. Ela fala com Dionísio, não se esqueça — retrucou o terceiro homem.

— Talvez por enquanto. Mas podem ter certeza de uma coisa — começou o homem de voz grave. — Não vai demorar para que todos sejam mortos. Vocês sabem como Castus e Gannicus são. São dois ratos. Não titubeiam se precisarem matar uma mulher e uma criança.

Carbo abriu e fechou a boca. Virou-se para o trácio, cujo rosto estava tomado por uma mistura de alegria e ira.

— Espere — ordenou Spartacus sem emitir som.

— Vamos, as coisas não estão tão ruins. Quase chegamos a Thurii. Não temos sinais dos romanos há semanas. Spartacus aparecerá qualquer dia, e tudo ficará bem de novo.

— Se ele aparecer, como as minhas malditas sandálias — disse o primeiro homem. — E quando os gauleses tomarem o comando, não ficarei por aqui para ver o que vai acontecer.

Os outros homens concordaram.

Para a surpresa de Carbo, ele sentiu Spartacus passar por ele, dando a volta na barraca. Com a adaga em punho, ele o seguiu.

Eles entraram na barraca e viram um grupo de seis homens sentados ao redor de uma pequena fogueira sobre a qual havia uma panela de bronze cheia de ensopado. Os homens usavam roupas cor de creme, vermelhas e marrons. Todos tinham adagas, mas apenas dois vestiam faixas com gládios embainhados. Um monte de armas — lanças, pilos e espadas — estava a alguns passos, juntamente com um monte de escudos.

Spartacus entortou o lábio ao ver os rostos surpresos.

— Saudações.

— Quem diabos é você? — perguntou um homem careca de queixo firme.

“A voz dele é grave”, constatou Carbo.

— Sentiu o cheiro do jantar, não? — perguntou um jovem soldado com olhos profundos e cabelo preto grosso. — Pois não vai comer nada! Caia fora e faça sua comida.

Os companheiros dele riram. O barulho era amigável, porém havia algo ali de que Carbo não gostou. Não demoraria para a situação ficar feia. Endireitando os ombros, ele parou ao lado de Spartacus.

— Quem está falando mal de Spartacus? — vociferou o trácio.

— Eu mesmo. — O homem careca se levantou devagar. — Tem algum problema com o que eu disse?

— Na verdade, sim.

Com isso, todos, menos o jovem soldado que havia falado, se levantaram. Qualquer traço de simpatia desapareceu do rosto deles. Eles levaram as mãos aos cabos das adagas e das espadas.

— Aconselharia você a ir embora agora — disse o careca, dando um passo à frente. — Antes que se machuque de verdade.

— Ou acabe morto — acrescentou um dos amigos, cujo dente era protuberante.

— Isso é uma ameaça? — perguntou Spartacus.

— Entenda como quiser. — O careca se aproximou ainda mais.

“Ótimo.” Spartacus se lançou à frente, pegou o careca pela parte da frente da túnica e o jogou para trás. Ele caiu sentado no fogo. Com um grito de dor, se levantou com as mãos nas nádegas. Muitos de seus companheiros — sobretudo o jovem que ainda estava sentado — riram.

Carbo riu alto, porém, o restante dos soldados empunhou suas armas. “Merda”, pensou ele. Teria sido melhor se tivessem se afastado.

— Pense muito bem antes de atacar seu líder — gritou o trácio.

O careca parou de gritar. O medo tomou seus olhos.

— Como? Você não é Spartacus!

— Não sou? Preciso estar vestido com minha malha e segurando a sica para você me reconhecer? — Spartacus deu um passo à frente, punho em riste. — Quem quer a glória de dizer que pegou uma águia romana na batalha e, com isso, humilhou toda uma legião? — berrou.

Ao seu redor, os homens viraram a cabeça.

Era o mesmo grito que Spartacus havia usado para incentivar seu exército no dia em que eles lutaram contra Gellius, lembrou Carbo com alegria.

A ira do careca foi substituída por puro medo.

— Nã-não, senhor. Eu o reconheço agora.

Seus companheiros se entreolharam incrédulos e guardaram as armas.

— Pedimos desculpa, senhor. Não percebemos — murmurou um deles.

Os outros concordaram, e Carbo relaxou um pouco.

O trácio observou os soldados um a um.

— Pelos deuses, Zeuxis, você é um imbecil! Todos seremos executados por causa da sua boca grande — reclamou um soldado forte de cabelo curto.

O careca fez uma careta.

— Por favor, perdoe-me, senhor. Eu não sabia quem o senhor era.

— Há um instante, você estava reclamando do tempo que passei fora. E que eu devia estar morto em uma vala.

— Não estava dizendo o que realmente acho, senhor, eu...

— Não minta para mim, tolo, ouvi o que você disse.

— O senhor passou muito tempo fora. Sei que não fui o único a me preocupar com o que aconteceria ao exército. A todos nós. Sem o senhor, teríamos imundos como Castus e Gannicus tentando nos liderar. É o que todos falam. — Zeuxis olhou para os companheiros em busca de apoio, mas ninguém o olhava nos olhos. Resignado e nada surpreso, ele se voltou para Spartacus de novo. — Mas, graças aos deuses, o senhor voltou!

— O que ele disse é verdade?

Ninguém respondeu.

“Eles estão assustados demais”, pensou Carbo, surpreso com a capacidade do trácio de assustar apenas com a sua confiança.

— Você! — vociferou Spartacus ao jovem soldado com olhos profundos.

— Sim, senhor?

— Seu companheiro está certo?

— Em parte, senhor — foi a resposta. — Mas é só o que estão dizendo. O senhor sabe como os homens são.

— Porém, você não concordou com Zeuxis.

— Não, senhor.

— Por que não tentou me atacar também?

— Não brigo à toa, senhor.

— Você parece ser o mais convincente aqui. Qual é seu nome?

— Marcion, senhor.

Spartacus tomou uma decisão rápida.

— Então, Marcion, você confia nesses homens?

Um clima de medo tomou conta do ambiente já tenso. Todos tinham entendido a mensagem nas entrelinhas das palavras do trácio.

— Sim, senhor. São todos bons soldados. Lutaram com bravura em todas as batalhas que presenciei. Zeuxis pode falar demais, contudo, matou um oficial romano em Piceno, e Arphocras... — ele apontou o homem de barba cheia —, me ajudou a pegar um estandarte quando lutamos contra Gellius.

Spartacus olhou fixamente para Zeuxis, que passava a mão no traseiro queimado.

— É verdade?

— Sim, senhor, é! — Ele apontou a pilha de armas. — Posso mostrar a espada dele.

— Não precisa. Acredito em você.

Zeuxis se calou e observou o trácio, com medo — assim como seus companheiros.

— O motivo pelo qual deixei o acampamento não é o que vocês pensam, para conhecer o caminho. Fui a Roma.

Ele sorriu ao ver a surpresa deles.

— Por quê, senhor? — perguntou Marcion.

— Para descobrir o que os romanos têm planejado e para assassinar o novo general que liderará o exército deles.

Mais expressões chocadas.

— O senhor conseguiu? — quis saber Zeuxis.

— Em parte. Soube que as legiões não esperarão até a primavera para marchar atrás de nós. Dois homens não bastaram para matar Crassus, mas nós o amedrontamos, com certeza. — Ele fez um gesto com a mão. — Vou matar o desgraçado da próxima vez que encontrá-lo.

Os soldados pareciam encantados.

— Gostaria de matar mais um oficial romano, Zeuxis? O resto de vocês está pronto para lutar contra as legiões? Porque é isso o que teremos que fazer... mais cedo ou mais tarde.

— Se o senhor estiver no comando, lutarei contra qualquer um... até contra o Minotauro! — gritou Zeuxis.

— E você, Marcion? — perguntou Spartacus.

— Pode contar comigo, senhor.

— Comigo também! — gritou Arphocras.

Os demais gritaram, concordando. Ao redor, os homens começaram a entoar:

— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!

Carbo ficou surpreso ao ver como a situação tinha sido revertida. Um grupo de soldados insatisfeitos, muitos deles prontos para desertar, havia passado a acreditar cegamente no trácio, que sorriu satisfeito. Spartacus ergueu a mão, pedindo silêncio.

— Todos vocês são homens corajosos. E, apesar de serem um transtorno às vezes — nesse momento, ele olhou para Zeuxis, que parecia envergonhado —, eu nunca abriria mão de vocês! — Eles gritaram, animados. — Tudo que vocês sofrem, cada dificuldade e tribulação, eu também enfrento. — Spartacus se virou para falar com mais homens que o observavam. — Posso ter partido, mas sempre soube que voltaria. Sempre! Com o Grande Cavaleiro como testemunha, nunca deixarei vocês, meus bravos soldados. NUNCA!

Dessa vez, Carbo se uniu ao coro.

— SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS! SPAR-TA-CUS!

— Até breve — disse Spartacus a Zeuxis. — Até lá, pode ser que você tenha tempo de comer suas sandálias.

Zeuxis ficou ainda mais corado, e seus companheiros riram.

Spartacus deu um tapinha no braço de Zeuxis. Então, virou-se para Carbo com um sorriso.

— Está na hora de lidar com Castus e Gannicus. — “E ver meu filho!”, pensou.

Com os gritos dos soldados ecoando em seus ouvidos, eles se afastaram.

Dessa vez, passaram pelo caminho principal entre as barracas.

O acampamento foi tomado por gritos de alegria quando os homens viram que seu líder havia voltado. Spartacus assentiu, sorriu e continuou andando. Por dentro, ele se sentia feliz por poucos rostos parecerem decepcionados com sua volta. Estava diante de uma pequena parcela do exército, mas esta representava bem o todo. O veneno de Castus e de Gannicus não tinha se espalhado tanto. O trácio não demorou a chegar à barraca de Ariadne. Atheas e Taxacis estavam de guarda do lado de fora. Ao reconhecerem Spartacus, correram ao seu encontro, sorrindo.

Spartacus levou a mão aos lábios.

— Quietos — sussurrou.

Os citas se entreolharam surpresos, porém se calaram.

— Quer... ver... filho? — perguntou Atheas baixinho.

— Meu filho? — “Graças aos deuses é um menino!” Ele hesitou um pouco, porém, manteve-se firme. Os gauleses tinham que ser confrontados de uma vez, antes de saberem que ele havia voltado.

— Sim, Maron.

— Ela deu a ele o nome de meu irmão — disse Spartacus suavemente. — É um bom nome. Ele está bem?

— Ele... bem. — Atheas sorriu. — Ele... como você.

Um sorriso.

— Vou vê-lo depois.

Carbo ficou surpreso.

— Depois?

Spartacus o ignorou. Então, disse a Atheas:

— Você tem duas espadas sobrando? — O cita assentiu. — Pegue-as. — Spartacus parecia furioso quando Atheas se afastou. Carbo não ousou dizer nada.

Atheas voltou com dois gládios simples, mas adequados — os dois com bainha de couro. Entregou as armas ao líder e a Carbo.

Spartacus ajeitou sua faixa no ombro direito.

— Levem-me até Castus e Gannicus.

Atheas foi na frente, muito preocupado.

— Por quê?

— Fomos atacados duas noites atrás. Não foram os romanos. Só podem ter sido homens de nosso acampamento. Quem mais teria motivos para me querer morto?

— Castus. Gannicus. Malditos! — gritou Taxacis. — Nós... matamos?

Spartacus mostrou os dentes.

— Infelizmente, precisamos dos arrombados. Dez legiões estão sendo formadas. Elas podem chegar aqui dentro de três a quatro meses. Talvez não haja tempo suficiente para unir e treinar substitutos para os soldados que seguiriam os gauleses se estes partissem.

Os nervos de Carbo estavam abalados. “O que quatro de nós podemos fazer?”

— Como será feito?

— Quero ver a cara deles quando virem que estou vivo. Isso nos mostrará se são culpados ou não. Vamos amedrontá-los e mostrar que eles também podem ser pegos.

— Eles terão dezenas de guerreiros.

— E daí? — perguntou Spartacus. — Eles têm que ver que não tenho medo deles, nem um pouco, e devem entender que se encomendarem meu assassinato, morrerão primeiro. Nós os executaríamos antes de eles nos matarem, não?

— Sim! — gritaram os citas, decididos.

Carbo rangeu os dentes para afastar o medo. Quase deu certo.

— Estou com você.

— Sabia que estaria — disse Spartacus, que piscou para ele. — Se os deuses estiverem conosco, nada de pior acontecerá. Guie-nos, Atheas.

Refletindo como Spartacus impediria o massacre de todos eles, Carbo o seguiu.

As barracas dos gauleses não ficavam longe. Eram cercadas pelos incentivadores de Gannicus e Castus e, por isso, o pequeno grupo logo foi notado. Os soldados que não reconheceram Spartacus conheciam os citas ou Carbo de vista. Os homens pareciam surpresos, apontavam. Apesar de alguns insultos terem sido proferidos, ninguém impediu a passagem deles. Ainda.

Alguém cuspiu na direção de Carbo, que viu o cuspe diante de seus pés e sentiu o estômago revirar. Normalmente, ele teria respondido a tal insulto, mas não podia fazê-lo agora.

— Siga em frente — murmurou Spartacus.

Atheas apressou o passo.

Encontraram Castus e Gannicus diante de um pavilhão que antes deveria ter pertencido a um general romano. Um grande número de estandartes brilhantes fora fincado no chão, incluindo cinco águias de prata. Castus estava sentado em uma tora com uma mulher seminua ajoelhada entre as pernas. Enquanto a cabeça dela se movia para cima e para baixo, ele gemia baixinho. Gannicus estava deitado de barriga para cima perto dali, bebendo o vinho despejado de uma jarra segurada por uma mulher de olhar apático, também seminua. Vários soldados armados estavam por ali, conversando, bebendo ou acariciando outras mulheres de olhar ainda mais amedrontado. Alguns notaram a aproximação do grupo, porém, era tarde demais para impedir o que aconteceu em seguida.

— Surpreendam Gannicus — sussurrou Spartacus aos citas. — Quando me virem em ação, derrubem a jarra de vinho toda em cima do idiota.

Com expressão maquiavélica, Atheas e Taxacis se afastaram.

— Carbo, você fica comigo. — Ele caminhou até a mulher que se dedicava ao prazer de Castus.

Carbo olhou para o gaulês com nojo. “Ele fode em público, como um animal.”

Os olhos de Castus ainda estavam fechados quando Spartacus chutou a nadega da mulher com força. Esta perdeu o equilíbrio e soltou um som de engasgo. Gritando de dor, Castus a empurrou, e ela caiu para o lado, tossindo.

Spartacus segurava o próprio gládio.

A 15 passos dali, Atheas pegou a jarra das mãos da mulher e a esvaziou na cabeça de Gannicus. Ouviu-se um grito de surpresa, mas quando o gaulês viu quem era, não resistiu. Permaneceu ali, gritando.

— Seus malditos bárbaros enlouquecidos! Vou sufocá-los com suas bolas por fazerem isso!

— Você! — Castus se levantou, chocado.

Spartacus não teve mais dúvida. A ira tomou sua visão por um instante.

Os olhos de Castus se voltaram para a espada que estava aos seus pés.

— Vamos lá, manco imbecil! — vociferou Spartacus. — Pegue-a.

— Meus homens acabarão com você!

— Eles podem tentar, mas vocês nunca verão como tudo acabará já que estarão mortos antes de empunharem a espada. — Spartacus encarou o gaulês, desafiando-o a se mexer.

Castus lambeu os lábios e permaneceu imóvel.

Carbo nunca tinha ouvido tanta ira na voz de seu líder. Castus também a percebera. Sabia que, se reagisse, morreria. Então, os citas matariam Gannicus, e os guerreiros ao redor os atacariam. Carbo segurou o gládio com força. “Grande Júpiter, permita que eu tenha uma boa morte.”

A ira de Spartacus abrandou um pouco.

— Está me vendo, Gannicus, ou seus olhos ainda estão ardendo?

O gaulês ergueu a cabeça.

— Eu o vejo — resmungou.

— Está tão surpreso ao me ver quanto seu amigo aqui?

— Acredito que sim. Não sabíamos quando você voltaria. Não recebemos notícias suas.

— Você mente mal, Gannicus. Isso e a cara de espanto de Castus ao me ver são a evidência de que preciso. Vocês dois achavam que eu estava morto, não é?

— Não sei do que você está falando — retrucou Castus, puxando a calça para cima de qualquer jeito.

— Cale essa boca imunda — ordenou Spartacus. — Compreenda que o único motivo pelo qual vocês dois não estão sufocados pelo próprio sangue é porque permanecermos juntos ainda é do interesse de todos.

— Sobre o que está falando? — quis saber Gannicus.

— Estou falando de dez malditas legiões! Dez legiões que marcharão em direção ao sul antes do inverno. Foi o que descobri em Roma. Querem lutar contra eles sem meus homens? — As palavras dele foram recebidas com um silêncio profundo. — Imaginei que não. Talvez, de agora em diante, vocês possam passar mais tempo procurando novos recrutas e os treinando, em vez de ficarem promovendo orgias.

Nenhum dos dois respondeu.

Spartacus os encarou, estreitando. “Eles entenderam o que eu disse. Já basta. Ainda não é preciso mencionar a Sicília.”

— Mais uma coisa. Se um de vocês tentar machucar a mim ou a alguém de minha família de novo, não descansarei enquanto não os vir mortos. Vocês entenderam?

Gannicus assentiu. Castus foi lento demais para o gosto de Spartacus, então este empunhou a espada na direção do gaulês, forçando-o a dar um passo para trás.

— ENTENDEU, porra?

— Sim — murmurou Castus.

— Excelente. — Com um olhar de nojo, Spartacus deu um passo para trás. — Atheas! Taxacis. Vamos embora.

Os citas se afastaram de Gannicus, que se sentou com o rosto rubro de ódio.

Vários gauleses começaram a se movimentar na direção deles. Carbo ficou tenso.

— Se eu não voltar logo, Egbeo e Pulcher têm ordens para mobilizar todos os soldados no acampamento e depois virem aqui me procurar. Vocês podem escolher se querem ou não que isso aconteça — ameaçou Spartacus em voz alta. — Para mim, tanto faz.

Castus lançou um olhar incerto a Gannicus.

— Ele está mentindo.

— Como sabe? — questionou Gannicus. — Fiquem onde estão — ordenou ele, e os guerreiros pararam.

Spartacus e seus companheiros se afastaram em silêncio até cerca de trinta passos dos gauleses.

— Bom trabalho — elogiou Spartacus. Ele teria que tomar cuidado a partir de agora, mas duvidava que houvesse outros atentados contra ele, pelo menos não um perpetrado pelos gauleses. Não se sabia ao certo quanto tempo Castus e Gannicus permaneceriam com o exército rebelde, mas, por enquanto, os dois tinham aprendido a lição. Ele podia se concentrar em encontrar novos recrutas e piratas que os levariam à Sicília.

Os citas sorriam. Carbo também.

— Uma mentira convincente na hora certa.

Spartacus piscou.

— Hora de ver meu filho. — “Meu filho!”