Spartacus: A Rebelião
Capítulo XIX
Sul do vale Silarus
Maron gemeu. Era o que mais fazia ultimamente, pensou Ariadne com tristeza. Puxando a parte da frente do vestido para baixo, ela o levou ao peito. Apesar de ter pouco leite, aquilo o acalmaria por um tempo. Ela o observou, sentindo uma mistura de amor e profundo pesar. “Você se parece tanto com Spartacus.”
Não surpreendia ele estar inquieto, raciocinou ela, olhando ao redor do pequeno acampamento na floresta, que tinha apenas um abrigo feito com galhos e, do lado de fora, uma fogueira cercada por pedras. Ele não soubera o que havia acontecido dois dias antes, quando os ventos da batalha sopraram a favor de Crassus. Dormira até o bater das armas e os gritos o acordarem. Foi quando Atheas dera a ordem para que ela o pegasse e colocasse algumas coisas em um saco. Ela nunca tinha visto o cita tão preocupado.
— Depressa! Depressa! — gritou ele, enquanto ela pegava alguns cobertores e uma peça sobressalente de roupa e colocava tudo dentro de um saco. Entregou ao cita a cesta com a serpente. Do lado de fora, eles encontraram Aventianus de guarda, com um gládio na mão. Foi nessa hora que Ariadne olhou para a batalha e viu como as coisas estavam ruins.
Os flancos do exército rebelde estavam desorganizados. Milhares de homens fugiam das trincheiras romanas, seguidos por ondas de legionários. No centro, ela viu um bloco pequeno de soldados ainda lutando — Spartacus estaria entre eles? —, mas a quantidade avassaladora de inimigos que os cercavam não permitia outro resultado. Ao ver aquilo, Ariadne ficou paralisada de choque e pesar. Só o braço de Atheas fez com que ela voltasse à realidade, dando-lhe a força para agir.
Logo ficou claro como a posição da barraca perto do fundo do acampamento tinha sido boa. O maciço rochoso atrás dela não oferecia rota de fuga, então a maioria dos soldados fugiam pelas linhas de barracas a certa distância abaixo deles. Alguns, enlouquecidos pelo pânico, escalaram o local, mas ver Atheas e Aventianus com as espadas em punho os mantiveram a uma distância respeitosa. Ter que ameaçar os antigos companheiros parecia loucura, mas isso se fizera necessário depois que as coisas mudaram. Ariadne achou que estariam seguros assim que chegassem às montanhas, no entanto, grupos de dissidentes ainda cruzavam seu caminho. Seguindo o conselho de Carbo, eles evitavam qualquer contato, a menos que fosse inevitável. Na opinião dele — e Atheas concordou —, ninguém era confiável a menos que tivesse provado ser ou fosse conhecido. Em parte, era por isso que eles se escondiam como animais selvagens nos pontos mais remotos encontrados pelo cita. Cinco soldados aprovados por Carbo se uniram depois ao grupo, e Ariadne se sentia um pouco mais segura com a presença deles. Com mais homens para caçar, eles também teriam mais comida. Mais de um dos recém-chegados comentou o boato ouvido: que milhares de sobreviventes seguiam para os montes acima de Thurii. Entretanto, ela não quis pensar em se juntar a eles antes que seu pesar diminuísse um pouco. Até que conseguisse tolerar a ideia de deixar o campo de batalha — e o corpo de Spartacus — para trás para sempre.
Maron emitiu outro gemido ao se debater contra seu peito.
— Ele está doente?
Ariadne levantou a cabeça e conseguiu abrir um sorriso amarelo.
— Não, ele só está cansado e irritado. Além de faminto.
— Como todos nós — retrucou Carbo, com um suspiro.
— Nós deveríamos agradecer por estarmos vivos. Se não fosse por você e pelos outros...
— Não fiz muita coisa — disse ele.
Ariadne se lembrou do monte de homens assustados que corriam na direção deles ao chegarem à beira do acampamento. Eles provavelmente nem sabiam quem ela e seus outros companheiros eram. O fato de bloquearem o caminho para o leste, a única direção ainda não tomada pelas tropas romanas, bastou para os desertores ameaçá-los. Deixando Ariadne e Maron na parte de trás, Atheas e Aventianus se sacrificariam de bom grado. Ela tinha começado a rezar por uma morte rápida quando, de repente, Carbo surgiu por detrás do grupo. Encharcado de sangue, gritando como um lunático, ele atacou dois homens com golpes selvagens de seu gládio. O resto fugiu.
— Você salvou nossas vidas, Carbo — argumentou ela baixinho. Ele desviou o olhar. Ariadne tocou seu braço. — É verdade. Não tenho palavras para agradecer.
— Deixei Spartacus para trás — disse ele. “E Arnax.” O garoto provavelmente tinha fugido, disse a si mesmo. Mas isso não podia ser dito sobre seu líder.
— Não faz sentido se torturar. Não dependia de você escolher como ele morreria, assim como não dependia de mim.
Carbo foi tirado de seu pesar por um momento.
— Spartacus era senhor de si. Você deve respeitar a decisão dele de morrer lutando. Assim como eu, de algum jeito. — O olhar dela se tornou distante. Em seu âmago, Ariadne temia que o sonho das cruzes se tornasse realidade. Se isso acontecesse, ela rezava para que Spartacus não tivesse sofrido tal destino degradante. Devia ser por isso que ela não o via, avaliou ela, tentando sem sucesso, ter alguma certeza.
— Eu respeito.
Ariadne percebeu que ele tinha mais a dizer.
— Você acha que deveria ter morrido com ele. — Carbo não respondeu, contudo, a agonia em seus olhos disse tudo. — O que teria acontecido comigo e com Maron se tivesse feito isso?
— Não sei — respondeu ele.
— Acho que sabe, sim. Não se lembra do grupo de desertores que nos atacaram? — Nenhuma resposta. — Era esse o fim que queria para mim? Para o filho de Spartacus?
— Claro que não!
— Fazer o que você fez, deixá-lo, significa que a memória de Spartacus permancerá viva. Não só nos corações e nas mentes de seus soldados, mas em carne e sangue. — Ela acariciou a cabeça de Maron. — Isso não vale nada?
Ele olhou para o bebê, o rosto franzido numa expressão indescritível.
— Sim, vale.
— Não consigo pensar em um legado melhor. Uma maneira melhor de garantir que a vitória de Roma não seja total. E você? — As palavras serviam para afastar seu forte pesar e também para ajudar Carbo. Para os ouvidos de Ariadne, elas soaram vazias. Talvez não fosse assim para sempre. Porém, por enquanto, ela sabia que se não fosse por Maron teria desistido.
Carbo enfim sorriu.
— Crassus detestaria saber que o filho de Spartacus está vivo.
— Com certeza. — Ela tocou o rosto macio de Maron e redobrou os esforços para fazê-lo mamar. — É por isso que nunca deve saber sobre ele.
A conversa foi interrompida por Aventianus.
Ele apontou além da clareira. Ao ouvir movimentação na mata, Carbo levou Ariadne para o abrigo e depois correu para se unir a Aventianus. Os dois empunharam as espadas, esperando que fosse um dos homens do grupo.
Quando Atheas surgiu, os dois sorriram aliviados. A expressão mudou assim que eles viram um homem mancando atrás do cita. Coberto por gotas de sangue, sem elmo e ainda com a espada, vinha Navio.
O coração de Carbo se acelerou de alegria. Ele correu para o lado do amigo.
— Graças aos deuses. Você conseguiu!
Navio esfregou as olheiras profundas.
— Não sei como, porque me esforcei muito para morrer.
— Eu encontrar... perto... rio — contou Atheas. — Deitado... olhar para o nada. — Murmurando um pedido de desculpas, ele foi acender a fogueira.
— Vimos você. Bem, sua posição. Você manteve o flanco esquerdo por muito tempo — elogiou Carbo.
— Os homens se saíram bem — admitiu Navio. — Foi a maldita artilharia que nos derrotou. Isso e o fato de que a cavalaria não pôde atravessar os fossos. Eram profundos e amplos demais. Crassus foi muito esperto em pensar nisso. Deve ter ouvido alguém dizer que Sulla fizera isso em Orcômeno há 14 anos. — Ele tossiu. — O que aconteceu com você?
Em voz baixa, Carbo explicou. Quando chegou aos instantes finais antes da fuga, sua voz falhou.
— Ele disse que sentia orgulho por lutar ao lado de um romano. Tenho certeza de que ele se referiu a você também.
Uma faísca surgiu nos olhos tristes de Navio.
— E eu me orgulho de ter servido a um escravo.
— Eu também. — Permaneceram em silêncio por um tempo, pensando em seu líder. — Eu não fugi — disse Carbo. Ele se sentiu profundamente grato pelo olhar de aceitação de Navio. — Ele me mandou vir, para proteger Ariadne e o bebê.
— Ariadne está aqui? — perguntou Navio.
— Estou. E Maron também. Acabei de colocá-lo para dormir. — Ela saiu do abrigo e se aproximou deles, com um leve sorriso. — Fico feliz por você ter sobrevivido, Navio.
Ele fez uma leve reverência respeitosa.
— Júpiter seja louvado por você e o bebê não terem se ferido. Primeiro Atheas e então Carbo... Não achei que teria mais notícias boas. Desde que acordei depois da batalha, tenho me perguntado por que os deuses me deixaram viver. Agora eu sei.
— Conte-nos sua história — pediu Carbo.
Navio observou todos os rostos e desviou o olhar.
— Mantivemos a formação por um tempo, o que não foi fácil, considerando quantas tropas Crassus lançou sobre nós e o fato de que a cavalaria não pôde ajudar. As coisas pioraram quando, de repente, as saraivadas da artilharia ficaram mais pesadas. Talvez pelo fato de o flanco esquerdo começar a se desfazer, não sei. Uma coisa é certa: os malditos não se importavam em acertar os próprios homens. O bloqueio permaneceu firme. Minhas tropas se mantiveram por um tempo, mas acabaram falhando. Não consegui evitar que fugissem.
— Em uma situação assim, ninguém consegue — apoiou Carbo.
— Isso não torna as coisas mais fáceis — disse Navio com um suspiro. — Consegui reunir uns trinta soldados, e prosseguimos na luta. Não demorou muito para que a maioria fosse derrotada. — Seus olhos se tornaram tristes. — Fiquei com dois homens, um de cada lado. Eu me senti como Horácio na ponte, só que não havia rio para o qual pular. Uma pedra deve ter me acertado logo depois disso, e me fez desmaiar. Quando acordei, vi que meu elmo estava rachado. Havia um morto em cima de mim. Estava escuro. A batalha havia terminado. Escutava homens gritando, implorando para morrer. Observei se havia algum romano por perto e me levantei. Fiz uma busca rápida para ver se tinha alguém preso como eu. Só encontrei alguns que já estavam a caminho de Hades. Ajudei vários a irem mais depressa. Permaneci vagando por um tempo, esperando ser descoberto e morto. Não havia motivo para viver depois do que meus soldados fizeram. Depois de termos perdido. — Seus olhos se voltaram para eles. — Eu me sinto diferente agora. Mas na hora...
— Posso imaginar o que deve ter enfrentado — confortou Ariadne, sincera. “Se não fosse por Maron...”
— Eu também — completou Carbo. — O que aconteceu depois?
— A maior loucura de todas. Eu... eu encontrei o elmo de Spartacus. Devia ser o dele. Ninguém mais no exército tinha um frígio como aquele.
Ao lado de Carbo, Ariadne ficou tensa.
— Você encontrou o corpo dele? — quis saber ela, sussurrando.
— Não. Procurei muito, só que estava escuro como o submundo. Não havia nem lua. Os cadáveres estavam empilhados por toda parte, muitos deles. Eram todos iguais. Procurei até começar a clarear... — Navio parou de falar.
— O que você fez foi mais do que sua obrigação, e eu agradeço — disse Ariadne com delicadeza. Ela olhou para Carbo. — Será que ele poderia estar vivo?
Com as dúvidas renovadas, Carbo pensou muito.
— Duvido. Ele queria morrer lutando. Sem elmo, os romanos não poderiam identificá-lo. Eles o teriam matado como a qualquer outro de nossos soldados.
— Mas não dá para ter certeza. Você não o viu cair.
Carbo se sentiu ainda pior.
— Não.
Navio também estava abatido.
— Eu teria continuado a busca, mas havia grupos de legionários se espalhando pela área. Matavam todos que encontravam vivos. Tive que me rastejar por muito tempo para ter certeza de que não tinham me visto.
A culpa de Carbo voltou, dominando sua mente e seu coração. “Ele não poderia estar vivo. Poderia?”
— Poderíamos descer e tentar encontrá-lo.
“Grande Dionísio, por favor”, rezou Ariadne. “Minha dor já é grande o bastante. Não preciso dessa incerteza.” Ela sabia que o cenário seria terrível agora. O fedor de carne podre por todo o campo de batalha. Cadáveres inchando, perdendo a cor sob o sol forte. Vermes rastejando em feridas, bocas e barrigas abertas. Camponeses procurando coisas de valor no local. Aves carniceiras sobrevoando aos montes e refastelando-se. À noite, lobos e até ursos podiam aparecer, dispostos a não perder o farto banquete. O nojo tomou conta dela. Se estivesse morto, o corpo de Spartacus seria uma presa, assim como o de todos. Entretanto, se estivesse ferido sem poder se mexer...
— É perigoso demais — desencorajou Navio. — Crassus deixou a maior parte do exército em posição. Pelo que sei, eles estão patrulhando toda a área.
Ariadne fechou os olhos. Valeria a pena arriscar a segurança de Maron voltando ao campo de batalha? Quais eram as chances reais de Spartacus ter sobrevivido?
As palavras seguintes de Navio vieram como um raio.
— Eles fizeram cerca de seis mil prisioneiros.
— Nossa! Tantos assim? — gritou Carbo, olhando horrorizado para Navio.
— Parece que sim. Ouvi alguns legionários de patrulha conversando enquanto me escondia entre os corpos. Por ordem de Crassus, eles devem ser levados a Cápua e crucificados por toda a Via Appia, até Roma.
Naquele instante, Ariadne se lembrou de todos os detalhes terríveis de seu pesadelo. Então era verdade. Ele devia ter sido mandado por Dionísio. Graças ao deus ela não contou sobre o sonho para ninguém.
O fato de que haveria crucificações não causava estranheza, já que eram um destino comum para escravos condenados por um crime sério. O que impressionava era a quantidade.
— Temos que agir — disse Carbo.
Navio ergueu as sobrancelhas.
— O que está sugerindo?
— Não sei! Mas imagine se Spartacus for crucificado? Ou Egbeo? Ou Taxacis?
— Não podemos matar seis mil homens. — O tom de Navio era solidário.
— Não ficarei aqui parado sem fazer nada! — gritou Carbo.
Eles olharam para Ariadne ao mesmo tempo.
— Vocês querem minha aprovação para agir? — perguntou ela.
— Não quero deixar você e Maron — explicou Carbo.
— Não vai deixar.
Ele entendeu o que ela quis dizer.
— Você não vai conosco!
— Tente me impedir. Pode haver apenas uma pequena chance de Spartacus ter sobrevivido, e isso basta para mim. — As preocupações de Ariadne em relação ao pesadelo mudaram. E se Egbeo estivesse tentando revelar que seu marido estava por perto? — No mínimo, preciso ver as cruzes com os próprios olhos.
— Todas elas? — perguntou Navio, sem acreditar.
— Não sei. Talvez.
— Isso é loucura — murmurou Carbo, porém, parte dele sentia o mesmo.
— São quase duzentos quilômetros de Cápua a Roma. Haverá piquetes de soldados em alguns trechos. Eles podem até estar reunidos na estrada para que ninguém interfira nas mortes.
— Se houvesse a menor possibilidade de que seu pai ou irmão estivessem lá, o que você faria? — quis saber ela.
Navio mexeu a boca e encarou Carbo.
— Se fizermos isso, Ariadne, será do nosso jeito — disse Carbo. — Você, Maron, eu e Navio iremos. Ninguém mais. É muito perigoso. Atheas chamaria atenção, assim como um grupo de escravos vagando pelas estradas logo depois da batalha. Você terá que deixar sua serpente também. Por sermos romanos de certa classe, Navio e eu passamos por qualquer bloqueio na estrada. Você será apenas uma escrava que pertence a um de nós. Ninguém vai se importar com o bebê. — Ficou apenas observando -a, esperando que se opusesse, porém ela assentiu timidamente.
— Vamos de uma vez. São mais de cem quilômetros até Cápua partindo do rio Silarus, e Crassus tem pelo menos um dia de vantagem em relação a nós.
Na Via Appia, entre Cápua e Roma
Crassus andava jubiloso havia alguns dias — desde a batalha, na verdade. Abriu um sorriso enquanto os primeiros pregos eram martelados e os gritos começaram. “É esse o som da vitória”, pensou ele, assentindo e acenando à multidão. Estava montado no cavalo não muito longe dos muros de Cápua, supervisionando um grupo de soldados quando o processo de crucificar os escravos capturados teve início. Centenas de moradores da cidade se reuniram para assistir — minutos atrás, ele os tinha recebido bem e mandara que pedaços de pão e punhados de moedas lhes fossem lançados. Eles comemoraram até ficarem roucos. Agora, gritavam e xingavam enquanto a primeira vítima era presa à cruz e erguida. Em pouco tempo, Caepio indicou que o procedimento havia terminado.
— Esse é o destino reservados a todos os inimigos de Roma — declarou Crassus. — Mais gritos de aprovação. — Essa espécie miserável não passa de seis mil pedaços de merda que acabarão seus dias em sofrimento. Morrerão sedentos, queimados pelo sol e cobertos pela própria sujeira, daqui até Roma. Todos os escravos que os virem desistirão de qualquer ideia de traição. — Crassus parou, gostando dos gritos que ouvia. — Alguns de vocês devem ter sabido que milhares de rebeldes escaparam. Que fugiram para as montanhas e para o norte. Tenham certeza de que os ratos não estarão seguros em nenhum lugar. Enquanto falo aqui, nada menos do que seis de minhas legiões vasculham as terras ao leste e ao sul. Qualquer escravo encontrado sem dono será executado na hora.
Mais um grito foi dado. Ele estava contente por ninguém perguntar onde Spartacus estava. O trácio fora visto perto da posição de Crassus durante a maior parte da batalha, porém ninguém se lembrava de tê-lo visto depois da derrota dos escravos. Ordenou aos soldados que procurassem o trácio entre os mortos, só que encontrar um homem entre dez mil cadáveres não era nada fácil. Dada a predileção de Spartacus por liderar, era pouco provável que tivesse sobrevivido. Mas, apesar de seus esforços, Crassus não tinha provas. Isso o irritava profundamente.
— O grupo que foi para o norte logo terá uma surpresa. Pompei e seus soldados chegaram à Itália e sem dúvida acabarão com a escória. — Ficou satisfeito ao ver que a resposta da multidão foi um pouco menos entusiasmada do que antes.
Em sua benevolência, Crassus até desejava o bem a Pompei com sua “missão” minúscula. O que seria lembrado seria o seu esforço glorioso em acabar com o exército principal de Spartacus, não o papel patético desempenhado por seu rival em eliminar uma fração dos sobreviventes. As legiões de Lucullus não teriam nada a ver. Era uma pena Pompei estar mais perto de Roma do que ele. Desejava ir à capital logo, para garantir que sua versão da história fosse ouvida primeiro. Crassus quase podia ouvir a adulação da população da cidade e os agradecimentos dos senadores. Entretanto, a chegada triunfante teria que esperar. Apesar de dizer que a rebelião fora vencida, ainda havia alguns confrontos. Alguns dos escravos não tinham desistido. A resistência deles deveria ser subjugada antes de ele poder relaxar de verdade.
Havia vantagens inquestionáveis em marchar para Roma depois de realizar seis mil crucificações. Crassus não conseguia pensar em uma maneira melhor de impressionar as populações de Lácio e Sâmnio. Para todos os lugares que fossem, as multidões iriam ver. A cena estabeleceria sua fama. As pessoas falariam sobre a exposição horrorosa por anos; seria a maior quantidade de crucificações que o mundo já tinha visto, e mostraria à República que ele era o homem que deveria liderá-la para o futuro — o consulado considerado para o ano seguinte.
— Pronto para a próxima, senhor? — perguntou Caepio.
— Claro. Levante os malditos o mais rápido possível. — Crassus balançou a mão. — Os grupos que seguiram para a frente também podem começar.
— Muito bem, senhor. — Caepio deu uma ordem, e um mensageiro correu em direção ao norte.
Crassus observou satisfeito enquanto os soldados, com um grupo de escravos entre eles, marcharam quarenta passos. Ele tinha a sensação de que Caepio desaprovava o número de crucificações — “o idiota provavelmente achava ser um desperdício de homens que poderiam ser usados nas minas, como servos do exército romano no campo...” Entretanto, ele não se importava.
Sabia o que deveria ser feito.
Sempre soube.
O trio demorou seis dias para chegar a Cápua, um tempo menor do que Carbo esperara. Carregar Maron foi exaustivo para Ariadne, e o progresso inicial tinha sido muito mais lento do que ele pretendia. A compra de uma mula em uma fazenda no segundo dia foi um presente dos deuses. O animal carregou não apenas o bebê, como também as coisas dele e, por baixo do corpo, as espadas. Antes, eles tinham se arriscado por levar as armas dentro das capas. Os quilômetros restantes até Cápua foram percorridos num bom ritmo, e eles não foram incomodados pelos grupos de legionários e pelas carroças de militares na estrada. Ficaram em hospedarias à beira do caminho. Ariadne e Maron dormiram no quarto de Carbo, fazendo todos pensarem que ela era sua companheira. Na verdade, ele passava todas as noites deitado perto da porta com uma espada ao seu lado.
Era a primeira vez que Carbo chegava tão perto de Cápua desde que fugira do ludo com Spartacus, e a sensação era estranha. A última coisa que queria era ser reconhecido. Porém, dar a volta na cidade em vez de atravessá-la levantaria suspeitas, por isso ele deixou Navio tomar a dianteira. Seguiu de cabeça baixa pela estrada. Ariadne vinha atrás com a mula.
Eles atravessaram o portão sul de Cápua até o norte sem qualquer dificuldade. Agora seguiam como todo mundo na fila para sair da cidade. Carbo teve muito tempo para imaginar o que veria quando alcançassem a Via Appia. A hora tinha chegado, e ele se sentiu mal. Quantos dos miseráveis ainda estariam vivos? Quantos ele reconheceria? Era possível que encontrassem Spartacus?
Em pouco tempo, passaram sob um arco grande que levava para fora de Cápua. A prática de impedir construções próximas do muro havia muito tinha sido deixada de lado. Ali era um território comercial, por meio do qual o público cativo — quem passava — diariamente vinha a pé ou a cavalo às centenas. Além de restaurantes e tavernas, a cidade tinha estabelecimentos comerciais de todos os tipos: carpinteiros e fabricantes de carroças, ferreiros e oleiros. Açougueiros, padeiros e vendedores de vinho e doces. Escribas, cafetões e vendedores de escravos. Carbo saberia dizer quem era quem mesmo se estivesse com os olhos vedados. Ele cresceu ali. Por isso, sabia onde as construções terminavam.
Então, chegaram ao início do caminho com as cruzes.
Eles discutiram o que fariam quando chegassem ao início do suplício. Caminhar devagar não seria difícil nem considerado estranho. A estrada teria grande movimento, e todos estariam olhando para os homens castigados. Observar as vítimas também não seria considerado incomum, desde que não se aproximassem ou não demorassem sem necessidade. Se alguém do trio visse algum conhecido, deveriam virar o rosto para o outro lado, a fim de não correr o risco de ser reconhecido e chamado. Nada deveria ser dito até que passassem em segurança pelo homem em questão. Teriam que tomar ainda mais cuidado se houvesse soldados. Os três sabiam que teriam que seguir até os portões de Roma para ter certeza de que Spartacus não era um dos seis mil soldados capturados por Crassus.
Apesar de Carbo ter se preparado para ver a primeira cruz, não conseguiu controlar a reação de susto ao se deparar com esta. Navio ficou tenso, mas seguiu em frente. Carbo se sentiu grato por não ter reconhecido o homem troncudo de cabelo castanho pendurado nu diante dele, com o rosto retorcido em uma expressão final de sofrimento. As primeiras moscas da estação voavam ao redor dele, atraídas pelo odor forte. Um grupo de pessoas estava reunido ao redor da cruz, tampando o nariz e fazendo piadas de mau gosto. Um garotinho cutucava o pênis do cadáver com um graveto e ria.
— Eles o flagelaram — disse Navio num tom casual.
Pela primeira vez, Carbo notou as marcas vermelhas que se estendiam pelas costas do homem, o rastro de fezes pelo poste de madeira. Ele desejava tirar as pessoas dali, dar um tapa na cabeça do menino, descer a cruz e enterrar o homem de modo decente, só que não podia fazer nada disso. Olhou para Ariadne, cujos lábios se moviam em uma oração angustiada e silenciosa. Ela o encarou.
— Não se incomode comigo. Ficarei bem — sussurrou ela.
Carbo assentiu. Felizmente, Maron dormia.
O segundo corpo estava a quarenta passos adiante na Via Appia, do outro lado. Carbo também não conhecia a vítima. O terceiro homem, também desconhecido, estava do mesmo lado do primeiro. Num indício cruel do que viria, sua cruz também estava a quarenta passos da cruz do segundo. Assim que Carbo se deu conta, olhou adiante. Os crucificados se espalhavam até onde a vista alcançava, a cada quarenta passos, em lados alternados da estrada. Sua mente se esforçou para processar o horror. A exposição assustadora seguiria até Roma.
O trio continuou a andar, assustado com os cadáveres e com o fedor, e com a revoltante dimensão do que Crassus expunha. As cruzes se seguiam, alheias à paisagem. Estavam presentes nas retas, nas curvas e nos declives dos montes, até mesmo nos vilarejos. Pontuavam a estrada onde esta era cercada por vinhas e campos, onde grupos de escravos trabalhavam sob a supervisão de seus superiores. Elas se estendiam sob o aqueduto que cobria Via Appia, levando água dos Apeninos a Cápua. A presença dos crucificados já tinha se tornado algo corriqueiro. Agricultores empurravam seus carrinhos, quase sem olhar para eles. Os comerciantes estavam mais interessados em fazer suas mulas manterem o ritmo constante. Os escravos que iam em direção ao mercado ou que faziam reparos na estrada mantinham o olhar afastado. Só as crianças a caminho de suas aulas ou realizando tarefas pareciam igualmente fascinadas.
O horror aumentou quando encontraram o primeiro homem vivo, alguém que antes fora forte e agora era vigiado por dois legionários com expressões de tédio. Carbo fez uma oração de agradecimento. Não conhecia o infeliz — até agora, eles não tinham reconhecido nenhuma das vítimas —, no entanto, ele não tinha muito tempo nesse mundo. Os três não ousaram se aproximar, lançaram apenas um breve olhar ao passar.
As coisas pioraram quando Carbo viu um corpo com um corte de espada no braço esquerdo. Isso teria impedido o homem de lutar e teria lhe garantido uma morte rápida.
— Será que aquilo foi feito na batalha?
— Talvez. — Navio parecia tão atormentado quanto Carbo. — Esse é o primeiro ferido que vejo.
Carbo disse a si mesmo que aquilo significava que Spartacus não podia estar numa cruz. Os feridos teriam morrido no campo de batalha. Esperava que Ariadne pensasse o mesmo.
Ariadne já ouvira falar sobre crucificações, mas nunca testemunhara a prática com os próprios olhos. Quando o sol começou a se pôr, ela já tinha visto centenas delas. A realidade daquela cena a acompanharia até o dia de sua morte. As expressões torturadas dos mortos. Os lábios rachados. Os olhos vazios e parados que pareciam culpá-la por suas mortes. Os ferimentos dos infelizes infligidos enquanto caminhavam. As barrigas inchadas de gazes. Em meio ao fedor de urina e de fezes, o odor forte de putrefação. Em todos os lugares, moscas. Os cães esqueléticos que andavam por ali, responsáveis pelas marcas de mordidas nas pernas de alguns dos condenados. Os transeuntes com seus comentários cruéis. A cada três quilômetros, os soldados em guarda, tão habituados à cena que não mais olhavam para os crucificados.
Como ela poderia ter imaginado que a realidade seria tão ruim quanto seu pesadelo?
Ariadne não queria ir até Roma passando por tanto sofrimento. Porém, tinha que ir. Tinham visto vários prisioneiros vivos. Esses poucos bastaram para manter sua dúvida. Independentemente do horror, ela nunca ficaria em paz consigo mesma nem olharia nos olhos de Maron quando ele crescesse se não checasse todos os crucificados. Seu marido não merecia menos do que isso. Então, ela persistiu, com repulsa pela ação de Crassus. Os três tinham ouvido que o general estava a dois dias de marcha à frente deles, supervisionando muitas crucificações. “Filho da puta.”
— Ajude-me, por favor.
A princípio, Ariadne pensou ser a voz de Carbo. Então, ela a ouviu de novo, pela esquerda. Sentiu-se chocada ao perceber que o infeliz da cruz mais próxima tinha falado. “Pelos deuses, não!” Ao olhar para a estrada, percebeu que não havia ninguém por perto.
— Navio, fique de olho. Carbo, venha aqui! — Quando este se virou, Ariadne já estava ao lado do homem. — Egbeo?
A cabeça do grande trácio se ergueu. Ele não demonstrou reconhecê-la.
— Ajude-me. Água.
Carbo mexeu na tampa do recipiente de água que levava ao redor do pescoço. Abriu-a e levou-a à boca de Egbeo. O trácio estava tão fraco que a maior parte do líquido fora desperdiçado. Carbo persistiu, porém Egbeo não parecia engolir. Por fim, desistiu, e a cabeça de Egbeo voltou a cair.
— Ele já está quase morto — sussurrou Ariadne.
O rosto de Carbo estava tomado por uma ira impotente.
— Veja. — Ele apontou para os pregos que prendiam os pulsos de Egbeo, que tinham sido muito bem martelados para não serem removidos. — Nem sequer podemos descê-lo para que tenha uma morte mais digna.
Um sussurro de Navio.
— Tem alguém vindo!
Ariadne estendeu o braço e tocou o rosto de Egbeo.
— O Cavaleiro está à sua espera. Vá em paz. Sempre nos lembraremos de você. — Ela viu Carbo levar a mão à adaga. — Não! Se alguém vir você fazendo isso, todos os legionários virão atrás de nós. Pode voltar depois, quando estiver escuro.
— Ele estará morto até lá.
— Ele já está quase morto. — disse Ariadne.
Carbo se abaixou a arma com relutância.
— Vamos. — Sem olhar para Egbeo, Ariadne correu de volta à mula, que pastava na grama.
Eles seguiram adiante. Logo encontraram o pequeno grupo que Navio vira. Os viajantes passaram com cumprimentos cordiais. Juntos, os três olharam para Egbeo. Este parecia ter levantado a cabeça, e isso tornava a partida mais difícil para os três. Entretanto, Carbo estava certo. Quando a noite chegasse, Egbeo já teria ido para o outro mundo. Parecia extremamente cruel deixá-lo morrer sozinho em uma cruz, só que, se fizessem alguma coisa, a vida de todos estaria em risco. Egbeo teria entendido. Ou assim ela esperava.
“Spartacus teria cruzado os Alpes se soubesse que tantos de seus soldados morreriam assim?”, perguntou-se ela. A resposta foi um forte “Não”. Ele sempre soube o que poderia acontecer. Não era, em parte, esse o motivo de ele ter feito o munus com os prisioneiros romanos?
— Marcion! — gritou Carbo. Ele correu para a ponta da estrada, onde um homem de cabelo preto com olhos fundos estava pendurado em uma cruz. Um líquido fétido escorria de um corte em sua barriga.
Ao verem que os viajantes já tinham se afastado, Ariadne e Navio o seguiram.
— Ele ainda está vivo — sussurrou Carbo. Ele estendeu o braço e afastou o cabelo de Marcion do rosto. — Você está me ouvindo? Sou eu, Carbo, que ficou perto de você durante a batalha.
Ariadne empalideceu. “Perto também de Spartacus.”
A respiração de Marcion, alta e sôfrega, foi checada. Depois de alguns minutos, suas pálpebras tremeram e ele soltou um gemido baixo.
Carbo acariciou o rosto dele como faria com um bebê.
— Dois de seus companheiros estão aqui. E a esposa de Spartacus. Sua dor terminará em breve.
A cabeça de Marcion se levantou devagar. Seus olhos se fixaram em Carbo, sem reconhecê-lo.
— Mate-me — implorou. — Por favor.
Ariadne viu Carbo erguer a adaga. Dessa vez não conseguiu pedir que a guardasse.
— Elísio o espera — sussurrou Carbo. — Só me responda uma coisa. — O gemido de Marcion podia ter sido um “Sim” ou um “Não”. — Você viu Spartacus ser morto?
Todos o olharam. Ariadne percebeu que atrás dela, na mula, Maron se remexia. Que o sol iluminava todas as linhas de sangue, todos os cortes e hematomas no corpo surrado de Marcion. Que seu coração batia no peito pronto para explodir.
— Marcion? — chamou Carbo.
Não houve resposta.
— Ele está muito mal — murmurou Navio.
“Por favor, Grande Dionísio”, rezou Ariadne. “Grande Cavaleiro, dê a ele a força para falar.”
— Salvou... vida.
— Spartacus salvou sua vida?
— Sim. — A respiração dele era difícil; tinha-se a sensação de que ele tentava reunir energia. — Um pouco depois, ele levou um corte feio na perna. Nem mesmo isso o deteve. Então três legionários o atacaram. Foi morto depois de muitos golpes. Foi quando eu desisti. Não havia motivo para continuar, certo? — Esgotado, sua cabeça pendeu de novo.
Ariadne ficou tonta. Percebeu o rosto tomado de pesar de Carbo e Navio, e de sua própria tristeza anestesiada, de certo modo. Mais do que tudo, sentiu um grande alívio. Depois da batalha, achou que Spartacus estivesse morto, porém Navio instalara a dúvida em sua mente de que ele poderia estar sofrendo em uma cruz como o moribundo à sua frente. A incerteza desapareceu. Spartacus morreu lutando, como queria. Nessas circunstâncias, era o melhor que ela podia ter esperado.
Olhou para os dois lados da estrada. “Graças aos deuses”, pensou. Ninguém à vista. Seus olhos se viraram para Carbo, que parecia assombrado. Quando ela olhou para a adaga dele, ele assentiu determinado. Num impulso, Ariadne pegou Maron e o levou para perto da cruz.
— Está vendo esse homem? — sussurrou ela. — Ele lutou com seu pai até o fim. Agora, ele vai encontrá-lo de novo. Vamos pedir a Marcion que leve uma mensagem nossa.
Maron balbuciou com alegria, sem entender a realidade terrível diante de si.
Lágrimas encheram os olhos de Ariadne quando ela ficou na ponta dos pés para alcançar o ouvido de Marcion.
— Quando chegar a Elísio, diga a Spartacus que ele morreu bem. Que seus soldados o amam. Que nós o amamos também, sua esposa e seu filho. Que Atheas, Carbo e Navio estão vivos e leais como sempre. Diga também que ele nunca será esquecido enquanto seus soldados respirarem neste mundo. Que Crassus terá uma morte horrorosa, o pior fim que um homem pode ter, e que será lembrado mais por seus fracassos do que pelo que fez em Silarus.
A respiração de Marcion se acalmou. Ariadne não tinha certeza, mas achou ter visto um meneio de cabeça, concordando. Ficou observando, porém ele não voltou a se mexer.
— Acho que ele se foi — disse Carbo, incerto.
— Ele estava esperando por nós — disse Ariadne, convicta. — Quando ouviu a mensagem, foi embora. — “Obrigada, Dionísio, por esse presente. Devo muito ao senhor, Grande Cavaleiro.”
Carbo e Navio se entreolharam, ambos se consolando por saber que Spartacus morrera em combate. Que ele logo receberia uma mensagem de Ariadne e Maron. Que Crassus não morreria velho e satisfeito.
Parecia justo, de certo modo.
— Não quero ver todas as cruzes — avisou Ariadne. — Descobrimos o que queríamos, graças aos deuses.
— Não há motivo para nos torturarmos mais — concordou Carbo. — Nem para colocarmos você e Maron em perigo.
— Para onde vamos? — perguntou Navio.
— Disseram que centenas de homens estão seguindo para as montanhas além de Thurii — respondeu Ariadne. “Eles me respeitarão não apenas como sacerdotisa, mas como a mãe do filho de Spartacus.”
— Parece um bom lugar. É um terreno fácil de se esconder se não quiser ser encontrado. Talvez vejamos Arnax lá também. — Carbo encarou Navio.
— Não posso deixar vocês irem sozinhos. Não têm a menor ideia de como transformar homens em soldados! — Navio indicou Maron. — Ele vai precisar da orientação dos melhores.
Carbo ficou surpreso ao sentir vontade de sorrir. Seu pesar por Spartacus ainda era grande, mas, ele ainda tinha por perto muitas pessoas que tinham se tornado sua família. Esta era uma bênção que ele não podia ignorar.
— Será ótimo ter você conosco.
— A vida será diferente — disse Ariadne, beijando o filho —, porém, vai continuar.